quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Que venham os turistas!

                Em meados da década de 1970, a Praça da Matriz (da Exaltação da Santa Cruz, de Ubatuba) era o ponto principal da cidade, onde a juventude se encontrava, os namoricos aconteciam e articulações políticas se teciam.
                Importantes encontros e reencontros faziam a gente buscar aquela praça. Algo semelhante à maioria das pessoas de hoje que é viciada nas interações virtuais. Também é dessa época que vi de perto o Mazzaropi filmando a Banda das Velhas Virgens.
                Em certa ocasião, depois de almoço, tendo resolvido uma questão trabalhista no escritório da Edna Marques, na avenida Iperoig, onde está atualmente a papelaria Marques, avistei o seo Filhinho num momento bem tranquilo no banco da praça olhando para o coreto recém-pintado. Puxei conversa sobre um monte de coisas. Foi quando eu percebi o que mais preocupava o farmacêutico: a questão do turismo e a onda de loteamentos e construções que punha a cidade de prontidão, receosa. Foi quando ele me explicou que tudo começou com uma série de reportagens feitas pelo jornalista Willy Aurelli, no final da década de 1920.
                De acordo com o Filhinho, o jornalista era um jovem destemido e idealista que veio para a cidade com a finalidade de fazer uma matéria a respeito do Instituto Correcional da Ilha Anchieta, de onde saíram as primeiras denúncias escritas sobre as condições reais dos detentos ali reclusos. “Ele se encantou pelas belezas naturais da nossa Ubatuba!”. Depois de retornar à capital, o mesmo publicou uma série de matérias expondo a cidade para o mundo, salientando as possibilidades turísticas. Essa foi a primeira vez que se apresentou o turismo como alternativa econômica, para as autoridades políticas pensarem nisso. Finalizando a prosa naquele tempo não tão distante, eis o comentário do nosso personagem: “Foi graças aos belos textos exaltando o nosso lugar que a antiga estrada imperial (Serra para Taubaté) ganhou a feição de rodovia no começa da década de 1930!”

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Assombrado



Tio Antônio estava casado havia pouco tempo com a tia Conceição quando isso aconteceu. Em uma noite escura como tantas, deixou sua casa no Sertão da Quina para   pescar ( passar picaré na praia). Afinal, era tempo de tainha! Na volta, já de madrugada, parou numa moitinha na beira da estrada por motivo óbvio. De onde estava agachado viu passando uma luz que julgou ser o Zeca Pedro com sua lanterna. Então gritou: “Espere por mim, Zeca Pedro, que eu te acompanho!”. No mesmo instante a luz parou e Tio Antônio, ao se aproximar um pouco, viu que não era o seu conhecido e sim uma luz esbranquiçada e informe que se transformou num vulto alto como um coqueiro que, parada, lhe impedia a passagem assustadoramente.
Tentando esconder o medo e manter a tranquilidade, e sem entender nada daquilo, disse num tom desafiador: “Se não me deixa passar não tem problema, conheço outro caminho”. E assim se foi, pegando um desvio, até que viu a luz aparecer novamente à sua frente. O que aconteceu desse momento em diante tio Antônio não soube explicar, julgava que havia perdido os sentidos pois não se lembrava de nada mais. Somente no dia seguinte foi que acordou na casa do velho João Firmino, no Sapê, distante do ocorrido mais ou menos um quilômetro.
Segundo o João Firmino, tio Antônio bateu em sua porta desesperado, gritando pela esposa, Conceição. Ao abrir a porta o velho percebeu que ele estava “assombrado”, então apagou a luz da lamparina (pois era assim que se agia quando alguém estava assombrado) e o colocou para dormir.
Desse modo o tio Antônio testemunhava a existência de assombrações.

sábado, 27 de agosto de 2011

É do povo!

                 Nesta semana comemoramos a Semana do Folclore. Quem se lembrou disso?
                É necessário ter uma ocasião para pensar e festejar tudo aquilo que passou a ser parte do folclore, da cultura popular. Afinal, tem uma sabedoria e/ou uma resistência que enfrenta o tempo, que nós usamos em diversas ocasiões como recurso imprescindível, mas por preconceito não queremos admitir como cultura popular, como saber preservado pelos mais pobres.
                É folclórico aquilo que só é praticado por uma minoria ou sobrevive na saudade de forma decorativa, ou seja, precisamos enxergar de vez em quando para ativar nossas reminiscências. Tudo aquilo a que recorremos de vez em quando, que “deixou de ser essencial” na sociedade consumista e individualista atual, classificamos como folclore.
                Eu prefiro, em muitas ocasiões, recorrer ao termo de cultura popular para mostrar uma sutil diferença entre as coisas que quase não sentimos necessidade e as coisas que, regularmente, apelamos como útil, que nos satisfazem. Vejamos as duas situações:
                1- É folclórico as técnicas de caçadas que supriam a mesa dos pobres caiçaras. Podem estar detalhadas em museus para que as gerações posteriores conheçam a criatividade que nasce da necessidade. Na minha varanda, só para ilustrar, guardo com muito carinho o bodoque confeccionado pelo amigo Irineu. É de guatambu. Quem já viu um bodoque ou conhece o guatambu, a sua enigmática/curiosa semente?
                Na confecção do bodoque está explícita a sabedoria prática dos antigos caçadores: o recurso do arco para lançar flechas sofreu uma adequação para atirar pedras. Agora não precisamos mais disso. O exemplar que tenho em casa é somente como recordação de um amigo e dos tantos bons bodoqueiros (Mané Gaspar, Tião Armiro, Joaquim Sirvino,  Janguinho do Morro e outros) que pude testemunhar na minha infância. Também o disponho aos meus filhos e visitantes para pratica de arremessos com o intuito de sentirem o quanto é difícil ser habilidoso com tal instrumento. (Muitos já arroxearam a unha!).
                2- Digo que é cultura popular aquilo que estou sempre buscando para uma solução imediata. Exemplos: Qual mato usar para aliviar essa dor?  O que vem depois de um sudoeste de três dias? Também pode ser sempre desafiante, mesmo ninguém sabendo de que tempo  é. O que seria a adivinha proposta pela minha vó Eugênia?
                “Ele morre queimando, ela morre cantando”.
                Ou essa outra:
                “São três irmãos: o primeiro já morreu; o segundo vive conosco e o terceiro não nasceu”.
                Quando a gente queria resposta, a sabida vovó respondia:
                “Use a cabeça para não enferrujar!”.
                É isso! Viva o saber com sabor que vem dos antigos, que nos supre nos dias de hoje! Viva o que chegou até nós graças a vontade-necessidade do povo!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Caiçaras versus pirangueiros e outros

De acordo com o caiçara Licínio Barreto, o primeiro questionamento cultural-étnico local (de definição  ao ser caiçara) aconteceu na metade do século XX, quando turistas do Vale do Paraíba também se autodenominaram caiçaras. Os ubatubanos (outra denominação dos nativos de Ubatuba) daquele tempo, na reação imediata daqueles que não queriam ter as características de cobiçosos, individualistas e sovinas (pechincheiros), deram-lhes a denominação de pirangueiros. Portanto, pirangueiro passou a ser  de modo genérico todo o pessoal do Vale do Paraíba. Desse tempo é Lycurgo, Bernardino Querido, Gebara, Sislas, Masset e outros loteadores da antiga sesmaria, origem da Vila Nova da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba, doada nos primórdios a Jordão Homem da Costa.
Depois dos pirangueiros, chegaram os tubarões: turistas ricos, sobretudo industriais e grandes comerciantes paulistanos; alguns eram estrangeiros. A esses interessavam apenas as áreas de jundu, próximo dos ranchos de canoas dos pescadores. Entre abricoeiros, pitangueiras e tantas outras plantas, surgiram as casas de tijolos chiques. As mulheres caiçaras começaram a ganhar autonomia financeira como empregadas domésticas. Após essa leva veio a juventude hippie adorando o modo de vida caiçara. Muitos deles se acaiçararam de verdade e contribuíram com reflexões de autoestima dos próprios caiçaras. Desta “juventude transviada” também saíram pesquisas, teses sociológicas e antropológicas: bases científicas e legais para resistência e reorganização do espaço compreendendo serra, terra e mar deste município chamado Ubatuba. É a partir daí que uma geração de caiçaras se forma tendo novos desafios: produzir e resgatar as condições de uma minoria da sociedade brasileira; se orgulhar e defender a beleza de um pedaço/retalho dessa colcha multicultural que nos caracteriza como brasileiros.
Enfim, o termo caiçara (proveniente do cercado indígena) se enquadrou na limitação natural do relevo (serra de um lado, mar do outro) e se fez cultura nos séculos de história. Escrevi isso porque rondam por aí os espíritos pirangueiros, dos tubarões, da massificação cultural que impede muita gente de ver as incoerências entre se dizer caiçara e ser caiçara. A única certeza a esse respeito: muitos agora são ubatubenses.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Sou caiçara!


Não é incomum encontrar pessoas dizendo orgulhosamente: sou caiçara! Então pergunto nessas ocasiões:
- Você nasceu aqui? Os seus pais e avós são deste lugar?
Digo isso porque, por enquanto, não dá para afirmar que todos os nascidos aqui (em Ubatuba) são caiçaras. São ubatubenses se aqui têm seus registros de nascimento. Ao contrário, quando aqui moram há várias gerações, desde o tempo quando a sobrevivência dependia, principalmente, dos recursos naturais, dos hábitos e costumes herdados dos primeiros habitantes, não há como negar que são caiçaras.
Tem mais! É caiçara:
a) Quem sente necessidade de hábitos e costumes herdados de seus pais e avós;
b) Quem reproduz os saberes que vêm de outros tempos;
c) Quem se preocupa com um ambiente equilibrado, capaz de se sustentar e promover a fraternidade entre os seus ocupantes;
d) Quem não se conforma com as afrontas ambientais em nome da cobiça e do descaso;
e) Quem se empenha em recuperar as soluções culturais para recriar o espaço;
f) Quem não se envergonha em recuperar os costumes, sonhos e história deste lugar, dessa região caiçara (a faixa litorânea desde o sul fluminense até o norte paranaense).
Depois disso... Quem não é caiçara pode muito bem se acaiçarar, crescer nesse estado de espírito e de vivência que só é possível porque existem condições ambientais e culturais.

domingo, 21 de agosto de 2011

Belarmino

                Pela realidade caiçara de Ubatuba passa um mundo de gente: alguns deixam saudades; outros já vão tarde.
                Belíssimas obras já foram produzidas em agradecimento pela convivência com essa gente do lugar e com o próprio lugar. Nesse momento me vem à lembrança tantas prosas e poesias, alguns livros, as telas de Benjamin, os azulejos de Cirineu, as esculturas de Pio, Jacob, Da Motta e outros que se contagiaram pela nossa cultura e pela terra.
                Na semana passada, do amigo-professor Emerson, lembrando-me do saudoso caiçara Belarmino do Puruba, o patrono da escola do lugar, recebi a seguinte pérola:

                Belarmino

                Tantas auroras que fizeram parte
                Da minha vida... E quantos parceiros,
                Quantos alunos... Par de anos dessa arte
                Em se traçar horizontes inteiros...

                Dias, meses e anos que deixarão
                Em mim saudades; do primeiro dia,
                De tanta aula; tentar fazer paixão.
                Do que escolhi como ofício. Sabia.

                De tal presente-possibilidade
                Da semente não brotar, ou de não
                Encontrar terra fértil... Ansiedade

                Ingênua! O que realmente importa, então
                É ser amigo leal, ter verdade,
                Habitar na mente e no coração!

                                                               Um beijo saudoso!
                                                                             Do amigo Emerson

               

sábado, 20 de agosto de 2011

Boi-tatá II


Segundo os índios que aqui viveram, boi-tatá era  uma cobra de fogo que surgia no mar. A descrição de Leovigildo Félix lembra a imagem sugerida pelos índios:
“Naquele tempo a praia do Pulso, dos meus avós maternos, era o nosso principal lugar de brincadeiras. Num final de dia, depois do serão, eu, o Antônio, o Ditinho Ricardo, o Pedro Cesário e outros meninos mais velhos fizemos uma fogueira na areia. Os mais velhos falavam que o boi-tatá não gostava de fogo, mas nós não estávamos nem aí para isso. Estávamos nos divertindo quando vimos surgir uma luzinha lá para os lados da Praia Grande do Bonete (a quilômetros de distância). E começamos com a provocação, gritando: 'Lá está um boi-tatá, se há de prestar que venha cá'. Enquanto isso a molecada batia tição contra tição, pulava na areia e fazia a maior farra. Aí nós vimos aquele fogo se aproximando por cima do mar. Era vermelho-alaranjado, girava com violência espalhando faíscas e deixando um rastro de fogo atrás de si, como um cometa. De repente já estava no morro do Pulso, na costeira. Nessa hora foi uma correria só: a criançada disparou em desespero, buscando suas casas. Nunca mais ninguém pensou em repetir isso.”
A caiçarada diz que o boi-tatá foi sumindo com a modernidade, a luz elétrica, o aumento da população no litoral. Mas muita gente ainda hoje tem viva a lembrança do medo que passou ao ver, em tantas ocasiões, aquela misteriosa luz sobre o mar.