sábado, 26 de setembro de 2026

APRENDER PARA IGNORAR

 

Arte: Tom Cotrim - Arquivo Instagram 

       Eu apresento agora um comentário do amigo Carlos Lunardi, de Caraguatatuba, após ter apreciado o texto “CAMALEÃO CEGO”. Entenda porque uma reduzidíssima parcela da população determina os rumos sociais. No Brasil, mais de 40 milhões são analfabetos funcionais. Milhões de eleitores estão nesta categoria! Quem “faz a cabeça” deles? Como escapar da massificação cultural?

 

       O problema é mais grave do que parece. A associação civil sem fins lucrativos que atua nos campos da educação, cultura e juventude, na perspectiva dos direitos humanos, Ação Educativa (acaoeducativa.org.br), criou, em 2001, o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional). Sua função é realizar pesquisas periódicas para determinar o índice de alfabetismo funcional da população brasileira adulta. A pesquisa é realizada com amostras da população entre 15 e 64 anos, e seu objetivo é oferecer subsídios para orientar políticas públicas e mobilizar esforços da sociedade na superação desse desafio. Nessa pesquisa, é medida a capacidade das pessoas de compreender, interpretar e utilizar informações escritas, numéricas e digitais no cotidiano e em diferentes contextos sociais.
       O resultado não é nada animador. Na última edição, realizada em 2024, 30% das pessoas que participaram da pesquisa eram analfabetos funcionais, ou seja, não conseguem usar a leitura ou escrita de forma funcional ou conseguem ler palavras e frases simples, mas tem dificuldade para compreender textos curtos.
      Quando observado o número aproximado de pessoas que estão nessa faixa etária, o número ultrapassa 40 milhões de pessoas, considerando que a idade mínima para votar é 16 anos, podemos concluir que a grande maioria dessas pessoas são eleitores, e que essas pessoas podem decidir o futuro de um país inteiro, onde os maiores afetados são os mais vulneráveis.
      Em 1964, o golpe civil-militar levou à prisão de Paulo Freire e interrompeu o Plano Nacional de Alfabetização, que tinha como objetivo não apenas alfabetizar a população adulta, mas também promover a conscientização sobre seus direitos e seu papel na sociedade. De lá pra cá, uma frase do antropólogo, historiador e sociólogo Darcy Ribeiro define bem qual é o projeto das classes dominantes para a educação: "A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto."
       Não poderia encerrar este texto sem uma citação de Paulo Freire, de seu livro A importância do ato de ler: “Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”.
     Mais Paulo Freire, menos pastores!

 

Repetindo: de acordo com o Inaf, alfabetismo funcional é mensurado pelas habilidades das pessoas em compreender, interpretar e utilizar informações escritas, numéricas e digitais no cotidiano e em diferentes contextos sociais. 

2 comentários:

  1. Zé, o simples fato da Eva ver a uva, sem ter uma noção global do fato gerador do ato, nos remete ao cotidiano, onde as pessoas ao ver a paisagem ou o objeto, crê que eles sempre estiveram ali, e que é obra do acaso!
    "O homem ao ver suas mãos calejadas e sangrando, um dia acordou, e disse não!"

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  2. Verdade mesmo, mano Jairo! O nosso trabalho faz o mundo.

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