terça-feira, 13 de junho de 2017

A LENDA DA GRUTA DO CURUÇÁ

"Entre o caminho e a prainha fica a Gruta do Curuçá"


O amigo Júlio me enviou a Lenda da Gruta do Curuçá, mas não consegui baixar a foto ilustrativa. Por isso, provisoriamente, vamos aproveitar a imagem de outra ocasião. No ponto I está o Buraco da Dita, no II a Toca de Jagoanharo.
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Mesmo que proibido, devido às crenças e superstições em torno daquele morro e que ali vivia o Boitatá , o menino tocador de flauta e outros curumins, depois de atravessarem a perigosa foz de Yperoig , chegaram à pequena e encantadora prainha do Curuçá . Entre brincadeiras de praia e de mar, Jagoanharo , o menino da flauta, observou um contínuo movimento de árvores e arbustos em certa parte da mata e que dali saia também um som suave. Curioso, convidou seus amigos para ver o que seria aquilo, mas com medo, ninguém o acompanhou. 
Jagoanharo era destemido, entrou na mata e descobriu uma gruta, de onde vinha o vento e o som. Apenas com sua inseparável flauta, dirigiu-se ao interior da caverna guiado por uma fosca luz que vinha de dentro; andou mais de duzentos passos e descobriu que o clarão vinha de cima, por uma brecha larga pela qual se enxergava o topo do morro; o túnel continuava, agora estreito, reluzente e “calçado” com pedras preciosas. Não arriscou em prosseguir, pegou sua flauta e pôs-se a tocar; a acústica maravilhosa fez o som ecoar por todas as brechas do morro, até a aldeia distante ouviu a música do menino. Voltou à praia onde seus amigos já não mais estavam. Andando pela costeira voltou à aldeia, onde seu pai, o índio Coaquira , o esperava com um cipó de timbopeva nas mãos..., mas não contou a ninguém a sua descoberta.
Ao amanhecer de certo dia, tocando sua flauta na praia de Yperoig, o menino pela primeira vez viu a “serpente” de fogo que saiu voando do alto do Curuçá, sumindo no horizonte. Intrigado com tal visão lembrou-se das pequenas chamas que avistara no interior da caverna: -Talvez sejam aquelas pequenas luzes, que juntas, esvoaçaram pela abertura no alto do morro? Pensou o pequeno curumim.
Aproveitou que a aldeia ainda dormia e da pequena canoa despojada na praia, em sua curiosidade e coragem remou até a prainha e mais uma vez entrou na gruta. Daquele ponto onde avistava cintilações de chamas, seguiu engatinhando o estreito túnel, até chegar a um lugar mais confortável, na qual pode ficar de pé; ali descobriu uma carcaça, esqueleto gigante de um animal que nunca tinha visto (provavelmente um Gliptodonte ). Mesmo amedrontado prosseguiu e, a menos de cem passadas sentiu uma corrente de ar mais fresco, o que fez continuar e tão logo se deparar com a “saída” do túnel , uma caverna mais ampla, que despojava a sua frente um exuberante manguezal. Percebeu então que o túnel atravessava todo o morro do Curuçá, pois dali conseguia avistar o majestoso Votuporanga (hoje chamado de Pico do Corcovado).
Diante de intensa mata e imenso manguezal, decidiu voltar; encheu o ajó da flauta com pedras preciosas e iniciou a volta.....
Na aldeia todos se assustaram, viram e ouviram a fúria do Boitatá; a “serpente” de fogo, desta vez chegou a incendiar o topo do Curuçá e, do curumim Jagoanharo, nunca mais se teve notícias, só se ouvia o som de sua flauta.
Talvez, por ser “de cascalho”, o estrondo abalou as estruturas do morro e ocorreu um deslizamento interno, prendendo o menino lá dentro da caverna.
Bem mais tarde, com a chegada dos portugueses e com a presença dos jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega na aldeia de Yperoig, os catequistas também observaram o Boitatá e constantemente o som de uma flauta que vinha do Curuçá; sabendo do fato ocorrido com o pequeno índio e aproveitando o momento festivo da “Paz de Iperoig”, cravaram no alto do morro do Curuçá, uma CRUZ, que teve duas finalidade: firmar o catolicismo na terra Tupinambá e acalmar a “alma da onça”. 
A flauta silenciou, mas depois de algum tempo, voltou a ser ouvida... até hoje.
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Até então, Curuçá, pela característica geológica do local, significava lugar de abundante cascalho, seixo; após o som da flauta e do cruzeiro, Curuçá aderiu também o significado de: “lugar de muita música” e lugar da “Cruz Grande”. Ybyty Curuçá = Morro de cascado - Morro da música - Morro da cruz; hoje, Morro do Curuçá com a Gruta do Curuçá.

domingo, 4 de junho de 2017

NÓS SOMOS OS RAMOS

         
Vô Estevan e vó Martinha (Arquivo JRS)

               Através da minha voz você saberá dos meus avós por parte de pai. Ambos foram gerados na beira do mar, embalados pelo barulho das ondas e assimilando desde cedo o cheiro da maresia. Assim se encorparam para nos sustentar na cultura caiçara. Vovô Estevan nasceu na Caçandoca, bem cedo ficou órfão de mãe. Também não custou muito para a gripe espanhola matar o pai dele. Assim, ele, o irmão e duas irmãs foram criados por outras pessoas da comunidade. Cresceu como pescador-roceiro. Vovó Martinha nasceu no Pulso. Ainda criança já trabalhava no alambique do avô. Logo se fez parteira e se dispôs o tanto que a vida permitiu a ajudar na vinda de crianças ao mundo. Dentre centenas de nascimentos, eu fui um deles.
               Vovó era decidida, tinha um temperamento forte. Com ela as coisas se resolviam andando. Quero dizer que as coisas não a angustiavam, não detinham suas insistentes passadas e seus persistentes falatórios. De todos se fazia amiga. Andava sempre com braçadas de mato, pois conhecia bem as ervas e seus usos.  Algumas orquídeas que tenho foram presentes dela.
               Vovô era mais tranquilo, nos contava histórias fantásticas. Tinha uma habilidade em encaixar as histórias antigas, de outros lugares distantes, no nosso viver caiçara. Assim, a casa da bruxa, na história de João e Maria, era uma casa de farinha com uma cobertura de sapê bem estragada, daquelas que já estava chegando aos quinze anos de serventia. O passarinho que se comunicava com uma princesa era um tié-sangue. O gigante limpava a bunda com bagaço de cana seco. E por aí seguia em suas narrativas. A gente nem piscava para não perder nada das emoções.

               Os momentos dos meus avós, se fosse nesta época do ano, era na apreensão da chegada das cabeçudas (tainhas) e nos festejos aos santos juninos (João, Antônio e Pedro). Somos os ramos dessa raiz que brotou no lagamar! Por isso, ontem, fui ao mercado de peixe com a minha Gal escolher uma tainha. Quatro quilos e meio: é mole?!? Naquele tempo seria a tara do cardume, a tainha maior para doar ao santo, em contribuição com a festa. Agora, o carvão está sendo avivado para... para... para.... Adivinhou?

quarta-feira, 31 de maio de 2017

POEMA TRISTINHO

Minha arte (Arquivo JRS)
O mano Mingo, se inspirando na história da nossa família na Caçandoca, no sofrimento do Tio Roque e de tanta gente que perdeu suas posses devido à ganância imobiliária, escreveu:

POEMA TRISTINHO

Seu Roque da Praia da Caçandoca
foi ao doutor juiz
e disse que não sabia ler,
mas sabia falar
e que sua língua
dizia só a verdade
e que não se fiava em papel
que aceita qualquer mentira.
O bom era assim
falar frente a frente
para o doutor juiz
interrogar suas palavras,
sua boca,
seus olhos
e seus modos.
Que a terra sempre foi sua
e que sendo analfabeto
foi ludibriado,
enganado,
tapeado
para pôr o dedão
na autorização
para abrir a estrada
para melhorar o transporte
das bananas,
das pessoas,
dos pescados
e tomaram toda sua terra
de não ter onde cair morto.
O doutor juiz não teve dó
e decidiu que,
mesmo para analfabeto,
vale o que está escrito.

terça-feira, 23 de maio de 2017

A CURA VEIO DO CHIFRE

Praia (?) do Saco da Ribeira - Foto: Reinaldo Rodrigues
     


Praia do Saco da Ribeira - 1945 (Ubatuba Histórica)


De vez em quando, relendo uns textos antigos, acho por bem divulgá-los. É o caso deste que relata a importância da sabedoria popular, da vida difícil justificando que a necessidade é mãe da criatividade.

            Os mais antigos falam das dificuldades dos “tempos d’antes”. É comum ouvir algo sempre assim, ou parecido com isto: “Antigamente tudo era dificultoso; não tinha estrada. Pra ir por mar dependia do tempo”. Eu fico sempre imaginando a situação quando alguém ficava doente! Talvez fosse por isso que quase todo mundo sabia um monte de remédios caseiros; tinham na memória nomes de plantas, simpatias e outras coisas do gênero. Também havia elementos estranhos, bizarrices no dizer de hoje. Você já imaginou chá feito a partir do cupinzeiro? Ou do picumã e do colar de capiá? E o que dizer do fumo com urina para curar frieiras? Porém, o que mais me intrigava era ver em quase todas as casas, pendurado nas travessas, chifres. Eles eram muito usados: geralmente depois de torrado e raspado, o pó era usado para combater uma série de doenças, principalmente aquelas relacionadas a vermes. Na casa do meu avô Armiro tinha dois: um curtinho, queimado pela beirada; outro novinho, sem uso. Acho que servia como sobressalente, para substituir o primeiro que já estava próximo do fim.  Então, lá vai o causo: 
       Armindo, pescador do lado do Norte, num tempo de mar grosso, precisou vir às pressas na cidade. Além de ter de resolver algumas coisas, tinha um filho adoentado sem que nenhum chá fizesse efeito. Andava pelo centro apressado, cumprimentando os conhecidos e prestando atenção nas novidades. Nisso encontrou um compadre, justamente o padrinho do filho que não passava bem. Foi logo lhe informando:  “Ó compadre Zé Mesquita, foi bom encontrar o senhor! O seu afilhado está muito doente. Ainda agora estou indo para a farmácia do Filhinho para comprar um remédio. Tomara que ele tenha um bom, porque lá em casa, desconfio eu, já se tentou de tudo. A mulher já começa a ficar desesperada!”. O outro, meio sem jeito, se desculpou dizendo, como se devesse alguma coisa:  “Eu devo cortar banana nesta quinzena, mas antes do tempo da tainha eu vou até a vossa casa ver o menino. Por enquanto não posso fazer nada; só rezarei para que Deus olhe por ele, por nós todos”. Despediram-se; cada qual tomando o seu rumo.
            Depois de muitos meses, quando o Zé Mesquita, um bom pedreiro, morador da praia da Fortaleza, até tinha se esquecido do afilhado doente, novamente os dois compadres se encontraram perto da Mercearia Paulista. Era tempo de Festa do Divino, mas a tainha já nem era tanta. O coração da cidade era só enfeite: tudo tinha a cor encarnada e fitas coloridas. Na porta da igreja – a matriz - ficava a guarda da bandeira, onde os devotos paravam para beijar a pombinha, se demorando na admiração dos enfeites do interior do templo.  Dito Bento, consertando bicicletas ali perto, dizia: "É a beijação da pombinha sagrada, onde as pessoas prendem suas fitas. Tem fila o dia inteiro na porta da igreja". Ali se respirava o sagrado. O assunto dos dois compadres sobre a festa do momento logo se esgotou. Então, meio sem jeito, o compadre que morava mais perto da cidade perguntou do afilhado: “O menino está bom, melhorou bem?”. Todo entusiasmado o pescador respondeu:  “Está uma maravilha! Curadinho, com a graça de Deus!”.  “Ainda bem!” – Suspirou o padrinho desnaturado. E continuou:  “Quer dizer que o Filhinho acertou no remédio? Qual é o nome?”. De pronto o Armindo respondeu cheio de satisfação:  “Ah! Não foi o Filhinho não quem indicou o remédio”. Cheio de orgulho arrematou a conversa:  “Eu tirei da cabeça: peguei um chifre, torrei, raspei e dei na água morna para tomar. Foi tomar e curar; uma luz que se acendeu! Não se deve esquecer das coisas dos antigos, dos remédios que eles conheciam!”.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

MEU TIO SALOMÃO

Tio Salomão e Tia Umbelina - Aparecida, 1954 (Arquivo Zamberto)

                Eu, aproveitando o tempo de férias escolar, me pus a buscar as minhas anotações, onde, num tempo distante, no bairro da Estufa, a tia Maria Mesquita contava do tio Salomão e da tia Umbelina. Infelizmente não achei os escritos para rever o meu texto original em homenagem a estes dois que já não estão entre nós, mas deixaram suas marcas, contribuíram com a nossa cultura.  "Nela veio um pouco do tio Onofre; nele ficaram as marcas do Nhonhô Armiro". Por isso, peço desculpas aos primos e primas que ficaram magoados pelo texto anterior. De uma coisa estejam certos: eles deram passos que nos sustentaram na educação de nossos filhos e netos. Assim se garante um pouco do ser caiçara que somos todos nós. Grande abraço a vocês, mesmo que a gente, por estar em terras mais distantes, nunca mais se encontre.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

LIÇÃO À BEIRA-MAR

O Mano Mingo recorda o nosso tempo, quando aprender as letras foi a grande revolução em nossas vida, depois da herança cultural de tantas gerações entre a serra e o mar. Pelos livros, tantos mundos apareceram em nossas vidas de pequenos caiçaras. Quer mais? Vai ler: barbatuba.blogspot.com.br


























Desde menino,

quando faltava livro em casa,

eu ia ler o céu

deitado na Praia da Fortaleza.

E foi assim que fiquei alfabetizado

no voo da fragata

que percorre meio mundo

no sopro da corrente de ar,

aprendi que a nuvem espinha de peixe

é a vanguarda da frente fria

e assisti muitas vezes o desenho animado

de bichos, pessoas e castelos

que são feitos e desfeitos no céu.

Eu aprendi a viver nas nuvens

desde quando era menino.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

HISTÓRIA DE AMOR

Juventino, Porfírio, Sérgio e Serginho (Arquivo Fátima)

Dona Clície

               A tradição oral dos caiçaras hoje se encontra enfraquecida, mas houve um tempo em que as rodas de causos no jundu, as histórias de serão e as prosas em família testemunhavam a nossa cultura e a reconstruíam a cada dia. Ou seja, alimentavam nossas almas. Meus filhos (Maria Eugênia e Estevan) carregam os nomes dos bisavós que mais contavam histórias. Assim nos formaram! Alguém duvida?

               Outro bom contador de histórias foi o saudoso Tio Izídio, um dos descendentes do Velho Antunes de Sá, da Fazenda Caçandoca. Na verdade, ele era casado com a minha tia-avó Luzia. Numa ocasião, tendo a atenção dos mais novos, assim começou:

               “Nós somos daqui desde muito tempo. Meu avô, o Velho Antunes de Sá comprou este lugar do Granadeiro, o fazendeiro da praia da Mococa. As terras da Fazenda Caçandoca começam na Pedra da Cruz, que fica na costeira da Maranduba, debaixo do Morro do Cemitério, depois corre pelo espigão da Serra da Caçandoca até na divisa com a Serra da Lagoa. Dali desce de novo para a costeira, na Pedra do Um, a outra divisa.
             Esse meu avô, o Velho Antunes, tinha uma filha muito bonita já em época de se apaixonar. Uma escrava bem jovem lhe servia de ama. Dizem as histórias que essa cativa gostava muito da sinhazinha. Era tanta a estima que até escondia do senhor a paixão da moça pelo filho do fazendeiro da praia da Lagoinha. Foi por isso que, no dia que descobriu a respeito do romance, o fazendeiro se preparou para castigar a ama que lhe omitiu a informação. Ao perceber que seria espancada, a negrinha correu pela casa, indo para a parte de cima do sobrado que ficava no Areão [da praia da Caçandoca], na beira do rio. Acabou ficando encurralada, com o fazendeiro quase lhe alcançando. No desespero se jogou pelo janelão em direção ao terreiro. Foi quando aconteceu uma coisa fabulosa: o vestido se espalhou, igual a uma flor aberta, amortecendo a sua queda. Então ela saiu correndo pelo caminho bem conhecido da costeira do Pulso. Já era serão, escurecia, mas mesmo assim foi perseguida por gente da fazenda.  O que lhe valeu de esconderijo foi um oco numa grande timbuíba que existia quase chegando na Pedra do Cruzeiro, onde mais tarde morou o Velho Salomão [pai do Élcio]. Só na madrugada criou coragem e foi bater na porta da fazenda da Lagoinha, onde morava o rapaz apaixonado pela sinhazinha. Foi acolhida, explicou tudo. Logo foi comprada pelo fazendeiro. Mais tarde, conforme a história prova, deu certo o namoro dos dois jovens. Após o casamento, a sinhazinha foi morar na Fazenda da Lagoinha e a escrava, sua antiga ama, continuou lhe servindo. Mais tarde ela também encontrou um parceiro e teve filhos. Gertrudes, Porfírio, Juventino, João e outros vieram desse casal de escravos”.

             Agora eu acrescento à fala do Tio Ezídio: 

            Depois Juventino se apaixonou por Dona Clície e.... Maria de Fátima, Serginho e tantos outros descendem dessa fugitiva da Fazenda Caçandoca. Não é uma bela história de amor?