sexta-feira, 7 de maio de 2021

VIRAÇÃO DE FORA

 

Esferas na água Arquivo JRS)

Mar de dentro;

Vento de fora;

Onda sobre onda; 

Jundu lavado 

Junto com a alma;

Flor que acalma.


Pensais que é viração de fora?

Engano seu!

É vento do sul,

Frio chegando.

Um corajoso logo ali:

Cachorro pegando siri


Encalhando, meio trôpego,

Um pinguim corre onda.

Faz lembrar das bolas brilhantes,

Boiando na água, ´

É coisa diferente.

Cada uma nessa corrente!


quinta-feira, 6 de maio de 2021

UM PEDIDO

1992: prima Nini, tia Tereza e vó Martinha (Arquivo JRS)


        Bom dia. Já faz um tempo que gostaria de lhe mandar este pedido com muito carinho. É sobre uma pessoa daqui que ajudava muitas pessoas que precisavam. Não tem nome de rua, mas mora com respeito no meu coração. Minha mãe me contava que, quando precisava, pedia a ela para ficar em casa cuidando da gente. Não me lembro bem porque era muito pequeno, mas me lembro quando fomos no morro do Souza buscar coco brejaúba e pati. Ela mostrava as plantas nos caminhos, sempre com uma fala bem sossegada, calma e um olhar de respeito. Tem mais algumas lembranças, mas gostaria de ouvir de você um pouco. Muitas pessoas daqui devem muito a ela, Martinha Zulmira Cabral, a Dona Marta. Abraços. Bom dia.

        Recebi, dias desses, o bilhete acima do primo Giovani, da praia do Sapê. Trata-se de um pedido, que eu fale um pouco dela. Dona Marta era a minha vó paterna, natural da praia do Pulso. 

         Vovó Martinha, gente dos Amorim por parte de mãe e dos Lopes pelo lado paterno, parecia uma índia de olhos azuis; conhecia muito de mato, de remédios caseiros. Era a parteira da região. Eu e mais dois irmãos viemos ao mundo pelas mãos dela. Tinha um estilo bem dela: fazia café bem cedo e saía andando pela praia e casas, se detendo para visitar e prosear com as pessoas. Quando voltava ao lar, já era quase hora do almoço. Por isso sabia notícias de tudo. "Fuxiqueira de marca maior", segunda a mamãe, sua nora. 

          Era comum encontrar a vó Martinha sempre carregando ervas, levando para alguém fazer chá, emplasto etc. Mais tarde, morando mais próximo do centro da cidade, tinha o hábito de visitar doentes na Santa Casa (hospital). Como ela via que eu gostava de flores, era comum chegar em nossa casa trazendo galhos ou mudas provenientes de outros quintais ou catados pelos caminhos. Até hoje ainda tenho algumas dessas relíquias-heranças dela.

        Apesar de ter a autonomia dela, sem se submeter a marido e filhos, vó Martinha era machista. "Como assim?". Explico: era teve oito filhos. Recomendava às jovens que fizesse de tudo para não ter menina, ensinando até uma simpatia. Segundo ela, bastava jogar sal grosso debaixo da cama. Para ela deu certo. E assim vieram oito meninos. Por que será que ela pensava assim? Boa pergunta, né?

quarta-feira, 5 de maio de 2021

BRINQUEDOS DE PALAVRAS

 

Sinta a água, caiçarinha. (Arquivo JRS)

         Acordei pensando nas histórias. Não em qualquer história, mas naquelas que eu contava às minhas "crianças" quando elas eram crianças. Sempre era na hora de dormir que eu dava um jeito de me ajeitar ao lado delas, na cama estreita. Acomodado, já sonolento também, eu começava a debulhar  Histórias do Zezinho, todas elaboradas com coisas que aconteceram no passado. Se tornavam presentes porque as palavras são poderosas. Muitas dessas coisas eu até nem tinha certeza de que continuavam existindo. Por exemplo, na história do Neco Gaspá, o macaquinho, eu me recusava de imaginar um final porque aquele córrego desapareceu sob obras. Mansões de turistas, de "tubarões" que assim continuam se fazendo pelo trabalho explorado dos pobres, tomaram o morro das nossas roças. E toma história!


        Perto de casa, no bananal da tia Martinha, havia um córrego cheio de camarões. Apesar de eu nunca ter visto alguma lagosta nele, deveria ter sim. Por isso elas vinham na narração, saíam quando era noite. Por que faziam isso? É que tinham medo do macaco Neco Gaspá, um exímio pescador de camarões que aparecia regularmente por ali, onde enchia a pança de água e de camarões. Quem presenciou isso pela primeira vez foi o menino Zezinho.

       Zezinho vivia andando, matando a curiosidade até onde conseguia enxergar. Sua mãe era a primeira a chamá-lo de andejo, batedor de perna. E era mesmo! Um dia, deixou o avô e os tios na roça de mandioca e foi ao córrego beber água. Ainda estava longe quando avistou um bugio enfiando a cara na água. O menino foi se aproximando com todo cuidado, sem fazer bulha alguma. O macaco continuava no mesmo ritual. "O que ele está fazendo ali?".  Se pondo atrás de um imenso jacatirão, ele espreitou com mais atenção, notou que o bicho demorava um bom tempo com a cara dentro da água. Prendia a respiração e ficava paradinho. De repente levantava a cabeça, arremessando-a com força para o capim. Nesse momento o pequeno Zezinho descobriu o motivo: era para lançar os camarões que se grudavam nos beiços dele. Em seguida, catava um por um e ia jogando na boca. Os bichinhos, naquela água límpida, pensavam em comida e se abraçavam nas bordas da carnuda bocarra. Era uma armadilha, parecia com a carne amarrada no pau de isca que os caiçaras, assobiando, usavam na captura de guaiás. Encantado com aquela cena, Zezinho  ficou todo o tempo do mundo; pode se aproximar mais e ver que havia pelo corpo do animal uma espécie de farinha, parecendo caspa. É de onde veio o nome dele: Neco Gaspá. Depois de muitas idas e vindas, eles se tornaram amigos. Zezinho passou a levar bananas maduras num samburá toda vez que ia na roça. Os dois pareciam duas crianças se divertindo na beira do córrego. 

     Um dia Zezinho ficou doente de sarampo, precisou ficar de resguardo, sob vigilância da mãe. No terceiro dia, ainda acamado, Neco Gaspá, do nada, apareceu na janela do quarto. Fez festa ao avistar o amigo. Após saber da doença, se compadeceu. Sumiu e voltou com bananas de imbaúba. Assim que foi embora, a mãe do menino chegou de lavar roupa na grota. Ao entrar no quarto, logo avistou aquele cacho em cima da cama. Exclamou: "Era disso que eu estava precisando! Quem trouxe?". O filho contou toda a história. Ela, toda satisfeita, exaltava: "É um santo remédio isso! Pode comer dos mais maduros. Vou ferver água para fazer chá dos mais verdes. Dentro de dois dias você sairá pulando por aí, vai poder andejar com o Neco Gaspá". E foi o que aconteceu. Daí em diante, a visita do bugio naquela casa era diária. Todo mundo gostava dele.

      

terça-feira, 4 de maio de 2021

ARRELÁ, JORGE!

 

Mestres e mestres (Arquivo JRS)



Mestres e mestres (Arquivo JRS)

     Jorge seguiu com a viola porque Dito Fernandes, Pedro Brandão e tantas outras pessoas queridas o aguardam. "Vai ter festa no céu! Amanheeeeeece!".
      
    Me lembro bem de quando ele nos contou da paixão pela música, de como assumiu a vida de folião depois de ter voltado de Santos, onde foi trabalhar e juntar um dinheiro para poder se casar. Caiçara da gema! Parece até que a derradeira cantoria na Vermelha do Norte, na praia dele, já era a despedida, as merecidas homenagens que os fandangueiros e fandangueiras das  novas gerações prestavam ao Mestre Jorge. 

Vamos dar a despedida
como deu o passarinho:
as léguas  no céu azul;
só uns passos no caminho.

Arrelá, Jorge.
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segunda-feira, 3 de maio de 2021

A QUEDA DO CÉU

 

Artes da Gal - Arquivo JRS

           Tenho pensado muito ultimamente sobre a nossa responsabilidade ecológica. Um mundo desequilibrado afeta todos os seres, destrói todas as vidas. Não é possível assistir a todas essas formas de devastação ao nosso redor e se comportar como se tudo isso fosse normal. Aonde vai a nossa capacidade de sentir a vida, de se indignar pelo descaso geral pela Natureza?

      No livro A queda do céu, lançado em 2015, o yanomami Davi Kopenawa faz a seguinte abertura:

     A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor. A terra  ressecada ficará vazia e silenciosa.  Os espíritos xapiri, que descem das montanhas para brincar na floresta em seus espelhos, fugirão para muito longe. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los fazê-los dançar para nos proteger. Não serão capazes de espantar as fumaças de epidemia que nos devoram. não conseguirão mais conter os seres  maléficos, que transformarão a floresta num caos. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar.

    E, numa passagem mais adiante, outro - e definitivo! - alerta:

    Mais tarde, na floresta, talvez morramos todos. Mas não pensem os brancos que vamos morrer sozinhos. Se nós formos, eles não vão viver muito tempo depois de nós. Mesmo sendo muitos, também não são feitos de pedra.  Seu sopro de vida é tão curto quanto o nosso. 

   Agora pergunto, sobretudo aos de ascendência caiçara que resistem neste litoral: o quanto de espírito da Natureza sobrevive em nós? Se ignoramos essa luminosidade herdada dos ancestrais, seremos esmagados. Alguém duvida? 

domingo, 2 de maio de 2021

POVOS DO BRASIL

 

É proseando que se acerta (Arte: Estevan)

      Dias atrás, escutando a fala do yanomami Davi Kopenawa, me senti estranho porque não entendia nada de nada que era falado. Sorte que, em seguida, ela foi repetida em língua portuguesa, na linguagem nossa. O assunto era sobre a floresta, o território deles que está correndo riscos por conta da cobiça. Já são, aproximadamente, 50 mil garimpeiros invasores levando doenças, poluindo os rios com mercúrio, tomando os recursos tão necessários às comunidade originárias daquela região, de Roraima. 

     A fala de Davi, um dos parceiros de Ailton Krenak, ambos muito atuantes na defesa de seus povos durante os trabalhos que resultaram na Constituição Brasileira de 1988, me remeteu aos caiçaras antigos com suas especificidades, sobretudo a fala. A seguir, um exemplo em família, do tio Antônio Félix:


     - Conceição, visse a serenga, aquela miúda que usamo tresantontem? Careço dela agora pra raspá taquara e limpá a timbopeva. Também mandais o Lizeu na posse do tio Quito, no artinho, na Pedra da Janta. Tem lá um amontoado de esteio de candeia, bem seco, que ainda há de tê serventia no cupiá pra perna do fogão e no jurau de panela. Se ele truxé um por ida, chegando o armoço tá pronta a tarefa. Adespois, na parte da tarde, vem tormenta de deitá bananá, capaiz de encharcá aquela pauzêra. Daí empata tudo. Hoje não posso me aluí daqui enquanto não deixá este tipiti arrematado. Me faiz favô de arcançá aquela embira na travessa, enleiada ali. Agora apinche banana pra essa marreca que tá demasiada arvoroçada. Lhei, lhei, lhei... Não é o Pedro Baitaca assubino ali, pulando o cavocado?


      O Diegues, estudioso da Universidade de São Paulo, escreveu o seguinte para despertar o nosso interesse às culturas brasileiras não-indígenas, sobretudo aos caiçaras: 

      Os caiçaras, assim como outras culturas (caipiras, jangadeiros, ribeirinhos etc.), se constituíram no período colonial, nos interstícios da monocultura e de outros ciclos econômicos.   Com o isolamento geográfico relativo, essas populações desenvolveram modos de vida particulares que envolvem uma grande dependência dos ciclos biológicos, um conhecimento profundo e dos recursos naturais, tecnologias patrimoniais, simbologias, mitos e até uma linguagem específica, com sotaques e inúmeras palavras de origem indígena e negra.

   Você entendeu tudo da fala dirigida à tia Conceição? 

sábado, 1 de maio de 2021

PESCA DA CORVINA

 




Boca da barra - rampa das canoas (Arquivo Ubatuba)

      Vez ou outra me dá uma saudade das prosas com a Fátima. Então recorro ao seu valioso registro em Arrelá Ubatuba, um livro simples, mas preparado com grande carinho. Que valorosa caiçara, da estirpe do João de Souza e dona Maria!  
     Depois dessa pandemia, caríssima, haveremos de rir bastante de tantas coisas que guardamos em nossos Saco de Causos. Por enquanto, permaneçamos entocados: eu no Ipiranguinha e você no Sumidouro. Longa vida e prosperidade, irmã!
   

     Nos anos quarenta o mundo se via às voltas com a segunda guerra mundial. Por aqui, isso era conversa para intelectual e político que sabia ler e escrever.
     O dia estava amanhecendo. Depois de pescar a noite toda, já era hora de regressar. A canoa abastecida de corvina deixava meio desanimados os dois pescadores que torciam pela pescaria de outros peixes de melhor aceitação, uma vez que a corvina era tanta que ninguém mais aguentava nem ouvir falar sobre ela.
    Estavam lá pela Ilha das Couves, lugar de peixe grande e de mar perigoso. Tibúrcio, que remava na proa da canoa, gritou ara o companheiro:
  - Marciano! Olha a tintureira! Se deite na canoa que ela tá vindo pra cima de nós!
  Foi então que o mar se abriu, jogando água para todos os lados. Tibúrcio também se jogou para o fundo da canoa, com medo que esse medonho cação o visse, uma vez que acreditava que a tintureira caça as suas vítimas pela sombra refletida na água. Como que por milagre, um enorme peixe de aço boiou na frente dos dois. Era um submarino japonês.
  Do casco do submarino abriu-se uma escotilha. Um homem apareceu e começou a acenar para os amedrontados pescadores. Não vendo resposta, gritou em japonês:
  - Banzai san!
  Marciano passou a mão num peixe, ergueu-se na canoa e gritou de volta:
  - Só tem corvina.