sábado, 19 de setembro de 2026

GERAÇÃO PASQUIM

 

Arte: Pita Paiva


      “Cézar Montero olhou para cima e viu o céu espesso e baixo a  dois palmos da sua cabeça. Fez o sinal da cruz, esporeou a mula e a fez girar várias vezes sobre as patas traseiras, até que o animal se firmou na lama, escorregadia como sabão. Foi então que viu o papel pregado na porta da sua casa. Leu sem desmontar. A água havia diluída a cor, mas o texto escrito a pincel, em grosseiras letras de imprensa, continuava legível. Cézar Montero levou a mula  até a parede, arrancou o papel e o rasgou”.

    “No portão, um grupo de mulheres comentava em voz alta o conteúdo de um novo pasquim, que aparecera na noite passada. Como o dia havia amanhecido claro e sem chuva, as mulheres leram o papel anônimo quando iam para a missa, de maneira que agora todo o povoado já estava inteirado do fato”.


     Os dois parágrafos acima estão no livro O veneno da madrugada, de Gabriel García Marquez. Conforme adentrei na leitura, descobri que em realidades bem distantes do litoral norte paulista, de Ubatuba, o gênero literário denominado de pasquim também fez sucesso. (Ou ainda faz?). Mas por qual motivo? Creio que é por revelar para mais gente segredos de poucos e movimentar a realidade próxima.

     Em Ubatuba, já vai se findando a geração que viveu a fase máxima dos pasquins. Árvores, portas de igrejas, obelisco da praça, rancho de canoas e outros lugares estavam sujeitos a amanhecerem com um pasquim grudado. Fofocas, informes e quadrinhas de contexto eram temas preferidos. Um ou outro não gostava, espumava de raiva, mas qualquer pasquim resultava em agitação na comunidade. Mais alegria do que tristeza! Na obra de García Marquez tem uma passagem que confirma: “Naquela mesma tarde, o Padre Ángel observou que também na casa dos pobres se falava dos pasquins, mas de um modo diferente e até com uma saudável alegria”.

    Eu me recordo de algumas partes de um pasquim repetido pelo saudoso João de Souza, da comunidade do Itaguá:

     - Tava assim lá, Ronaldo, na porta da venda do Jaca. Eu era quase adulto:


Na casa do falecido

Há uma viúva enlutada

Que abre de noite a janela

Para ficar aliviada.

 

Manezinho da Ponta Grossa

Passeia de madrugada

Presta atenção na janela

E espera uma chamada.



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