segunda-feira, 26 de junho de 2023

AS PAREDES QUE ME DEVOLVERAM AO PASSADO

 

Joban e a parede - Arquivo Joban

Joban e professor José Wilson - Arquivo Joban

A minha turma - 1971 - Arquivo professora Valda


    Dias atrás o amigo João Batista Antunes, nativo da Enseada, me fez recordar da nossa escola no Perequê-mirim. São escritos assim que trazem, nos devolvem ao passado de crianças caiçaras que tiveram a oportunidade de estudar, de participar dos afazeres e de brincar livremente. Também nos faz recordar de Mestras e Mestres, geralmente provenientes de outras cidades para, em Ubatuba, exercerem o magistério e darem suas contribuições ao nosso ser caiçara, se casarem com caiçaras, deixarem registros importantes etc. Enfim, vamos à leitura de AS PAREDES QUE ME DEVOLVERAM AO PASSADO. (Que também poderia ser BOAS LEMBRANÇAS NUM PEDAÇO DE PAREDE). Gratidão, Joban!


        Quando menos se espera, o passado vem e nos atropela. Nos leva para a poeira da memória, traz de volta lembranças arquivadas pelo tempo. Vem visualmente, às vezes integralmente, às vezes em pequenos detalhes. Assim me senti quando sentado em uma lanchonete no meu bairro, eu vi as paredes dela, onde retiraram o reboco, mostrando os antigos tijolos da construção antiga. Voltei no tempo e vi que eram as paredes da minha escola primária. Me senti como se estivesse sentado na minha velha carteira carcomida pelo tempo. E vi meu velho professor me ensinando a escrever numa velha lousa negra. Seu giz caminhava pela lousa desenhando o saber. Letras se unindo formando palavras, números formando contas. A velha tabuada que eu tinha preguiça e dificuldade de decorar. Sete vezes nove, inquiria o professor; “será sessenta e um ou sessenta e três?” Com a mão já estendida para receber a palmatória, respondia errado: “sessenta e um”. Recebia o castigo, forma esdrúxulas e arcaica de violência para se ensinar, comum naquela época. Os risos dos colegas de classe eram mais doloridos que o castigo. Mas tinha a hora do recreio, onde eu saboreava o pão com ovo, ou peixe frito com farinha trazido de casa. Sempre repartia com aqueles que não tinham o que levar de merenda, também tinha o jogo de bolinha de gude. Bater corda para as meninas pularem no intuito de ver o que não nos cabia ver.

         Lembrei também de um fato pitoresco que aconteceu. No meio e no final do ano, vinha sempre um examinador da Secretaria Estadual de Educação, de Caraguatatuba, para avaliar o progresso das escolas. A secretaria avisava o dia e encaminhava dez perguntas a serem feitas aos alunos. Uma vez, as perguntas e o aviso da vinda do tal examinador, chegou com dois dias de antecedência, não dando tempo para o professor preparar os alunos. Por isso ele escreveu no caderno de dez alunos a resposta de cada pergunta, e quando o examinador fizesse a pergunta, quem tivesse a resposta levantaria a mão. Hugo que era o incumbido de responder sobre Tiradentes, estava nervoso e pediu ao professor para ir ao banheiro. Ele autorizou, mas recomendou que voltasse logo pro causa da chegada do examinador. Mal Hugo havia saído ele chegou e começou a fazer as perguntas. Cada um que tinha a resposta levantava a mão e respondia. Tudo ia dando certo até que o examinador pergunto: “Quem foi Tiradentes?” Joãozinho levantou a mão e o professor ficou surpreso porque era para Hugo levantar a mão. Ele talvez tenha esquecido que o aluno tinha ido ao banheiro. O Examinador voltou a perguntar quem era Tiradentes e Joãozinho respondeu: “Tiradentes foi ao banheiro”. A classe toda caiu na gargalhada e a escola ficou no vermelho.

        Todas essas lembranças explodiram em minha mente vendo aqueles pedaços de velhas paredes da minha escola, que hoje serviam de decoração para a lanchonete que funciona agora no lugar da minha velha escola. Me senti menino. As dores do velho corpo destruído pelo tempo se foram. Deu vontade de sair, correr como se estivesse perseguindo borboletas na volta para casa, depois da aula. Mas minha esposa me tirou do devaneio perguntando o que eu queria escolher para comer, e disse por que eu estava tão distraído. Eu respondi: “Aqui foi minha antiga escola, está vendo aqueles pedaços de velhas paredes? Eles me trouxeram velhas lembranças”. Ela me abraçou e disse: “Só quem aprende o significado do valor do ensino e da educação. consegue ver as lindas lembranças de sua escola em um pedaço de parede”.

12/06/20233 Joban Antunes

quinta-feira, 22 de junho de 2023

VERDE-AMARELO

 


Remo de São Pedro - Arte: Maria Eugênia




        Escolhi o remo decorado pela minha filha para ilustrar esta matéria. Verde-amarelo é a síntese bem elaborada de como até as cores de uma bandeira podem ser aproveitadas por uma ideologia. Lendo este texto do estimado Jorge Ivam, me reconheço nele. Ao avistar bandeiras que ainda tremulam desbotadas em diversas casas revelam imediatamente o meu pensamento: "Ali habita um patriotário". Coisa triste, né? Sobretudo para quem viveu e/ou estudou a ditadura militar, sabe da impunidade de tantos que jogaram contra a soberania do nosso país, mas que seguem tendo muitos aliados e alienados, sobretudo entre os mais pobres que ignoram as causas desse mar revolto, que nem são capazes de se verem como a engrenagem útil e descartável ao projeto de exploração de quem trabalha nesta Pátria brasileira que anseia há séculos por justiça social. A um jovem que me questionou neste assunto, apenas perguntei: "Você sabe a razão do seu avô sair lá do distante sertão mineiro e vir tentar melhorar de vida em Ubatuba? Sabe por que essa Pátria é tão desigual?". Gratidão, Jorge!


      Quem frequentou a escola na época da ditadura militar deve-se lembrar do quanto as cores verde e amarela eram incutidas nos alunos como um símbolo de amor à pátria. Mesmo quem depois da escola conseguiu perceber que o ufanismo é uma tolice e se conscientizou de que a ditadura militar, aliás, como todas as ditaduras, foi muita maléfica para o país, continuou vida afora amando aquelas cores.

      Naquela época, dizia-se que o amarelo representava o nosso ouro, sem mencionar que ele existe aqui, mas nunca foi nosso, digo, do povo brasileiro, porque os poderosos mandaram-no e continuam mandando-o para o exterior. Já o verde representa, diziam, as nossas matas. Ocultavam, no entanto, que a ditadura estava dando incentivos às multinacionais para devastá-las a pretexto de desenvolver a agropecuária.

     Crescemos ouvindo que nossas praias eram mais bonitas do mundo, que nosso futebol era imbatível, que nosso céu era mais azul e tinha mais estrelas do que o céu dos outros países como se o céu não fosse único. Nossa gente é cordial e não há racismo aqui, mas quem era preto ou pardo tinha de portar carteira profissional registrada para não ser preso por vadiagem quando fosse parado pela polícia, e isso era frequente.

       Cantando o hino nacional e ouvindo diuturnamente essas falácias entre muitas outras, crescemos cultuando ardorosamente o verde-amarelo. Na véspera de uma Copa do Mundo, os muros e até o asfalto em muitas ruas ganham estas cores. Pessoas que não se importam com futebol passam a torcer fervorosamente para a Seleção como se de seu sucesso dependesse o futuro da nação. Era um sentimento patriótico legado pela ditadura, mas que já estava desvinculado dela.

       Há quase dez anos, porém, a extrema direita voltou a se apropriar do verde-amarelo já não mais pregando a união do povo num só coração, como sugeria a música-tema da seleção de 70, mas com o claro objetivo de dividi-lo, de disseminar o ódio e, se possível, eliminar fisicamente os adversários sem ao menos ter o escrúpulo de omitir esse bárbaro desejo.

       Em consequência disso é que quando vejo uma pessoa vestida de verde-amarelo tenho asco, ânsia de vômito, porque sei que dentro da roupa com estas cores quase sempre está um indivíduo que odeia a arte, a cultura, a democracia, os direitos humanos; um indivíduo preconceituoso, machista, homofóbico, egoísta; um indivíduo que se diz religioso porque sabe que a religião é um álibi capaz de lhe dar, perante a sociedade, uma feição de gente honesta, quando, na verdade, é uma pessoa vil, que pratica todos os crimes que, em teoria, combate.

     Oxalá que o verde-amarelo volte a ser apenas um símbolo de identidade nacional, mesmo que de um ufanismo tolo, mas sem essa face fascista com que ameaça as pessoas verdadeiramente do bem. 


JIF 31/5/23


quinta-feira, 1 de junho de 2023

SOLIDARIEDADE ACUADA

 


Sebastiana e suas netas - Arquivo Museu Caiçara de Ubatuba


     Dias atrás, bem no centro da cidade, me deparei com um adolescente que há tempos não via. Na verdade, quase não o reconheci porque era uma criança “uns dias desses”. Assim que me viu, me cumprimentou com um bonito sorriso naquele rosto negro. Logo perguntei dos estudos. “Estou fazendo o terceiro ano do ensino médio agora”. Eu quis saber dos planos para o futuro. “Aí vou trabalhar para viver. Fazer faculdade tá muito caro”. Então eu aproveitei para tentar estimular a continuar estudando, comentei das alternativas: ENEM, PROUNI, ETEC etc. Todas iniciativas do governo federal, de um tempo onde se deu mais atenção às populações marginalizadas, marcas de um governante depois substituído por outro que buscou acabar com todos esses programas populares. Foi aí que ele se revelou como um jovem reacionário, formado pelas mensagens enganadoras das redes sociais, defendendo o caloteiro genocida etc.  Me assustei: "Como é possível um jovem estudante negro alienado assim?" A primeira dedução que fiz: "Este rapaz não está estudando como deveria ou está sendo manipulado por uma educação que não quer libertar, não está promovendo a autonomia do pensamento nos estudantes". A minha primeira vontade foi de perguntar: “Você já estudou o processo de escravização que resultou no Brasil, na cultura que temos, na sociedade desigual que até retira de você a possibilidade de avançar nos estudos?”. Ele ficou parado. Então eu continuei: “Vou lhe contar apenas uma situação real, ocorrida com nossos parentes na Caçandoca. É história que ouvi de meus avós e de mais gente nascida naquele lugar, hoje considerado área de quilombo graças a um governante que você está contra. Quilombo você já sabe o que que é, né? Presta atenção então: é a história da Pedra da Janta. Há anos eu fui conhecê-la; fica entre a área onde nasceu o meu avô Estevan Félix e onde era a posse do tio Silvário. O primo Antunes estava comigo, me relembrou: ‘Esta é a Pedra da Janta. Tem este nome porque era onde se esparramava o angu para que os negros escravizados pudessem comer’. Naquele momento eu imaginei homens, mulheres e crianças pretas avançando sobre uma comida pastosa, com mãos sujas, afoitas, enchendo bocas. Imaginei a pedra sendo lambida até o último resto. Enxerguei, em seguida, um feitor ordenando a volta ao trabalho sob gritos, xingamentos e até pancadas na gente cativa. A emoção daquela tarde vivida no morro da Caçandoca, onde está a minha raiz por parte dos Félix, a lembrança de tantos parentes caiçaras dali me marcou por muito tempo”.

        Aquele adolescente negro, atento à minha narrativa naquela esquina da cidade, me surpreendeu, me fez recordar da Pedra da Janta e me emocionou. Triste ver alguém do povo negro seguir um caminho reacionário, contra si mesmo. Triste ver uma pessoa jovem não sendo capaz de sonhar seu próprio sonho, de se conformar com a sobrevivência imposta pela minoria da humanidade. Pior é saber que esse ser, podendo ser revolucionário, se cultiva (via algoritmo) como reacionário, capaz de ignorar por opção a existência de tantas pedras da janta, das agruras de seu povo, das nossas raízes arrancadas da Mãe África. Confirma isto: a solidariedade entre os explorados não é assim tão evidente. Muitas vezes a traição se manifestou para garantir melhores condições de vida a indivíduos apenas.  Mas é importante salientar que em muitos lugares esses espoliados, sobretudo descendentes de africanos tornados escravos, fugiram e construíram outras possibilidades para se viver. Muitos desses locais permanecem até hoje. Podemos afirmar que a vontade de viver, de resistir aos opressores, de formar comunidade era muito forte. Estas foram as bases dos territórios remanescentes de quilombos em nosso território; estas foram as razões do povo negro se concentrar na Caçandoca, no Cambury, na Casanga, no sertão da Fazenda da Caixa, na Ilha do Mar Virado e por aí vai.

       Para me despedir (porque não poderia perder a embarcação), perguntei ao rapaz: “E o calote contra a Caixa Econômica Federal? E as joias das Arábias?”. E ele respondeu: “Mas ele já devolveu as joias”. A conclusão fica por conta de quem estiver lendo.


segunda-feira, 29 de maio de 2023

NINGUÉM ME CONTOU

 

    

Um toco da velha árvore - Arte: Estevan

         Um pescador vivia tranquilo, anos 70, 80...tinha seu rancho na praia, guardava sua canoa, suas redes. Aí veio a lei e a força fez com ele o que a força sempre faz, proibiu sua pesca, começo dos anos 90. Ele vendeu sua canoa,  seus petrechos. O filho perguntou porque não iam pescar mais. "A lei é como uma rede de pesca, pega os peixes pequenos, mas os grandes pulam ou rasgam a rede. Os peixes pequenos somos nós".

        Ele ficou construindo casas, grandes casas em condomínios, de turistas, trocou o remo pela enxada e cimento. Construiu muitas casas, mas nunca conseguiu construir a sua. Morava de caseiro, um dia o dono vendeu a casa com ele dentro, saiu sem indenização  ou compensação alguma. Conseguiu outra casinha, um quarto, para seguir de caseiro. Passaram mais uns anos, ele está velho, mais de oitenta anos. E veio o dono e pediu a casa também. Não tem para onde ir aqui, só tem uma mísera aposentadoria. Essa é a história que sempre acontece e está acontecendo agora!

      Escutei do meu amigo o relato acima. E o encerramento é com esta revelação: “Esse homem é meu pai”. Ou seja, a via sacra de tantos caiçaras continua. A cruz está mais pesada desde o advento do turismo, quando as terras da beira mar foram cobiçadas para empreendimentos imobiliários. Dela enxotaram os ranchos das canoas, as moradias que respeitavam os jundus,  os pequenos roçados cultivados em rotatividade conforme a herança tupinambá, os caminhos de servidão, as áreas destinadas aos passarinhos e pequenos animais (gambás, lagartos, ouriços, cotias, preás etc.), os mangues com sua infinitude de seres e de vegetação tão caras à nossa alimentação e à feitura de casa no pau a pique... Quem de nós nunca se alimentou de manacarus, goiabas, araçás, pitangas e mais frutas das restingas? Quem nunca se encantou com orquídeas, palmas e tantas outras flores que só se encontravam nesses espaços? Quem nunca recorreu à erva baleeira, ao saião, ao assa-peixe e outras plantas curativas que nos valiam nas enfermidades? Quem nunca ouviu histórias de assombração beirando esses lugares sombreados de outros tempos? Quem não reconhece, a partir do que o meu amigo contou, a assombração máxima a infernizar o nosso espaço, a cultura caiçara, os últimos roceiros e pescadores?

      Assombração existe sim! Ninguém me contou. Pelas grimpas dos morros, correndo riscos, se virando como pode está o povo empobrecido e tantos caiçaras. Esse idoso que foi extorquido de tudo no decorrer dos anos agora está sem casa. Uma mísera aposentadoria lhe garante apenas a sobrevivência. É... o peixe miúdo vai desaparecendo. Vai se confirmando a profecia do Velho Zacarias da Ponta (da Fortaleza): “Haverá um tempo em que não haverá mais peixes, obrigando os tubarões a se devorarem uns aos outros”. Triste realidade.

     Na Antiguidade escreveu o filósofo Platão: “Boas pessoas não precisam de leis para obrigá-las a agir responsavelmente, enquanto as pessoas ruins encontrarão um modo de contornar a as leis”. Eu acrescento: criarão as leis que lhes convém. Prova disto é o Marco Temporal contra os povos indígenas, a flexibilização da leis trabalhistas desfavorável à dignidade das pessoas trabalhadoras, as mansões nos antigos roçados da nossa terra, os empobrecidos catando migalhas para sustentar a vida etc. Enfim...  Quem teria um abrigo a esse peixe pequeno que envelheceu nessa labuta de sustentar a riqueza dos outros?

domingo, 21 de maio de 2023

TEM CAIÇARA NA GEOLOGIA

 






Acima mesossauro desenhado pela Giovana; mais acima vô Estevan e vó Martinha na casa do tio Aristides




     

   “Nas escavações de uma mineradora em Rio Claro, pesquisadores têm encontrado fósseis de mesossaurídeos, répteis que viveram aqui e na África há quase 300 milhões de anos, antes mesmo que os dinossauros. São registros de um pedaço da história da Terra que permitem estudar como era o planeta naquela época”. Assim diz o apresentador da matéria no programa televisivo. Além do espaço geográfico e das fotografias dos fósseis, foi mostrado também um desenho do mesossauro. Adivinha quem fez, quem é a artista?

      A desenhista é a Giovana Félix Prado, filha da prima Patrícia, neta do tio Dito e da tia Balbina. Ela está cursando Geologia na Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Rio Claro. Além de ser muito aplicada nos estudos, ela desenha e pinta muito bem. "Gostar e fazer arte é uma veia dos Félix" já disse alguém.  Gi é caiçara da praia do Sapê, onde eu também nasci pelas mãos da vovó Martinha. 

      Quando a gente imaginaria uma caiçara, gente nossa, cursando Geologia? Faz-me recordar do meu filho Estevan que quando pequeno dizia rumar em direção à Arqueologia: “A gente poderia escavar o nosso terreno, descobrir vestígios pré-históricos, montar um museu e cobrar ingresso das pessoas para as visitações”. Hoje ele está cursando Geografia na Universidade Federal de Juiz de Fora. Joseana, Mônica, Paula, Victor, Carla, Maria Eugênia, Estevan, Régis, Gabriela e mais gente querida seguiram passadas além do nosso território de caça, agricultura e pesca... E seguem se espalhando, ampliando horizontes, deixando suas marcas na história da civilização, nos dando alegria e nos honrando. Quem imaginaria esses descendentes do Seo Estevan e da Dona Martinha!?!


Segue o link do programa exibido na televisão

https://www.youtube.com/live/luvMXLnTNJ8?feature=share


domingo, 14 de maio de 2023

HÁ QUE SE CUIDAR DA VIDA

 


Arte em casa - Arquivo JRS

“Sem negro não pode haver ouro, açúcar nem tabaco” (André de Melo e Castro, conde de Galveias, vice-rei do Brasil em 1739)

       No tempo em que o fumo era um dos principais produtos para a negociação na escravização de negros africanos, Ubatuba e outros locais foram cobrados pelas autoridades designadas por Portugal para a produção desse produto. Em 1776, consta na carta de Martim L.L. de Saldanha para os vereadores da Câmara de Ubatuba:


“Visto que me participam de ter chegado a essa Vila o Práctico, que o Snr. Marquez Vice rey mandou a ensinar a plantar, e fabricar os fumos, devem Vmces executar as antecedentes Ordens...para aumento desse Ramo de Comércio...cuidem, logo em que os Lavradores se sujeitem ao ensino do dito Practico, e lhe dem a porção, e comodo, que lhe ordenei...que somente os dessa Ubatuba o repugnão por seus gênios rebeldes, que saberei domar, e castigar, ainda com concurso do Snr. Marquez Vice Rey, para verem, que nem de cá, nem de lá teram couto...”.


        Pelo teor, parece que os habitantes de Ubatuba naquele tempo se recusavam a acatar determinadas ordens. Mas não era só para o comércio na África que se destinava o tabaco. Também era um produto muito valiosos na região mineradora. No século XVIII, “a vida útil de um escravo em Minas Gerais não ia além dos doze anos. A alimentação era precária, em geral, composta por duas refeições por dia na forma de um angu feito com feijão, farinha de mandioca, charque e sal. Fumo e cachaça reforçavam a ração e eram servidos como recompensa para os trabalhadores mais produtivos ou mais submissos”. Assim afirma o pesquisador Laurentino Gomes se referindo ao período aurífero. Ou seja, desta cidade litorânea saía farinha de mandioca, cachaça e fumo também em direção aos sertões mineiros.

     Segundo a historiadora Maria Luiza Marcilio, aquela pressão sobre os produtores de Ubatuba não obteve muito sucesso: “Mas os roceiros que podiam ter alguns poucos escravos, passaram a integrar o plantio dos fumos em suas roças, especialmente no momento de crise da exportação do açúcar e primórdios da introdução do café (últimos anos do  século XVIII e primeiros do XIX). Já a partir dos anos de 1805, não mais vimos a declaração de colheita de fumo local. O café está em franca difusão”. Outro produto do qual hoje em dia nem se fala mais é o anil, introduzido em nosso município na mesma época do fumo, de acordo com a citada autora: “Em 1798 a produção local atingia 75 arrobas, vendidas no mercado do Rio de Janeiro”. Portanto, é dessa época os casarios que eu tive a chance de apreciar até meados do século XX no centro de Ubatuba. Em Paraty, cidade vizinha, há uma preservação desses edifícios que lhe dá o chame de estilo colonial e atrai muitos turistas. Infelizmente tal preservação não foi preocupação das autoridades ubatubenses de outros tempos. Hoje assistimos o mesmo se dando com o meio ambiente que nos circunda. Lixo, esgoto e ocupação desordenada vão resultando em degradações por todo lado. Se continuar neste ritmo, brevemente haverá “choro e ranger de dentes” pela perda da nossa “galinha de ovos de ouro”.  


quinta-feira, 11 de maio de 2023

QUE VENHAM OS CAUSOS!

 

Painel dos Causos - Ceeja Massaguaçu (Arquivo Lu)

Nipônicos coletando sapinhauás no lagamar do Acaraú - Arquivo Igawa


         Ontem, no CEEJA da praia do Massaguaçu, aconteceu mais um momento literário. Pelos informes, os nossos causos caiçaras registrados aqui serviram mais uma vez para dar a conhecer a nossa gente e vivências. Agradeço ao pessoal que nos estima e prestigia em promoções semelhantes. Forte abraço.

     No embalo dos causos, me recordei daquela vez que o Zé Vieira (eternizado em nossas memórias e na estátua do pescador na entrada da cidade de Ubatuba) foi pescar no cais do porto e lançou a linhada com tanta força que o anzol foi parar na praia do canto do Acaraú, onde passeavam patos e gansos do Velho Jaca. Era dia de muita cerração, não se via quase nada. Adivinha o que aconteceu? Pato e ganso são bichos gulosos. Um deles vendo aquilo cair na praia, logo engoliu. Aí começou a briga. Puxa que puxa, com o homem se esforçando até saltar as veias do pescoço. E aí a surpresa: o bicho bambeou na linhada, aboiou, bateu asas e voou. O que aconteceu? Isso ele percebeu: tinha ferrado o ganso do Jaca Vigneron. “Só podia estar mariscando na praia do Itaguá, indo na direção da barra do Acaraú. A linhada foi cair lá. Que força a minha!”. Ao ver aquele “peixe” nobre no anzol, ainda se debatendo, não pensou duas vezes. E deu no que deu. Naquele dia toda  a família se deliciou com o ganso ensopado.

    Alguns me disseram dos comentários tardios do velho pescador. Contava que nunca tinha saboreado uma carne de ganso com sabor de sapinhauá. Explico: naquele canto do Acaraú a areia, na maré baixa, ficava coalhada de sapinhauás. Era demais mesmo! O senhor Igawa até promovia a vinda de japoneses para coletas periódicas. Isto quem me contou foi o seu filho Nelson.

    Na mesma direção do causo do Zé Vieira, ontem a Fernanda, gente daquele pedaço de chão entre Perequê- açu e Barra Seca, nos contou o seguinte:

   “Você sabe, né Zé, que na Barra Seca, no meio do mato, tem lagoas? Pois é! E tem muitas traíras, acarás e outros bichos! Numa ocasião, eu e minha mãe fomos pescar num lago daqueles. A isca era minhoca, tava fácil demais: era só jogar, esperar um pouco e logo puxar os bitelos para o balaio. Foi quando o inesperado aconteceu: um bem-te-vi desceu rapidinho na minhoca do anzol e saiu voando. Coitado. Puxamos logo, mas não teve jeito. Ele morreu”. Coitadas. Já imaginou se fosse um pato, ganso ou ave semelhante? Mas, cá entre nós, conhecendo os velhos hábitos caiçaras, você acha que o passarinho foi desperdiçado?

   Enfim, considerando esses momentos de ontem, podemos afirmar que nos dias atuais essas rodas de causos agora acontecem de outros modos, em espaços que não são os jundus, ranchos de canoas, terreiros etc., mas acontecem!

(Em tempo: eu e Carol rimos bastante do causo da nossa amiga que nestes dias está se refestelando numa fartura de peixes-porco promovida pelos pescadores da Barra Seca).