domingo, 31 de julho de 2022

YVY MARÃ’ENY (TERRA SEM MALES)

A professora e seu filho - Arquivo JRS


    No espírito da busca da terra sem males, ponto de partida da mística dos povos guarani, dos guarani mbya, eu, minha filha e outras pessoas partimos para a aldeia Rio Bonito, em Itamambuca, para aprendermos sobre a lingua desse grupo vindo de Paraty há alguns anos apenas, mas donos desse território imenso, dessas terras da América do Sul, desde quando não existia ainda essas divisas demarcadas pelos europeus exploradores.

     Ivanildes e seus parentes nos acolheram assim que atravessamos o maravilhoso rio Itamambuca. Um café com iguarias da terra foi nosso primeiro momento antes da aula. Todos estavam bem, à vontade, prontos para aprender e dar mais passos para uma maior interação com essa parcela dos povos originários que se compõem no município de Ubatuba.

    O material de estudo é simples, com base em livros didáticos que servem ao grupo étnico em suas escolas. Caso lhe interesse, o curso também é parte de uma meta deles: construir uma nova cozinha comunitária. A contribuição de cada participante ajudará nisso.  A lousa, devidamente amarrada num tronco de palmiteiro [jiçara], foi um dos recursos à mão de Ivanildes que nos envolveu em seus ensinamentos, na aula. Achei importante a prosa inicial: “Javyju [bom dia]. A nossa língua é o nosso espírito. Se ela morrer, a cultura da gente desaparece também”. Quem nunca parou para pensar nisso? (Eu grifei jiçara acima porque era assim que os caiçaras falavam. De seus troncos eram preparadas as ripas usadas para sustentar telhas, armar pau a pique e tantas coisas mais). Do antigo povo Tupinambá, um dos esteio da cultura caiçara, eu vivi alguns aspectos (de cultivo de rotação de espaços de roçados, das coivaras, dos conhecimentos das plantas etc.). Meus parentes caçavam com as mesmas técnicas herdadas há séculos, se viravam com aquilo ofertado pela natureza. Ah! Eu puxei pela palavra pitirão. Sabe o que é? É se ajudar, trabalhar juntos! As casas caiçaras, os roçados e as festas eram realizações por pitirões. Por isso quis saber se havia um termo guarani mbya para esse traço cultural. “Sim, é nhanhoptvõ”. Outra reflexão se deu em torno da palavra tamoi. Novamente a Ivanildes esclareceu: “Tamoĩ se refere a avô. Não o meu avô xeramoĩ, mas avô como homem sábio, de máximo respeito ao nosso povo. Quando se refere à avó de igual reverência é xaryi.  Xejaryi é minha avó”. E lá veio uma mostra da histórias ancestrais do povo guarani! Coisa maravilhosa!

   Sabe o que é yvy rupa? É planeta; a terra, chão de todos nós. É o ponto de partida de cada encontro da comunidade na Casa de Reza: “A primeira reza do pajé é pra yvy rupa”.  Por fim, tal como a Ivanildes eu digo: peju xerekoapy (estou agradecendo a vocês por terem vindo), visitado coisasdecaicara.blogspot.com. O meu desejo é que sejamos um só povo a resistir contra o mal, com a graça de Nhanderu (o pai de todos nós).

 


sexta-feira, 29 de julho de 2022

O TESOURO DO POSSIDÔNIO



 

Embarcação - Arquivo JRS

    Seo Possidônio, pescador do Saco do Sombrio, era um grande contador de histórias. Eu o conheci lá mesmo, no Sombrio, quando a Regina foi trabalhar como professora na escola local. Isso já completou 30 anos. Dessa época vem a minha amizade com Vera e Pedro Antônio, outrora professores na Ilha dos Búzios, parte do mesmo arquipélago da Ilhabela.  Para desembarcar lá era feita uma manobra que exigia agilidade e pernas boas: uma estiva de paus roliços se espalhava sobre a costeira, por onde subiam as pessoas, as mercadorias e as canoas para serem guardadas nos ranchos. Assim se repetiam os embarques e desembarques na Serraria,  Búzios e Vitória, outras ilhas vizinhas onde ainda temos os parentes caiçaras. Ou seja, lugares sem praias. Conforme eu comecei, Seo Possidônio, dentre tantas histórias, me contou do naufrágio do navio espanhol Príncipe das Astúrias. 


     "Foi assim, meu filho: eu era criança de tudo quando aquele mundo de navio bateu na laje, ali na Ponta da Pirabura, naquele lugar que sempre foi bom de peixe. Garoupa então, ai, ai, ai... Neste tempo, desde sempre, é em volta da laje que a gente que pesca está se acabando na espada. O menino do Élcio me disse ontem mesmo que eles levaram para o porto [centro da Ilhabela] uma quantia que encheu quinze caixas no mercado. Já pensou?! Então, foi lá que aconteceu o infortúnio. Era começo de março, logo depois do carnaval. Os mais velhos diziam até que foi castigo de Deus por eles terem farreado demais, fazendo coisas que não se deve. Eu hoje penso que pode até ter sido devido à grande festa que falavam de ter acontecido a bordo. Vai saber! De repente o comandante bebeu demais, o timoneiro adormeceu, passou perto da costeira...e...o destino foi a pedra rasgando aquilo tudo, levando a pique quase que imediatamente aquela carga toda, aquela gentalhada. Só sei dizer que muitos corpos foram encalhando por todo quanto era lado. Dizem que até em Ubatuba a correnteza levou defuntos. Nem tinha como enterrar tanta gente. Urubus, guaiás e outros bichos fizeram a festa”. Nessa hora eu intervi na prosa, contando das histórias dos meus antigos a respeito dos corpos encalhados na Bela Vista, entre as praias da Santa Rita e Enseada. “Pois é, meu filho, foi assim. Depois eu cresci, me tornei um bom mergulhador, mas nunca tive equipamento para ir naquela profundidade, ver se alcançava alguma coisa de valor. Você acha que, entre tantas cargas afundadas, não deve haver ainda um monte de coisas que vale a pena uns mergulhos? As notícias falavam de quase quinhentos mortos nessa viagem que partiu da Espanha e seguia para a Argentina. Coitada dessa gente! Agora eu estou velho, mas ainda sinto vontade de mergulhar nas profundidades para vasculhar o que resta de tudo aquilo. Quem sabe eu não encontre um tesouro, né?”. E terminou tudo em uma gostosa gargalhada.

 

Nota histórica: o Príncipe das Astúrias naufragou no dia 5 de março de 1916. Oficialmente tinha capacidade para transportar mil e novecentas pessoas, mais a tripulação. Tudo isto se compõem no Tesouro do Possidônio. Certamente que muita gente já vasculhou os destroços na Ponta da Pirabura. Seo Possidônio faleceu há alguns anos levando o sonho do tesouro.

 








   

quarta-feira, 27 de julho de 2022

A MULHER NO FANDANGO

Na beira do mar - Arte: JRS


       De repente, na madrugada, vejo no instagran, um endereço: a mulher do baile. Em seguida, um texto me prende ao tema fandango, sobretudo porque o destaque é a Mestra Laureana, do Prumirim. Que importância tem essa mulher e as mulheres que promoveram esse encontro de duas comunidades caiçaras (uma em Paraty e outra em Ubatuba)! Transcrevo o registro na maior felicidade.


     No sábado [23/7] aconteceu a Vivência de Danças entre a Ciranda de Tarituba e o Grupo Sementes do Prumirim da Mestra Laureana. A proposta busca estimular as trocas entre as duas cidades: Ubatuba e Paraty e também a valorização da mestra fandangueira Dona Laureana que vem fazendo essa transmissão dos saberes no quintal da sua casa. Foi um desejo do próprio grupo ter essa troca já que algumas danças em Ubatuba já não se dança mais, ficaram esquecidas. E essa vivência também é uma forma de provocar a criação de laços entre as mulheres, entre as crianças e entre as duas cidades (Paraty e Ubatuba), fortalecendo a união e a cultura caiçara através da música e das danças. O momento foi muito bem aproveitado! As crianças se divertiram e puderam conhecer a comunidade caiçara de Tarituba e sentir a sua cultura valorizada ao dançar para o grupo. A dinâmica da vivência foi pensada na hora ali pelas mulheres do grupo (Luisa, Alice, Cláudia). Elas definiram uma apresentação dos grupos para que possam se conhecer melhor, e ,depois, uma forma para que cada grupo dançasse do seu modo o Xiba, a Ciranda, o Caranguejo e por último da Flor-do-Mar (que em Ubatuba não se dança mais). No final fizeram um Arara e Maria Põe o Barco N'água pra fechar!  Agora ficou a vontade de levar a Ciranda de Tarituba para conhecer o Prumirim.

sábado, 23 de julho de 2022

NEM TE CONTO...

Ateneu Ubatubense - Arquivo Ubatuba


    Ultimamente tem se falado bastante acerca das narrativas, de como elas são reforçadas ou destruídas, qual a importância delas para os rumos da sociedade, do planeta etc. Eu me encontrava mexendo nas plantas quando ouvi alguém passando e gritando ali perto:  "Fala aí Irmão Torresmo!". Imediatamente um outro, o suposto Irmão Torresmo respondeu: "Fala, Ladrão de Internet!". 

    Essas falas, parece coisa boba, me direcionaram as reflexões. É bem possível que o que foi 'xingado' de Irmão Torresmo é crente, professa religião evangélica. O outro, ao ser classificado como ladrão de internet, deduzi ser um 'esperto' a viver acompanhando tudo no mundo virtual graças aos pontos eletrônicos bancados pelos outros. Mas...também pode ser um aplicador de golpes via internet. Pelo que eu ouvi das reações, o Irmão Torresmo não gostou muito de ter este apelido, ao passo que o outro pareceu se sentir orgulhoso em praticar alguma espécie de malandragem virtual. Ou seja, as narrativas desmerecem um aspecto e reforçam outro. Outro exemplo do cotidiano: é corriqueiro topar com adolescentes afirmando que estão faturando graças à venda de drogas. Isto não parece um estímulo a uma profissão execrada pela sociedade em geral? Acabei de ler um livro onde estava registrado: "Os Estados Unidos são os maiores compradores de drogas via fronteira com o México". Ou seja, de onde parte a maior repressão às drogas a nível mundial está o maior mercado consumidor dos tempos atuais. Quando eu comentei isto com um amigo, eis a reação dele: "Eu já sabia! Os ricos são os que estão no topo da cadeia consumista. Quer ver e comprovar? Dá uma volta na madrugada pela principais ruas do bairro, repare nos carrões que aqui adentram e adquirem os produtos nas mãos dos 'meninos', dos vendedores. É um movimento intenso, amanhece o dia". Isso tudo são exemplos de narrativas relativamente novas no universo caiçara. Outrora, o ritmo era outro, as necessidades eram outras, as ambições eram restritas porque os contatos com as novidades do mundo eram limitados. Na minha infância, a energia elétrica estava começando a se espalhar pelos bairros, as ruas eram escuras, a vida caiçara se envolvia entre a pesca e a agricultura porque o turismo ainda era fraco, acontecia em dois períodos do ano. (Agora é o ano inteiro!). Ou seja, tais narrativas compunham a vida de pescadores e roceiros, os causos reforçavam o nosso universo místico caiçara. Quando bem mais tarde, já na juventude, eu quis aprender o que a cultura científica (das universidades) dizia desse meu mundo, escutei o seguinte do professor Diegues:

   - Consideramos a pesca artesanal como sendo aquela em que os pescadores autônomos, sozinhos ou em parcerias, participam diretamente da captura, usando instrumentos relativamente simples. A remuneração  é feita pelo sistema tradicional de divisão  da produção em "partes", sendo o produto destinado preponderantemente ao mercado. Da pesca retiram a maior parte de sua renda, ainda que sazonalmente possam exercer atividades complementares. No entanto, eles se distinguem dos pescadores/agricultores ou de subsistência, cuja atividade principal é a agrícola e pescam principalmente para consumo familiar.  É, parafraseando disse Pedro Bandeira: "Devo muito aos livros e à escola".

     Resumindo: os tempos são outros, as narrativas são outras. Quais os desdobramentos das modernas narrativas (do Irmão Torresmo, do Ladrão de Internet, da Profissão Traficante etc.)? A  que modelo de sociedade elas servem? Quais narrativas de poder político elas reforçam ou destroem? A que reflexões, lições de vida, elas se prestam?

    Nem te conto o que acabei de saber agora, neste instante! Nem te conto...

sexta-feira, 22 de julho de 2022

ILHA FLORIDA



 


Um lugar no campo;

Um restaurante distante;

Um grupo querido, em família.

 

Um lago;

Umas plantas bem cuidadas;

Uma recordação há milhas.

 

Uma orquídea, tipo vovó;

Um crescimento desmesurado;

Uma necessidade de partilha.

 

Uma filha-parceira ousada;

Uma escolha bem feita;

Uma nova planta-maravilha.

 

Uma primeira florada;

Uma contemplação a todo instante;

Uma recompensa às amigas, mãe e filha.


Uma nova visão a cada manhã;

Um conjunto no quintal;

Um tronco de açaí: sua nova ilha.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

EMPURRANDO E SENDO EMPURRADO

Igreja Matriz de Ubatuba por volta de 1900 - Arquivo  Ubatuba


“A história me empurra e eu empurro a história” (Velho Rita)

       Hoje, felizmente, ainda há muita gente boa no mundo. E em Ubatuba também!  Fico feliz com isso; daí a importância das boas ações e boas orientações nos lares e nas escolas. Como disse Nelson Mandela, se referindo às ruindades que se alastram entre as pessoas: “Se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinados a amar, porque o amor ocorre mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto”. Eu, graças a uma série de fatores, pude conviver com um monte de gente boa, da antiga cepa caiçara. O Velho [Sebastião] Rita, do Itaguá, foi um deles. Depois de 1980, eu não deixava de visitar o casal Josefa e Sebastião para ouvir suas histórias. Deles eu aprendi que, “no tempo d’antes não havia o cemitério do jeito que é hoje. Uns eram sepultados dentro da igreja, num chão arenoso, outros, sobretudo escravos e pobres, pelos diversos lugares espalhados pelas praias e morros”. Escutei com repulsa, imaginando o fedor que deveria permanecer no espaço fechado da igreja. Mais tarde li em algum lugar que o padre João, o alemão, resolveu dar um fim nessa porcaria. E continuou o casal de idosos, “depois, quando a gente nem era nascido, perto da onde era o hospital antigo (que pegou fogo), fizeram um cemitério mais saudável. Junto dele, a Irmandade do Santíssimo Sacramento, tinha uma área reservado aos seus membros que fossem falecendo. Demorou um pouco para todos os mortos serem ajuntados, serem enterrados num lugar único, onde é até hoje, não muito longe da Praia do Cruzeiro [Iperoig]. Mas quando a varíola chegou por aqui, por volta de 1900, foi reservada uma área só para os bexiguentos [bexiga era outro nome para varíola], cercada de arame farpado, na mesma rua [D. João III]. Hoje não existe mais”. Conversando em outra ocasião com o finado Antônio Freitas ele me inteirou que era ali, onde hoje está o terreno da empresa de ônibus São José, entre as ruas Thomás Galhardo e Dom João III, bem no centro da cidade.

        Quando eu quis saber como deram jeito na epidemia da varíola, de que modo se acabou com  a mortandade dos bexiguentos, o casal de caiçaras do Itaguá me explicou: “a tal de bexiga se tornou conhecida em nossa terra por esse nome porque seus sinais eram bolhas, bexigas pelo corpo, que contagiavam facilmente. Por isso recomendavam de queimar as roupas dos infectados, defumar as casas com enxofre e depois caiar com água de cinza as paredes. Os defuntos precisavam ser enterrados separados porque a doença permanecia ainda por muito tempo, mesmo debaixo da terra. Assim, o cemitério do bexiguentos era só para bexiguentos. Ninguém tinha coragem de passar nem perto daquele lugar. Nos dias de hoje já se esqueceram disso tudo. Não vai demorar muito tempo para tudo aquilo virar prédio”.

        Como estavam com razão a Dona Josefa e Seo Sebastião! Os prédios surgem e sobem rapidamente em razão da voracidade dos lucros imobiliários. Já pensou que a sua habitação pode estar sobre um “arsenal” de armas biológicas de outros tempos?

terça-feira, 19 de julho de 2022

GRITO DE CARNAVAL NO ARACA

Enseada - 1980 (Arquivo Postal)


        Olhei para o veículo, um bugue com capacidade para quatro ou cinco pessoas. Próximo dele um grupo imenso se preparando para sair em direção à folia. Me perguntei: “Como vai se acomodar ali aquele tanto de gente?”. Eu estava por perto, no Bar do Pedro, "O Velho Comunista”. Nícolas, Manoel e outros discutiam coisa boba: “Os paulistas fazem percussão com as mãos, assim ó” - E demonstravam suas habilidades no ritmo dos toques dos dedos nas palmas das mãos – “mas os cariocas são exímios batuqueiros em caixa de fósforos! Quem nunca ouviu eles acompanhando sambinhas maravilhosos?”. E assim, em futilidades, "sabedorias de bêbado", o tempo passava. Quando Clodoaldo quis apressar a saída, dizendo que a Enseada era longe, um deles respondeu na gostosa risada: “Calma, Clodô. Eles têm relógio, mas nós temos o tempo”. Todos caíram na gargalhada. Só que quem estava preocupado também tinha razão: o Rancho do Araca, onde seria o “Grito de Carnaval”, na praia da Enseada, distava bem uns dez quilômetros. Naquele tempo, naquele horário da noite, nem sei se havia mais do que um horário de ônibus. Eu alertei: “Não se esqueçam que o última condução que vai até o Lázaro sairá às 23 horas (onze horas), logo-logo. Olhei o meu Mondaine e completei: acabou de sair o derradeiro que segue até Caraguá. Agora só resta o circular”. Enquanto isso, o pessoal do bugue discutiam detalhes, com alguém já desistindo porque não queria passar a noite no “Casarão”. Explico: outro baile que estava prometendo era “O Grito do Casarão”, do Sorroche, na praia da Lagoinha, bem mais longe ainda, uns vinte quilômetros, quase chegando no Sapê. Logo estava embarcando aquele tanto de gente naquele minúsculo veículo. Até uma criança tinha no meio deles: uma menininha, a Paulinha, com os olhos sonolentos a pedir uma cama: “Quero dormir, papai”. Uma massa disforme se amontoou sobre as quatro rodas. O carro dava a impressão que iria se desconjuntar a pouca distância dali, quando topasse os primeiros buracos. (Eles já eram muitos também naqueles idos de 1970!). Seo Pedro, “O Velho Comunista”, estava inconformado com tudo aquilo de gente trepado daquele jeito: “Se esse carro deixar a cidade, se chegar até o Itaguá, é a prova de que a nossa polícia não tá prestando pra nada além de levar bêbado para o xadrez. Onde já se viu tamanha irresponsabilidade? Se o 'Jacaré' e o 'Arcidão' passarem em ronda por aqui agora, eu sou capaz de não atendê-los enquanto eles não pegarem a 'Baratinha' e impedirem essa loucura de tempo de carnaval. Onde já se viu correr risco tão grande só por causa de um Grito de Folia?”. Não teve como discordar do velho e experiente revolucionário. “Sabe de uma coisa, pessoal? Eu não irei mais para a farra com vocês”. Embarquei na minha Monark e saí pedalando antes que eles quisessem me segurar mais por ali. Tomei o rumo do Itaguá, passei diante do Chaparral, escutei os embalos da batucada que já começara. Me detive na casa do amigo Tiãozinho Mesquita: “Vamos?”. “Vamos sim!”. No Le Bateau também corria solto a farra de abertura do carnaval naquele ano (avistei uns conhecidos na portaria: Élvio, Fátima Souza, Kiko Japonês, Cida Mesquita...), mas passamos direto, pedalando. Na Enseada o destino nos aguardava: “Grito de Carnaval no Araca”.  Quem acomodou nossas bicicletas numa velha pitangueira foi o nosso colega Gildásio, filho do Aracaju, dono do rancho. Alguns parceiros já estavam no embalo: Zé Defunto, Dinho Henrique, Nenê, Moisés do Bagre, Carlinho do Dócio, a moçada do Jacundino, Dimas Bureta etc. Os demais que dependiam de ônibus chegaram bem depois, se admiraram por nos verem já cansados de tanto pular. Todo mundo brincou e ficou satisfeito; mais um sucesso do Rancho do Araca naquele ano. Eita tempo bom! Quando o dia amanheceu na Enseada, alguns caiçaras aproveitavam a maré baixa para catar sapinhauá no lagamar. Lembra-se disso, Gildásio?