sexta-feira, 14 de maio de 2021

BAMBU NA ESTRADA

 

Morro do Perequê-mirim (Arquivo Ubatuba)



       Em um dia distante, bem na curva da estrada nova, Manelão e outros estavam descansando, no horário de almoço. Logo ali, na Enseada, era o acampamento, onde se concentrava o maquinário e ferramentas. Chico Simão era o responsável pelas dinamites que estouravam pedras do traçado. Um morro, na Ponta do Perequê-mirim, perto de onde morava o Antônio Julião, teimava em continuar deslizando.  

    - Eu recomendo - disse Manelão - que seja retirada essa última carrada e depois plantemos bambu. Planta boa, logo vira touceira e segura tudo o que for descendo aos poucos. Depois, com terra parada, outras árvores nascerão e crescerão.

     E assim foi feito não só ali, mas por todo o trajeto, onde cismavam que havia necessidade de segurar a terra e garantir a rodovia funcionando. Ao passar na estrada que liga Ubatuba a Caraguatatuba, reparo nos lindos bambuzais e penso na importância de dar atenção às opiniões dos trabalhadores. Além de enfeitar, esses detalhes naturais cumprem importante função. 

    Justo Arouca escreve que, em 1956, antes de enfrentar o Morro do Maciel, na Enseada, foi autorizado a construção de um acampamento com estrutura capaz de atender as necessidades da administração geral da já citada rodovia. Foi onde ocorreu um grande incêndio, quase virou tragédia para os funcionários acampados e aos caiçaras que tinham moradias próximas. "É que um caminhão tanque do próprio DER, carregado com dez mil litros de gasolina pegou fogo, em pleno pátio de abastecimento, em cima de um reservatório subterrâneo com mais de cinco mil litros de combustível. Não havia bombeiros e os extintores foram poucos para debelar as primeiras chamas. Outros tanques enormes para armazenamento de óleo diesel, também pegaram fogo, o mesmo acontecendo com dezenas de tambores de óleos lubrificantes. Com o aquecimento explodiam e expeliam sua tampas para o ar levando chamas que pareciam fogos de artifício; o líquido ardente esparramado pelo chão aumentava o facho ardente. O caminhão-tanque, as máquinas de abastecimento e todo o aparelhamento usado no posto ardiam em chamas e lançavam no ar rolos de fumaça que era vista desde o centro de Ubatuba, distante oito quilômetros". 

     Hoje, bem de manhãzinha, pensei nisso tudo. Me recordei de tantos trabalhadores que conheci dessa empreitada (Vitor Mendes, Dito Socca, Domingos Socca, Chico Simão, Manelão, Domingos Barreto, João de Souza, Jovelino, Arcendino...). Toda essa gente trabalhou sob condições difíceis para que pudéssemos ir mais facilmente de uma cidade a outra!

quinta-feira, 13 de maio de 2021

ANJO RESGATADO

 


Dona Idalina,a escritora caiçara  de antigamente (Arquivo Ubatuba)


     Nosso primo Durvalino tremia de medo ao ouvir a palavra guerra. O motivo? Porque nasceu em plena “Revolução de 30”, quando o governo paulista enfrentava as forças federais. Na verdade, foi um movimento da elite de três estados (MT, RS e SP), em 1932, contra o governo de Getúlio Vargas. A caiçarada mais velha falava que foi preciso fugir, se esconder nas matas, pelas tocas de pedras por medo da violência da guerra. Hoje vou contar a tragédia de uma mulher especial, quando Idalina Graça perdeu a sua única herdeira. Ela deixou dois livros que eu gosto muito, pois falam de outra época, recordam coisas que eu vi ou ouvi em prosas com a minha gente. A parte de hoje é triste. Escolhi porque é decorrência da violência, das armas que defendem os interesses de poucos, dos privilegiados da sociedade.

 

    Minha garotinha veio ao mundo a 20 de junho de 1932. Era uma manhã maravilhosa. E quando a Gil, introduzida no quarto pela sua mãe, aproximou-se do leito e contemplou o entezinho que viera do céu como um presente divino, comovida disse:

     - Nossa Senhora escutou meu pedido, não foi, dona Idalina?

    - Sim, querida! Você vai ser a madrinha! E chamando para meus braços a mais querida amiguinha da minha mocidade, apertei-a chorando de alegria.

   Maria Terezinha tornou-se rainha do nosso lar. Pouco depois de seu nascimento estávamos, porém, em plena Revolução Constitucionalista e isso me preocupava pois, na Enseada, não se encontrava alimentação apropriada para o bebê, em substituição à falta de leite materno. As mulheres que podiam amamentar a minha filhinha haviam fugido para o mato, com medo dos legalistas. Não podíamos fugir. Assim, assisti, aterrorizada, ao lento definhar do meu anjinho, e, quando me foi permitido procurar recursos, já era tarde! Em certa manhã chuvosa, a 20 de dezembro daquele mesmo ano, o Senhor, Luz Imortal da Verdade, achou que devia reaver o anjo! Vi meu marido alucinado, não querendo deixar partir o caixãozinho branco, carregado pelas meninas da vizinhança. Lembro que não chorei, mas senti que uma parte de mim mesma, a melhor de todas, se fora para sempre. Quedei-me vazia e nula! Gil não me abandonou. Mais tarde, Albino contou-me que a minha amiguinha, sem perguntar coisa alguma a ele, juntou toda a roupinha da afilhada e, chorando, abraçada a elas, levou-as para guarda-las em sua casa, com o fito de me poupar maiores sofrimentos.

       


quarta-feira, 12 de maio de 2021

BRINQUEDOS DE PALAVRAS - II

 

Mano Guinho quase alcançando a Pedra do Imbé (Arquivo JRS)

          Em outro texto, dias atrás, expliquei que as minhas crianças, quando eram pequenas, na hora de dormir, pediam sempre Histórias do Zezinho. Então, espremido na cama estreita, buscando palavras, eu criava narrativas com coisas que aconteceram no passado. Muitas vezes usava nomes de gente conhecida como uma forma de homenagem. Os eventos viravam brinquedos porque as palavras são poderosas.  

     

     Artelino veio de uma terra distante. De um lugar onde ninguém da família do Zezinho conhecia. Por isso que ele era também conhecido como Nortista. Mas o nome dele era Artelino Flor, morava no morro da praia Brava. As suas prosas sempre tratava de coisas amadas que o tempo lhe havia roubado. Por exemplo: o irmão dele, um ano mais novo, viajou para trabalhar em São Paulo e nunca mais deu notícias. Foi assim que Zezinho soube-lhe a origem: era nordestino.

   Como o irmão, ele deixou a sua terra; precisava trabalhar, ganhar dinheiro para poder ajudar a família que era pobre demais.  Na cidade grande logo conseguiu ser empregado. Pouco tempo depois o seu patrão construiu uma casa na praia e o levou para ser caseiro.

     Caseiro é a profissão de quem zela pela casa de alguém, mora na propriedade, mas separado do casarão, na casa de caseiro. Artelino usou esta frase para que o Zezinho entendesse melhor: "Eu estou aqui como se fosse um cão de guarda do patrão. E o Pindá, aquele vira-lata ali, é o meu cão de guarda de verdade!"

     Pindá era um cachorro preto, bem peludo. Zezinho dizia que era da "raça de cachorro barbudo". Artelino dizia coisas maravilhosas dele. Um dia segredou que, no barranco, perto da Pedra do Imbé, o Pindá cavoucara uma coisa que tinha farejado. Era uma caixa enleada com uma coisa diferente. Assim que o sol bateu nela, aquilo foi se derretendo e a caixa se abriu. Sabe o que tinha lá dentro? Moedas de ouro! Muitas e de diversos tamanhos! Emocionado, naquele dia distante, terminou a prosa:

     "Hoje, Zezinho, é a derradeira vez que nos vemos. Estou me despedindo só de você porque sei que não vai comentar a respeito disso com ninguém. Vou voltar para a minha cidade, do lugar de onde precisei sair. Estou quase morto de saudade da minha gente, do papai e da mamãe".  

      Ele se foi naquele mesmo dia, de carona no caminhão do Getúlio que buscava uma vez por mês banana naquele nosso lugar. Nunca mais se teve notícias daquele homem. Nunca ninguém soube nadica de nada pela boca do Zezinho. Só vocês agora estão escutando a história do Artelino Flor.  Uma coisa com certeza aconteceu (porque é normal acontecer!):  o tempo levou mais coisas amadas do Artelino. Tenho a convicção de que até ele, depois de tanto tempo, já foi levado. Ser rico ou pobre é indiferente ao tempo. 

      Quando eu não dormia antes de acabar a história, ainda fazia esta pergunta: "E ai, gostaram?".

 

terça-feira, 11 de maio de 2021

FONTE DE INSPIRAÇÃO

 





Festa de São Pedro Pescador - Ubatuba (Arquivo JRS)


         Acordei relendo poesias e textos selecionados (dos concursos) pela Fundação de Arte e Cultura da cidade de Ubatuba (Fundart). Faz bem reforçar que vivemos num espaço muito inspirador, inclusive às nossas resistências contra os espíritos ruins (ambição, inveja, discurso de ódio etc.) sempre a atacar, a nos jogar em embates fratricidas. Aproveito a manhã, perto da aurora, quando muita gente ainda está com a alma dentro do corpo, no dizer de Mia Couto. Escolhi a poesia Ode a esta terra, da Antologia de 2019. O autor é Marcos Antônio Ramos Filho. Parabéns! Valeu, moço!


    ODE A ESTA TERRA

Nesta  terra de amores e poesia
Guardada pela Serra misteriosa
A brisa e o cheiro da maresia
Coroam a paisagem majestosa.
Nos livros o passado guardado
Remonta ao sentimento de traição
Aqui foi assinado o falso tratado
Levando um povo inteiro à extinção
Aqui, um padre cativo se tornou.
Nas areias um poema por ele foi escrito,
Um alemão, a Cunhambebe fascinou
E festas centenárias louvam o Santo Espírito.
Nesta terra as grutas choram
Morros escondem baús com ouro
Os devotos caiçaras oram
Para pescar o peixe, o nosso maior tesouro.
Nossa baía por São Pedro é protegida
Em sua honra, há festa nas vilas
A paz aqui é sempre difundida
O futuro incerto é guardado pelas Sibilas.
O passado com sangue construído
De índios, brancos e escravos
Com um futuro de paz constituído
Doce como mel dos favos.
Tudo isso é um pouco da minha terra
Lugar de gente humilde e devota
Povo bom que não quer guerra
Só quer peixe, sombra e liberdade como nossas gaivotas.


segunda-feira, 10 de maio de 2021

OUTONO

 

Folha caída  - Arquivo JRS

       A gente vai envelhecendo. Os sinais vão aparecendo, as mudanças climáticas são mais sentidas... Das outras mudanças então nem me fale! Na natureza, o espelho da nossa natureza: um dia a folha cai, retorna ao chão para alimentar outras vidas. 


Outono - poema do mano Mingo

Em lugares mais frios
as folhas das árvores caem no outono
e as pessoas se preparam para o inverno.
Aqui, na terra tropicália,
no país da vegetação perene,
o outono não nos dá nenhum aviso
e o inverno chega de mansinho,
mas deixa sua marca do mesmo jeito:
Já tenho neve nos cabelos

domingo, 9 de maio de 2021

O RABEQUISTA DO SAPÊ

João Paulo, nosso vizinho do Sapê (Arquivo Kilza Setti)

        As tradições são importantes, reforçam nossas memórias. Porém, elas não descartam a aquisição de novos conhecimentos, de atualizações e de tecnologias modernas que as revigorem. É por isso que gente nova vai chegando e deixando a sua contribuição, revivendo traços culturais que pareciam estar esmorecendo. Aí estão jovens mestres canoeiros, fazedores de instrumentos, compositores, pesquisadores etc. na cultura caiçara. De repente, surge alguém que dá novo fôlego a uma arte ou a determinado aspecto que parecia esmorecendo. Neste instante penso no amigo Mário Gato que, fazendo parte de uma comunidade católica (da praia do Itaguá, em Ubatuba), onde a cultura popular era praticada intensamente por seus membros, se viu desafiado para o resgate do fandango. Ao mesmo tempo lançou, por influência do fazedor de rabeca Ricardo Nunes, do Ubatumirim, o curso relativo a este instrumento musical, na fundação de cultura municipal (Fundart). Me recordo de seus primeiros participantes. "A moçada está produzindo seus instrumentos. Precisa ver! Este é o meu. Aquele ali é do Gustavo. O outro, depois, é do Rogério Estevenel" Empolgado, Wagner, filho talentoso do saudoso Juraci, me mostrava seu instrumento. Lindo demais! Agora tem o Roberto, a Fernanda, o Ostinho e outros seguindo na produção de instrumentos tão essenciais ao Fandango, à Folia de Reis e outras manifestações nossas. 

     Ricardo Nunes, o rabequista-artesão, chamava genericamente de violino as rabecas que produzia. Kilza Setti, pesquisadora que nos legou um estudo do caiçara paulista e de sua produção musical (Ubatuba nos Cantos das Praias), escreveu que "o músico caiçara distingue facilmente o violino industrializado daquele feito na região. Dos onze violinos encontrados em Ubatuba, durante sete anos de pesquisa, apenas um era industrializado, comprado em São Paulo. Os demais são de fabricação artesanal local. [Era o ano de 1977].  Apesar de os instrumentos serem todos da mesma procedência [do município], sua fabricação é atribuída a três ou quatro diferentes artesãos. É importante notar que, pela talha, os músicos conhecem qual o artesão autor de cada instrumento". No ano passado, na festa da aldeia Boa Vista, no Prumirim, uma liderança jovem, segurando uma das  rabecas da Casa de Reza, me disse todo orgulhoso: "Esta rabeca é muito boa. Foi feita pelo Mário Gato. Você conhece?".  Me enchi de orgulho pelo filho da dona Mercedes, aquele jovem que se despertou no terreiro da capela do Itaguá!

  Me aproveito do momento para dizer que aquele instrumento industrializado, comprado em São Paulo, era do nosso vizinho João Paulo, companheiro roceiro do vovô Estevan, na praia do Sapê. João Paulo, João Miguel e tio Maneco Armiro eram rabequistas nativos mais ao sul do município. Com certeza, a julgar pelo capricho de sua filha Maria Cruz, esse instrumento que tantas vezes me levou a sentar no terreiro vizinho da minha infância para me encantar, está bem guardado. Durante um tempo esteve emprestado ao primo Antunes, saindo nas Cantorias de Reis, no tempo de Advento. 

   Agora, para terminar, reconhecendo a importância e agradecendo a esse pessoal novo que está produzindo tantos instrumentos, uma fala do saudoso Mestre Ricardo Nunes apreciando outras rabecas produzidas pelos caiçaras de seu tempo:

  "O feitio do Zé do Céu, da Picinguaba é um; esse aí acho que não foi ele que fez, não. Eu acho que esse é daí mesmo, feitio da Barra-Seca, por aí; tô desconfiado que esse aí é o feitio dele [do Vítor, que viveu na Barra-Seca]. Não é do Zé do Céu, não".

  

   
 

sábado, 8 de maio de 2021

SEI PORQUE VIVI

 

Em Ubatuba. Conhece essa praia? (Arquivo JRS)

         Dia novo. Me inspiro entre as linhas de  Terra Sonâmbula, de Mia Couto. Elas me despertam a atenção numas e noutras frases de uma terra distante (Moçambique - África Oriental), banhada por outro oceano (Índico), falando a mesma língua nossa (portuguesa) e contemplando o mesmo ser que une todos os continentes e ilhas desta Terra: o mar

   Estou numa passagem que fala de gente na praia. Assim como aos pescadores do litoral norte paulista, ainda maioria composta de caiçaras, além do mar tem a terra portadora de esperança na vida, de onde sai raízes, folhas e frutos para o sustento. Roça e mar de peixe se relacionam. Por isso pincei do escritor de outra terra-irmã esta significativa frase: "Uma roça, uma lavoura: extensão da vontade humana". Então me lembrei de outro livro, Os caiçaras contam, onde Marco Frenette, entre significativos textos, inseriu imagens e depoimentos da nossa gente antiga, se lê:


   É um privilégio poder iniciar o dia diante de uma imensidão azul que se estende até as linhas do horizonte. Generoso em sua grandeza, o mar incentiva quem o contempla a ver o mundo com menos rigor e mais tolerância.

   Esse é o motivo porque o nível de neurose das populações litorâneas é menor do que o das populações urbanas, que, privadas da dádiva de conviver com praias, encaram diariamente a opressão de uma vida cercada por ferro e concreto.

  Qualquer turista acidental, por mais  distraído que seja, percebe os benefícios imediatos que o mar oferece ao espírito humano, pois compara a paz que sente no litoral com a angústia que o domina na hora de voltar para os grandes centros urbanos.

  Entretanto, o mar que o visitante vê e sente não é o mesmo que se apresenta aos olhos e ao coração nativo. Enquanto o primeiro cultiva um deslumbramento, o segundo tem uma profunda relação de respeito e interação com ele, até porque já foi e ainda é, em certa medida, sua fonte de sustento.