quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

URUTAU


Urutau . Foto do Titio (Arquivo Promata)

Visitando a página do grupo de observadores de pássaros do Sertão da Quina (Promata), me reencontrei com as lembranças de um pássaro da noite por nome de urutau, também chamado de mãe da lua.

Na década de 1960, na nossa casinha de pau a pique, quase na Badeja do Tio Custódio, juntamente com as revoadas de morcegos, tinha início os pios dos pássaros da noite. Era curiabô, era coruja, era urutau... Sapos e grilos também marcavam presença, se alternavam nas previsões do tempo: o coaxar era chamado de chuva; o cricrilar anunciava tempo seco.

A cada piado na noite, inclusive de cobra, quase sempre se seguia uma história. Mamãe contava muitas; papai se lembrava de algumas.

Dos sapos, o mais assustador era o chamado por todos de entanha. Parecia um uivo na noite. 

De todas as corujas, uma que até hoje nunca descobri seu nome, imitava choro de criança nova. Nem sei da aparência dessa ave. Só sei que era de tremer ficar escutando tal lamento em qualquer noite no morro da Fortaleza, no meu tempo de menino. Eram raros os barulhos que não me causavam sobressaltos, tremedeiras e encolhimentos naquele tempo.

O urutau, ave tão difícil de se ver, era sinal de mau agouro. Um dos piores agouros! Ao escutar seu sinal, um canto melancólico, lembrando uma gargalhada de dor, a minha mãe falava: “Urutau, teu pai morreu! Que me importa! Urutau, tua mãe morreu! Que me importa!”.

O nosso mundo era repleto de assombrações.

O mundo todo era encantado.

E a vida ainda não era passado.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A MELHOR FORÇA (IV)


Puruba 2001, lá estava  o Élvio! (Arquivo JRS)


Numa tarde de primavera, em 1978, juntamente com Severino, Nilséia e dona Santa, eu fui pela primeira vez até a cidade de Parati. O trecho da rodovia - BR 101 (Rio-Santos) - tinha um ano de inauguração. Nessa época teve inicio os meus conhecimentos, as minhas amizades com os moradores da porção norte do município de Ubatuba, onde ainda nenhum turista havia se apossado das áreas nobres da natureza. Cabia aos caiçaras  viverem na sua forma tradicional, sustentados por suas técnicas e artes, por suas paixões e devoções. Desse tempo vem a minha felicidade de, na comunidade da Praia do Puruba, ter convivido com o tio Durval, a tia Belinha, o tio Antonio, o tio Severiano e tantos outros nativos. Caiçaras mesmo!

Desde o primeiro contato até hoje, muitas coisas se transformaram no Puruba. Ouso dizer que as mudanças só não foram maiores porque as terras são mantidas entre familiares, justamente porque refletem a respeito da tradição e dos valores que os tornam um diferencial dentre as praias.

A comunidade da Praia do Puruba abriga uma das antigas capelas católicas do município, denominada de Exaltação da Santa Cruz. É onde, a cada ano, na data festiva de 14 de setembro, sempre acontece algo marcante a partir de eventos da cultura caiçara.  Quando o setor cultural da municipalidade se interessa mais, os eventos são incrementados, atraem turistas e moradores até de pontos mais distantes. Senão... a humilde população local festeja assim mesmo. As pessoas precisam disso!

A religiosidade é um cimento nas relações caiçaras. É mais uma possibilidade de experimentar e de aprender as relações coletivas, de buscar caminho para um bem viver comum.
Passando um dia naquele lugar, proseando com o povo dali, só posso dizer:

- Viva a solidariedade que desabrochou em sabedoria respeitosa ao meio ambiente e na construção de uma identidade!

domingo, 8 de dezembro de 2013

CONCRETISMO CASTIGANTE




Estudando um pouquinho mais, conhecendo Décio Pignatari, um dos frequentadores da Praia da Fortaleza, um menino caiçara, sofrendo regularmente com as frieiras tão comum no litoral, escreveu:

COCEIRA CONCRETA

Meu dedo passa discreto,
Forma na parede mofada
Um sinal refletido pela luz.
Não é pretexto, nem texto;
Não é alguém, nem ninguém;
Não é você, nem você é.

Agora olho...olho...
Não vejo nada!

A vela chegou ao fim;
Na lamparina não há querosene;
Da Lua nenhuma claridade chega,
Pois a “Cheia” tá longe.

Então vai chegando:
Uma madorna,
O sono pesado
...E o ronco indiscreto.

Meu dedo coça,
Desliza sobre o corpo;
O cansaço da posição me agita.
Um galo quebra o encanto
Do meu discreto acalanto.

Eu sinto...Sinto muito! 

sábado, 7 de dezembro de 2013

A MELHOR FORÇA (III)

Depois da caminhada, um merecido descanso na Justa (Arquivo SB)


Parafraseando tantos proseadores do meu entorno, caberá aos líderes mundiais renunciar aos recordes desenvolvimentistas a fim de salvar a vida do planeta, as nossas vidas. De resto, na inevitabilidade do Cosmos, as pesquisas seguem vasculhando as imensidões infinitas em busca de evidências de vida em outros planetas. Será que isso significa"jogar a toalha”, reconhecer que o nosso poder de autodestruição é incontrolável?


Constatando tantas irregularidades, tantas depredações e descasos, ponho me a refletir a respeito da realidade que me acolheu e aquela que ficará para as futuras gerações. Onde bebíamos água, só para dar um exemplo, hoje escorre um filete encardido. Os locais de lazer, descanso e faina pesqueira (ranchos, varais de rede e de secagem de peixe), salvo raras exceções, ficam atualmente dentro de muros. A moral vencedora é: “Se eu não fizer, outro faz”. Assim se multiplicam as ocupações e construções irregulares, os comércios clandestinos (ou “legalizados”) nas praias ou pelas calçadas etc.


É pensando em combater a desesperança, diante de nossa pequenez nessa possibilidade de mudança dessa realidade social, que eu me pego escrevendo. As memórias são pistas para revisões de vida e de rumo. Há uma indústria que passa imperceptível para a maioria. Jogam pesado, mas quem vê isso? Ao ver tantas pessoas, sobretudo crianças e jovens, encantados por um simples celular, recordo-me da velha Tia Izolina: “Fizeram de nosso lugá um pinico. Só tá fartando cagá em nós”. Ela fazia referência ao loteamento que começava a dominar a Praia do Pulso, as alterações no Rio Maranduba e as construções que nasciam sacrificando abricoeiros e amendoeiras em Ubatuba, “onde nasceu e se criou”. Parece que a outra parte da profecia da titia está ocorrendo na atualidade.


É todo um regime ambiental que se altera - e assusta! Assim, começar a tomar gosto pela possibilidade de recuperar antigos hábitos culturais pode ser um primeiro passo para reequilibrar a nossa vivência. Ler, reler, discutir as notícias e as situações, rever nossas concepções, produzir e reproduzir reflexões, marcar posições com iniciativas em prol da vida é preciso e pode ser o princípio de nova condição de qualidade existencial.


A ferramenta principal são os meios de comunicação. Só não podemos ser encantados pelo “canto da sereia”, né? Gosto de lembrar do Filhinho dizendo que, no início do século XX, “as malas postais chegavam nos dias pares e subiam [a serra, em direção ao Vale do Paraiba] nos ímpares, alternadamente, transportadas por estafetas que as levavam nos ombros, caminhando a pé, de Ubatuba a São Luiz do Paraitinga, dispendendo doze horas num percurso de nove léguas, por uma trilha pedregosa que em outros tempos havia sido estrada de tropas para servir a zona norte de São Paulo [...] Cartas e jornais chegavam sempre com cinco ou seis dias de atraso. Quando chegava... Havia, porém, para os casos aflitivos ou de urgência, o Telégrafo Nacional, que nos atendia em rápidas e lacônicas mensagens”.


Sendo assim, utilizando bem esta ferramenta, que tal fazer o percurso da Trilha do Telégrafo? De assumir a defesa de uma Reserva Caiçara entre as praias do Puruba e Justa?


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

NAVALHA E PINDOBA

         
Que tal uma farofa de coco pindoba? (Arquivo JRS)

      Márcia e Dario: sejam bem-vindos! Quanta saudade da "ninhada loira" da querida Dirce e do saudoso Dario!

Conforme já escreveu alguém, “as pessoas deixam de sonhar com a superação das dificuldades, passando a sobreviver com elas”. Eu acrescento algo mais grave: sobreviver com as dificuldades é torná-las piores ou propiciar que outras germinem. Tem dificuldades e dificuldades. Veja um impasse exemplar:

No morro perto da minha casa foi construído uma “casa”, depois outra e mais outras. Com fossas improvisadas, o excedente cai num córrego que segue para o rio e que deságua no mar. O mar e as praias, tal como uma comunidade perfeita, repartem tudo. Assim,  as  dificuldades - que não eram poucas! - ganham outras dimensões, avolumam-se, causam doenças, destroem vidas na natureza, geram transtornos sociais, afugenta turistas etc.

No litoral, sobretudo em Ubatuba, eu acompanho as transformações e as devastações, sobretudo a partir do advento do turismo, da ocupação desordenada e da migração intensa. Se por um lado fomos colocados na modernidade ditada pelo capitalismo, por outro pagamos um preço alto por isso. Dizia o velho Arcelino, da Praia do Perequê-mirim: “Lucro e destruição são os dois lados de uma mesma moeda”. Assim, eu sinto que passa da hora de agirmos para voltar a equilibrar o nosso espaço. Só assim vamos diminuindo a nossa dívida para com as futuras gerações.

Por esses dias, percorrendo um dos nossos caminhos de servidão, entre as praias do Puruba e da Justa, também conhecido como Trilha do Telégrafo, novamente voltei a pensar numa alternativa para preservar e democratizar a riqueza ambiental e cultural desse espaço caiçara em Ubatuba. Afinal, todo esse percurso poderia ser tombado como uma das nossas reservas nativas. Para homenagear os saudosos patriarcas do local, eu até teria a sugestão de nome: Reserva Caiçara “Tio Durval e tia Belinha”. Quantos roçados foi a garantia de suas vidas nesse lugar?! Quanta gente boa e bonita está entre nós graças a esse recurso? Hoje, uma característica marcante na maior parte desse caminho é a presença de capim navalha e de coco pindoba.

Uma reserva caiçara, na minha concepção, garantiria um turismo cultural. Eu, no caso em questão, explicaria a importância desse Caminho de Servidão na ligação das comunidades das diversas praias, quando nem se sonhava com rodovias, justificando a função dos balseiros nos rios mais largos (Maranduba, Escuro, Indaiá, Puruba, Ubatumirim e Fazenda). Através da mata secundária, trabalharia o contexto dos roçados de subsistência, mostraria os produtos de coleta que tanto nos sustentaram (pindoba, palmito, indaiá, araticum...), explicaria as plantas que nos acudiam nas doenças e dores diversas. Ao encontrar os resquícios da linha telegráfica (postes de ferro), salientaria o papel que esse meio de comunicação teve em épocas de isolamento. Contaria, a partir das ruínas do posto telegráfico da Praia da Justa, a epopeia da fuga do presídio da Ilha Anchieta, quando o telegrafista foi feito refém e teve de acompanhar o grupo de criminosos até os limites de Cunha e Parati. Enfim, muitas outras coisas são possíveis de servirem de ferramentas para moldar uma cultura preservacionista e solidária. Porém, é preciso proteger tais espaços para cortar pela raiz as futuras dificuldades. Não se pode deixar que mansões ou casebres ponham abaixo essa mata, se apoderem desse espaço, cerceiem a liberdade de ir e vir, apaguem a nossa memória cultural, joguem seus esgotos nas límpidas águas dos rios e quebrem a harmonia da natureza construída em longas eras.

        Eu desejo que mais gente, além dos meus filhos, saibam e sintam esse espaço caiçara.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

LÁ É MAIOR O AZUL MARINHO










                  Aproveitando o silêncio da manhã para curtir a música do Dario, me recordo de toda a sua  família vivendo intensamente nas cercanias da Praia do Itaguá, por perto da Barra da Lagoa. Lembro-me muito bem de seu pai na profissão de corretor, de sua mãe nas atividades filantrópicas  e religiosas, de sua esguia irmã Márcia e do caçula Vitório (para homenagear o franciscano italiano que tantas obras deixou neste território caiçara de Ubatuba). Certamente que deve passar por tudo isso a inspiração de suas composições. Creio que já é argumento suficiente para defender a nossa herança cultural e as nossas riquezas naturais. 

             Viva tudo isso que se formou na caiçara (cerca) ambiental, entre a serra e o mar!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

LENDAS EM CORDEL




                Olhando a estatística do blog, me admirei o que número de leitores mostram: os Estados Unidos estão em primeiro lugar nesta semana, com 338 acessos; depois vem os do Brasil (271), da Alemanha (36) e da Malásia (18). Outros seguem a fila. Serão brasileiros que vivem no exterior? Serão pesquisadores interessados em particularidades da cultura caiçara? Ou...? Por favor, entrem em contato para nos informar.

        Na semana da Caldeirada Cultural, o talentoso Jorge Ivam Ferreira lançou o seu primeiro volume em xilogravura sob o título Lendas de Ubatuba em versos. Vale a pena adquirir e aguardar os próximos trabalhos.  É a nossa riqueza cultural em forma de literatura de cordel a partir desse estimado filho da Bahia que veio viver em nossa cidade. 

       Parabéns ao Jorge! 
       Parabéns à professora Alejandra Carolina Labarca!

                Só para um “tira gosto”, eu escolhi...

                A GRUTA  MISTERIOSA

                À direita do caminho
                Para  o Perequê-Açu
                Vê-se a boca de uma gruta
                Da cor de pena de anu.

                Quase entupida de lixo.
                Não é gruta natural,
                É túnel de verdade
                Construído como tal

                Para ludibriar o fisco.
                Essa passagem secreta
                Servira ao contrabando,
                Que não pagava coleta.

                Muitos negros traficados
                Foram conduzidos por ali.
                Os navios negreiros de noite
                Atracavam nessa baía

                E, saindo da Prainha,
                O túnel era um atalho,
                Que evitava que o braço
                Da lei tivesse trabalho.

                Assim como o traficante,
                O lesto contrabandista
                Passava sua muamba
                Sem que desse na vista.

                Quem empreende uma surdina .
                Às vezes é malsucedido:
                Naquele túnel também
                Morreu muito bandido.

                Por aquela falsa gruta,
                Ouro e pedras preciosas
                Escorriam para a Europa
                De forma perniciosa.

                Sim. Nas ranhuras da rocha,
                Muito ouro foi escondido
                Mortos seus proprietários,
                Virou tesouro perdido.

                Atrás dele, muita gente
                Tentou garimpar na gruta,
                Mas só conseguiu achar
                Almas penadas em luta.

                Voltou em cima do rastro,
                Ouvindo gritos de dor,
                Gemidos, tinir de ferros,
                E outros sons de puro horror.

                O tesouro referido
                Causa de muita cobiça,
                Deve ainda estar por lá,
                Quieto na pedra maciça.

                Entretanto, não desejo,
                Nas entranhas da caverna,
                Ou seja, daquele túnel,
                Colocar nem uma perna.

                Lá existe uma fortuna.
                Em compensação, porém,
                Para resgatá-la, dizem,
                Só num pacto com o além.