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| Arte: Pita Paiva |
“Cézar Montero olhou para cima e viu o
céu espesso e baixo a dois palmos da sua
cabeça. Fez o sinal da cruz, esporeou a mula e a fez girar várias vezes sobre
as patas traseiras, até que o animal se firmou na lama, escorregadia como
sabão. Foi então que viu o papel pregado na porta da sua casa. Leu sem
desmontar. A água havia diluída a cor, mas o texto escrito a pincel, em
grosseiras letras de imprensa, continuava legível. Cézar Montero levou a
mula até a parede, arrancou o papel e o
rasgou”.
“No portão, um grupo de mulheres comentava
em voz alta o conteúdo de um novo pasquim, que aparecera na noite passada. Como
o dia havia amanhecido claro e sem chuva, as mulheres leram o papel anônimo
quando iam para a missa, de maneira que agora todo o povoado já estava
inteirado do fato”.
Os dois
parágrafos acima estão no livro O veneno da madrugada, de Gabriel García
Marquez. Conforme adentrei na leitura, descobri que em realidades bem distantes
do litoral norte paulista, de Ubatuba, o gênero literário denominado de pasquim
também fez sucesso. (Ou ainda faz?). Mas por qual motivo? Creio que é por
revelar para mais gente segredos de poucos e movimentar a realidade próxima.
Em Ubatuba, já
vai se findando a geração que viveu a fase máxima dos pasquins. Árvores, portas
de igrejas, obelisco da praça, rancho de canoas e outros lugares estavam
sujeitos a amanhecerem com um pasquim grudado. Fofocas, informes e quadrinhas
de contexto eram temas preferidos. Um ou outro não gostava, espumava de raiva,
mas qualquer pasquim resultava em agitação na comunidade. Mais alegria do que
tristeza! Na obra de García Marquez tem uma passagem que confirma: “Naquela mesma tarde, o Padre Ángel
observou que também na casa dos pobres se falava dos pasquins, mas de um modo
diferente e até com uma saudável alegria”.
Eu me recordo de
algumas partes de um pasquim repetido pelo saudoso João de Souza, da comunidade
do Itaguá:
- Tava assim lá,
Ronaldo, na porta da venda do Jaca. Eu era quase adulto:
Na casa do falecido
Há uma viúva enlutada
Que abre de noite a janela
Para ficar aliviada.
Manezinho da Ponta Grossa
Passeia de madrugada
Presta atenção na janela
E espera uma chamada.

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