sábado, 15 de setembro de 2012

FOI A LONTRA. E DAÍ?

                Eu sempre gostei de andar pelos matos, nos nossos caminhos de servidão e nas antigas ligações que atravessam a Serra do Mar em direção às terras de Serra Acima. É herança de família!
                A foto de hoje mostra um desses momentos, quando eu e alguns primos paternos do Sapê e Sertão da Quina fizemos a trilha do Campo (que nos liga à Vargem Grande, no município vizinho de Natividade da Serra, grande produtora de farinha de mandioca na atualidade, abastecendo os nossos mercados).


                Por ocasião dessa caminhada, ao pernoitarmos um pouco abaixo do Campo (um local arenoso em partes, com cheirosas plantas, sobretudo candeias, e, uma porção de brejo muito interessante), tivemos uma surpresa: ao amanhecer, o frango que deixamos afundado no rio de águas geladas, com uma pedra prendendo bem, amanheceu despedaçado, com partes espalhadas em volta. Na hora foi um consenso: a lontra o descobriu durante a noite.

                 E agora? A preocupação era com o planejamento. Afinal, o frango era para o almoço; seria cozido junto com palmito e nos sustentaria para outras tantas horas de caminhada.

                 Ainda bem que os meus primos são práticos demais e sem nenhuma frescura moderna. Assim foi resolvido: na hora do almoço juntamos as partes espalhadas à parte maior do frango, colocamos no caldeirão junto com os toletes de palmito e o fogo brando deu o toque final. Depois cada um se conteve para não avançar na parte do outro. Que delícia! 



                Após a refeição, quando a maioria estava na sesta, o meu primo Ninico (Alcemir) disse:

                 - Quase que nós perdemos o frango! Acho que o bicho ficou com dó da gente. Eu prefiro dizer que foi a lontra. Foi a lontra. E daí? Ela comeu um pouco, mas nós comemos o resto!
                Vale a pena contratar algum morador local e se aventurar nesse que é um dos mais antigos caminhos do nosso território caiçara: a Trilha do Campo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

PAZ OU TRAIÇÃO?



                Após mediação dos padres jesuítas, aconteceu nessa área (Aldeia de Yperoig, mais tarde Vila Nova da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba) a denominada “Paz de Yperoig”. Mas parece que a paz resultou em traição conforme o texto ilustrado pelos irmãos Eudes e Marta, moradores do bairro do Ipiranguinha, em Ubatuba.

                Os pontos defendidos pelos índios confederados não parecia conter nada de extraordinário. Queriam: a libertação dos prisioneiros que se encontravam nos trabalhos forçados dos engenhos, o fim da prática de escravização, entrega dos chefes traidores para serem julgados pelos Tamoios e que os deixassem viver em paz, como os verdadeiros donos da terra. Os portugueses concordaram. Assim surgiu o acordo que hoje é chamado de Paz de Yperoig. A tradição diz que foi no dia 14 de setembro de 1563.

                Era de se esperar que o tratado de paz não fosse respeitado pelos portugueses. Afinal, eles cruzaram os mares na busca de riquezas. Imagine abrir mão de vultosos lucros por causa de povos que, segundo o pensamento religioso da época, nem almas tinham. Por isso, a aldeia de Yperoig foi a primeiras dos Tupinambá a ser incendiada.

                O feriado deste dia (14 de setembro) tem duplo nome: Dia da Exaltação da Santa Cruz e Dia da Paz de Yperoig. Bem que poderia aparecer uma proposta para que se mudasse para o Dia da Traição de Yperoig, pois foi isto que aconteceu.

                Pois é! Paz de Yperoig é um nome mais adequado para cemitério! Pelo menos alguns chefes da Confederação dos Tamoios se tornaram nomes de ruas (Cunhambebe, Aimberê, Araraí, Pindobuçu, Coakira...).

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

QUER PAZ?



                Para entender a razão de feriado de amanhã (Paz de Yperoig), reproduzirei parte do trabalho que teve a participação do Eudes e da Marta como ilustradores. Já é do conhecimento de muitos que ambos, assim como tantos outros da nossa realidade próxima, por enquanto não receberam um incentivo mais concreto para poderem deslanchar no talento de desenhistas. Ou seja, quero dizer que o município não está investindo na cultura como deveria. Por isso perdemos talentos, deixamos de oferecer oportunidades, principalmente à juventude. Também as chances de sediar eventos variados para atrair novos turistas vão se embora. Por fim, aqueles que são mais ousados estão indo embora para tentar a vida em outros lugares. Mas vamos à História:


                Em 1563, os padres Anchieta e Nóbrega partiram numa comitiva para negociar a paz com os confederados Tamoios. A aldeia de Yperoig, que segundo alguns especialistas significa “água de tubarões”, localizada onde hoje é a cidade de Ubatuba, foi escolhida como território de negociação devido a presença de um cacique conhecido por Koakira, considerado amistoso pelos jesuítas.

                Após algumas conversas, os caciques impuseram determinadas exigências que não estavam ao alcance do poder de decisão da comitiva pacificadora. Ou seja, somente os patrões, estabelecidos na sede da capitania, poderiam dar uma resposta. A proposta indígena foi encaminhada para São Vicente, mas o padre Anchieta ficou como refém, aproveitando, dentro das possibilidades, desfrutar do paraíso que era a baía do Rio Ubatuba, que poderia muito bem designar muitas ubás (uma espécie de cana silvestre que dá uma haste muito apropriada para a confecção de flechas e gaiolas). Afinal, é notório até os dias de hoje a abundância delas nas margens arenosas e na restinga da cidade. Dizem que foi esse ambiente o inspirador do sacerdote, levando a escrever os mais de mil versos à Virgem Maria. Na falta de papel e caneta, ele usou a areia da praia e uma vareta de jambui.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CADA COISA!


Guinho, Gê e Nel (o menor)
  

                Não tem muito tempo que é falecido o tio Tonico, irmão da saudosa mamãe. Era homem bom, afeito à vida religiosa. Vez por outra discorria sobre determinado assunto ou noção que lhe parecia essencial, fazendo me pensar num filósofo. Também era muito curioso.

                Já a tia Ana, sua esposa, sempre agiu mais pela emoção, se impressionando depressa por pouca coisa. Esta característica da titia, dentre outras, permitiu ao seu filho (Nelson) vivenciar a seguinte situação:

                - Pois é, Zezinho! A minha mãe é assim mesmo, se assombra por pouca coisa! Imagine você que, na semana passada, ao chegar tarde da noite em casa, ela, como é de costume, estava acordada tendo ao lado o cesto de costura. Logo foi me dizendo de coisas estranhas em casa, de um barulho muito diferente, como se fosse um peixe roncador no balaio, mas num tom tenebroso, parecendo um tremor. Bastava ficar quieto para perceber a manifestação. “Coisa de assombração”, me garantiu.

                E continuou:

                - A coitada estava rezando, aspergindo os cantos da casa com água benta e até fazendo promessa. Enquanto isso todo mundo dormia. A minha mãe tem uma audição muito boa. De repente parou a falação e me ordenou que prestasse atenção. Eu também escutei. Vinha do quarto da Amélia, de um aparelho que estava sobre a cômoda. Mostrei para a minha mãe que aquilo era a assombração. Foi o seguinte: o celular estava no modo de alarme de vibração. Então, espaçadamente, com um efeito maior devido à madeira fina do móvel e ao silêncio da noite (e da vizinhança!), produzia a “assombração”. Rimos muito.

                Eis a conclusão do Nel:

                - Fiquei com muita dó da mamãe. Sabe por quê? É por que, da tão estimada e venerada “garrafa de água benta do Padre Donizete”, restou quase nada, um dedinho só. Adivinha quem vai ter de subir o Morro da Anta para completá-la na biquinha dos antigos?

                Emendei a narrativa dizendo que, para uma assombração de tão alta tecnologia, logo vai ser preciso inventar outra espécie de água benta. Mas isto é tarefa para uma Igreja Virtual, né?

                Assim avança a filosofia, que é uma reflexão sobre saberes disponíveis.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

ÁGUA POTÁVEL




Brota das raízes, ganha volume, forma rios e chega à beira do Caminho da Lagoa para nos saciar a sede. (Arquivo Henrique)

                Finalmente eu tenho o meu Arrelá Ubatuba, da amiga Fátima! Você ainda não leu? Então, vez por outra, vou lhe apresentando as pérolas desta caiçara, filha do saudoso João de Souza, minha colega de escola “do tempo do calção curto e da saia pregueada”.

                O texto escolhido para este dia, sob inspiração da água dos nossos caminhos, tinha que ser...

                Água potável

                A nova estrada cortando o Município de Ubatuba enchia de orgulho e esperança de uma vida melhor os moradores dessa terra Tamoia.

                Era janeirão, o calor do meio dia escaldava um aventureiro que saiu do Rio de Janeiro seguindo a trilha da Rio-Santos a desvendar os mistérios da Serra do Mar recortada por paradisíacas praias selvagens.

                A estrada estava em construção, o trecho Ubatuba-Paraty estava sem asfalto e a poeira afogava quem se aventurava passar por ela.

                O aventureiro carioca estava com a goela seca. Depois das escalas nas cachoeiras da Escada e do Promirim, chegava ressacado nos arredores da Barra Seca.

                Passando pelo Sumidouro avistou uma senhora que transportava um pote na cabeça. Deduziu que em algum lugar por ali deveria ter água boa para beber. Não errou. Realmente, na encosta do morro havia uma fonte d’água. Parou o carro e seguiu a senhora que ia se abastecer na bica. Da beira do barranco cumprimentou a senhora:

                - Bom dia, minha senhora, essa água é potável?

                Ao que a senhora respondeu irada:

                - Quem u senhô pensa qui eu sô? Eu num trabaio pra vagabundo! Essa água é pro Dimirso. Pro Otávio num carrego nem um copo.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

MEMÓRIA


Galhetas e Lagoa: logo estas colunas, desprezadas pelo Turismo Cultural, estarão completando dois séculos.

                Ontem, num ritual de domingo à tarde, a amiga Fátima me telefonou dando notícias pouco animadoras a respeito da saúde do Eduardo Souza. Conforme ia falando, se recordava de tantos momentos e escritos desse escrevinhador caiçara.

                Após acertarmos alguns detalhes para uma visita ao enfermo, fui relembrar de um texto de autoria do historiador Norberto Luiz  Guarinello. O tema é Memória:

            Memória é a estrutura mais ampla e abrangente. É o próprio cimento da vida cotidiana. É, ao mesmo tempo, uma habilidade natural e uma construção  social, uma atividade, um trabalho que dá sentido ao trabalho morto que  compõe o palco da vida.
              A memória, individual ou coletiva, não é um repositório passivo, mas ativo, atuante, um imenso produto cultural. Memória é o vínculo, material ou ideal, entre passado e presente que permite manter as identidades a despeito do fluxo do tempo, que permite somar os dias de modo  significativo. É ela que dá sentido ao presente. É essencial tanto para indivíduos como para a sociedade ou para grupos dentro dela. Seu contrário, a  amnésia, tanto individual como social, corresponde à inação quase absoluta.
            Não existe ação que não seja calcada na memória. Mas memória não é apenas um recurso que possibilita a ação. É uma poderosa estrutura, um instrumento para o agir social e, portanto, uma fonte de poder.
            São várias as formas da memória social, em diferentes sociedades. A escrita e o processo educacional são formas de memória, assim como a tradição  erudita, livresca, a ciência, ou os relatos orais e as estórias que circulam entre grupos, os mitos, os heróis comuns e assim por diante.
            Memórias sãoproduto de trabalho, são fabricadas. Mas são também acúmulos de trabalho morto que condicionam o presente ou permitem agir sobre este de modo decisivo, conferindo sentido à ação e identidade aos agentes. A memória, sendo fonte de poder, é também, inevitavelmente, um campo de batalha onde se defrontam interpretações do passado e do presente pelo passado, onde se criam e destroem identidades, tradições, símbolos, crenças, sentidos da vida que podem inibir ou estimular ações, individuais ou coletivas.
            Depois fiquei pensando em um monte de coisas, em tantas pessoas... Olhando as fotografias recentes, me vi preocupado com um princípio ganancioso. A especulação imobiliáriajá deu demonstrações do que é capaz de fazer. As ruínas da Caçandoca, por exemplo, foram destruídas pelo  grupo que pretendia apagar qualquer sinal que comprovassem o histórico de seu território.

            Agora me pergunto:


domingo, 9 de setembro de 2012

O NOSSO CHÃO


Praia da Figueira
                Se ficou difícil encontrar um caiçara para prosear no jundu e conviver nas coisas básicas a culpa não é minha.

                Tem um sistema que parece não ter mais volta. Imagino ser como os tais buracos negros (do céu, lógico!), onde, pelos que dizem os astrofísicos, tudo vai sendo sugado, tal como uma tromba d’água sobre o oceano. Depois, em algum lugar, as coisas vão aparecer, trarão consequências semelhantes  à chuva de peixe que uma dessas trombas jogou no Sertão do Ubatumirim há muitas décadas.

                O que eu faço com muito prazer é conduzir os amigos aos lugares da minha terra, destacando os detalhes que permitam imaginar o meu povo e os seus hábitos em outros tempos, sobretudo as características da ocupação do território e a convivência  no cotidiano.

                A atividade de ontem, num dia de feriado prolongado, foi para apresentar aos amigos (João, Jorge e filhos) - e também ao meu filho! - a extremidade sul do município, desde as Galhetas até a Praia da Lagoa, fazer alguns comentários dos lugares e das pessoas que por último moravam na área, com as quais convivi,  principalmente o Aristeu e a Odócia.

                Os pontos destacados: Ruínas das Galhetas, Praia da Figueira, Caminho de Servidão, Praia da Ponta Aguda e a minha convivência, Praia Mansa dos Ranchos, a A.S.E.L como sustentação aos pobres caiçaras, a Mata Atlântica conservada no caminho da Lagoa, o que foi a Fazenda da Lagoa, os detalhes de um jundu muito especial e... a Formosa Lagoa.

                Valeu o dia e a nossa convivência!