segunda-feira, 21 de setembro de 2026

CAMALEÃO CEGO

 

Arte: academia_marchena4


        Esta frase encontrei em Gabriel García Marquez: “Camaleão cego não muda de cor”. E ela me fez lembrar de outro dizer do Velho Caetano: “Galinha choca não tira o ovo da cabeça”. Foram elas que me inspiraram a escrever estas linhas após uma prosa com Olívio, na beira da estrada. Ele tecia comentários do bairro e dos moradores depois de estar “mais de 17 anos convivendo com todo mundo”.

       A dona da vendinha diz que “os pobres não querem mais trabalhar porque recebem Bolsa Família do governo federal”. É quase certeza de que ela tem parentes e amigos que estão sobrevivendo melhor com esse mísero auxílio. Nem pretendo inquirir se ela é favorável à escala de serviço de 5x2, se pretende se aposentar um dia etc. A mesma opinião escutei de outras pessoas evangélicas. “Sabe quem orientou elas nessa direção?” – foi o Olívio quem me informou – “O pastor, aquele homem cheio de saúde que vive da igreja e tem aquele carrão”. Aceitei a explicação, mas lhe afiancei que vários parentes meus, católicos, estão na mesma linha, engolindo essa “verdade” da direita reacionária que vive na maior imoralidade, se aproveitando do suor do povo brasileiro, mas pretendendo entregar totalmente o chão brasileiro para os Estados Unidos. Mas por que pensam assim, sobretudo a nossa gente pobre? Porque é muito poderosa a rede de alienação! Máquinas e instituições seguem sendo comandadas por quem sempre dependeu do trabalho alheio, da servidão da maioria. Redes virtuais, igrejas e grande parte da legislação estão alinhadas para manter no poder, no controle do mundo, uma reduzidíssima parcela da população. 

    Quem compra naquela vendinha, inclusive com a ajuda do governo, são os pobres; os que estão em melhores condições se deslocam para irem aos grandes supermercados. Por fim, por que será que esses “moralistas de carteirinhas” não questionam as apostas virtuais, o roubo do banqueiro, os altos juros exigidos pelo mercado financeiro, as falcatruas da família Bozo e tantos outros temas que poderiam aperfeiçoar a nossa cidadania? Por que será que, muito dos beneficiados pelas medidas do atual presidente, querem o retorno daquele que nada de bom fez pelos pobres, sentem “saudades das cebolas do Egito”?

    “Camaleão cego não muda de cor”. O que falta? Leitura, no sentido mais amplo, para ler o mundo e reescrevê-lo!

2 comentários:

  1. O problema é mais grave do que parece. A associação civil sem fins lucrativos que atua nos campos da educação, cultura e juventude, na perspectiva dos direitos humanos, Ação Educativa (acaoeducativa.org.br), criou, em 2001, o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional). Sua função é realizar pesquisas periódicas para determinar o índice de alfabetismo funcional da população brasileira adulta. A pesquisa é realizada com amostras da população entre 15 e 64 anos, e seu objetivo é oferecer subsídios para orientar políticas públicas e mobilizar esforços da sociedade na superação desse desafio. Nessa pesquisa, é medida a capacidade das pessoas de compreender, interpretar e utilizar informações escritas, numéricas e digitais no cotidiano e em diferentes contextos sociais.
    O resultado não é nada animador. Na última edição, realizada em 2024, 30% das pessoas que participaram da pesquisa eram analfabetos funcionais, ou seja, não conseguem usar a leitura ou escrita de forma funcional ou conseguem ler palavras e frases simples, mas tem dificuldade para compreender textos curtos.
    Quando observado o número aproximado de pessoas que estão nessa faixa etária, o número ultrapassa 40 milhões de pessoas, considerando que a idade mínima para votar é 16 anos, podemos concluir que a grande maioria dessas pessoas são eleitores, e que essas pessoas podem decidir o futuro de um país inteiro, onde os maiores afetados são os mais vulneráveis.
    Em 1964, o golpe civil-militar levou à prisão de Paulo Freire e interrompeu o Plano Nacional de Alfabetização, que tinha como objetivo não apenas alfabetizar a população adulta, mas também promover a conscientização sobre seus direitos e seu papel na sociedade. De lá pra cá, uma frase do antropólogo, historiador e sociólogo Darcy Ribeiro define bem qual é o projeto das classes dominantes para a educação: "A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto."
    Não poderia encerrar este texto sem uma citação de Paulo Freire, de seu livro A importância do ato de ler: “Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”.
    Mais Paulo Freire, menos pastores!

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