quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

NAVALHA E PINDOBA

         
Que tal uma farofa de coco pindoba? (Arquivo JRS)

      Márcia e Dario: sejam bem-vindos! Quanta saudade da "ninhada loira" da querida Dirce e do saudoso Dario!

Conforme já escreveu alguém, “as pessoas deixam de sonhar com a superação das dificuldades, passando a sobreviver com elas”. Eu acrescento algo mais grave: sobreviver com as dificuldades é torná-las piores ou propiciar que outras germinem. Tem dificuldades e dificuldades. Veja um impasse exemplar:

No morro perto da minha casa foi construído uma “casa”, depois outra e mais outras. Com fossas improvisadas, o excedente cai num córrego que segue para o rio e que deságua no mar. O mar e as praias, tal como uma comunidade perfeita, repartem tudo. Assim,  as  dificuldades - que não eram poucas! - ganham outras dimensões, avolumam-se, causam doenças, destroem vidas na natureza, geram transtornos sociais, afugenta turistas etc.

No litoral, sobretudo em Ubatuba, eu acompanho as transformações e as devastações, sobretudo a partir do advento do turismo, da ocupação desordenada e da migração intensa. Se por um lado fomos colocados na modernidade ditada pelo capitalismo, por outro pagamos um preço alto por isso. Dizia o velho Arcelino, da Praia do Perequê-mirim: “Lucro e destruição são os dois lados de uma mesma moeda”. Assim, eu sinto que passa da hora de agirmos para voltar a equilibrar o nosso espaço. Só assim vamos diminuindo a nossa dívida para com as futuras gerações.

Por esses dias, percorrendo um dos nossos caminhos de servidão, entre as praias do Puruba e da Justa, também conhecido como Trilha do Telégrafo, novamente voltei a pensar numa alternativa para preservar e democratizar a riqueza ambiental e cultural desse espaço caiçara em Ubatuba. Afinal, todo esse percurso poderia ser tombado como uma das nossas reservas nativas. Para homenagear os saudosos patriarcas do local, eu até teria a sugestão de nome: Reserva Caiçara “Tio Durval e tia Belinha”. Quantos roçados foi a garantia de suas vidas nesse lugar?! Quanta gente boa e bonita está entre nós graças a esse recurso? Hoje, uma característica marcante na maior parte desse caminho é a presença de capim navalha e de coco pindoba.

Uma reserva caiçara, na minha concepção, garantiria um turismo cultural. Eu, no caso em questão, explicaria a importância desse Caminho de Servidão na ligação das comunidades das diversas praias, quando nem se sonhava com rodovias, justificando a função dos balseiros nos rios mais largos (Maranduba, Escuro, Indaiá, Puruba, Ubatumirim e Fazenda). Através da mata secundária, trabalharia o contexto dos roçados de subsistência, mostraria os produtos de coleta que tanto nos sustentaram (pindoba, palmito, indaiá, araticum...), explicaria as plantas que nos acudiam nas doenças e dores diversas. Ao encontrar os resquícios da linha telegráfica (postes de ferro), salientaria o papel que esse meio de comunicação teve em épocas de isolamento. Contaria, a partir das ruínas do posto telegráfico da Praia da Justa, a epopeia da fuga do presídio da Ilha Anchieta, quando o telegrafista foi feito refém e teve de acompanhar o grupo de criminosos até os limites de Cunha e Parati. Enfim, muitas outras coisas são possíveis de servirem de ferramentas para moldar uma cultura preservacionista e solidária. Porém, é preciso proteger tais espaços para cortar pela raiz as futuras dificuldades. Não se pode deixar que mansões ou casebres ponham abaixo essa mata, se apoderem desse espaço, cerceiem a liberdade de ir e vir, apaguem a nossa memória cultural, joguem seus esgotos nas límpidas águas dos rios e quebrem a harmonia da natureza construída em longas eras.

        Eu desejo que mais gente, além dos meus filhos, saibam e sintam esse espaço caiçara.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

LÁ É MAIOR O AZUL MARINHO










                  Aproveitando o silêncio da manhã para curtir a música do Dario, me recordo de toda a sua  família vivendo intensamente nas cercanias da Praia do Itaguá, por perto da Barra da Lagoa. Lembro-me muito bem de seu pai na profissão de corretor, de sua mãe nas atividades filantrópicas  e religiosas, de sua esguia irmã Márcia e do caçula Vitório (para homenagear o franciscano italiano que tantas obras deixou neste território caiçara de Ubatuba). Certamente que deve passar por tudo isso a inspiração de suas composições. Creio que já é argumento suficiente para defender a nossa herança cultural e as nossas riquezas naturais. 

             Viva tudo isso que se formou na caiçara (cerca) ambiental, entre a serra e o mar!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

LENDAS EM CORDEL




                Olhando a estatística do blog, me admirei o que número de leitores mostram: os Estados Unidos estão em primeiro lugar nesta semana, com 338 acessos; depois vem os do Brasil (271), da Alemanha (36) e da Malásia (18). Outros seguem a fila. Serão brasileiros que vivem no exterior? Serão pesquisadores interessados em particularidades da cultura caiçara? Ou...? Por favor, entrem em contato para nos informar.

        Na semana da Caldeirada Cultural, o talentoso Jorge Ivam Ferreira lançou o seu primeiro volume em xilogravura sob o título Lendas de Ubatuba em versos. Vale a pena adquirir e aguardar os próximos trabalhos.  É a nossa riqueza cultural em forma de literatura de cordel a partir desse estimado filho da Bahia que veio viver em nossa cidade. 

       Parabéns ao Jorge! 
       Parabéns à professora Alejandra Carolina Labarca!

                Só para um “tira gosto”, eu escolhi...

                A GRUTA  MISTERIOSA

                À direita do caminho
                Para  o Perequê-Açu
                Vê-se a boca de uma gruta
                Da cor de pena de anu.

                Quase entupida de lixo.
                Não é gruta natural,
                É túnel de verdade
                Construído como tal

                Para ludibriar o fisco.
                Essa passagem secreta
                Servira ao contrabando,
                Que não pagava coleta.

                Muitos negros traficados
                Foram conduzidos por ali.
                Os navios negreiros de noite
                Atracavam nessa baía

                E, saindo da Prainha,
                O túnel era um atalho,
                Que evitava que o braço
                Da lei tivesse trabalho.

                Assim como o traficante,
                O lesto contrabandista
                Passava sua muamba
                Sem que desse na vista.

                Quem empreende uma surdina .
                Às vezes é malsucedido:
                Naquele túnel também
                Morreu muito bandido.

                Por aquela falsa gruta,
                Ouro e pedras preciosas
                Escorriam para a Europa
                De forma perniciosa.

                Sim. Nas ranhuras da rocha,
                Muito ouro foi escondido
                Mortos seus proprietários,
                Virou tesouro perdido.

                Atrás dele, muita gente
                Tentou garimpar na gruta,
                Mas só conseguiu achar
                Almas penadas em luta.

                Voltou em cima do rastro,
                Ouvindo gritos de dor,
                Gemidos, tinir de ferros,
                E outros sons de puro horror.

                O tesouro referido
                Causa de muita cobiça,
                Deve ainda estar por lá,
                Quieto na pedra maciça.

                Entretanto, não desejo,
                Nas entranhas da caverna,
                Ou seja, daquele túnel,
                Colocar nem uma perna.

                Lá existe uma fortuna.
                Em compensação, porém,
                Para resgatá-la, dizem,
                Só num pacto com o além.

sábado, 30 de novembro de 2013

A DONA ALMA

Ingá na Praia da Justa (Arquivo JRS)

Há mais de sessenta anos, quando a Grande Guerra já se findava na Europa, sendo os alemães derrotados, aqui em Ubatuba tudo continuava no mesmo ritmo: uns estavam nos roçados, outros pescavam e ninguém perdia a época das caçadas. Tudo herança dos antigos. Outra característica herdada de outros tempos era o temor da noite, dos espíritos malignos que vagavam na escuridão, pelas matas virgens. Os cronistas da época do achamento já descreviam o pavor dos tupinambás nesse assunto. Um traço que também vem desse pessoal é o nosso lado festeiro. Ainda na minha infância era assim: todos festavam em qualquer oportunidade.

No tempo a que me referi no princípio do texto, as crianças brincavam muito e ajudavam nas pequenas tarefas. Poucas pessoas estudavam. As notícias chegavam pelas ondas de rádio. Conforme já disse o Zé Pedro, lá da Fazenda da Caixa, “não havia dificuldade porque não se conhecia outro jeito de se viver”. Só sei que os meninos andavam muito, enxergavam diversão em tudo. Um dos meninos desse tempo é o Zizo. Dele é a narrativa.

“A gente andava por todo quanto era canto. Sabia de detalhes, de novidades, das personalidades mais evidentes e de outras que queriam passar sem serem percebidas. Um exemplo era a dona Alma.

Dona Alma Bestürzend era alemã e morava ao lado do cemitério, no centro da cidade. Imagine com esse nome e morando perto do cemitério! Só isso  já bastava para causar um certo temor! Nós, meninos daquele tempo, sempre passávamos por ali, mas tínhamos medo dela, sobretudo porque ela não cumprimentava ninguém. O que causava admiração em nós eram os cães pastores dela: estavam sempre limpos, bem nutridos. Eram lindos! Nunca tinha passado por aqui aquela raça de cachorro!

Num belo dia, vimos uma movimentação na casa da alemã. Parecia que juntava as coisas e arrumava uns trecos espalhados pela varanda.  Foi quando alguém falou que a dona Alma estava se mudando para outra cidade. Ficar sem a visão dos cachorros foi o que nos  alvoroçou. De repente alguém se propôs ir conversar com a mulher e pedir um dos animais.

- Dona Alma, já que a senhora vai se mudar, poderia me dar pelo menos um dos cachorros?

A resposta dela calou e assustou a todos nós:

- Não darei nenhum dos meus cachorros, pois ninguém vai cuidar deles como eu cuido. Também não os levarei comigo. Eu os matarei".

E assim vivemos mais um episódio medonho na nossa pequena Ubatuba. Então não era pra ter medo da dona Alma?

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

POESIA-RESISTÊNCIA

 
Poderia ser a titia  (Arquivo JRS)


     Nesta semana, estando eu esperando o ônibus, avistei uma senhora que parecia muito a tia Astrogilda. Então fiquei pensado nas palavras dela, no seu exemplo e em tantas coisas que remontam a Praia do Pulso, berço da vovó Martinha. 

    A tia Astrogilda, que nos deixou há pouco tempo, nunca se cansou de denunciar as injustiças praticadas contra a sua família e tantos caiçaras por ocasião do advento do turismo, quando aproveitadores se fizeram engolindo as posses dos pobres, enxotando-os para bem longe do jundu. O resultado está aí hoje: tudo foi murado, condomínios de ricaços fecharam caminhos de servidão, atracadouros encobriram costeiras etc...etc...

“Há criaturas como a cana:
mesmo postas no moenda,
esmagadas de todo,
reduzidas a bagaço,
só sabem dar doçura”  
D. Helder Câmara


Nasci, cresci, morei
e pensei que morreria na Praia do Pulso.
Lá tinha minha casa, minha família,
minhas flores, a criação no quintal
e o mar a cem passos da porta.
Lugar bonito igual deve ser o paraíso.
Até que chegou uns homens truculentos,
um tal de Zé Marinho na frente, gente de fora,
ameaçando matar, derrubaram nossa casinha,
puseram a gente pra fora a mando de um inglês
e tomaram nosso lugar à força.
Mas deixa estar,
ninguém conquista o céu com violência,
tenho fé em Deus que um dia a justiça vai tirar a venda dos olhos
e voltará a enxergar.
Andamos perdidos no mundo,
com crianças pequenas, morando de favor
até arranjarmos este lugar no morro,
onde posso continuar a cultivar
minhas flores, a família, as amizades…
mas tenho saudades do cheiro do mar.

                          Domingos Fábio dos Santos

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A MELHOR FORÇA (II)
Caiçarinha na totoa de patieiro (Arquivo O. Mendonça)
Nos idos da década de 1960, numa tranquila tarde, pescando com o meu tio Chico Félix no Porto do Eixo, entre as praias do Sapê e da Lagoinha, avistei alguém vindo da direção do Pontal.

- É o Agostinho. Disse o titio. E continuou:

- Sabe que o João Pimenta (“o incréu”) me explicou um monte de coisas a respeito de um santo por nome de Agostinho? Disse que muito antigamente não existia a religião católica. Mas depois que ela foi criada, esse tal de Agostinho foi um homem esperto que ajudou a convencer pessoas a se tornarem seguidoras dessa doutrina, a deixarem pra lá o paganismo.

Depois de tentar me ensinar a respeito dos pagãos, deu prosseguimento à prosa o destemido  canoeiro-pescador, o meu parente mais aproximado das feições dos antigos tupinambás:

- Conforme o Pimenta, esse Agostinho era um safado, gostava de orgias, mas depois se arrependeu; até morreu como bispo numa cidade importante. Que coisa, hein?! Para superar as coisas erradas, ele ensinou que o espírito é mais importante que o corpo. Foi quando começou a se preocupar mais com as coisas do outro mundo do que com as coisas deste mundo. Veja o Agostinho que vem ali: se não tivesse disposição para defender o seu pedaço de chão, já estaria com a filharada morando dentro de algum rancho do jundu. Sabe quem ganha com isso de se preocupar com outro mundo? Só os ricos, os aproveitadores!

- Será mesmo, tio Chico?

- Pode ser. Não sei. Tenho quase certeza. Só sei que o Agostinho que tá vindo ali, assim como nós, tem de se preocupar em cuidar do corpo, senão... A propósito, esse nome - Agostinho - não lembra lembra a brincadeira “Lembrança de quê?”.  

Assim a gente brincava: um dizia um nome de alguma coisa, de alguém, de uma planta...E os outros faziam uma relação. Exemplo: “-café torrado - biju na cuia”; “-pena de pato  - cheiro de pó molhado”; “-goma na gamela - suor de gente grande”; “-tarumã em flor - moças cheirosas nas festas”. De vez em quando vinha uma mais pesada: “-Mané Bento estirado na sombra - gambá atordoada no terreiro”; “-Bem-te-vi bravo no abricoeiro - Dito Paratiano quando alguém esconde a viola”; “-Cachorro peludo do Antonio Pernambuco - Nelsinho Caipira, o bicho do mato”; "-Bidico na totoa de patieiro - Lodônio embarcado na canoa Rosinha"...

Hoje, depois de tantas décadas, recordo desses momentos ao passar na Praia da Lagoinha e ver que o saudoso Agostinho, homem que brigou contra grileiros de terras,  agora nomeia uma escola, bem na beira da rodovia. Faz-me lembrar do Belinho quando disse: "a melhor força é aquela que não carece de ser usada".

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A MELHOR FORÇA (I)

Guinho e vô Estevan (Arquivo JRS)

                Belinho Rocha, caiçara da Praia da Enseada, mas há muito tempo morando no centro da cidade, está para completar seus noventa anos. Que bom! Pelo que eu me lembro, nenhum dos parentes mais próximos viveu tanto assim. “Na nossa família não se atura muito”, conforme já dizia a finado tio Tonico.

                O Belinho gosta de prosear. Eu também! Num dia do “mês de cachorro louco”, bem ali no seu portão, depois de uns causos do tempo em que viveu em Santos, onde “serviu no Exército, realizando exercícios, fazendo patrulhamento, prendendo arruaceiros e paquerando muito”, ele concluiu assim:

                - É, Zé. Pois é! Ainda acredito que a melhor força é aquela que não carece de ser usada!

                Eu também penso assim. Se nós temos uma capacidade racional imensa, por que toda ignorância e violência física?

                Foi a partir do Belinho que eu me recordei de mais um detalhe da minha infância: era a metade da década de  1960, quando os militares já estavam no mando e desmando do nosso país. O Porto do Eixo, entre o Sapê e o Pontal da Lagoinha, era um ponto de pesca maravilhoso devido aos peraus quase na praia. Lá, se servindo de isca de pregoava, nunca ninguém voltava sem nenhum peixe. Pampos, guaiviras, embetaras, cações e tantos outros serviram de alimento à nossa grande família de caiçaras. Como é bom “brigar com peixe” a partir da areia! “O de comê tinha de fartura”.
                Era muito raro chegar no Porto do Eixo e não encontrar ninguém pescando ou apenas coletando pregoavas para um cozido. Eu ia sempre com o papai e o vovô Estevan.


                A pescaria no lagamar sempre era regada de uma boa prosa. O assunto variava em torno de roças, de redadas, de festas, de pessoas...