segunda-feira, 29 de junho de 2020

APRENDIZADO DE BALCÃO


                  
Debaixo deste salão ficavam os escravos (Arquivo JRS)
       Quando eu passei a prestar atenção melhor na conversa dos outros, fui aprendendo coisas que nunca imaginava. Certa vez, adolescente, quando eu atendia num balcão de bar, o Seo Luiz, um turista que, depois de aposentado, resolveu morar no Perequê-mirim, era freguês costumeiro num aperitivo chamado fernet. Ele sempre tinha algum assunto interessante, ou uma observação que me despertava pensamentos. Nessa mesma época, se tecia por ali um negro por nome de Tadeu que passava o maior tempo bêbado, sendo surrado pelos outros por pouca coisa. Foi olhando para o Tadeu numa situação de fazer dó que o Seo Luiz assim se expressou: “Coitado deste homem. Desde que os seus antepassados foram escravizados na África, não tem sido muito diferente as condições dos negros. Imagine você que, Rui Barbosa, considerado um dos homens mais inteligentes do Brasil, decidiu dar um fim em milhares de documentos que tratavam do sistema escravocrata alegando ser uma coisa vergonhosa para a Pátria. É por desconhecer a verdadeira história desse período que nem nos importamos com coitados como este homem. Pior: até perseguimos. É por isso que eu digo: o que Rui Barbosa determinou foi crime”.

                Com o passar do tempo, encontrando pessoas cheias de sabedoria, fui me embrenhando em diversos assuntos. Hoje, dando razão à prosa do balcão com o saudoso Seo Luiz, encontrei o seguinte relato do holandês Dierick Ruiters, que , em 1618, passou um ano preso no Rio de Janeiro:

                Vi um negro faminto que, para encher a barriga, furtara dois pães de açúcar [bloco de cristal no formato de um pão caseiro no qual o açúcar bruto era comercializado assim que saía do engenho]. Seu senhor, ao saber do ocorrido, mandou amarrá-lo de bruços a uma tábua e, em seguida, ordenou que um negro o surrasse com um chicote de couro. Seu corpo ficou, da cabeça aos pés, uma chaga aberta, e os lugares poupados pelo chicote foram lacerados a faca. Terminado o castigo, um outro negro derramou sobre suas feridas um pote contendo vinagre e sal. O infeliz, sempre amarrado, contorcia-se de dor. Tive, por mais que me chocasse, de presenciar a transformação de um homem em carne de boi salgada e, como se isso não bastasse, de ver derramarem sobre suas feridas piche derretido. O negro gritava de tocar o coração. Deixaram-no toda uma noite, de joelhos, preso pelo pescoço a um bloco, como um mísero animal, sem ter as suas feridas tratadas. (Citado por Laurentino Gomes, em referência a Jean M. C. França, A construção do Brasil na literatura de viagem)

                Quanta maldade! Que tortura! Que crueldade! 

               É verdade! Grande crime cometeu o político Rui Barbosa. Fica difícil reconstruir totalmente essa horrível história da escravidão sem os valiosos documentos! Quantos desses milionários que estão aí, na sociedade brasileira, têm suas raízes em situações desumanas de outros tempos ou ainda de hoje vividas pelos afrodescendentes!? E o que dizer de um presidente que idolatra um torturador? 

quinta-feira, 25 de junho de 2020

É INVERNO: VAI QUENTÃO?

Arte na telha (Arquivo JRS)


Estou escrevendo. De repente um cheiro bom toma conta da casa. É de quentão, conforme a nossa tradição quando chega o inverno (mesmo que seja bobo e nem dê para vestir a nossa costumeira proteção para os braços). Que cheiro bom! Então comecei a imaginar os ingredientes e seus caminhos: cravo, canela, gengibre... Tudo trazido do Oriente, da África e de tantas outras terras distantes para o Brasil depois de 1500. Também um monte de coisas foi daqui para os lados deles. E aqui, nasce com o açúcar, a cachaça: a água ardente. “Vai uma pinguinha aí?”. O santo nunca recusa.

        O historiador Laurentino Gomes afirma:

Entre os séculos XVI e XVII, São Tomé, Cabo Verde e as demais ilhas atlânticas ao largo da costa da África – incluindo os arquipélagos da Madeira e das Canárias, grandes produtores de açúcar e também entrepostos de comércio de escravos – funcionaram como um grande jardim botânico para a aclimatação de uma infinidade de plantas que, a bordo das embarcações europeias, deixavam suas terras de origem, cruzavam os oceanos e se adaptavam a outros climas e paisagens. Até hoje, os botânicos já catalogaram  mais de 150 espécies vegetais comestíveis nativas da África Ocidental.

                A necessidade é mãe da criatividade. Sabe-se lá quantas coisas esses povos de longe faziam com esses ingredientes. Certamente os povos africanos também usavam muito o gengibre. Já li em algum lugar que, nos porões dos navios, junto dos cativos, era comum virem algumas raízes, inclusive de gengibre. Será que era para mitigar as dores? Ou serviriam para exalar um gostoso cheiro? Pode ser por tantos motivos... Mas o melhor, nas agruras do trabalho forçado, sob açoite, foi o uso para fazer quentão. Depois, de um “prova aqui, o sinhô vai gostá”, a bebida ganhou a preferência nas noites frias, nas rodas de prosas, cantorias e danças. De lá pra cá não deixamos de ter sempre o nosso quentão. Certa ocasião, no Rio Grande do Sul, ao pedir quentão, me vieram com um vinho quente. É o quentão deles, ué! E roda em todas as festas como o nosso quentão, que não pode faltar nas festas juninas. Mas cadê as festas juninas?

                Junto com o friozinho vem o quentão, vem o cará-roxo, o cará-moela... Melhor: chega a tainha vindo do sul. Que beleza! Agora... com licença, vou tomar o meu quentão.

terça-feira, 23 de junho de 2020

A DEVOÇÃO DO TIO FRANCOLINO

Meus rabiscos (Arquivo JRS)


                Quando eu era criança uma coisa me impressionava ao ver o saudoso tio Francolino chegando na rodovia, no ponto do ônibus da Praia Dura, vindo do Corcovado com um enorme saco de farinha de mandioca na cabeça, indo vender na cidade: ele sempre estava totalmente suado, pingando mesmo! Assim que acomodava a sua carga, ele tirava a camisa, pegava uma toalha que trazia na sacola, se enxugava, dava um tempo e vestia outra camisa. (Detalhe: os nossos antigos vestiam uma camiseta sob a camisa). Eu acreditava que jamais veria alguém suar tanto. Também, pudera! Ele era obeso e a sua casa era longe mesmo, talvez quatro quilômetros dali. Era notável a disposição deste caiçara que nos deixou faz tempo!

                Vovô Armiro, falecido faz tempo,  se dava muito bem com o tio Francolino. Quase sempre ele também estava levando a sua carga de farinha para vender no centro, depois de ter andado mais de sete quilômetros na estrada da Fortaleza. Naquele tempo, todos se davam bem, conversavam bastante, contavam causos e davam risadas contagiantes.  Era normal, pois se conheciam desde os tempos de criança, eram parentes, trabalhavam e festavam juntos. Eis uma particularidade dele que eu nunca imaginava. Segundo o vovô: “raramente o Francolino não levava a sua viola na canoa quando ia para a pescaria. Conforme a cara do tempo, ela era embarcada bem protegida e dentro de um balaio de taquara. Seu rancho era em algum ponto, rio acima, quase chegando na Folha Seca”. Estranho? Estranho mesmo! Era paixão! “Numa ocasião, numa pegadeira de espada depois da Barra, quase no Saco Grande, lá estava o Francolino também. Todo mundo estava puxando peixe, inclusive ele. A certa altura, depois de retirar a linhada da água, pegou do saco a sua pequena viola paulista que tanto estimava e nos alegrou com umas modas nossas daquele tempo. Era costume cantar duas ou três delas; depois protegia o instrumento, guardava no balaio e voltava a pescar.  A gente gostava. Era uma alegria só! Não demorava muito para alguém pedir mais cantoria. Quase sempre ele atendia aos pedidos. Coisa comum era de mais gente, nas canoas que estavam por ali, também entrar na cantoria. De uns tempos para cá, devido ao excesso de peso, ele não pesca mais, mas continua tocando a sua viola em casa. O primo Jeú, vizinho dele lá no morro, diz que é costume de um grupo se encontrar no serão, no terreiro do Francolino, para as cantorias e prosas. Ele tem um grande carinho pela sua viola paulista. Diz que, depois da mulher e da canoa,  a viola é o sua maior devoção. O nome grafado nela logo que comprou numa viagem de promessa à Aparecida é: Minha santa".

               Tio Francolino: pescador, roceiro e violeiro radical! Tio Francolino: parte de nossas raízes! Só de imaginar as cenas eu ainda me emociono.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

CARAVANAS DE 1970 A 1974

Frei Pio e a turminha (Arquivo Iolanda)


Iolanda(agachada) em ação (Arquivo Iolanda)


Sempre é bom recordar de outros tempos e de outras pessoas que fizeram muito por Ubatuba. As Irmãs Franciscanas Missionárias de Assis, no começo da década de 1980, fundaram com o frei Pio a Creche Francisquinho. Eu trabalhei na reforma/adaptação do espaço no bairro da Estufa. Até uns dias desses estava lá ainda partes dos brinquedos que eu fiz.

Nos anos de 1970 a 1974, durante as férias escolares de julho e janeiro, nós Irmãs Franciscanas Missionárias de Assis (que dávamos aulas) e mais alguns leigos que se dispunham, tirávamos de 18 a 20 dias, para ir a Ubatuba fazer uma espécie de missão com os caiçaras e pessoas do sertão de Ubatumirim. 

Na época ainda não havia a estrada Rio-Santos. Aquele povo das praias e do sertão plantava mandioca, colhia, ralava e fazia farinha com grande sacrifício, inclusive, ‘lutando’ contra a “imundície” como chamavam a formiga saúva, que muitas vezes devastava as plantações. Quando conseguiam fazer a farinha, ensacavam-na para ir vendê-la na cidade. Este era outro grande sacrifício, porque tinham de ir a pé com o saco de farinha nas costas, atravessando praias e morros. 

O padre Frei Pio Populin, franciscano, grande missionário de Ubatuba por mais de 30 anos, idealizou um barco que pudesse transportar o povo das praias e do sertão, para ir vender seus produtos na cidade, seja a farinha, como também artesanatos que muitos faziam de madeira ou palha, ou para irem a médicos, etc. Esse barco, construído pelo (na época frei Odorico) foi uma bênção para o povo. Os “timoneiros” eram os conhecidos Salvador e Nelson. E era do barco que também nós nos servíamos para chegar à praia Ubatumirim. Que medinho quando estava em alto mar! A travessia durava aproximadamente duas horas. Quando víamos ondas muito altas e fortes, olhávamos o rosto do Salvador para ver se estava preocupado ou tranquilo. Se estava tranquilo, também nós nos acalmávamos.
Descíamos em Ubatumirim, e,  divididas em equipes,  uma equipe ia a pé para o sertão, outra atravessando um rio e depois um morro para a praia Almada e cada equipe durante o dia fazia visitas às famílias, levando uma boa palavra de amizade, um incentivo, uma bênção de Deus.  Muitas vezes comíamos o que nos ofereciam com tanto carinho aquilo que tinham: bananas, farinha doce, café com beiju: que gostoso! À noite, eram eles que vinham ali nas escolas onde ficávamos hospedadas para dormir e guardar nossas coisinhas. Então, pequenas catequeses, orações e depois brincadeiras, cantos com viola ou violão, e até “arrasta-pé”! Ô tempinho bom foi aquele! A última caravana foi em 1974 quando a Rio-Santos já estava adiantada e havia chegado até Ubatuba e mais para frente e logo não foi mais necessário o barco, porque os ônibus o substituíram. Ótimo! Porém, como sempre, ao lado do que é bom, o progresso traz também o que é ruim. Pelo fato de as praias de Ubatuba ser lindíssimas, aqueles que tinham e tem dinheiro, começaram a comprar os locais onde os caiçaras tinham suas casinhas simples, para construir seus casarões. E assim os caiçaras foram sendo empurrados para outros lugares mais isolados, ou não sei dizer para onde. O fato é que a partir daí tudo mudou. E agora, Almada e outras praias por ali já são dos turistas.

           Envio algumas fotos desse belo tempo das inesquecíveis caravanas, que gostávamos tanto. As irmãs que sempre iam: Ir. Clara, Ir. Antonia,  Ir. Maria, Ir. Redenta,Ir. Iolanda, e umas ou outras pessoas ou irmãs, uma ou duas vezes.

            Com saudade deste tempo   Ir. Iolanda

quinta-feira, 18 de junho de 2020

TOTONHO E A JUSTIÇA

Em Silveiras, orgulho da mula (Arquivo JRS)


                Totonho do Rio Abaixo, famoso por pilantragens, insiste em ter a minha amizade. Dias atrás, para me agradar, falou: “Cadê o Queiroz?”. Mas é muito gado mesmo! Pensa que eu não sei que continua na dieta de capim e cloroquina? “Quer enganar quem?”.  Ele, no espírito das palavras do Bozo de Brasília, é o que poderíamos classificar de “terrivelmente evangélico”.  Agora, conforme o dizer do estimado baiano Bartolomeu, “a casa tá caindo”. É, não tem como continuar essa enganação. Mas faço questão de dizer que, na história, as falcatruas sempre estão para privilegiar quem já é privilegiado.

                O Poder Executivo, na sua instância máxima (STF), tem as suas preferências, sabe de qual lado se colocar. Por exemplo, tem processo favorável a quem está mais para o lado das classes populares que fica parado, esquecido até, mas...quando mexe com eles (Juízes) , tudo se movimenta bem rápido. Faz-me lembrar de uma escola, de um aluno terrível, cheio de malcriações para todos os professores, de arrumar confusões com os colegas etc. A cada reclamação de alguma coisa que ele aprontava, a coordenadora dizia: “Coitado dele. É porque ele é hiperativo” e coisas do gênero. Até que chegou um dia em que o tal menino disse um monte de coisas impróprias a ela. O que aconteceu? Bastou só aquela vez para ela correr atrás de outra escola para o dito cujo. Foi transferido na semana seguinte. Agora, aquelas coisas que eram evidentes para nós que procuramos ler coisas de gente sábia, de escutar coisas inteligentes e  de ver ações concretas na superação das injustiças sociais começam a ser comprovadas pelos “homens da justa”, na expressão do mesmo Bartolomeu. Espero que ele continue vivo e feliz na sua querida Pilão Arcado.

                Seo Filhinho explicava, numa ocasião, sobre a escravidão em Ubatuba:

                “Não é de hoje, meu jovem, que peixe graúdo tem proteção das leis, sempre escapa das redes. Há muitas histórias de chegada clandestina de escravos em Ubatuba. Tinha vários portos para esta falcatrua. Contavam de dois escravos que, no desespero, nadando mar afora, na Enseada de Bananal, foram resgatados pela escuna FLUMINENSE. Deram sorte de ser uma embarcação que cruzava a costa a serviço do governo, na fiscalização do tráfico negreiro em 1834. Houve tentativa de aplicação das leis, mas o tráfico continuava e era do conhecimento do Governo da Província.  A vacilação, o temor dos Juízes de Paz no cumprimento da Lei também era compreensível, pois aquela ilegalidade era exercida por argentários, pelos maiorais da terra, com os quais não seria prudente nem interessante criar qualquer animosidade. Mas imagine se fosse os parentes deles que estivessem sendo escravizados. Você imagina?”.

                É pena que tantos pobres não enxerguem as provas, mas acreditem nas evidências mentirosas para darem tiros nos próprios pés. Dá dó e raiva ver tanta gente enganada por lobo em pele de cordeiro, sabia Totonho?

quarta-feira, 17 de junho de 2020

VISÃO DO ALTO DO MORRO

À sombra da bananeira (Arquivo JRS)

Outro poema do mano Mingo para ilustrar o meu último trabalho: "À sombra da bananeira, do alto do morro, a gente avistava o mar"


Eu sei, desde os tempos de menino,
que a gente vive por teimar,
pois quem nasce à beira-mar
tem o destino escrito na areia
e se a onda vem e apaga tudo,
e se não der peixe na linhada,
e se vier pouco peixe no espinhel
ainda tem a rede armada
no pesqueiro do parcel.
Esse mar está cheio de vida,
(mas já teve mais!)
esse mar ainda é generoso
(mas já foi mais!)
Quando a gente chegava do mar
com uma fieira de peixes na mão,
vovó  nos abençoava e dizia:
"Quando Jesus andou no mundo
procurando seguidores,
escolheu só os melhores
no meio dos pescadores."

Quer mais? Vai lá: barbatuba.blogspot.com

terça-feira, 16 de junho de 2020

MANO MINGO

Passarinhos que gostam do meu quintal (Arquivo JRS)


Começando o dia com uma poesia do mano Mingo. Quer mais? Visite barbatuba.blogspot.com.


Eu aprecio os poemas
com rumor de cachoeiras que cantam
que até as pedras mais ásperas
são suavizadas pela leveza das águas.

Eu gosto de poemas de cantigas de passarinhos
cantadas e aperfeiçoadas de geração em geração
nos galhos das fruteiras carregadas
e nem precisam ser poemas
com as palavras rimadas.

Eu prefiro os poemas que tresandam
a cheiro de capim orvalhado
às margens de um caminho
que não tem outra serventia
senão ligar-nos com o passado.