quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

ADVENTO

Sob controle (Imagem da internet)


         Meus pais, caiçaras de outros tempos, sabiam acolher as pessoas. Faziam de tudo para promover a satisfação de quem passasse por nossa casa, pelo lugar onde estivéssemos morando. Ninguém ficava sem um pouso caso precisasse, nem sem partilhar do nosso alimento se estivesse desamparado. “É pecado negar comida. Não presta deixar de ajudar quem é mais pobre do que nós”. Só que eles, na simplicidade daquele tempo, logo viam quem estava querendo se aproveitar deles. Pelo olhar e pelos modos sempre acertavam em suas percepções, dando logo um jeito na situação. Eu creio que herdei um pouco deles neste detalhe (de confiar desconfiando).
          Hoje, mais do que naquele tempo, muita gente acorre para a nossa terra na ambição de se fazer por aqui. Só que encaram a vida com princípios ruins, pretendendo se fazer às custas de quem trabalha, fomentando a discórdia e danando a vida das pessoas simples. Sim, simples! Pessoas com princípios nefastos não vão em cima de quem elas notam ser também aproveitadoras! Adiam ao máximo lançar mão de confirmar o ditado de “cobra engolindo cobra”.
      Atualmente tenho notado um outro tipo de perversidade: o controle ideológico. Pessoas do seu mesmo nível econômico, que precisam do salário de cada mês como você, se entrincheiram na ideologia dos poderosos e fazem de tudo para arrasar com aquelas que não estão com elas. Ou seja, investem primeiramente contra quem está mais próximo, quase sempre que trabalha ao lado e depende do mesmo patrão. Fofocas, intrigas, criação de “provas” idiotas denotam o caráter de gente assim, envenenam o ambiente profissional. Gente desse tipo se recusa a desenvolver a inteligência e aperfeiçoa a maldade. Pode até ter um discurso bonito (demagogia), mas nunca vai deixar de ser alguém que apoia as práticas excludentes, elitistas e destruidoras do mundo e da felicidade para todos. E, encerrando seus discursos apoiadores de uma minoria que vive às custas de quem trabalha, vai repetir sempre uma frase alienada, tipo “fala de papagaio de pirata”. E você vai pensar: “É cabeça gorda mesmo! Pensa que está enganando quem?”. E as "convicções de gado" que se reforçam? "A Terra é plana", "Paulo Freire é um energúmeno", "O pobre tem muitos direitos", "A privatização de tudo é a solução", "Tudo está  bem, graças a Deus" etc. Resumindo: a porteira está aberta para dar um fim na democracia brasileira.

     É tempo de Advento. Neste momento de reflexão, quero agradecer pelas pessoas boas que se empenharam em desvendar a realidade, promovendo a consciência libertadora, sendo solidárias e alimentando as esperanças, sobretudo as minhas. É a minha gente! Grande abraço amigos e amigas! Boas festas!

domingo, 15 de dezembro de 2019

EU PRECISO MESMO?

       
Mariposa azul (Arquivo JRS)
              "Cedo ou tarde, o oceano do tempo nos devolve as lembranças que enterramos nele" (Carlos Ruiz Zafón)

         Uma amiga que me conhece muito bem vive recomendando: Você deveria procurar um especialista, tipo psicólogo, para resolver alguns embaraços da sua cabeça”. Será mesmo? “É bom, amigo. Gente assim se preparou para isso, pode orientá-lo para viver melhor, sem se angustiar por coisas desnecessárias”. Então fui.

         Cheguei ao local do atendimento faltando dez minutos antes do horário marcado (dez horas, de um dia ensolarado). Um grupo de quatro pessoas já se encontrava ali conversando, amizade antiga talvez. Imaginei que eles seriam atendidos antes, pensei que me atrasaria nos outros compromissos. Assim que avistou o relógio em meu pulso, um deles perguntou:

          - Que horas são, senhor?
          - Quase dez horas.
         - Ah, bom. A nossa atividade será às treze horas, mas a gente chega antes para conversar um pouco.

          Me admirei do adiantamento deles, não me lembro de ter visto nada igual antes, mas tudo bem. Olhando umas mensagens no celular, mesmo sem nenhum esforço, fui acompanhando o papo dos amigos (três mulheres e um homem).

           - Em que mês nós estamos?
           - Agosto, né?
           - Não, acho que já é setembro.

             Na dúvida, se voltam para mim. Afirmo que é dezembro.

           - Já é dezembro?!?
           - Então logo é Natal!

            O homem, rapaz novo:

          - O meu filho faz aniversário antes do Natal, em março, no dia seis.

            E acrescentou:

          - Eu também faço em março, dia dezesseis ou vinte e cinco, não lembro mais.

          Nossa! Pensei: essa gente precisa de ajuda mesmo! De repente, uma das mulheres, longe de ser magra, olhando para a outra sentada na cadeira da frente:

         - Eu era gorda como ela, mas agora emagreci de perder roupas.

           E eu escutando tudo. Logo, a outra, se referindo à colega ao lado :

         - Ela tem menos de trinta anos, mas o marido diz que ela é fria. Quem me contou foi ela mesma.

         Nossa! Será que estou escutando isso mesmo?!? O assunto estava bom, eles variavam. O grupo estava tão concentrado que nem percebeu o momento que fui chamado para a consulta. Ainda na porta, olhando para quem me recepcionou, eu hesitei: “Será que eu preciso mesmo? É bom se cuidar, né? Ainda bem que eu vim!”

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

PARABÉNS AO XARÁ


Ronaldo & Zé Ronaldo (Arquivo JRS)
Orgulhos  nosso (Arquivo Lu)

Napoleão, grande companheiro! (Arquivo Lu)



                Há muitas décadas, o meu xará Ronaldo Vidal de Araújo deixou Belém do Pará e veio para o Sul. Depois de pouco tempo no Rio de Janeiro, seguiu mais no rumo do sul, com trabalho em São Sebastião. Dali se mudou, e, em Caraguatatuba, conheceu a Isaura com quem se casou. Os filhos vieram, seis ao todo. Depois de se aposentar, começou a ensinar arte em palha de bananeira. Veio a necessidade de continuar os estudos, principalmente porque pressentia ser essa uma exigência se aproximando para poder continuar as oficinas de artesanato. Por intermédio de alguém, soube da nossa escola voltada ao público que, como ele, não conseguiu estudar no tempo normal, quando era mais jovem. Localizada no Massaguaçu, o CEEJA (Centro de Estudos de Jovens e Adultos), nas palavras do Ronaldo, “foi um dos achados mais valiosos na minha vida. Aqui encontrei o carinho de todos, a dedicação e a vontade de ajudar no meu sucesso. Por  isso eu divulgo esta escola pra todo mundo que precisa estudar e terminar o  Ensino Médio”.

      Na última sexta-feira, seis de dezembro, o Ronaldo, prestes a completar setenta e sete anos, concluiu o Ensino Médio. A sua esposa Isaura, durante o empenho do esposo na realização das últimas avaliações, na disciplina de Filosofia, estava apreensiva, mas se aguentou. Nós a ajudamos enquanto o marido dedicado se debruçava e irradiava um ar de vencedor. Por fim, a professora Luciane caprichou na sessão de fotos. Maravilha, mesmo! Quantas emoções! Quanta alegria ao ver o coroamento do nosso trabalho, do grupo que faz essa escola!

sábado, 7 de dezembro de 2019

O PRESÉPIO DA DONA NADIR


Dona Nadir e seu presépio (Arquivo JRS)


           Bem no centro de Ubatuba, na rua Maria Vitória Jean, nesta época do ano um presépio é montado num pequeno quintal, dando muita satisfação, causando admiração nos passantes. O espaço é pequeno mesmo, mas a mensagem é maior do que o mundo. Trata-se da esperança, de acreditar em novos dias, em novos tempos. Natal-nascimento-renascimento a cada ano.

       Dizem que a tradição do presépio nasceu no século XIII, na Itália, com Francisco, o santo da cidade de Assis. Os católicos tradicionais montam seus presépios no começo de dezembro (tempo do Advento) e desmontam no dia de Nossa Senhora das Candeias (2 de fevereiro) ou no dia dos Santos Reis (6 de janeiro). Dias atrás encontrei nas cercanias do dito local o Manoel conduzindo duas crianças. Elas estavam afoitas: “Vamos logo, vovô. Vamos ver o presépio da dona Nadir”.

         Neste tempo, aguardando o Natal, as festas de final de ano, não tem como deixar de passar sempre pela tal rua para apreciar o cenário preparado com tanta dedicação e carinho. Dona Nadir, a proprietária da casa, natural do município vizinho de São Luiz do Paraitinga, diz que “tem mais de vinte anos que esse pequeno espaço se torna motivo de devoção”. E não cansa de convidar: “Você precisa ver quando anoitece! Que beleza fica com as luzes acesas! Encanta todo mundo! Tem gente que se emociona demais, tira fotografias, me elogia muito. digo que sigo o costume dos meus antigos, dos meus pais. A minha neta diz que logo vai precisar de uma passarela para a gente poder entrar em casa. Recebo muitos elogios, muitos agradecimentos. Só posso dizer que faço isso sempre com muito amor. E aí, nesse pequeno espaço meu, vai permanecer até o dia da festa da Nossa Senhora das Candeias, no começo de fevereiro”.

        A Dona Nadir diariamente embarca no mesmo ônibus que eu, vai trabalhar numa casa na Praia Grande. Segue lutando e nos dando alegria com seu caprichado presépio. Imagina a satisfação dela se aparecesse por lá um grupo de Reisado para cantar:

      “Bem podia te nascido em colchão de ouro fino,
       mas pra dar exemplo ao mundo,
       nasceu pobre o Deus-menino!”.

 BOAS FESTAS, DONA NADIR!
FELIZ NATAL, PESSOAL!

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

NÃO PAGA A PENA!

Tié  piranga ou tié sangue (Arquivo JRS)

Correntes (Arte: Victor Harabura)

            Totonho do Rio Abaixo não pensa direito, faz coisas sem calcular as condições. Do burro velho puxando charrete, degrau por degrau, chegou a condução de carroceria grande. Agora depende disto, vive de cargas pra lá e pra cá, num vai e vem de tudo.  Brinquei com ele, insinuando que estava ganhando muito dinheiro, “lavando a égua”, conforme dizem.   É, é sim. Mas não basta”.

          Foi nessa ocasião que eu disse a ele que cobiça é pecado social. O danado só sacudiu os ombros, sinal de pouco importa. “Ah, que se dane”. Avisar eu avisei. Ele virou os olhos desencontrados e só faltou dizer que se conselho fosse bom não era dado, mas sim vendido.

          Tempos desses, mais de ano acho, perguntei da sua terra, no município vizinho. “Agora ninguém mora lá, Seo Zé. Grande parte dos morros virou mata de eucalipto, o restante tá tomado pela braquiária pra uns poucos bois. Quase todo mundo fez como eu, veio para Ubatuba. Lá é lugar que não cresce não. Aqui sim! Olhei aquilo tudo por lá… Agora também não me dou com trabalho duro”. É, eu sei. Ele pensa que eu não vejo as suas pilantragens e que não escuto das outras tantas que apronta por aí? 

         “O dinheiro move o mundo, Seo Zé. Agora sou crente”. 

        A fé, a religiosidade do povo simples também virou negócio aos oportunistas. Isto escutei: “A minha irmã está como missionária na Espanha, se casou lá. Fala muito bem, tem o dom da palavra. Os filhos são espanhóis. Logo segue para a África do Sul. Está bem de vida, é dona de quatro casas aqui no Brasil”. E pensa que Totonho não cobiça isso de ganhar dinheiro usando a oratória?!? Quando ele me fez tal revelação, eu recomendei que estudasse ao menos uma língua estrangeira, pois não tem como almejar tamanho voo sem antes diminuir o tamanho da ignorância. E ele, que mesmo arregalando os olhos não me convence, deu a seguinte resposta: “Estudar? Eu tenho de estudar? Então não paga a pena alimentar esse sonho!”.

domingo, 1 de dezembro de 2019

MORCEGOS DAS LAPAS, VALEI-NOS

Descanso (Arquivo JRS)
Balaios (Arquivo JRS)



              Era tarde, tardinha, quase serão, quando o tio Dito me convidou: 

          - Vamos até o fim do loteamento, onde foram construídos os chalés. Já estão funcionando

           - E o esgoto, como resolveram?

           - É isso que eu quero que você veja.

         De longe eu avistei, onde começava a nossa vargem, uma espécie de tanque, bem grande, onde revoavam morcegos. 

               - O que é aquilo?

        - É pra onde segue o esgoto dos sobrados, dos chalés. Naquele tipo de tanque enorme, toda tarde ajunta um monte de morcegos. Eles vêm para se alimentar dos pernilongos dali que voam. Imagine só a quantidade de mosquitos que se gera ali. Ainda bem que os morcegos deixam as lapas e rumam para aquele lugar!

            - Mas será que eles dão conta de tudo? 

        - Creio que não, mas já abranda. Imagine só se eles não viessem!

           - E dali o esgoto segue para onde?

          - Ganha a vala, vai pro rio do Boi, se espalha pela vargem toda. É por isso que já não há lambaris, nem bagres, nem mussuns, nem sururus, nem cágados e nenhum dos outros seres que dependiam da água limpa. Faz tempo que eu não encontro  nenhum deles por aqui.

          - E depois?

          - Depois o quê?

          - O esgoto se finda na vargem?

           - Lógico que não! Depois, correndo até onde era a casa do João Firmino, essa porcariada se encontra com o rio do Sertão e vai para o mar.

        - Então é por isso que nem sapinhauá se encontra mais na praia da Maranduba!

           - É! E o que fazer?

sábado, 30 de novembro de 2019

O PAI DA CORUJA

Botões (Arquivo JRS)



        De vez em quando avisto o Bito Madalena, filho de Magdalena, esperando o ônibus. Está sempre bem arrumado, indo para a igreja. Se converteu ao pentecostalismo já idoso, preocupado com a vida depois do findar da vida. Já dizia o saudoso Jeú, do Corcovado: “A gente pensa de verdade no perdão quando pressente a morte mais perto”. Ah! Quantas e tantas já aprontou o estimado Benedito Antunes de Sá!

         Além desses nomes, o nosso personagem também era o Coruja. Por quê? Porque houve um tempo que, galopando ou andando pelo caminho entre a Maranduba e o Saco das Bananas, ele trazia uma coruja empoleirada num dos ombros. “Bicho manso, que se apegou assim ao Ditinho porque foi bem tratado desde filhote”, explicava a saudosa Constantina, sua esposa.

             Numa ocasião, tempo que já vai longe, pousei na casa deles, no morro da Ponta dos Morcegos. Naquele tempo ele abusava da “branquinha mardita”; naquela noite não dormiu em casa. No outro dia, ainda clareando, a Constantina gritou aos meninos: “Vão ver adonde está o pai de vocês”. Imediatamente dois deles saíram correndo, na direção do Morro da Mata Virgem. Não levou meia hora já estavam de volta. “Encontramos o pai naquela badeja, pra cá de onde é a casa do Caetano. O cavalo tava em pé, no meio do caminho; ele tava dormindo no meio do capim melado, com a coruja em cima da barriga”. “E o que fizeram?”. “Deixamos ele lá, ué! Depois que acordar ele vem pra cá”. “Tá bom, assim ele descansa um pouco”. Não demorou muito, no alto do morro despontou a figura em cima do cavalo e a sua coruja junto.
            “Lá vem o Ditinho”.
           “Lá vem o pai da coruja!”.