sábado, 12 de julho de 2014

EM TEMPO DE FUTEBOL


Tio Dico e sua canoinha no rio Puruba (Arquivo JRS)

              É final de Copa do Mundo! Novamente a Alemanha está lá! Que falta do Daniel Sabiá, do Domingos e de tantos outros futebolistas caiçaras!
Que tal recordar um pouco?

           Domingos, filho do Licínio Barreto, funcionário público do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), aos domingos era juiz (árbitro) de futebol. Até uniforme da “LUF” tinha (para ser respeitado dentro de um limite, de acordo com as torcida). Foi ele que contou o seguinte causo:
                “Isso aconteceu logo depois da conquista do tri pelo Brasil, num jogo no campo do Puruba, um paraíso de borrachudos na boca da barra. O time da casa fazia uma partida decisiva contra o Recurso  (do Saco da Ribeira) e perdia por 1 a 0. No último instante, marquei um pênalti que beneficiava o pessoal do Puruba.
                Depois da bola ajeitada na marca, o atacante Dico tomou distância de 15 metros e aguardou o apito. Esperei o silêncio. Assoprei a ordem para o caneludo caiçara sair disparado.
                Que beleza! Foi um estouro!
                A bola arrebentada seguiu firme na direção do goleiro Cardo. Em fração de segundos adentrou pelo arco o couro e o capotão (câmara de ar, de borracha). Foi duplo frango! Eu validei o gol, ou melhor, os dois. O resultado se inverteu, o tempo acabou. O Puruba ganhou a peleja por 2 a 1.
                Depois de muitos xingamentos, inclusive à mamãe, o Recurso, através do técnico Paulo Sabão, apelou para outro imparcial juiz presente – o Daniel Sabiá. Este decidiu tudo com esta frase:
                ‘Estourou, mas entrou na caçapa! O Puruba é campeão da Taça José Zabeu. Viva nós, viva tudo, viva o Chico Barrigudo!’.

          Depois foi só alegria com muita bebida e comida! Até escaldado de ostra tinha!”.

                Só acrescento agora o que mano Jairo fez questão de relembrar: 
                  "Sem contar que em outro jogo o Chico Preto, do Itaguá, ao chutar o pênalti, fez com que o goleiro pulasse no canto esquerdo para pegar a chuteira que escapou do seu pé, enquanto a bola entrava pelo canto direito". É mole?









Sem contar, que em outro jogo, o Chico preto, ao chutar o pênalti, fez com que o goleiro pulasse no canto esquerdo para pegar a chuteira que escapou do pé dele, enquanto a bola entrou no canto direito".

sexta-feira, 11 de julho de 2014

SACO DAS BANANAS

Tio Zacarias, o folião do Divino (Arquivo Kilza Setti)
               Em certa ocasião, esperando a condução na Praia Dura, conversei longamente com o saudoso Zacarias, um parceiro de Folia do Divino e de outras festas do tio Maneco Armiro. 
        Para nós também era tio. "O tio Zacarias, o tio Maneco e a tia Ana estão em cantoria, lá na sala deles". E a criançada passava por ali para ouvir as toadas conhecidas e apreciar as novidades, as novas letras em mesmos ritmos.
              Anos mais tarde, parando no alto da Praia do Saco das Bananas, imaginei ele ali no caminho tantas vezes percorrido, assim falando aos companheiros de caminhada nas Corridas da Folia de cada ano.


Daqui arreparo no lagamá,
o jundu e uns três ranchos;
Adiante tá o caminho das casas.
O viamento foi largado;
no morro há resto de tiguera
e ninguém mais encoivarô.
Do embarque das bananas...
Nem engaço seco ficô.
Passo por um café intirume
Porque tô enfastiado,
mas... tenho tempo pra prosa:
me intero da festa que vem;
há redada na Ilha e tainha facheada;
uma turma de folião tá chegando.
Sobeja devoção.
Vai tê arvorada, muita reza e bate-pé.
Vamos o Divino adorá
E esperá o que vié.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

ENCANTO DO AMOR

Plínio Sampaio morre em São Paulo, aos 83 anos (Foto: Marcelo Justo)
        O presente texto é em homenagem à Laura Sampaio, uma religiosa agostiniana que, a partir do final da década de 1960, por muitos anos, tanta ajuda prestou aos caiçaras. Recorrendo às atualidades de seu primo Plínio de Arruda Sampaio, que estava no exílio forçado pelos militares, nos apresentava os temas da sociedade brasileira. São pessoas assim que marcam o nosso ser. De fato, era um bom homem. Deu a sua contribuição a nós caiçaras que vivíamos bem isolados, longe das atualidades de então.

“Bons tempos era aquele em que a gente, no serão, depois da janta, escutava as histórias dos mais velhos”.

      É assim que as gerações vão aprendendo, sonhando, criando seus medos e dando suas contribuições culturais. No nosso caso, quase sempre o mar, as praias e a natureza têm os elementos essenciais a uma boa história, aos tantos causos que nos cercam.

                    Numa roda da conversa apareceu esta:

                “Os dois apaixonados namoravam na beira da praia de Itamambuca. Eram vigiados apenas pela luz da Lua. Lá contavam estrelas e faziam promessas de amor eterno.
                Ditinho, filho de pescadores, conhecia muito bem a história que seus pais contavam sobre as crianças que eram geradas em dia de Sexta-feira da Paixão. Eram misteriosas como tais dias...Mas Ritinha, afoita como só, achava graça das prosas de Ditinho, duvidando que fosse verdade.
                Ele tentou ir embora, dizendo que se ela engravidasse teria um bebê encantado. Se nascesse menina seria bruxa, se fosse menino seria lobisomem.
                O pescador se rendeu aos caprichos da moça. Após aquela noite Ritinha nunca mais apareceu.

                Depois de exatamente nove meses uma criança nasceu do outro lado da praia. O seu choro intrigou a todos dali, pois era acompanhado de um uivo, fazendo com que a própria Lua se escondesse de medo”.

domingo, 6 de julho de 2014

COMO ERA BOM!

Mural de outros tempos   (Arquivo JRS)

       Ao escrever a respeito do coco pati, a minha prima Nádia do Prado, criada no jundu da Praia da Fortaleza, fez questão de dizer o seguinte: Amode que eu já comi muito com farinha de mandioca . E era bom heim!”.

       Pois é! Como um peixe na toca, aos poucos vão aparecendo vislumbres dos nossos hábitos caiçaras! É bom que alguns se recordem do que viveram, enquanto outros vão tomando conhecimento.

      Ao ler o escrito da Nádia, me recordei de uma tarde distante no Sapê, na casa da vovó Martinha. Estávamos só nós: eu - bem moleque ainda! -, ela e a tia-bisavó Izolina. De repente, a vovó diz: “Vamos fazer farinha de coco para o café. Zezinho, pega a roçadeira e um saco ali no canto. A gente volta logo, titia”. Quando me vi, já estávamos atravessando a vargem em direção ao Morro dos Amorim, distante quase dois quilômetros da casa. Sobre a terra preta encharcada, os paus roliços serviam de caminho entre abundantes ciosas, davam firmeza aos pés.

      No aceiro de uma roça de mandioca, lá no morro, tinha alguns coqueiros indaiás. Ela escolheu um cacho caprichado, amarrou a roçadeira numa vara de capororoca comprida e logo nós vimos ele rolando no capim-melado. Na hora eu pensei: “Meu Deus! Quem vai aguentar carregar esse cacho até a casa?”. 

      Para quem não conhece, o indaiá dá um grande cacho. Além do mais, é difícil de carregar porque tem uma ponta incomodante em cada coco. A vovó só disse: “Este tá bom”. Em seguida dobrou o saco, ajeitou sobre um ombro, lançou  aquele enorme cacho, deu a ordem para que eu levasse a roçadeira e saiu andando naquela picada precária. Eu me admirei da força da vovó, que estava nos sessenta anos.

      Aquela distância ela fez num único lance. Quer dizer: não parou para descansar nenhuma vez. Ao chegar no terreiro, jogou a carga ao lado de uma pedra usada para quebrar cocos (pindoba, indaiá, brejauba, jarobá...). Fez um descanso breve. Logo estávamos nós três a quebrar coco. Depois de uma certa porção, a titia começou a socar no pilão, acrescentando um pouco de açúcar e arrematando com a farinha de mandioca feita ali mesmo a cada quinzena. E por fim, em torno de uma chaleira de café, era só alegria com farinha de coco indaiá!


     É, com sempre repetia o vovô Estevan: “Naquele tempo o dinheiro era custoso, mas o de comê era em fartura”.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

NOSSOS HÁBITOS

Coco pindoba em dois momentos (Arquivo JRS)

           Ao reler  umas anotações nuns papeis mais antigos, pensei que o título poderia ser Nossos hábitos na nossa linguagem. Isso porque trata de um falar caiçara que vai se perdendo. “É a modernidade”.
           É a modernidade que promove o afastamento de um tempo de maior interação com a natureza, de um conhecimento ancestral de tudo aquilo que o mato nos oferecia (desde a alimentação até as propriedades curativas).
          A inspiração presente veio depois de saborear um cacho de pindoba, resultado da excursão à Toca do Bagre (Jundiaquara). Aos amigos: estava uma delícia! Agora vem o tempo da brejauba, do pati...
       Pati  é o fruto do patieiro, outra espécie de palmeira das nossas matas. Depois que brota o miolo, o sabor adocicado é uma tentação. O ruim é a concorrência das pacas, cutias e caxinguelês. Conforme me apresentou há muito tempo o Dito Fernandes: “Esse é o pati. Agora tá brotado. Vamo catá o que puder. Sorte nossa o bicho ainda não tê aparecido e carregado tudo”.
       Tudo isso faz me buscar...


Na Badeja do Nhonhô Armiro
Um caxinguelê esperneia
Pelas grimpas do embiruçu,
Já reparando no juréu
Do lado da arataca.

A mode que não vi!?! Ahhh, homi!!!

Uma força de saquaritás,
Carambolas devezadas,
Balaio de peixe escalado.
Do cardo de massa,
Biju vai se formar.

A mode que não vi!?! Ahhh, homi!!!

Uma  barata escarrapachou.
Quando me precatei,
Tinha desmontado o mundéu
Do velho bem tiririca
No aceiro ainda a queimar.

A mode que não vi!?! Ahhh, homi!!!

Não quero nada intirume,
Nem bentrecha escalada.
Só aquela que veio de fornear.


A mode que não vi!?! Ahhh, homi!!!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

ASSOMBRAÇÕES PERSISTEM


Jundiaquara, a toca do bagre (Arquivo JRS)

          No centro da cidade de Ubatuba tem uma rua por nome de Maria Vitória Jean. De acordo com os registros de Washington de Oliveira, “Maria Victor Camilo Jean, mais conhecida por Maria Vitó, era filha de um daqueles franceses que em meados do século passado [1801-1900] vieram para o Brasil e acabaram radicando-se em Ubatuba”.
         Ao visitar a Casa da Jundiaquara, onde um desses franceses chegou  na primeira metade do século XIX, lembrei-me que alguém me disse o seguinte: “A Maria Vitória era descendente de Camille Jean, o fazendeiro francês da Jundiaquara. Foi quem construiu o primeiro casarão, depois  de aplainar uma parte do morro. Era um casarão muito bonito, onde acolhia sempre os visitantes franceses. O cônsul da Bélgica, um passagem por aqui, ficou hospedado lá. Também o famoso Debret, que fazia parte da Missão Cultural de D.João VI, foi acolhido ali. Da visão que se tinha do alto, ele fez algumas gravuras da nossa região, da natureza”.
     Dizem os historiadores que, além do fato da independência do Haiti, que expulsou os senhores franceses para outras terras, também ocorreu a guerra que envolveu a França contra a Prússia forçando os mais destemidos a buscarem outras paragens. Os franceses que chegaram a Ubatuba entre 1820 e 1850 eram dessas levas. Eram capitalistas buscando refúgio nas terras das Américas. No mesmo autor citado no início deste texto, encontramos: “Os que chegaram em Ubatuba adquiriram grandes extensões de terras e dedicaram-se à lavoura, muito especialmente na cultura do café”.

       Resumindo: as ruínas que visitei com os amigos são de época recente, construção do Holanda Maia, por volta de 1950, sobre os alicerces da primeira casa da fazenda (de Camille Jean). O nome Jundiaquara deriva da língua dos antigos moradores, dos índios tupinambás. É a Toca do Bagre (jundiá). Trata-se de uma enorme pedra mais para o interior, quase no Sertão da Sesmaria, onde passava o rio. Com essa denominação podemos deduzir que o local era cobiçado pelos pescadores de outros tempos. Agora, como comprova a fotografia, tudo é mato cobiçado para grilagem de terra, para devastação total de tantas riquezas naturais e culturais. Pois é! As assombrações persistem!

terça-feira, 1 de julho de 2014

QUEM CONTOU FOI A TITIA

Ruínas tão presentes (Arquivo JRS)
                 Olá, Priscila Santos! Olá, Ana Rocha!  Sejam bem-vindas ao blog!  

            Há três dias, juntamente com o Jorge, Xavier, Elias, Harumi e Solange, fui rever as ruínas da Jundiaquara. Quem era muito bom em contar histórias daquele lugar era o Velho Sebastião Rita, pai do saudoso João de Souza, gente antiga do Itaguá.
                   Depois disso, relendo uns textos de gente que ainda anda por aí, achei mais um que tinha como referência o tal lugar. Espero que aproveitem bem!
                Impressionante como faz falta uma política de turismo cultural para a nossa cidade!

            "Todos diziam que a casa velha, no Morro da Jundiaquara, era mal-assombrada, que sempre podia acontecer coisa ruim a quem adentrasse nela etc. Por isso muita gente tinha muito medo até mesmo de passar perto dela. Os poucos que a visitavam diziam que nunca mais voltariam a fazer tal loucura. Era medonho, mesmo!
           Eu não sei o que deu em minha tia e seus colegas; só sei que resolveram conhecer a tal casa. A chegada era por uma longa estrada cheia de mato, que se mexia demais como se não quisesse a aproximação do grupo. Minha tia e seus amigos ficaram muito assustados, mas resolveram continuar assim mesmo.
             Quando olharam para a casa não acreditaram que ela era mal-assombrada, pois ela era muito grande e bonita. Resolveram entrar nela. Assim que eles entraram, a porta bateu e fechou-os. O desespero foi encontrar uma saída; o esforço foi infrutífero. Todos silenciaram e logo ouviram portas batendo, correntes sendo arrastadas,   gritos e choros.
                A minha tia ficou desesperada e desatou a chorar. Nisso a porta se abriu e todos saíram correndo para nunca mais voltar àquela casa.

                Dizem que até hoje quem vai naquela casa ainda percebe o mato se retorcendo por todo o caminho, escutam o barulho das correntes sendo arrastadas,  os choros, as portas batendo e gritos, muitos gritos. Dizem que na frente da casa tem um cemitério e que naquela casa morava muitos escravos. Só sei que muita gente continua morrendo de medo de ir na Casa da Jundiaquara. 
                Quem contou essa história foi a titia!".