terça-feira, 29 de setembro de 2026

A MESMA HISTÓRIA




       Bem cedinho eu resolvi escrever a partir das imagens feitas por duas pessoas: Mônica e Victor, partes da sobrinhada querida.

      Na primeira imagem, no alto da estrada que vai para a Caçandoca, onde muito antigamente havia plantações de mandioca do pessoal do Salomão, do vô Estevan (sim, vovô morou no Morro do Cemitério!), do tio Ezídio, dos Blac, do Chico Romão e tantos outras famílias caiçaras do canto esquerdo da praia da Maranduba, a Mônica observa como é discrepante o tratamento social: o rico pode ocupar à vontade todos os lugares, construir nos morros, no jundu etc. “Que lindo!”, dirão alguns.  Ele pode sugar água das nascentes, construir fossa no critério dele, desmatar ao redor etc. Já o pobre sequer tem o direito de cultivar um roçado em áreas dessas, fazer um rancho ou simplesmente ter um ponto privilegiado para apreciar o entorno. “Casa de pobre no morro é favela”, repetirão muitos. Já na segunda cena, assim que vi na postagem do Victor eu quis saber por onde ele andava: “Vermelha do Sul, tio! O córrego lá está todo contido por gabiões”.

    Gabiões são gaiolas de metal enchidas com pedras para conter desabamentos. É bastante comum avistá-los em beiras de estrada para contenção de terras em deslizamentos. No caso, é para deixar o rio sem alternativa de desvio. Isto é ruim? Péssimo! Aquela dinâmica da natureza, das correntes, acaba; é sacrificada para alguns ricaços se aproveitarem do jundu. Passei ao Victor uma informação vinda do saudoso vovô Armiro, da praia da Fortaleza: por ali, naquele ponto da praia, existiu um cemitério, mas quando vovô nasceu, por volta de 1910, ninguém mais era sepultado naquele jundu porque o nível do mar avançou (ou será a praia que abaixou?) e começou a revelar as ossadas. Então, todos os defuntos passaram a ser conduzidos para o cemitério da cidade, em redes carregadas aos ombros por uns 20 quilômetros. Um detalhe: recorria-se ao balseiro para a travessia do Rio Iriri (Praia da Barra/Dura). A aqui é o meu sobrinho quem fala: “O pai contou a mesma história quando estávamos lá. Isso é muito interessante, quem frequenta a praia cheia das mansões nem tem ideia de que era caiçara assim”.

    Na Praia Vermelha do Sul, cuja última família caiçara, do Bertolino, eu alcancei ainda criança, foi inaugurado um requintado loteamento no começo da década de 1970. Meu pai e tio Tonico foram os construtores de três grandes casas ali, tendo uma delas partes sobre o pequeno rio. “O dinheiro pode tudo!”. Para encerrar a prosa: um grande amigo, Carlos Lunardi, realizando uma pesquisa sobre edificações modernistas no chão de Ubatuba para o curso de arquitetura, visitou a dona desse loteamento erigido sobre posses caiçaras: Olga Sisla. “É uma grande casa no meio da mata, lá do alto se avista toda a beleza do entorno: mata, mar, praias e ilhas. Impressionante mesmo!”. Uma mansão para uma viúva. “Morreu, não levou nada”, completei.

Em tempo: já passou de meio século que pisei nas areias da praia Vermelha do Sul.

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