sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

O GALO NÃO CANTARÁ

Observatório - Brazópolis 2023 - Arquivo JRS


      "Tá chegando o tempo de Reisado, né Zé? Só que eu tenho uma péssima notícia para você:  no Dia dos Santos Reis não vai ter galo cantando".  Quem me deu esta informação foi o amigo João.  "Por quê?". Fiquei atento à resposta. Eu soube imediatamente que ele se referia ao conhecido imitador de galo (cantando no momento certo diante do presépio da igreja).  Faz parte da tradição caiçara, no dia 6 de janeiro de cada ano, prestigiar os grupos que se apresentam e ouvir o galo cantar. "O galo não vai cantar porque o moço não é mais católico.  Agora segue uma religião que não aprova isso". Me surpreendi. Não teve como não dizer: "Ó dó, né? Mas foi escolha dele. Deve estar feliz". "Sim" - continuou o João - "Agora ele vive enfurnado em casa, estudando a Bíblia e os ensinos da igreja em grupos virtuais. Não participa de nada, parece até que tá adoecendo. Eu lamento muito, mas digo que é um atraso de vida deixar de participar das atividades folclóricas, das manifestações populares; deixar de lado tantas amizades de alegres eventos. Isso é doença, Zé".  "Pode ser mesmo. Assim vai entrando nessa moral de rebanho, aceitando coisas absurdas, alimentando sistemas cruéis. É o que chamamos de alienação. Muitos grupos, sobretudo religiosos, vão deixando as pessoas nessa situação.  Na verdade, se aproveitam delas. São os seguidores fiéis que sustentam essas organizações (que se tornam potências dominadoras de mentes e corpos). É uma pena, amigo. Pior é não ter galo cantando na noite dos  Santos Reis. Fazer o quê, né?",  Que tal refletir sobre as relações de dominação que as falas, os discursos. escondem?"

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

FANDANGO CAIÇARA

 


        

Gente que faz - Arquivo JRS

        17 de novembro de 2019. O dia amanheceu lindo, com uma claridade esfuziante. É dia de pitirão. A caiçarada e os novos caiçaras, adeptos da nossa cultura, foram convidados para o embarreamento do Rancho Caiçara, na praia do Perequê-açu. Bem-vindo, pessoal! 


        Cheguei cedo, mas o Rochinha e o Tião já começavam a transportar o barro, a ocupar o espaço de masseira. Logo foi chegando todo o nosso pessoal, homens, mulheres e crianças. Molhar barro, sovar bem com os pés, molhar, sovar de novo e perceber o ponto ideal para embarrear. É quando todo mundo mete a mão no barro para preencher os vãos do pau a pique. Que festa! As histórias e os causos não podem faltar em ocasião assim. No mesmo ritmo da odisseia do barro, algumas pessoas vão preparando o de comê. Até batata-doce foi assada junto com as carnes. A consertada era farta. Da minha parte, na garrafa de azeite, deixei a pinga com cambuci, em homenagem a um grande líder. A Roberto e Ostinho, recomendei ao partir: “Cuidem da ‘criança’, viu!”.


           Pitirão é o nome original de mutirão. A origem é tupinambá: pitirum; quando as pessoas se juntam para um adjutório, para um trabalho em comunhão. O pitirão que mais marcou a minha vida foi na nossa casa, no morro da Fortaleza. Lá, onde debaixo da aroeira do terreiro, nós avistávamos todo o mar da baía e de mais longe, onde os navios passavam soltando grossos rolos de fumaça. Naquele dia distante, veio gente até da praia Grande do Bonete, mostra da grande irmandade caiçara. Tal como se repetiu no Rancho Caiçara, logo a grande tarefa estava pronta. Antes mesmo do fim já tinha peixe assado, café, farinha e cachaça. E muitas histórias, lógico! 

      Hoje, quatro anos depois daquele dia do embarreamento, ao ler o anúncio da 6ª Festa do Fandango Caiçara, fico muito feliz que seja no Rancho Caiçara, cujo nome homenageia a saudosa Dona Antônia dos Santos Mariano. Ah! Tem muitas mãos envolvidas naquele espaço, naquela edificação! Parabéns a todas e todos que sustentam a cultura caiçara!

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

RIO ABAIXO

Chão de barro - Arquivo JRS


Um homem inútil dobra a esquina,

Tenta se vender como honesto.

Parece ter se esquecido das tantas maldades:

Destruiu árvores da nossa calçada,

Depositou lixo mais além, 

Saqueou áreas públicas,

Grilou terras, 

Sujou rios,

Se aproveitou da fé alheia, 

Deu calote em serviçais.


O inútil segue adiante.

Não assume as tantas maldades.


Agora anda lentamente, 

Mas é o mesmo de antigamente. 

domingo, 26 de novembro de 2023

PESCARIA EM ESPERA

Arte em casa - Arquivo JRS


"O cardume grande tá no ilhote".

"Passando o vento ele encosta".

"Só precisa paciência pra esperar ".

"A rede tá embarcada ".

"A canoa descansa no rolo ".

Eu madornava , mas escutava tudo.  Me arrastei até ali perto das duas da manhã. Dei de ombros quando ouvi o assobio de quem tava de espia.  Pulei ao toque do buzo (que era um velho chifre de boi). Só um dos camaradas não acordou.  O mestre da rede não se importou.  Disse correndo ao lagamar:

"Deixa esse porquera aí. Depressa, depressa".



sexta-feira, 24 de novembro de 2023

ARAUCÁRIAS E DINASTIAS

Araucárias na Barreira 


Na beira da estrada,

Na densa mata ao longe,

Lá estão as araucárias 

Pelos milhares de anos

Que esta Terra passa.

Perfiladas, dispersas,

Em grupos,  solitárias...

Erguem os braços ao céu, 

Acolhem e dão adeus.

Enquanto escrevo,

Penso nos meus.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

CORROMPIDOS

 


Um trabalho surgindo na telha - Arquivo JRS



       Segundo Aristóteles, um filósofo que fez muitas reflexões em Atenas há quase 2500 anos, “corrupção é uma mudança que vai de algo ao não-ser desse algo”. Pode ser: “absoluta quando vai da substância ao não-ser da substância, específica quando vai para a especificação oposta”.


      Escolhi o pensador acima para debater com um colega que reagiu ofendido porque eu afirmei que os pobres que continuam apoiando o reles ladrão de joias – para dizer o mínimo! – foram corrompidos. Genericamente falando, pratica a corrupção quem se aproveita de uma posição dominante para levar vantagem. Mas, conforme a definição primeira, é uma mudança que vai de algo ao não-ser desse algo.  Assim, pobres que abraçam ideais de ricos são corrompidos. Pobres que dependem do Sistema Único de Saúde, dos medicamentos da Farmácia Popular, dos direitos trabalhistas e das tantas conquistas sociais, mas que votam em candidatos que declaradamente são contra esses princípios são corrompidos. Trata-se do supliciado adulando, fomentando o seu algoz. Não importa sob que meios isso tudo aconteceu, mas a corrupção é notória. “Ah! Mas eles (pobres) foram persuadidos!”, exclamou o colega. Ser persuadido implica em acreditar que vai levar vantagem, lucrar alguma coisa, ser aceito num grupo etc., mesmo que não queiramos admitir. Vamos pelo emocional. Isto é o que geralmente ocorre, parecendo normal.

      Pois é. Atualmente, parece que há uma renúncia ao exercício pensante, à autonomia de pensamento. E volto ao pensador antigo escrevendo sobre a retórica, uma espécie de “metodologia do persuadir”. É assim que chega-se aos argumentos de que homens procuram convencer outros homens. Ela (retórica) não tem a função de ensinar em torno da verdade. Esta função é própria da filosofia, das ciências e artes. Mas por que ela faz tanto sucesso, “vira a cabeça de tanta gente”, acaba sendo prejudicial sobretudo aos pobres? É porque ela identifica e parte das estruturas fundamentais, cultiva os elementos que se apresentam aceitáveis para a maioria das pessoas.

     Entinema, um tipo de raciocínio retórico explícito na História da Filosofia, por Reale e Antiseri, “é um silogismo que parte de premissas prováveis (de convicções comuns e não de princípios primeiros), sendo conciso e não desenvolvido nas várias passagens”. Portanto, as convicções comuns podem ter nada de verdadeiro, mas apenas conterem ilusões. É pela emoção, pelos sentimentos que se torna fácil corromper as pessoas. Portanto, se nos vigiarmos, fica mais difícil de sermos corrompidos, pois a justa medida passa a ser a nossa referência ética. Os que vivem às custas do pobres temem isto: de que a justiça seja a mais importante das virtudes.  Bem nos lembra os autores citados de um provérbio antigo: “Na justiça está abarcada toda virtude”. Por isso que pensar é perigoso.


terça-feira, 21 de novembro de 2023

A CASA DA BENZEDEIRA

 

Casa da benzedeira - (Arquivo Joban)


Fabiano e Petiá: um adorável casal  - (Arquivo Joban)



      SOLAR DOS OLIVEIRAS OU PATRIMONIO HISTÓRICO DA PETIÁ

         Minha tia Petronília era muito amada, conhecida e admirada por todos os caiçaras que a procuravam para curar seus males onde a medicina da redondeza não conseguia ou não tinha. Era conhecida como D. Petiá, ela residia nessa casa linda que o tempo envelheceu, que será reformada. Esse patrimônio histórico é a segunda casa mais antiga do bairro, só perde para o antigo armazém do Maciel. Nesta casa muitos vinham com lágrimas nos olhos e com os corações esperançosos e saiam com sorrisos nos lábios. Dona Petiá, essa sensível caiçara que espalhou na vida filhos legítimos nascidos do seu ventre e filhos adotados nascidos do seu lindo coração, deixando em cada um de nós a saudades daquela que não mediu esforços para alegrar a todos nós, merece nossa eterna memória.


         O amigo João Batista Antunes (Joban) fez muito bem em registrar um pouco de seus familiares, de sua gente da Pedra Branca, na praia da Enseada. Nos alegra com a notícia da reforma por acontecer na casa da benzedeira.

      Dona Petiá era benzedeira muito estimada. Eu morava no bairro próximo, mas circulava muito além da vizinhança, enxergava a movimentação na Pedra Branca, onde até hoje mora o casal Joban/Andrea e tantos outros conhecidos da minha infância.

    Benzedeiras e benzedeiros se distribuíam por vários bairros/praias. No Sapê, a  tia Livina vivia atendendo a todos. Na Fortaleza, benzer era o trabalho da tia Aninha. No Corcovado, tio Francolino era o benzedor. No Itaguá, dona Josefa atendia desde a os parentes da Ponta Grossa até o centro da cidade. Na Estufa, Seo Manoel Mariano, nascido no Canto da Paciência, atendia em sua pobre casa os moradores do entorno. Na Sesmaria da Estufa, João Alexandre, natural do Sertão do Ubatumirim, era a referência.  (Até ganhou nome de escola municipal). Toda essa gente, essa caiçarada de outras gerações, sensível às dores dos pobres, além de benzer e rezar, também recomendava as ervas que conheciam. Corpos e almas eram aliviadas pela fé e pelos conhecimentos dos nossos antigos.

     Viva o sincretismo religioso da nossa gente!