sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Os meus pais me contaram

(Antonio de Jesus, líderança caiçara da Trindade- Paraty)
                Gosto de explorar bem qualquer prosa que começa com a frase “os meus pais me contaram”. Quase sempre é garantia de que há um tesouro a ser explorado. Como diz ainda muita gente: “vai espirucando, vai espirucando, vai espirucando... até que chega aonde quer”. Assim descubro coisas inimagináveis, de pessoas que pareciam ninguém para a maioria daqueles que estão ao seu redor. Exemplos:
                  Quantas lideranças entre os pescadores se fizeram por força das invasões, dos grileiros das nossas terras sagradas?
                Quantos relatos de caiçaras que viveram na carne a Revolução Constitucionalista!?
                Quantos lugares, hoje ocupado por mansões e condomínios fechados, não foram paraísos de peixes e aves!?
                Quantas histórias políticas imorais por trás dos nomes das “distintas” pessoas que perambulam por nossas ruas!?
                Quantas famílias humildes, “gente que se tropeça com a gente”, não descendem dos primeiros habitantes deste chão denominado Ubatuba!? E quantos não provêm de ousados imigrantes com sonhos fantásticos!?
                Enfim, se posso retransmitir, por que não fazê-lo? Afinal, acho que foi por isso que os meus pais me contaram!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Verdades no mar; verdades em terra

                       
            Se tem uma coisa que me impressiona muito, mas muito mesmo, é conversa de embarcadista. Sempre se escuta coisas fantásticas, testemunhadas por essas pessoas que têm o mar como companhia por muito mais tempo que a terra. Alguns deles, apesar de até terem se aposentado da faina marítima há tempos, ainda estão inseguros em terra firme devido ao tanto de tempo em que viveram no balanço do mar. O meu amigo Oscar, natural da Ilha do Prumirim, que viveu embarcado por muito tempo, quando em terra, demorava alguns dias para conseguir se equilibrar em sua velha bicicleta. Era comum ele dizer nos primeiros dias depois de um período de pesca: “Nem conte comigo para sair de magrela por esses dias. Se quiser ir caminhando...tô dentro!”. Outro pescador que há tempos está em terra firme é o Zé Lucas, do Perequê-mirim. É impressionante escutar os seus causos! Querem um aperitivo? Lá vai!
            - Pode contar, Zé, alguns causos vividos no mar que te marcou demais?
            - É lógico que sim! O primeiro deles aconteceu próximo da Ilha Monte de Trigo, depois de São Sebastião, do tempo em que eu nem era ainda mestre de barco. Existe um pássaro interessante, de pés minúsculos, mas com uma envergadura de asa fantástica. Sabe que ele não mergulha? O peixe que pesca é aquele que está na superfície da água; passa o bico avantajado e captura. Ele não mergulha, nem pousa na água justamente por tem uma asa muito grande que não permite alçar voo do nada. Na verdade, as asas, ao serem esticadas na altura da água, ficariam mais da metade submergidas e perderiam a sua oleosidade de flutuação. Digo isso para que você entenda o que vem agora: aconteceu de, na referida ilha, por ocasião de muita manjuba, numa das descidas, um deles se atrapalhou e ficou na água. Ficou quietinho, flutuando, como se nada tivesse acontecido. Então, já sabendo que esse pássaro não sai voando da água, todos do convés do barco se voltaram para o fato, como se dissessem ‘como ele vai se virar agora?’. Foi quando aconteceu algo que nenhum dos homens presentes, todos já velhos pescadores, tivessem visto ou imaginado: um outro pássaro do bando desceu, segurou aquele que boiava na altura do pescoço e começou a levantar o seu corpo da linha d’água até o ponto onde as asas do primeiro se desgrudaram da água, começaram a bater até ganhar autonomia de voo.  Impressionante, né.
            - E aquela vez das toninhas e atobás? Conta Zé!
            - Tá bem. Dessa vez foi pra fora do Bom Abrigo, pra mais de quatro horas de navegação, quando a embarcação estava com a carga quase completa de sardinhas. Não muito longe de onde a gente navegava, um bando de atobás desciam freneticamente a cada instante. Aquilo chamou a nossa atenção. Na mesma hora, estando eu de mestre, ordenei que fôssemos naquela direção para ver o que era aquilo, que tipo de peixe estava por ali chamando a atenção dos atobás. Aqui vem o inacreditável: naquele ponto do mar estava um cardume de toninhas. Elas mergulhavam muito profundamente, traziam, até mostrar na superfície, anchovas. Então, as aves pegavam como quem estivesse recebendo um presente; em seguida, ganhavam as alturas satisfeitas com as valiosas presas. As toninhas voltavam a mergulhar e traziam mais peixes. Tal espetáculo permaneceu por  quase uma hora, quando todos os pássaros pareciam estar saciados. Na verdade, elas estavam capturando os peixes de águas profundas e trazendo para que os atobás se alimentassem. Um dos pescadores que assistiu tudo disse no final: "Que exemplo! Será que alguém vai acreditar em nós quando, em terra, a gente contar isso?"

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Escrever sobre a cultura

                O estudioso Peter Burke, presente na FLIP/2010 (Festa Literária Internacional de Paraty), defendeu: “ainda me parece que há lugar para um livro que se concentra nos artefatos e apresentações em sentido estrito (...).  Esse tema mais limitado permite um estudo comparativo mais rigoroso do que o tema mais amplo”.
                As passagens que ouso transcrever são apresentações em sentido restrito, dizem respeito às particularidades do universo caiçara, mas são relatos que podem remeter a dimensões mais amplas. Hoje, por exemplo, estou me lembrando de uma narrativa frequente no Tempo da Quaresma, relembrada pela Maria Clarice. É bastante significativa porque mostra a força da religiosidade católica nos diversos aspectos da nossa cultura.
                Trata-se de um homem que, numa Sexta-feira Santa, foi a um baile. Lá se engraçou com uma mulher bonita e com ela dançou a festa inteira. Por volta das 23:30 horas, a mulher quis ir embora; ele ofereceu-se para acompanhá-la até sua casa. Ao chegar na porta, ele se deu conta que estavam dentro do cemitério. Naquele momento, a mulher disse que aquilo que havia acontecido era para ele deixar de ser debochado, pois a casa em que eles dançaram era uma sepultura.
                Daquele dia em diante, esse homem nunca mais quis saber de dançar nem em dia comum e muito menos em dia sagrado.
                Outras passagens, indo nessa direção, falavam que nesse tempo (Quaresma) não se deve varrer a casa, comer carne, matar ou pescar. Afinal, a Quaresma era tempo de renascer.

domingo, 25 de setembro de 2011

Jundiaquara

                O morro pouco perceptível na foto, devido a mata fechada, é o da Jundiaquara, que, segundo Sebastião, o “Velho Rita” do Acarau, quer dizer “toca de peixe”. Está entre o bairro da Estufa e a praia Grande. Em cima deste promontório, já tomado pela natureza estão as ruínas da fazenda, cujo último dono foi Robillard de Marigny. Ainda de acordo com o “Velho Rita!”, “foi a primeira fazenda a comprar um engenho moderno, trazido direto da Inglaterra. A peça era grande demais e foi conduzida pelo rio Acarau numa barcaça, puxado das margens por escravos. Naquele tempo o morro todo era plantado, alcançava o sertão da Sesmaria. Depois que a fazenda se arruinou, o engenho foi vendido para a fazenda do Mato Dentro”.
                O finado Chico Raé, que eu conheci muito bem depois que retornou de Santos, dizia que era descendente de suíços trazidos para trabalhar na Fazenda Jundiaquara, no tempo de D.Pedro II. Acho que era mesmo! Afinal, não me lembro de nenhum outro caiçara que tivesse um porte tão aristocrático como o Chico.
                Segundo muitos testemunhos, o lugar é mal-assombrado e trás marcas de outros tempos, quando a agricultura atraiu os europeus para o primeiro empreendimento que o nosso chão caiçara conheceu. João de Souza, o caiçara do pé rachado, dizia que “até correntes de escravos ainda é possível encontrar fixadas em diversos pontos dali”. São provas de um tempo ainda anterior ao tempo dos parentes do Raé.
                Ainda de acordo com Chico Raé, o caiçara aristocrático,  os seus antigos foram trazidos para formar uma colônia no Brasil. Imagine uma colônia suíça na Jundiaquara! Chique, né? Porém, eles não estavam acostumados a serem tratados como servos medievais, por um fazendeiro de pouca cultura erudita e sem muita educação. Se rebelaram, foram ficando desleixados, entraram no ritmo dos caiçaras que só tinham o tempo como patrão. Alguns retornaram às suas origens porque o consulado suíço ofereceu essa alternativa; muitos outros se acaiçararam. Dá para imaginar o resto.
                “Um fazendeiro desolado, sem mão-de-obra. Isso tudo ajuda entender porque aquele lugar é mal-assombrado!”. Deste modo exclamava João de Souza. E lascava causos daquele lugar, desde “a toca de ouro da ariranha” até “o ingazeiro que chorava”.
                É por esse e outros motivos que eu creio que a municipalidade pode investir em turismo cultural.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pescando no cerco

(Vento Contra)
                A pesca do cerco, segundo dizem, foi trazida para os caiçaras por um japonês na metade do século XX. “A moda pegou”! Um dos primeiros a instalar o cerco em nossa terra foi o pescador português, Jaime Peralta, da praia das Sete Fontes. No Saco Grande, entre Sununga e Sete Fontes, sustentada por gomos de bambu gigante, o corajoso imigrante retirou por décadas o sustento da imensa prole. Nele eram empregados até mesmo caiçaras de outras praias, tais como vovô Armiro, tio Genésio, Hilário, Dário Barreto, Rogé e Eugênio Inocêncio.
                O cerco consiste numa rede armada num ponto estratégico, próximo da costeira. É uma armadilha em formato “caracol”, terminando por um ensacador, onde, ao menos duas vezes por dia, deve haver visitação. É o que vemos na foto extraída do filme Vento Contra.
                  Outros cercos famosos: João Glorioso (Saco da Ribeira), Pedro Cabral (Perequê-mirim),Eduardinho Graça (Enseada- Ilha Anchieta), Xixico (Grande do Bonete), Zeca (Cedro/Ponta Grossa), João Zacarias (Mar Virado). Também o pessoal da Ponta Aguda, sob o comando do Acácio, se manteve por muitos anos cercando na Praia Mansa.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A procissão das almas

Relato da Gláucia para a tese de mestrado (Unitau)sobre causos populares

Minha mãe, Helena, morava na rua principal do Potim, que era um bairro de Guaratinguetá e hoje é uma pequena cidade. Junto com sua família moravam o Corrêa e a São Glória, que lá trabalhavam. Foram eles que contaram esse causo, ocorrido na década de 1940.
Toda segunda-feira, por volta da meia-noite, quando todos já haviam se recolhido em suas casas e a maioria já dormia, especialmente as crianças, começava a se ouvir um rumor de vozes vindo da rua, era gente rezando e cantando músicas de procissão andando em passo lento, indo em direção à praça da igreja. Iam até a  frente da igreja, onde havia um cruzeiro antigo, ali tudo terminava. Podia-se ouvir de dentro de casa, mas ninguém tinha coragem de sair ou de abrir as janelas. Todos os moradores daquela rua ouviam e comentavam com medo. As pessoas de fora não acreditavam, parecia invenção. O Corrêa afirmou que um dia espiou por uma fresta da janela e viu passar a procissão, disse que eram muitas pessoas, todas vestidas de branco e com véus brancos.
Uma noite, a procissão estava chegando na praça, passando em frente da casa da Geralda Brás, quando uma tia dela, não aguentando mais a curiosidade, se encheu de coragem e abriu a janela que dava direto para a rua. Queria tanto ver os rostos daquelas pessoas! Viu que todos na procissão carregavam velas acesas. Um deles, percebendo a observadora, saiu do grupo, foi até a sua janela silenciosamente e lhe entregou a vela que estava segurando.
No dia seguinte a moça foi encontrada desmaiada junto à janela aberta e em sua mão não havia mais uma vela, mas sim um osso. Nunca mais se ouviu dizer que alguém tivesse visto de perto a procissão das almas.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Os peixes precisam do largo

                Eu pude conhecer a Baía de Ubatuba piscosa, mas de acordo com os mais antigos, ainda “não era nada em comparação com outros tempos, quando não havia traineira arrastando até no quebramar!”. Lembro-me bem dos lances de rede dados por Florindo T. Leite, por Aládio e outros. Ainda era fartura, alimentava muita gente. Enfim, parece que o pessoal, desde aquele tempo (do início dos arrastos mecanizados nas nossas baías) já sabia o que diminui a oferta de pescados. Afinal, a rede de malha miúda pesca tudo, inclusive os filhotes. O que tem de ser feito?
                a) Optar por uma pesca mais artesanal, ou seja, que deixe o peixe procurar a isca;
                b) Garantir a proteção dos peixes, sobretudo dos que precisam crescer.
                Eis a minha proposta: fazer da Baía de Ubatuba um espaço de parcéis artificiais para que os frutos do mar se reproduzam e atraiam os peixes para a alimentação e proteção. Quantas carcaças de automóveis vemos abandonadas no município? É certeza que, após um semestre afundadas, as cracas as infestarão e os peixes já estejam em casas novas. E por que não criar um charme para a cidade das canoas, com o mar coalhado delas? E por que não desenvolver a canoagem desde os primeiros anos escolares como uma marca coerente com a tradição natural?
                Nós todos precisamos refletir sobre isso, mas principalmente aqueles que dependem diretamente da atividade pesqueira e precisam ir cada vez mais longe para trazer uns pescados que, há coisa de quarenta anos, eram devolvidos ao mar porque fazia parte da miuçalha.