segunda-feira, 7 de setembro de 2026

À DERIVA

 

Tiano em ação - Arquivo JRS 


"Um passado que se compartilha é um sacramento de solidariedade”.

(Rubem Alves)

 

    No século passado alguém escreveu que o mais indicado a fazer, no intuito de desfrutar de uma cidade, é andar à deriva. Assim eu fiz num dia desses nos arredores do centro da cidade de Ubatuba: saí pedalando num destino incerto. Avistei o mar, olhei partes do mangue, me detive num canto de praia. Seguindo pedalando, bem distraído, notei um amigo trabalhando em seu espaço. Aí não teve como não parar e prosear com o pintor Tiano!

   Cristiano, o Tiano Mendes, neto do Zeca Pão (da estátua do pescador na rotatória da rodovia Oswaldo Cruz), segue a trajetória do pai recentemente falecido. Ainda era cedo, mas ele já estava nos últimos retoques em nomes que estavam numa prancha de surfe. “É uma encomenda para enfeitar o local de um cliente”. Naquele espaço da avenida Padre Manuel da Nóbrega, no Perequê-açu, fui apreciando trabalhos em diferentes etapas desse artista caiçara que teve destaque, sobretudo na pandemia de 2020, quando ajuntava suas tintas, seu material e saía tornando mais agradáveis os nossos pontos de ônibus. Outros poucos artistas se animaram e também fizeram bonito. Eram obras artísticas, que mereciam ser retocadas. Foi uma iniciativa louvável a ser expandida! Porém as lindas pinturas foram apagadas e substituídas por coisa sem graça. O que dizer de gestores indiferentes aos esforços dos nossos talentosos artistas?


Tempo da pandemia - Arquivo Tiano


Ponto de ônibus hoje - Arquivo JRS 



   Tiano me disse que ele começou a pintar cedo: “Fui aprendendo com a minha tia Rosângela Vieira, irmã do meu pai. Ela pintava muito bem”. Eu a conheci em 1992; já estava doente, faleceu muito jovem. “Depois fui pintando letras e painéis com o meu pai. Por fim, após passar uns anos na capital paulista, resolvi voltar para Ubatuba, morar com a minha mãe. Então arrumei este espaço onde ensinava pintura, mas não deu muito certo porque os alunos faltavam demais. Hoje eu sigo produzindo aqui, mas sempre tenho uns trabalhos pelas ruas, pinto letras e mais coisas”. Ele ainda se recordou de momentos da sua infância: “Eu acompanhava a minha avó nas idas à costeira, na pescaria e na captura de caranguejos no mangue logo ali, depois da escola Esteves”. Por fim, ele confessou: “Eu gostaria de me encontrar mais vezes com gente nossa, que gosta de contar histórias e de recordar de tantas coisas que vivemos em outros tempos. Poderia ter um programa na rádio ou na internet abordando coisas da nossa Ubatuba. A minha finada avó conversava muito comigo, me ensinou muitas coisas”.

   Resumindo: a manhã, graças a minha opção de sair à deriva, proporcionou um feliz encontro com esse artista bem caiçara. Como é bom compartilhar momentos assim!

domingo, 6 de setembro de 2026

RAIZ DE NAVEGANTE (II)

 

Anúncio - Arquivo Steve Duarte 

       Steve Duarte, na pesquisa da trajetória do seu tretavô, o português Antônio José Duarte de Souza, hoje nos apresenta mais um pouco da história, dos empreendimentos no ramo da navegação no século XIX. Ubatuba, lar desse pessoal, era o porto por onde escoava até café cultivado em Itajubá e outras paragens mineiras.

 

      No ramo da navegação, inicialmente a parceria era entre o nosso personagem principal e seu sogro. Posteriormente, ingressaram na sociedade seu cunhado Francisco Gonçalves Pereira e seu concunhado Joaquim Victorino da Cunha, passando a operar sob a razão social Pereira, Duarte & Comp., que se consolidaria como uma das casas comerciais de maior expressão da vila na segunda metade do século XIX. A sociedade entre Antônio José Duarte de Souza, seu sogro e os dois cunhados foi dissolvida amigavelmente mediante escritura pública lavrada no Tabelião Cruz, em 14 de abril de 1864. Na ocasião, Antônio José retirou-se da empresa com o propósito de constituir uma nova firma em associação com seu filho mais velho, Antônio Júlio. Os demais sócios permaneceram reunidos sob a razão social Pereira, Victorino & Comp. Pouco mais de um mês depois, em 18 de maio de 1864, foi lavrada, no 4.o Ofício de Notas da Capital do Rio de Janeiro, a escritura de venda do vapor nacional Innovador. A embarcação foi adquirida por Antônio José Duarte de Souza diretamente do Barão de Mauá, pela quantia de 16 contos de réis, passando então a denominar-se Trovador. O negócio foi acompanhado do pagamento do selo proporcional, no valor de 16 mil réis, sob o nº 142, na mesma data, e do registro nº 3.196 na Alfândega do Rio de Janeiro, onde foram recolhidos direitos de 5%, correspondentes a 800 mil réis. A aquisição do Innovador, rebatizado Trovador, marcou o início de uma nova etapa na trajetória empresarial de Antônio José Duarte de Souza, agora desvinculado da sociedade mantida com o sogro e os cunhados e associado diretamente ao filho na condução de seus negócios. Constituía-se, assim, a nova casa comercial sob a razão social Duarte & Filho. No entanto, o percurso da firma não esteve isento de infortúnios. Em agosto de 1867, Antônio José Duarte de Souza anuncia no Correio Mercantil o trágico falecimento precoce de seu prezado filho e sócio, Antônio Júlio Gonçalves Duarte, de apenas 23 anos.

     Apesar do revés que lhes acometera, a firma continuou a buscar expandir suas operações. No Jornal do Commércio de 28 de maio de 1868, anunciou-se um novo acordo envolvendo as casas comissárias de Caraguatatuba, passando o vapor Trovador a realizar três viagens mensais àquele porto. O que Duarte não contava é que, na madrugada de 24 de fevereiro de 1869, sofreria outra grande perda: o catastrófico naufrágio de seu Trovador, episódio posteriormente narrado na primeira página do Jornal do Commércio de 2 de março do mesmo ano.

  Após sucessivas adversidades, Antônio José Duarte de Souza anunciou no Jornal do Commércio, de 17 de dezembro de 1870, que reabrira seu estabelecimento para receber cargas, declarando esperar a coadjuvação de seus amigos e fregueses das províncias de São Paulo e Minas Gerais, marcando assim a retomada formal das atividades comerciais após o naufrágio do Trovador. Nessa nova fase de sua firma, Duarte, tendo como sócio seu segundo filho, José Bernardo, adquiriu um novo vapor com o apoio de Miranda Monteiro & C., que detinha porcentagem da embarcação. A aquisição do vapor Emiliana, de 120 toneladas, ampliava a capacidade de transporte em relação à embarcação perdida e demonstrava não apenas a recomposição de seus meios materiais, mas também firme disposição de reconstruir e reinvestir no tráfego costeiro que integrava o circuito cafeeiro responsável por ligar o Vale do Paraíba e o sul de Minas à praça comercial do Rio de Janeiro. A viagem inaugural do vapor, com partida da cidade do Rio de Janeiro, ocorreu três dias mais tarde, na manhã de domingo, 9 de julho, às sete horas, conforme anúncio publicado no Jornal do Commércio de 8 de julho de 1871. Nessa nova fase, ingressou também seu genro Alfredo Augusto da Silveira, agora sob a firma Duarte, Filho & Genro. Mais adiante houve a aquisição do vapor Pirahy, em 1878.

   

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O ESPÍRITO DA ESPERANÇA

 

Entre nuvens - Arquivo Mingo

    Estou na leitura do livro O espírito da esperança: contra a sociedade do medo, do filósofo Byung-Chul Han. Nele vai se afirmando que "apenas a esperança nos permite recuperar a vida que é mais que sobrevivência".  Então me localizei no texto e no contexto atual a alimentar uma onda reacionária que eu, caiçara, adepto da ética comunitária, nunca imaginaria uns anos antes. O autor é eficiente em sua análise. Assim, não tem como não transcrever o seguinte:

   O clima generalizado de medo sufoca qualquer broto de esperança. Com o medo se instala uma atmosfera depressiva. O medo e o ressentimento lançam as pessoas nos braços dos populistas de direita, que atiçam o ódio. Solidariedade, amistosidade e empatia se deterioram. O medo e o ressentimento causam o embrutecimento da sociedade como um todo. Isso, em última instância, ameaça a democracia.  

     Medo e democracia são incompatíveis. A democracia prospera apenas numa atmosfera de reconciliação e diálogo. Aquele que dogmatiza suas opiniões e não escuta os outros não é cidadão. O medo é um popular meio de dominação, pois torna as pessoas obedientes e suscetíveis à chantagem.

    Qual medo está na moda em nossa cidade? Tenho ouvido de muita gente sobre o medo dos sofredores de rua, dos que mendigam a sobrevivência. "Vi na internet isso", "Minha amiga me enviou tal situação" etc. O marginalizado, fruto de uma sociedade que jamais repartiu é o culpado? Por que esse medo não se volta contra os opressores, os que desejam seguir sugando vidas, vivendo do suor da classe trabalhadora? Por que não desbancamos de seus tronos aqueles que pretendem seguir produzindo essa massa de desvalidos? 

   Escolher os mais fracos como culpados é uma estratégia reacionária, da direita política! E o que dizer dos pobres que abraçam isto?

  

Instagram  iohana.estudantepsi

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

RAIZ DE NAVEGANTE (I)


Navegar é preciso - Arquivo JRS 


  Conforme eu anunciei há dias, Steve Duarte, descendente de gente ligada à navegação em outros tempos, me enviou detalhes de seu antepassado e de seus negócios. Adorei o material e repasso agora, por partes, aos público leitor do blog. Gratidão ao Steve pela valiosa contribuição! Seguimos - eu, ele e tanta gente colaboradora - à disposição para dar a conhecer a nossa história, as coisas de caiçara.


    Antônio José Duarte de Souza nasceu em 1819, na freguesia de São João Batista de Ponte da Barca, Viana do Castelo, Portugal. Em 19 de agosto de 1835, aos 16 anos de idade, obteve seu passaporte para deixar o Reino de Portugal com destino ao Brasil. Partiu da cidade do Porto a bordo da barca Amélia, chegando ao Rio de Janeiro em 1836. Algum tempo depois, estabeleceu-se na vila de Ubatuba, onde iniciou sua trajetória no Brasil como caixeiro do tenente-coronel Antônio José da Graça.

    Em 26 de agosto de 1840, na Matriz de Ubatuba, casou-se com Maria Gonçalves do Nascimento, prima de seu primeiro patrão e filha do então sargento-mor João Gonçalves Pereira e de D.Francisca Soares de Novais. O matrimônio inseriu Antônio José Duarte de Souza em uma rede de relações familiares que reunia alguns dos principais agentes do comércio e da navegação na vila.

    Tanto seu sogro quanto seu primeiro patrão estavam ligados ao tráfego costeiro e ao transporte de gêneros entre Ubatuba e Rio de Janeiro, Santos e outros portos intermediários. Naquele período, essas atividades eram realizadas predominantemente por embarcações à vela, entre as quais se encontravam as sumacas Doris, de 37 toneladas, e Flor de Ubatuba, de 41 toneladas, e as lanchas Santo Antônio Brasileiro, de 20 toneladas, Maria Thereza, de 24 toneladas, Aurora, de 28 toneladas, e Flor da Graça, de 27 toneladas.

    Foi nesse contexto de expansão das atividades comerciais e de crescente integração de Ubatuba às rotas de cabotagem que, em 10 de julho de 1851, Antônio José Duarte de Souza formalizou uma sociedade comercial com seu sogro, sob a firma Pereira & Duarte. Estabelecidos com casa comissária e armazém para recebimento de cargas, os sócios dedicavam-se ao transporte e à intermediação do café e de outros gêneros, cuja produção, proveniente de Minas Gerais e do Vale do Paraíba, era escoada pelo porto de Ubatuba com destino ao Rio de Janeiro. A frota era composta de ao menos, pelo vapor Duarte I, de 90 toneladas, com tripulação de 15 homens, e pelo patacho Hortense, de 102 toneladas, com 8 tripulantes.

    No Correio Mercantil de 23 de março de 1859, há um anúncio que, ao que tudo indica, comunicava o início das atividades do vapor Duarte I:

Anúncio - Arquivo Steve


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

ESTÁGIO TERMINAL

 



Destino - Arquivo JRS 

Passando a boiada - Arquivo internet 


   Poucos dias depois de eu comentar neste blog sobre a vergonha de um lugar denominado terminal rodoviário, no centro da nossa cidade (Ubatuba), mais uma ação deu uma piorada, fez um retoque: a única árvore que refrescava o local foi derrubada. Só mais uma prova de que tem gente partidária daquele pilantra que deu a ordem de "passar a boiada". 
     Naquele dia chuvoso, vendo as condições péssimas dos trabalhadores da empresa de ônibus, com água em suas dependências e goteiras por todo lado, sem banheiro aos usuários etc., constatei uma ruína em cidade turística, um local a ser evitado. Discordo daqueles que desmerecem os pobres do município e possíveis turistas que muitas vezes encontrei usando os mesmos  ônibus que nos socorrem. Quero lembrar que essa turma toda (Executivo, Legislativo e Judiciário) existe graças à contribuição da classe trabalhadora. Porém, esta fica no final das prioridades. Pior: tem pobre conformado com as injustiças e tem muitos dos nossos aliados aos praticantes descarados de toda forma de maldade. E seguirão votando neles!

Em tempo: avistei naquele horrível ambiente, dentre vários sofredores de rua, dois caiçaras. Um deles me chamou, mostrou o visor de um veículo e disse: "Tá errado. Não é Seis Marias. É Sesmarias e significa um sítio distante, um pedaço de terra". Foi aí que eu fotografei.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

QUE BOA SURPRESA!

 

Canoa caiçara - Arte do mano Guinho

     Sempre eu estou lendo os comentários de leitores do blog. É grande a satisfação em recebê-los. É muito bom porque sei que são verdadeiros e trazem contribuições valiosas, me edificam. Agora mesmo estou debruçado sobre um relativo à embarcação "Emiliana". (A postagem, a crônica feita há pouco tempo tem este título. Pode buscar aí). Atenção ao que escreveu o leitor Steve Duarte:

  

      Olá, tanto o vapor Emiliana quanto o Duarte I e, posteriormente,  o Pirahy, pertenceram às casas comerciais do meu tretavô, o português Antônio José Duarte de Souza. Ele também já foi proprietário do vapor Trovador. Tenho inclusive a escritura de compra desse vapor, que foi vendido ao meu tretavô em 18 de maio de 1864 na cidade do Rio de Janeiro pelo Barão de Mauá, o antigo proprietário. Possuo também diversos recortes de jornal sobre os navios que ele possuia e as atividades da firma no comércio de cabotagem de Ubatuba. Posso te enviar caso tenha interesse. Tenho inclusive uma suposição quanto à possível origem do nome da embarcação Emiliana.


     O que você acha que devo responder ao Steve?


terça-feira, 25 de agosto de 2026

CULTURA POPULAR TEM LADO

 

Mural em Caraguatatuba - Arquivo JRS 

     Uma colega de infância me perguntou de que lado eu estava, em quem votaria nas próximas eleições. Eu lhe disse que, desde 1982, só voto em quem concorre pela esquerda. Ela se indignou.

   Mediante os absurdos que já presenciei, sobretudo nos últimos tempos, não me arrependo de estar com gente que defende pautas favoráveis à vida (que preservam nossos direitos, investem na educação e saúde, promovem a cultura popular e a conservação de um meio ambiente saudável).  Deixo o outro viés (reacionário, maldoso e repleto de idiotices) aos gananciosos, que desejam golpear a democracia, a classe trabalhadora e a soberania. Por conta disso, das mentiras propagadas no intuito de aliciar os pobres, os sofrimentos aumentam. Por isto tudo eu sigo escrevendo e ciente de que estou do lado melhor. Cultura popular tem lado! Alguém dúvida?

     Primeiramente eu quero registrar muitas das coisas que são da tradição oral caiçara. Se hoje podemos saber das imemoriais lendas, de causos e histórias (geral ou particular) é porque alguém decidiu escrever, registrou imagens e sons; nos retransmitiu representações e outras formas lúdicas que servem à conscientização. E, com certeza, há um oceano infinito de histórias não escritas nos desafiando à navegação. Neste momento estou pensando na Harumi Honda que resgatou boa parte do legado de seu pai e produziu um pequeno acervo para o deleite do público. (Está, no momento, à disposição de visitantes no Teatro Municipal de Ubatuba). Eu, na minha modesta canoa, sigo dando remadas. A tecnologia evoluída desde as plaquinhas de barro dos assírios até o computador atual me auxiliam neste desejo de contribuição às nossas raízes caiçaras. Dito isto, como apoiar políticos que são autores de projetos para fechar praias e caminhos de servidão? Como desejar que mangues sejam destruídos por leis reacionárias? Como aplaudir quem está contra a natureza e os direitos básicos? Quem já se esqueceu de nossos sítios arqueológicos sendo enterrados e dando lugar aos loteamentos e condomínios fechados? 

  O que fazer? Votar em representantes políticos das causas que incluam os marginalizados pelo sistema reinante há muito tempo! 

     Eu sigo no sonho da minha infância de transformar dor em flor. À referida colega do início do texto, que se acomodou pensando ser da elite, só uma recomendação: procure um psiquiatra, leia mais para que seus olhos vejam com amor a beleza da nossa diversidade brasileira e volte a ser do lado das causas humanitárias.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

ONDAS NA HISTÓRIA

 

Ilhote chuviscado - Arquivo JRS 

    Quando viajamos, o baú, com tudo o que está lá dentro, vai junto. Quem disse isso foi Rubem Alves. Foi assim num dia chuvoso, quando precisei ir até a cidade vizinha de Caraguatatuba.

     Juba foi o primeiro caiçara que avistei. Estava triste, pois seu filho faleceu há duas semanas. O meu consolo foi apenas escutar o momento penoso, desejar a ele e Cláudia muita força para romper as ondas das lembranças carregadas de saudades.

     Estando na estrada, pelo vidro chuviscado, fui contemplado os lugares, as praias... Pessoas vieram à mente: desde colegas do tempo escolar até parentes que já se foram, mas seguem vivos na memória. Tio Francolino acenou na Praia Dura, Aquelau, Rui, tio Chico, Tidinho, Ninico, comadre Vitória, tia Balbina, meus avós e muitos outros se fizeram presentes entre a Lagoinha e Maranduba.

     Aquelau, anos atrás, sempre se deparava comigo dando cabeçadas, cochilando no ônibus entre o Sapê e Massaguaçu. Numa dessas viagens ele me presenteou com um frasco contendo sementes de especula. Quem dos dias atuais conhece especula? Seu mano Rui, falecido há mais tempo, era mudo. Só que eu entendia bem suas "falas". Interessante, né? Ele, com o costume de andar por todo lado e sempre se postar no banco da parada de  ônibus, quando me avistava queria me contar, por meio de tantos gestos e sinais, as novidades, as coisas que ele viu nos arredores. Antunes falou num certo dia isto: "O Rui da tia Santa é o maior fofoqueiro que eu já conheci". (Poderia de ser mesmo, mas competia com o Antunes!).

       Nessas ondas da história, onde tanta gente  vai nos deixando na embarcação, eu desejo muita força aos tios, primos e demais parentes.

domingo, 23 de agosto de 2026

VIVA A MEMÓRIA!

     

Ipê branco - Arquivo JRS 

    No dia de hoje estou comemorando dois aniversários: o da minha saudosa mãe e o do meu mano Jairo. Ela nos deixou há alguns anos, mas permanece entre nós, na nossa ética comunitária de buscar um mundo melhor para todos. Seu exemplo, sua vigilância sobre a nossa família, seus acertos em nossos passos resultou em grande parte do que somos. Que minha mana e meus manos nunca sejam infiéis à sua memória e de tanta gente nossa que nos iluminaram os caminhos. E que nossos filhos e filhas sigam nossos sonhos.

    Agradeço muito ao Carlos Lunardi, um querido amigo caiçara de Caraguatatuba que se dedica ardorosamente à educação pública. É dele o texto abaixo. Parabéns ao grande leitor dessa cidade vizinha!


   Esse discurso de que “o que estraga o Brasil é esse assistencialismo” é, na verdade, indignação seletiva: de quem não se conforma que o pobre receba o Bolsa Família ou que o filho da empregada possa cursar uma universidade. É o mesmo que não se indigna com os incentivos fiscais que empresários e o agronegócio recebem; é também aquele que se beneficia do Minha Casa, Minha Vida, da Farmácia Popular e do SUS. É o mesmo que coloca o filho na escola pública e, sem contar para ninguém, é aquele que pediu o auxílio emergencial durante a pandemia, mesmo sem precisar. Mas o problema é o assistencialismo. Como disse Paulo Freire: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor".

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

EU QUERO VER

 

Hospital regional  (HRSJC) - Arquivo JRS 

     Hoje eu acordei pensando no Zé Vicente, compositor que avistei no Ceará nos idos de 1980. Me inspirou bem cedo as músicas dele, sobretudo uma que se inicia assim:


Eu quero ver, eu quero ver acontecer

Um sonho bom, sonhos de muitos, acontecer.


    Eu, estando em viagem, me recordava daquele tempo vivido em Crateús, sertão cearense, onde pessoas simples buscavam viver bem juntas, em comunhão naqueles duros tempos. De repente se acomodou no assento da frente o "Taubaté", velho conhecido, um pólo oposto ao Zé Vicente. Não demorou nada para ele entrar no tema política: "Agora a Santa Casa tá outra coisa, até exame de mamografia faz. Tudo graças ao Valdemar da Costa Neto com suas medidas parlamentares".  Aí eu rebati:  - Você sabe que isso tem nome de corrupção? Portanto, o que estou escutando de você é elogio de algo errado. Como ele faz emendas se nem parlamentar é? Ele deu uma murchada. Então eu quis saber da razão dele ainda estar trabalhando. Eis a resposta: "Eu tava aposentado há anos, não aguentava mais ficar à toa. Aí fulano me indicou o sicrano que me arranjou esse cargo lá". Ah! Eu não deixei barato: - Quer dizer que você tem duas fontes de renda: tá aposentado e ocupando o lugar de alguém, que poderia ser de outro que segue desempregado?

    Por fim, tentando sair por cima na nossa prosa, esse conhecido reacionário tentou este arremate: "O que estraga o Brasil é esse assistencialismo". De saco cheio eu chutei o pau da barraca: - Recomendo a você e a outros bozolóides a refletirem sobre justiça social. Eu, você e a maioria deste país nos alfabetizamos numa escola pública, dependemos do sistema único de saúde e de tantas outras medidas que estão aí graças a uma política de Estado que alguns miseráveis chamam de assistencialismo. Você é uma prova viva do que estou falando: recebe - honestamente ou não - seus dois salários. A aposentadoria é uma medida do século passado para amenizar os efeitos das desigualdades sociais. Assim também é o Minha casa, minha vida, o Bolsa Família etc. Você reparou que passou quase agora uma viatura do SAMU? E esses ônibus escolares se tecendo o dia todo? Quer dizer que você quer o fim disso tudo? Pretende eleger quem pensa em exterminar os empobrecidos, os que mais sofrem na nossa sociedade ? (Deste ponto em diante eu não precisei escutar nenhuma sandice maior. Ainda bem).


  Um sonho bom há de acontecer, meu caro Zé Vicente!

sábado, 15 de agosto de 2026

ESTANDO A CASA LIMPA...

 

Arte: ultralafa03 (Instagram)

    Eu ainda estava lá, na sala de espera. Minha filha entrou para a consulta. Rente ao meu lugar se encontrava uma sofredora quietinha, sem mexer com ninguém. Nisso eu vejo uma mulher se aproximando. Era tão idosa quanto eu ou mais nova. Puxou prosa com a mais próxima de mim, entrou num discurso religioso querendo animar a outra. Notei que ela lhe dava atenção como se estivesse aguardando o fechamento do tema. Aí veio uma passagem bíblica, dessas decoradas, meio assustadora:

     "Quando um espírito imundo sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso, e, não o encontrando, resolve voltar para a casa de onde saiu. Quando chega, encontra a casa varrida e em ordem. Então ele chega acompanhado por outros sete espíritos piores do que ele. Entram e passam a viver ali. Ou seja, pioram muito aquele lugar, aquela casa".

     Mal ela acabou a citação, aconteceu o inesperado, pois aquela senhora sofredora tinha uma consciência política que me assombrou. Creio que ninguém da proximidade esperava aquela reação. Mais ou menos foi isto que ela falou sem nenhuma alteração de voz: "Muito bem! É o que vai acontecer se o filho do Bozo ser eleito, virar presidente. Vem com ele mais uma renca de demônios para voltar a infernizar a nossa vida agora que a casa está com aspecto melhor graças ao líder sindical que virou defensor das nossas causas. Você se lembrar do pai, dos males que causou ao país? Pois é! Filho de demônio demônio é". Que lapada, né? A pregadora ficou sem palavras. Notando que as duas eram o foco das atenções, ela renunciou de ficar azucrinando naquele espaço onde só tinha gente aguardando atendimento e encaminhamentos na saúde pública. Eu quis aplaudir, mas sou tímido entre tanta gente. Só dei um sorriso de contentamento.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

PASSARINHO NA PAREDE

 

Viva a arte! - Arquivo JRS 

     Eu me encontro apreciando a arte no muro enquanto os profissionais da fisioterapia aplicam suas habilidades na recuperação de pacientes. Vozes estranhas ao ambiente de solidariedade, de empatia, se imiscuem no ar, causam revolta no meu ser.
     Sabe o que vai aumentando desmesuradamente a alienação, a imbecialidade? Parece incrível, mas estamos num paradoxo: perante um infinito mundo de informações disponíveis em qualquer aparelho celular, há muita gente sem exercitar a reflexão, evitando desenvolver o senso crítico. Indivíduos na fila para receber o atendimento público de saúde, mas se declarando favoráveis ao candidato ao cargo de presidente deste país que é contrário às políticas sociais voltadas aos mais desfavorecidos. Como pode?
      Noutro momento, mas ainda em contexto de atendimento à saúde pelo Estado, noto muitas pessoas simples, humildes mesmo, mas também uns traços são reveladores de gente com mais posses, boas vestimentas e se revelando muito à vontade em perguntar e percorrer o ambiente. Gente esperando condução sem  saber o horário certo e gente com moderno carro esperando no estacionamento logo ali. Então escutei esta pérola da dona Francisca:

     "Eu sou da roça, de Natividade da Serra. Vivo lá desde que nasci. Meu marido se foi há dois meses. Foi muito depressa, nem doente estava. Numa tarde ele chegou da tarefa e recomendou que eu guardasse tudo, fechasse muito bem as vasilhas, não desse chance ao ataque dos bichos. Quando eu quis saber a razão das preocupações, ele apenas disse que logo eu saberia. O senhor acredita que dois dias depois ele morreu, assim do nada?"

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

SE FOSSE HOJE

 

Espera... Arquivo JRS

       Estou no AME (ambulatório médico de especialidades) de Taubaté, pois a minha filha tem uma consulta agendada faz tempo. Do lado de fora, num espaço de espera, vejo encostar o veículo que transporta pacientes desde a nossa cidade de Ubatuba. Duas das mulheres, assim que desembarcaram, vieram se acomodar ao meu lado, nas cadeiras vazias. Escuto delas uns absurdos (se levar em conta que elas estão ali dependendo de um serviço público). Se depender delas, a ultra direita política será eleita. Miséria cultural é isto: ser favorável aos seus algozes. Digo isto porque esses reacionários já provaram que farão de tudo para estabelecer um Estado mínimo, são contra a soberania e a democracia. Pior: declaradamente são contrários aos programas sociais que tanto salva a nossa população mais necessitada. E essa gente, atendida graças ao Sistema Único de Saúde (SUS), como vai se virar a partir do momento que o pobre deixar de ser prioridade?
    Dei um pulo, pensei numa citação a respeito de Jesus onde está escrito que levaram até ele uma mulher surpreendida em adultério. (Mas não levaram o homem que estava com ela?). Queriam saber o que esse líder espiritual iria fazer. (Segundo a religião judaica ela teria de ser apedrejada). O escriba do episódio relatou que o nazareno se agachou, pegou uma vareta e começou a  escrever algo no chão. O que seria? É quase certo que questionava a turba presente que acusava aquela mulher. Se fosse no dia de hoje, sob os olhares das duas mulheres e de um tantão de gente reacionária, eu estou a imaginar o teor do que marcaria o nosso chão: "Por que vocês querem apedrejar quem é mais pobre?". "É natural tanta gente simples não enxergar quem está descaradamente contra eles?". "Quando vocês acordarão para perceber os lobos em vestes de cordeiro, prontos para abocanhar os mais fragilizados da sociedade?". "Em qual momento deixarão de ser hipócritas, fingindo santidade, mas buscando se aproveitar do esforço alheio?".
   É, muitos outros questionamentos Jesus traçaria na areia! Qualquer líder religioso provido de espiritualidade solidária e sedento de justiça não faria ouvidos moucos diante da atual situação, do contexto político brasileiro.
   "Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra".
    Qualquer líder político de verdade sabe quem vai receber as pedradas da multidão alienada/usada pelos poderosos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O FILHO DO LICÍNIO

 

Domingos e eu - Arquivo JRS 


Domingos é o do meio - Arquivo Ubatuba 

   

   No mínimo 50 anos separam as imagens acima. Domingos Alves Barreto, filho do Licínio, funcionário público lotado no Departamento de Estradas de Rodagem (DER), parceiro do meu pai em tantos momentos, aos domingos era árbitro de futebol. Passado meio século, eu o reencontrei no corredor de um supermercado. Que surpresa boa! O mesmo vale aos filhos presentes: Arnaldo, Lígia e Magali. Éramos vizinhos na década de 1970, na praia do Perequê-mirim. Tempo bom demais! Completados os 88 anos de idade, ele se recordou de alguns momentos de travessuras com o meu pai. Ah! Como eram arteiros esses caiçaras de outros tempos!

       

     Numa ocasião eu e o "Carpinteiro", seu pai, fomos cercar tainha na Ilha Anchieta. Pegamos bastante na praia do Leste. Ainda por lá, resolvemos parar na praia do Sul, onde ficava o rancho do pessoal do cerco do Eduardinho. A maioria era parente de vocês (Gonçalo, João, Dito da Mata...), da Caçandoca, que foram morar no sertão do Perequê. Por ali limpamos duas tainhas, fritamos e comemos. Você acredita que o "Carpinteiro", antes de sairmos de lá, colocou as tripas dos peixes debaixo dos travesseiros daqueles homens? Deve ter dado uma grande confusão quando descobriram aquela arte.

      Outra vez a arte foi com o pessoal da Folia. Foram acolhidos, cantaram, encostaram os instrumentos e trataram de ir descansar para seguir a Corrida da Bandeira no dia seguinte. Assim que tudo sossegou, eu, seu pai, Miguel Cabral, Antenor e mais alguém que nem  me lembro mais, catamos os instrumentos e saímos para farrear, quase varamos  a noite. No dia seguinte, os músicos ficaram revoltados pelo estado lastimável dos instrumentos (cordas bambas ou arrebentadas, areia por dentro e couro encharcado). Saíram com muita raiva. É quase certeza de que nunca mais eles aceitaram um pouso naquele lugar, nem cantaram mais ali.

domingo, 9 de agosto de 2026

MINJOADA

 

João Zacarias, neto e bisneto - Arquivo DT

Caiçaras na rede - Arquivo Trindadeiros

     João Zacarias, um grande pescador da praia do Sapê, parceiro de vovô Estevan, tinha a maior rede da região sul de Ubatuba. Negociava muito pescado por ali mesmo e até enviava para a capital paulista e outras cidades distantes. Quando criança, ouvi dele uma referência à minjoada. Mais tarde vovô Armiro também a citou. Disse que entre a Ponta da Fortaleza e a Laje Perdida era comum largar a minjoada. Então, depois de especular, escutei a seguinte explicação:

    "É um recurso que a gente tem para pegar mais peixes num lugar que vive passando cardumes. É só preciso por uma poita em cada cabeceira da rede e deixar ela fundeada, pescando sozinha. Qualquer coisa que passar por ali pode se malhar. Se for de dia, a gente fica de longe vigiando, se for de noite é preciso madrugar. É como um tresmalho, só que é largado mais no largo. (Porque o tresmalho sempre está armado rente da costeira, né?). Depois, tem sempre algum barco passando e muita correnteza forte. Por isso que, vez ou outra, desaparece uma rede por aí".

      Agora, passado meio século dessa prosa, dessas informações, achei esta referência no tese do Olympio Mendonça, publicada em 1978:

Largar a minjoada: pescar com uma ou duas canoas, que vão largando ao mar a minjoada, que é fundeada com uma poita, e deixada na espera por algum tempo, é um processo de pesca em desuso na região, devido ao risco de se perder a rede.

      Na sequência ele detalha a minjoada:

Tresmalho de 40 a 100 braças de comprimento e duas ou três de largura, cujas malhas podem ter de 40 a 80 mm., encimada pela tralha de cortiça, que faz a sua orela, fundeada pela tralha de chumbeiro. É uma rede de espera e, quando se presta para matar peixes de fundo, é confundida com a feiticeira.

domingo, 2 de agosto de 2026

MÊS DE CACHORRO LOUCO

 

Arte: Tom Cotrim


      Antes, mas não fazendo muito tempo, agosto foi chamado de mês de cachorro louco. Assim diziam, mas nunca vi um de verdade. Era época de vacinação antirrábica. O tempo atual é de outros enlouquecidos. Agora haveremos de ter cuidado com aqueles coitados que não sabiam morder, mas aprenderam graças a uns malditos políticos que os açulam. Tão revoltante quanto a malvadeza é a estupidez da “matilha” explorada e o conformismo idiota. Deve ser assim que nasce um estado de guerra. Quem se dá bem mediante tal quadro? A quem serve esses safados?

   “Aflige-me é perceber no capitalismo uma inteligência, uma inteligência safada que aluga outras inteligências” (Graciliano Ramos).

 

Qual vacina pode resolver?

 

- A imprensa hegemônica segue interessada em conservar privilégios de uma minoria neste país e de ceder a nossa soberania.

- Já tivemos uma milícia verde integralista (ou galinhas verdes de Plínio Salgado). A da atualidade parece pior e se veste de verde e amarelo.

- “Abaixo a democracia” denota a sanha golpista de ratazanas eleitas graças à democracia.

- Devotos de líderes religiosos apedrejam marginalizados. É o amor de Deus excluído.

- São poucas as bandeiras que desejam combater o egoísmo.

- As belezas insuspeitas não estão em quem é contra reparações históricas e sociais.

- Há quem abandona as práticas solidárias e honestas, mas nunca deixa as tais devoções sagradas.

- Muito fácil dizer que os pobres são o problema.

- Muitos lares estão acolhendo as ratazanas saídas do esgoto.

- Microcéfalos exaltam yankees espoliadores e genocidas.

- Hinos idiotas seguem preparando paraíso de gente safada.

- Roubo de joias, rachadinhas, negação de crise climática, patrimônios construídos de maneira ilegal etc. etc... Contra fatos não há argumentos.

- Pangaré velho é Dark Horse.

     

    Enfim, no mês de cachorro louco, vendo multidão seguindo “apito de cachorro”, eu concluo com uma frase de Apolônio de Rodes (Grécia Antiga - século III a.C.): “Só os ignorantes ou estúpidos é que se dão ao insensato luxo de não estar a par da política que os afeta”.

sábado, 1 de agosto de 2026

PINTO CARÇUDO

 

Amor aos livros - Arte Pita Paiva


      Eu sempre achei engraçado a expressão que está como título acima. Era comum escutar  ela vez  ou outra quando passava alguém usando bermuda pelos joelhos. Paulinho do Gusto, Marquinho do Teco, Tutuca do Dico e outros se apresentavam costumeiramente como “pintos carçudos”.

     O que era pinto carçudo (calçudo)? Vovó Eugênia explicou quando eu estava iniciando a vida escolar: “Tais vendo aquele franguinho com penas até lá embaixo, quase cobrindo os pés? Ele é pinto carçudo”. Quer melhor explicação? Bem mais tarde eu aprendi que, na língua geral (falada por muito tempo no território brasileiro), pinto calçudo é igual emboaba. Logo, galinha com plumas escondendo os pés era emboaba. Creio que outra ave qualquer com tal característica também seria emboaba. Daí me recordei de uma aula de história do Brasil: no tempo da corrida do ouro, por volta de 1700, quando um mundaréu de gente, sobretudo de Portugal, acorreu à região mineradora (Ouro Preto, Congonhas, Sabará, Mariana...). Essa migração intensa, essa disputa pelo ouro resultou numa desavença com os paulistas (que se achavam com mais direitos que os demais). Estes, para fomentar mais intrigas, apelidaram os portugueses de emboabas. A razão? Porque, ao contrário dos paulistas, os lusitanos andavam calçados, com os pés cobertos. Os paulistas, cujos representantes eram os terríveis bandeirantes, estavam no lado oposto. O historiador Joaquim Felício dos Santos assim descreveu o simulacro civilizatório dos paulistas, “gente de serra-acima”:

     “Cegos pela ambição, arrostavam os maiores perigos; não temiam o tempo, as estações, a chuva, a seca, o frio, o calor, os animais ferozes, répteis que davam a morte quase instantânea. Eram homens meio bárbaros”.

     Para encurtar a história: essa contenda semeada de mortes durou dois anos e meio; passou a ser parte do currículo, dos livros didáticos, como Guerra dos Emboabas. Fato mais marcante nisso tudo foi o extermínio de muitos paulistas às margens do Rio das Mortes (São João del Rei), no Capão da Traição. Tudo isso em Minas Gerais.  Como eu, da beira do mar de Ubatuba, saberia um dia disso tudo? Ah, esses livros nos salvam! 

   Por hoje é só. Viva os pintos carçudos que ainda estão por aí!

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A PEDRA DA CRUZ

 

Toninho, eu e Ditinho - Arquivo Estevan

A rabeca do tio Dário - Arquivo JRS 


 

     Era dia de domingo. Bem cedo trepei no pé de carambola para recolher alguns frutos e fazer doce. Você já comeu? É bom demais, minha gente! Naquele momento me veio à memória a ocasião em que conheci essa fruta tão singular: foi no terreiro do tio Dário, no morro da praia da Fortaleza. Eu, criança de tudo, batia pernas por todo lado, mas gostava de me deter na casa desse parente para escutar toda a família tocando e cantando. Bons momentos que merecem ficar na lembrança, serem recordados. Veio a tarde. Conforme eu tinha planejado, me preparei para visitar os primos Toninho e Ditinho, filhos do saudoso casal Dário Barreto e Maria Estefânia. Estevan, meu filho, topou de ir junto. Assim, pedalando com tranquilidade, fomos até o centro da cidade. Eles moram há muito tempo próximo do sítio Aratoca, mas são da praia da Fortaleza. Na minha infância, éramos vizinhos no morro.

    Ditinho e Toninho demonstraram muita alegria com a nossa visita. A prosa passou por muitos assuntos: álbum de fotografias, novidades de familiares, saúde, lembranças nossas de tantas coisas que jamais eu seria capaz de imaginar sozinho. Tudo às pressas, na entonação do “dialeto” caiçara!

     Ao relembrarmos as festas, um de nós citou a tia Martinha. Doce de mamão distribuído para todo mundo era um capricho dela. Tio Cláudio, irmão do nhonhô Armiro, foi marido dela. Também lembramos de como ela, depois de viúva, se virava sozinha na lida da roça. A imagem dela descendo da roça com vários cachos de bananas me marcou demais. Ditinho completou dizendo: “Vez ou outra o Mané Bento ajudava ela”.

     Eu percebi que o Toninho estava muito empolgado com nossas recordações. Foi ele quem perguntou: “Vocês se lembram da Pedra da Cruz?”. Eu não sabia do que se tratava, mas o Ditinho explicou de imediato: “A Pedra da Cruz era quase chegando na Ponta, onde um filho da tia Martinha morreu. Ele foi pescar e sofreu um ataque epilético. Caiu na água e morreu. Foi preciso passar a rede para resgatar o defunto e sepultar. Sobre a pedra firmaram uma cruz. Depois, com o tempo, ela se acabou”. Eu quis saber o nome desse parente que se foi no mar, mas os primos não conseguiram se lembrar. Quem poderá colaborar nisto?

terça-feira, 28 de julho de 2026

ARTESANATO E IDENTIDADE

 

Um vaso diferente - Arquivo JRS

  O artesanato constitui um dos traços culturais do povo do nosso lugar, que se estabeleceu há séculos entre a serra e o mar. Sem ele, como seria a sobrevivência nesse ecossistema tão específico? Desde os remotos tempos, o povo caiçara produziu balaios para transportar raízes, peixes, frutas... Outras cestarias (tipiti, peneira, samburá, covo etc.) permitiam a realizações de serviços diversos (farinhada, secagem de pescados, captura de peixes...). Armadilhas (foge, esparrela, mundéu, arapuca...) garantiam alimentos na mata no tempo propício. Esteira, rede e tarimba permitiam repouso. Muitos outros objetos e técnicas estão englobadas no artesanato. 

    A canoa - a marca primeira dos Tupinambá e esteio principal dos primeiros habitantes do litoral -  é símbolo importante até nos dias atuais, sobretudo no município de Ubatuba, porque continua servindo às atividades pesqueiras e atraindo olhares de visitantes, de turistas. Este meio de locomoção é, sem dúvida alguma, o objeto de atenção na calma costumeira de quem sai ou chega da pesca ou nas remadas vigorosas dos esportistas. Quem nunca vibrou com as disputas nas “corridas de canoas” tão orgulhosamente apresentada ao público?

     Será que quem admira a canoa imagina a arte que está ali embutida? Felizmente ainda há gente nossa especialista na técnica de escolher a madeira no mato, cortar e escavar nas justas medidas. (Recomendo a leitura do trabalho científico do ubatubense Gilberto Chieus Júnior, sob o título Matemática caiçara – Etnomatemática contribuindo na formação docente). Recentemente a canoa caiçara também inspirou Tronco de Canoa, um prazeroso livro do Adilson Zambaldi). Tudo graças ao artesanato! Ainda é possível constatar nativos selecionando taquaras, cipós, taboas e madeiras macias para prosseguirem em suas artes. É a minha gente que aposta na perpetuação dos saberes herdados de quem precisou sobreviver nesse meio bem específico do litoral, nesse pedaço de chão nomeado na nossa raiz  indígena por Ubatuba, terra de muitas ubás. É gente mostrando inigualáveis obras na madeira, criando lindas peças em  mosaico e argila, desenvolvendo a costura criativa etc. De repente, aquilo que estava descartado vira uma maravilhosa surpresa, encanta muita gente.

   Por fim, artesanato é marca cultural e herança que resultou no ser caiçara resistente da atualidade. Cada cidadão, jovem ou idoso detentor desses saberes artesanais, é a garantia de que a geração presente e futura continuará cultivando essa identidade.


HOMENS BONS

 

Matriz Ubatuba - Arquivo Camila Prado

       Você já pensou hoje nas pessoas que sustentam o seu conforto? Ou em quem você está sustentando com seu trabalho?


      Existiu um rei português, Pedro II de Portugal, que muito ansiava para que o Brasil lhe fornecesse ouro e outros metais preciosos. Por isso escreveu, de próprio punho, aos "homens bons" de São Paulo - ou seja, a classe dominante de uma região brasileira - para que se empenhasse nas buscas por riquezas.

      Nos dias atuais, determinadas autoridades externas seguem o mesmo princípio do tal Pedro II de Portugal (1648-1706). Fazem de tudo, até interferem nas eleições, para um abocanhamento ao máximo das riquezas do chão brasileiro. A classe trabalhadora é descartável a essa gente depois de ser usada.

       Os indígenas, os miseráveis degradados e os negros trazidos para serem escravos eram o sustento dos "homens bons" naquele tempo. Pior: promoviam entradas no território para vasculhar, caçar e exterminar quem já habitava o território "descoberto". Tudo em nome - e por ordem! - de um governante externo, distante. E hoje? Os "homens bons" são da classe dominante! Estão a serviço de quem? Dos interesses de nações que querem continuar vivendo das riquezas desta terra, do trabalho deste meu povo! Para obterem sucesso, as nações expoliadoras contam com aliados internos, os tais "homens bons" do tempo presente. Não importa para eles que a nação brasileira se torne um território de gente morrendo à míngua. Um trecho de música, na minha juventude, denunciava: "Do lado de lá só quem sobe, do lado de cá só quem desce. Do lado de lá quem festeja, do lado de cá quem padece".

     Basta, né? De homens bons os "homens bons" não têm nada! Portanto, descartemos eles nas escolhas dos nossos representantes políticos.


Em tempo: recomendo a leitura do livro Boa Ventura!, de Lucas Figueiredo.