quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

PENSANDO ENTRE TIJOLOS


 

Domingos da Sete Fontes - Arquivo Memória

     Eu  estava na obra até agorinha mesmo assentando tijolos. A colher de pedreiro, o prumo e o nível são importantes instrumentos nessa etapa. De repente me deparo contemplando o nível. É de ferro, pesado, grande. Bem antigo. Nunca tinha visto um igual até aquela data, há alguns anos, quando o recebi de presente da amiga Mirtes Harumi Honda. “Pertenceu ao meu querido pai. Acho que estava com ele desde os primórdios, quando chegou do Japão. Agora é seu”. Outros muitos presentes (molinete, martelo etc.) aceitei com muito carinho naquele dia, quando a estimada Mirtes estava se mudando de casa.

 

    A  história do Sr. Honda  eu guardei apenas em partes. Soube que era um exímio calígrafo, função muito respeitada na sua terra natal. No Brasil se tornou comerciante. Tive o prazer de apreciar seus fragmentos de textos, suas mensagens que ocupavam espaços em sua residência, no centro da cidade de Ubatuba. Admirei suas esculturas, escutei suas  aventuras e  aprendi muito das suas paixões. Devotado à família, juntamente com a esposa (Dona Hamako), educou magistralmente seus rebentos. Em Ubatuba, pescou muito pelas costeiras sempre acompanhado pela fiel companheira, cuja honra eu tive em transcrever as memórias, sob o título O caderno de Hamako. Agora, olhando esse instrumento, imaginei o Velho Honda ali, fazendo comentários, segurando aquela peça, dizendo dos trabalhos que realizou, se sentindo feliz por eu tê-la recebido.  Talvez até dizendo que eu herdei  traços de sua personalidade que acompanham seus instrumentos. Eu acredito nisto e creio que faz parte da mística caiçara. É assim que vamos conhecendo o mundo. Já escreveu o filósofo Nietzsche: “O homem conhece o mundo à medida que se conhece: a sua profundidade desvela-se-lhe à medida que se espanta de si próprio  e de sua complexidade”. Portando, olhar, admirar, imaginar os momentos que alguém viveu ao utilizar ferramentas, máquinas etc., me leva a contemplar a grandiosidade da humanidade, de acreditar que grande parte dela sustenta profundas esperanças capazes de reorientar nossas vidas e de garantir a vida dos demais seres que compartilham deste planeta.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

NAS ALTURAS

    A Mantiqueira está verdejante. A Serra do Mar está depois do Vale do Paraíba. O mar está longe. Por todo lado a classe trabalhadora dá a dinâmica da sociedade humana. Há uma grande massa que se movimenta desde a madrugada, que dá vida ao país.  Exuberante mesmo é a natureza! Os estragos (pequenos e grandes) são causados pelos homens, sobretudo os mais cobiçosos e ignorantes. Assim vai se poluindo rios, mares, ar, matas etc. O grande desafio é refazer narrativas, rever conceitos para compreender o que significa a interdependência de tudo que há na Terra. A verdade é uma só: nós até podemos nos dizimar, mas a natureza se reconstruirá sem nós. Pena que muitos seres também serão dizimados certamente para sempre. Por isso é essencial o papel da educação (formal e informal, popular e erudita...). Assim, neste começo de ano letivo por todo o Brasil, quero desejar à classe dos professores e professoras muita energia. Muita boa energia! Vamos nos libertar de toda a negatividade, de todo espírito de destruição que por ventura resista em nós. Desejemos/construamos um ar puro, uma água renovadora, uma sociedade solidária, um mundo de justiça... Já dizia o finado tio Clemente, nascido na praia da Fortaleza: "Todos nascem filhos de Deus, mas no decorrer da vida há aqueles  que  se tornam discípulos do Diabo". Concordo com ele. São estes últimos que jogam contra a felicidade para todos, que seduzem mais gente para o lado deles e infernizam a vida dos mortais. Ou seja: céu e inferno é aqui, dependem de nós. Enfim, uma vida melhor para todas as pessoas é o espírito deste dia e de cada novo alvorecer em minha vida. Espero que para cada leitor deste blog seja o mesmo. Força, minha gente!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

ONDE?

     

Natureza - Arquivo JRS

                                                                                                                                                                                                               Estou escutando os passarinhos. A mata é perto, além de toda a diversidade que rodeia a nossa moradia. É festa por todo o bairro. Agora estou sem celular, sem mandar ou receber mensagens de tanta gente. Deu pane geral no aparelho. Lógico que penso nisto! O que fazer? Comprar outro está fora dos planos devido aos gastos que estamos tendo nos últimos tempos. Estou pensando nas vantagens e desvantagens dessa situação. Como continuar me mantendo em contato com a minha gente? Tenho que retornar a hábitos deixados para trás, dar um jeito de remediar a crise. Eu sou do tempo das cartas, mas acredito que o blog e o e-mail conseguem sanar parte do problema. Mas quem disse que é problema?   Tenho meus artesanatos, livros para ler, cadernos para fazer anotações e escrever textos. Mais importante: tenho gente ao meu redor e estou sempre disposto a uma prosa! A minha gente entenderá. Ah! E a gente pode se visitar para um forte abraço que mata a saudade!

 

       Agora vivo a espera de novidades: do bebê do casal amigo que vai nascer, da correria de tanta gente que trabalha, da minha filha e do meu filho na luta do dia a dia, de livros que pessoas talentosas estão escrevendo, dos títulos que um amigo certamente está lendo, de músicas que estão animando os fandangos caiçaras, da chuva que atrasa um pouco as expectativas etc.

       

     Portanto, minha gente estimada, verei regularmente o e-mail para me comunicar virtualmente. 

      É o de sempreronaldo.jrszero@gmail.com

 

    Abraços. Até.

 

domingo, 28 de janeiro de 2024

É GENTE NOSSA!

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  •  Arquivo R. Ferrero 


  •       Adoro ouvir histórias,  sobretudo quando elas transmitem aspectos da resistência da cultura caiçara. O texto a seguir é do estimado Roberto Ferrero, da praia da Enseada.  Gratidão, irmão. 

  •   Em 2014, um grupo de amigos deu o ponta pé inicial na @aarcca_ubatuba. É uma associação com o objetivo de fomentar a cultura caiçara na região através da corrida de canoas, que já ocorria de forma espontânea em algumas comunidades de Ubatuba. O primeiro desafio foi mapear todas comunidades que realizavam a festa ou aquelas que deixaram de realizar. Entender os gargalos e dificuldades de cada uma para traçar um plano de ação. Era muito legal ver o empenho de cada comunidade e a vontade de outras em participar. Teve ano que tinha corrida até duas vezes por mês! Mas também era muito difícil encontrar um plano que contemplasse todas comunidades, que tem realidades diferentes entre si. Foram inúmeras reuniões e desgastes! Uma década de luta se completa esse ano, muito legal ver onde chegou!
  •     Na foto Juarez e Eu, numa barraquinha que arrendamos na Caiçarada para vender bolinho de arraia e tainha frita para arrecadar fundos para a associação! E tempo!

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

POUCAS VEZES FOI SORTE...

 




   Avisto uma coisa sobre a mureta, me aproximo. Vejo que meu sobrinho faz o mesmo. "Que é isso, tio?". Seguro aquela delicadeza na mão, peço a ele que tente adivinhar.    "Não sei, mas parece um osso". Confirmei e expliquei: "É um osso,  do peito do frango. O povo caiçara, a nossa gente mais antiga o nomeia como osso jogador. Na verdade,  este título  se justifica porque ele era recurso para encerrar disputas, concluir apostas etc.". Notando que o jovem ainda não compreendera quase nada, fiz uma demonstração. Segurei uma haste do ossinho e pedi que ele fizesse o mesmo do outro lado. "Tá firme aí? Agora vamos apostar: quem perder lavará toda a louça que lota a pia. Tá bom assim?". Ele concordou mesmo sem ter captado toda a lógica. Eu continuei: "Segura bem  na ponta usando o polegar e o indicador. Vou contar até três.  Aí puxamos estas perninhas do osso. Quem ficar com a maior parte é o vencedor. Lá vai: 1...2...3!". Adivinha quem teve um monte de louças para lavar?

  São detalhes assim, aparentemente insignificantes, que se compõem,  resultam numa cultura. Cultura é cultivo. Se a gente não cultivar...Onde vamos parar?

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

SEJAMOS BOM FERMENTO

    

Arte em casa - ano JRS


       Novo ano. Fui no fim da tarde buscar umas mudas de roseiras na horta do Francisco. Admirei galinhas, galos e patos pelo caminho.  Tudo em paz. Só um cretino ainda soltava fogos para perturbar os cães. Assim que cheguei o meu amigo perguntou: "Está com tempo, Seo Zé? Vamos comigo recolher os animais para dormir?". Topei prontamente. Afinal, essa rotina de cuidar de gado não faz parte da minha história. 

     Lá fomos nós na direção do pequeno pasto, onde quatro vacas pastavam. Logo os animais notaram a nossa chegada. Devem ter se perguntado: "Quem é aquele que segue o nosso dono?". Francisco comentou algumas coisas, indicou o alto do morro onde a sua filha está construindo uma linda casa. Imagino  a maravilhosa visão que se tem de lá. De repente o meu  amigo fala bem alto: "Vamos embora, pessoal . Tá na hora de dormir". Vocês não imaginam  a minha surpresa quando,  imediatamente,  as vacas tomaram o caminho da casa, foram em direção ao cercado delas. Resumindo: entenderam perfeitamente a mensagem de Francisco, tal como outro Francisco muito famoso. E obedeceram!

     Feliz daquele que tem a segurança de um abrigo, uma casa para voltar após um período de labuta. Por isso é crime expulsar os pobres de suas terras.  Por isso é crime negar pátria a um povo.  Por isso é desumano tanta gente sofrendo pelas ruas,  enfretando as intempéries,  comendo dos restos que encontram nas lixeiras.

    Que neste ano novo as boas mensagens entrem em nosso ser e ser tornem bom fermento  no mundo.  




 

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

QUANDO A GENTE SE ENCONTRA

 

             

Eu, Domingos, Clóvis e Ana - Arquivo Mingo

   

      Na minha família, quando a gente se encontra, a prosa varia, mas sempre tem muitas risadas. Ontem, o almoço de Natal com a irmandade e familiares me fez recordar de tantos momentos ao longo desses anos desde a infância, quando os motivos eram diversos (raspar mandioca, juntar peixes na rede, prosear no jundu, escutar histórias, fazer cantoria nas casas etc.). Sentimos as ausências do Jairo e do Guinho (Wagner) por motivos particulares. Senti uma grande alegria pela sobrinhada que há tempos não via. Pena  que Estevan e Pedrinho não estavam. Também pensei na Mônica.

     Muitas mudanças são notórias ao longo da existência da nossa irmandade, sobretudo devido às ocupações dos espaços por turistas e migrantes pobres que para cá acorreram em busca de melhores condições de sobrevivência e de lazer, resultando em diminuição das áreas de cultivo  e em extinção das áreas, nas praias, destinadas aos ranchos das canoas e demais apetrechos de pesca. A juventude também perdeu muito! Sumiram os campos de futebol. Desapareceram os sombreados nos jundus onde ocorriam alegres encontros; muitos namoros tinham ali seu ponto de partida. Tudo isso me veio à mente lendo agora umas anotações deixadas pelo Olympio Corrêa. Eis o que está detalhado da metade da década de 1970:

 

        Entre os caiçaras, a mandioca é cultivada em larga escala e dedicada quase que exclusivamente ao beneficiamento, isto é, a ser transformada na sua respectiva farinha. Mesmo na praia, onde a pesca é uma atividade importante e as roças estão em decadência, sua população ainda fabrica a farinha para o gasto e, às vezes, para a venda. Todavia, é no sertão que esse beneficiamento constitui a principal fonte de renda. Os produtos derivados da mandioca são, além da farinha, a goma, a tapioca, o biju e o polvilho.

     Na alimentação caiçara, seja do sertão, das praias ou dos emigrados para a cidade, a farinha de mandioca constitui a metade dos demais  comestíveis. É comumente misturado ao feijão, ou misturado ao café. Quando juntada à banana amassada, torna-se paçoca, quando torrada com toucinho ou carne é farofa e, ainda, como pirão, quando cozida na água quente ou no caldo de peixe. As próprias criações, inclusive cães e gatos, têm na farinha seu principal sustento.

      A operação do beneficiamento da mandioca dura de um dia e meio a dois dias. A programação da quantidade da farinha de  mandioca a ser fabricada é feita no dia anterior ao forneamento. Conforme o número de membros da família, sua capacidade de trabalho e suas necessidades, o chefe da casa planeja de dois a três tipitis de massa, que renderão de dois a três alqueires de farinha.


  Nesta última parte até parece que o autor se referia ao vovô Zé Armiro, da praia da Fortaleza. Saiba que cada alqueire - medida antiga! - equivale a aproximadamente 25 litros ou 20 quilos. Metade dessa produção ficava para ser consumida por nós e a outra seguia para ser negociada no centro da cidade ou em qualquer mercado maior de alguma praia.