segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

ENFIM, O PETER!

Prosa com café (Arquivo JRS)



Mensagens, telefonemas, marca, desmarca...Entre tantos desencontros, hoje aconteceu o nosso encontro.Bem cedinho, enquanto fazia pequenos trabalhos, comuns em qualquer lar, eu já estava aguardando o amigo Peter, cuja obra Glossário Caiçara de Ubatuba, marca uma promissora carreira acadêmica e engajada na cultura caiçara.

  Na verdade, ele apareceu para buscar a encomenda  de três xilogravuras e me presentear. Grato, amigo! Depois, aproveitamos para um bom papo. Coisa boa! Bom companheiro de prosa!

Frequentador da Praia da Enseada, Peter desde cedo percebeu peculiaridades nos moradores do lugar, sobretudo no linguajar recheado de arcaísmos e com muitas expressões dos primitivos habitantes (tupinambás) desse chão. Escuta aqui, escuta dali, anota tudo e...eis o livro. Ao mesmo tempo, sendo descendente de trabalhadores do mar, apostou alguns anos na maricultura, na criação de mexilhões. Experienciando três anos na prefeitura, onde acompanhou a implantação de mais espaços para o ramo dos mexilhões (Camburi, Pulso, Prainha...), sentiu que o desafio era muito maior que imaginava. Tratava-se de preservar os recursos naturais e culturais para se ter sustentabilidade. Em seguida, junto com a luta dos pescadores da Praia da Enseada, abraçou a causa da canoa caiçara, que é parte nossa cultura material e imaterial  (as técnicas, as escolhas das madeiras, a época propícia de corte, os pitirões...). E assim segue esse cidadão registrando e imortalizando os aspectos culturais da existência caiçara. Quer conferir?! Veja o canoadepau.blogspot.com.

       Falamos um pouco de cada coisa: desde os pinheiros que querem invadir o espaço da mata nativa (Atlântica) até os ranchos oficiais que garantem a permanência dos pequenos pescadores. Lógico que o turismo está nesse alinhavado!

O turismo no município de Ubatuba nasceu com os acessos rodoviários: no início da década de 1930, com Taubaté, e, em meados da década de 1950, ao município de Caraguatatuba.

  Hoje, depois de tanto tempo convivendo com as atividades turísticas, constatando o descaso histórico e geográfico, me imagino como um visitante querendo aproveitar ao máximo de um lugar mencionado como agradável desde muito tempo. Certamente que poucas coisas e talvez nenhum guia turístico me possibilitará o encontro de itens que lembrem o passado desta terra (Ubatuba). O que pode ficar na retina recordatória de um visitante serão os casebres, a falta de harmonia arquitetônica, os rios que levam sujeiras para o mar, os condutores e pedestres desrespeitando regras básicas de civilidade, os pedintes, os lixos descartados em qualquer logradouro etc. Mesmo assim, ainda temos a natureza! É ela que deve servir como ponto de partida para entender e divulgar os alicerces da alma caiçara! Vamos apostar nela e preservá-la!

Uma sugestão é de se criar um curso de História Municipal. Quem sabe a partir disso nasça a solução para alguns dilemas do nosso entorno!?!

sábado, 21 de dezembro de 2013

CARACOL DE UBATUBA



           As minhas amigas, as irmãs Monique e Cristina, de Caraguatatuba, para demonstrar o quanto aprenderam de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), apresentaram esta agradável música. Adorei e faço de tudo para que mais gente aprenda. Que graça esta demonstração de carinho para com a gente!

O caracol que mora em Ubatuba,
Escreveu uma cartinha pra saúva.
A saúva respondeu com um desenho,
O caracol coloriu com muito empenho.

O caracol que mora em Ubatuba,
Escreveu uma cartinha pra saúva.
E assim continuaram sem parar,
Desenhando e ouvindo o tchá tchá tchá...

Na segunda desenharam um gavião,
Na terça o jacaré com seu bocão,
Na quarta foi o polvo de oito patas,
Na quinta canguru com três gravatas,
Na sexta dois marrecos barulhentos,
No sábado um touro rabugento,
No domingo foi a vez do chimpanzé.
Depois foi tudo igual de marcha ré.

E pra poder fazer de marcha  ré...

No domingo foi a vez do chimpanzé,
No sábado um touro rabugento,
Na sexta dois marrecos barulhentos,
Na quinta canguru com três gravatas,
Na quarta foi o polvo de oito patas,
Na terça o jacaré com seu bocão,
Na segunda desenharam um gavião.

Caracol que mora em Ubatuba,
Escreveu uma cartinha pra saúva.
E assim continuaram sem parar,
Desenhando e ouvindo o tchá tchá tchá...

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

CURVA DO ATALHO

Homenagem ao caiçara - Arte: Estevan (Arquivo JRS)
                    Passando entre tantos veículos, pela estátua que homenageia os caiçaras, avistei o amigo Júlio Mendes numa tarefa voluntária: pintar os dizeres do pedestal para dar um destaque à cultura do nosso lugar, cujo nome bem tupinambá é Ubatuba. Parabéns a esse filho da terra que tanto faz pelas nossas raízes culturais. A incumbência do desenho passei ao meu filho. Acho que ficou bom, né?
             Para completar, escolhi a poesia do mano Mingo. Ela foi inspirada nos tantos sinistros e ziguezagues da Serra do Mar, que liga o Vale do Paraíba ao litoral, à nossa cidade.

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Quantos motoristas apressados
escolheram o caminho mais curto
na curva do atalho
no sentido da descida
da Serra de Ubatuba
cujos escombros de almas
e aços retorcidos
a mata ainda esconde?
Atalho para onde?

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

IDENTIDADE CAIÇARA SE ATUALIZANDO

A partir do texto publicado pelo amigo Peter, no blog canoadepau.blogspot.com, somos convidados a refletir sobre a dinâmica da cultura, da nossa cultura caiçara. Tudo é como as marés: sempre em movimento.

Quero-quero no lagamar do Perequê-açu - Ubatuba  (Arquivo JRS)

INOVAÇÕES TÉCNICAS NA PESCA, FORMAM A IDENTIDADE CAIÇARA


Fonte: http://www5.usp.br/32601/segundo-estudo-da-fflch-inovacoes-tecnicas-na-pesca-ajudaram-a-formar-identidade-caicara/

Rúvila Magalhães / Agência USP de Notícias

A pesca é uma atividade comum no litoral de São Paulo e está sempre agregando inovações às suas técnicas, mas sem perder as origens herdadas pela tradição. Grande parte das mudanças foi surgindo de iniciativas individuais ou de pequenos grupos. Como características históricas do progresso, as novidades úteis são mantidas enquanto o que pouco agregou acaba caindo em desuso. A evolução histórica das técnicas de pesca utilizadas pelos caiçaras do litoral paulista entre os anos de 1910 e 2011, e suas implicações socioambientais, foi o objeto de pesquisa do analista ambiental e historiador Marcelo Afonso, realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Foto: Peter Santos Németh

O objetivo do estudo foi mostrar que mesmo que as inovações técnicas tenham se instalado na pesca dos caiçaras, elas não foram responsáveis por eliminar a identidade do grupo. Ao contrário, a assimilação de novas técnicas contribuiu para a formação da identidade. “Muitas das inovações, como o cerco flutuante trazido pelos japoneses na década de 1920, e o uso dos diferentes materiais como o plástico e o náilon, foram adaptadas e incorporadas na cultura caiçara, que desde sempre foi marcada pela heterogeneidade, pelo dinamismo e pela mudança na busca pela sobrevivência”, exemplifica Afonso.


Além disso, foram delimitados alguns marcos referentes à introdução da pesca industrial tendo como objetivo verificar a participação que esse tipo de pesca teve nas transformações ligadas às técnicas utilizadas e às relações de trabalho entre os pescadores. Entender como o estilo de vida do pescador artesanal mudou com a introdução dos barcos de pesca industrial também figurou entre os objetivos do estudo.



Evoluções seletivas
A análise de um século de história sobre a pesca no litoral paulista mostrou ao pesquisador que as evoluções e modificações foram seletivas. Novas técnicas só eram adotadas pela maioria quando estas mostravam-se eficientes. “A comunidade espera para ver se o novo método ou petrecho está funcionando e, se for comprovado que ele dá bons resultados, uma parte dos pescadores passa a aceitá-lo e utilizá-lo, até o surgimento de uma outra nova técnica (trazida por pessoas de fora, ONGs, governo etc.), que passará pelo mesmo processo”, explica.



Esse processo de testes e adaptações de técnicas gerou uma gama variada de pescadores trabalhando simultaneamente com diversos tipos de pesca, o que fez surgir diferenças sociais internas e aumentou a competitividade entre os pescadores, causando, algumas vezes, conflitos que geraram falta de união em momentos importantes para as comunidades. A ocorrência da multiplicidade de técnicas, porém, revelou a capacidade dos caiçaras em se adaptar às adversidades econômicas, sociais e ambientais durante todo o século passado.



As transformações
“As transformações técnicas na pesca paulista, no decorrer do século 20, foram mais intensas principalmente nos novos materiais de fabricação dos petrechos, nas embarcações com motores mais possantes e com maior capacidade de carga e nas tecnologias de navegação e captura do pescado”, relata Afonso acerca das evoluções. Segundo ele, os marcos importantes para a pesca no século 20 foram a introdução da traineira, em 1910, do motor de centro e do power block, que é um tipo de guincho motorizado para recolhimento de redes, e do GPS, sonar e ecossondas.



Dados do Instituto de Pesca, coletados desde a década de 1960, apontaram para uma redução do pescado, sendo que 2011 teve o menor volume de pesca nos últimos anos, apesar do aprimoramento tecnológico. Pescadores entrevistados em todas as partes do litoral paulista afirmaram que isso vem acontecendo devido à pesca excessiva realizada por embarcações industriais. No entanto, pesquisadores do tema rebatem dizendo que o poder de captura dos pescadores artesanais também é um influenciador nesse caso. Somado a isso, tem-se a degradação dos ecossistemas marinhos, que pode explicar a redução na quantidade de peixes.



A dissertação de mestrado História de pescador: um século de transformações técnicas e socioambientais na pesca do caiçara do litoral de São Paulo (1910-2011), orientada por Gildo Magalhães dos Santos Filho e defendida em agosto de 2013, contribui na construção de um histórico das transformações técnicas e de outros fatores socioeconômicos e políticos ligados ao setor. Segundo o pesquisador, o reconhecimento dos caiçaras como população tradicional é essencial para a sua inclusão social e econômica, assim como o conhecimento de sua história e técnicas é importante na autoafirmação dessa população.



“O poder público precisa encontrar uma maneira de estimular uma relação equilibrada entre conservação do patrimônio cultural e natural e a melhoria do padrão de vida dos caiçaras. Essa não é uma tarefa simples e essa pesquisa pode contribuir, de alguma maneira, com elementos que devem ser levados em conta nas tomadas de decisões políticas voltadas ao apoio e à inserção econômica e social das comunidades pesqueiras”, conclui Afonso.

Mais informações: marcelum@yahoo.com, com Marcelo Afonso

GRANITO VERDE


Albado e outros na comunidade da Estufa (Arquivo JRS)

Ao me interessar pela origem das famílias que apareciam entre as mais tradicionais do bairro da Estufa, no começo de 1980, encontrei os  irmãos Albado (Manoel, Luiz, Sebastião...)

  Naquele tempo, quando ainda não existia a internet, o jeito era pesquisar nos livros. Um dos que me deram várias informações foi o Anhembi, cujos temas giravam em torno da sociedade brasileira. Dela veio a informação de que Albado deriva de Abbado, de origem italiana.

Quem diria que os Albado, migrantes negros, vindos  da pequena cidade de Silveiras, no final da década de 1950, tivessem parte de sua origem italiana?

A propósito, em 1960, por ocasião de uma apresentação da Orquestra Arcos de Milão, na capital paulista, o regente era Michelangelo Abbado. É, parece que a música está na raiz desses caipiras que se acaiçararam há décadas. Acho importante destacar que os jovens Albado foram atraídos pela riqueza do granito verde, cuja extração/exportação a partir de Ubatuba se estendeu até meados da década de 1980, ou seja, por quase meio século.
Dessa época, mesmo depois de tanto tempo, alguns morros ainda têm marcas da atividade, da extração mineral, com “feridas que levará tempo para natureza curar”. Exemplos: das Toninhas, do Itamambuca, do Corcovado, da Sesmaria da Estufa, do Sertão do Perequê-mirim, do Félix etc. 

Quanta fama pelo mundo afora ganhou o granito verde de Ubatuba!?! Quantos migrantes na profissão de cortadores de pedras, vindos principalmente do Estado do Rio de Janeiro, neste município se estabeleceram?!?

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

TERRITÓRIO E TURISMO

Mosaico  02 (Arquivo JRS)


Relendo o trabalho da colega Carmen Calvente, lembrei-me dos bons momentos que passamos trocando considerações acerca da cultura caiçara, dos desafios que fazíamos a nós mesmos conforme íamos entendendo melhor os fatores causadores de tantas transformações no espaço do litoral norte paulista. Naquele tempo, há mais de vinte anos, a pequena Bruna se divertia no jundu da Praia da Fazenda enquanto o nosso grupo (Carmen, Vladimir, Luís, Mary, Solange...) se debruçava no estudo do meio, sob orientação da professora Nídia Nacib, irmã do saudoso mestre Aziz Ab’Saber. Eis mais uma contribuição dessa amiga:

Com o turismo, ocorreu um processo acelerado de valorização das terras e de especulação imobiliária. Estas terras passaram a ter valor de troca (tradicionalmente, tinha apenas valor de uso), No início do processo muitas posses foram vendidas por valores mínimos, sendo que os caiçaras estavam pouco habituados às relações capitalistas ou a conviver com valores monetários, pois quase todas as necessidades eram satisfeitas pela produção familiar. O turismo penetrou como especialização; outras atividades econômicas (como a pesca), passaram a ser abandonadas e até consideradas entraves à modernização, inclusive pelos poderes locais.

As posses que continuaram nas mãos das famílias caiçaras foram diminuindo e aumentando de valor. Os que ficaram sem terra passaram por um processo de proletarização, e, como mão de obra barata, piorando as condições materiais de existência, ao mesmo tempo que aumentava a informação e o apelo com relação aos bens de consumo.

As comunidades caiçaras passaram a ficar concentradas em determinados locais. Mesmo nestes locais, na maior parte dos casos a faixa beira mar foi vendida e cada vez mais os pescadores, passando a morar nas encostas, sofreram dificuldades para transportar o equipamento de pesca até a beirada do mar, pois as residências de veraneio são construídas muradas, diferentemente das residências tradicionais.
[...]
No litoral norte, nesse momento alvo de uma destruição ambiental sem precedentes, ocorre pressão de grupos ambientalistas e são criados Parques Estaduais, inclusive o Parque Estadual de Ilhabela. Ao mesmo tempo que são limites para a especulação imobiliária, para os caiçaras esses Parques representam a perda do território, pois aumentou a impossibilidade material de praticar atividades tradicionais como a roça e a caça, sendo que esses limites também foram surgindo na beira mar: as novas residências construídas muradas, fechando o acesso à praia e dificultando a pesca. Além da impossibilidade material ocorre também uma mudança cultural: a pesca artesanal e a roça deixam de ser atividades atrativas para os mais jovens. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

POPULAÇÃO LOCAL E PRESERVAÇÃO

Mosaico - 01 (Arquivo JRS)


                No ano de 1991, a colega Carmen Calvente, exercendo o magistério na Ilhabela, desenvolveu uma pesquisa com os caiçaras, onde alguns aspectos foram a base do seu mestrado na área de Geografia do Turismo, pela USP.   Mesmo depois de duas décadas, continua sendo uma contribuição ao momento do litoral norte paulista.
               
                Aproximadamente 80% da Ilha é Parque Estadual de Ilhabela, uma outra parte é área tombada e o restante deveria estar protegida pela Lei do Uso do Solo Municipal. Se existem alguns grandes projetos embargados pelo Parque, sempre vai ser a maioria pobre, o morador local, um alvo mais constante  e fácil para as ações punitivas.  A Lei do Uso do Solo tem sido utilizada, de acordo com o relatado, como instrumento de poder pelas administrações  municipais. O decreto do Parque, da década de 70, foi feito sem levar em consideração o morador local,  representado para a população nativa, uma invasão de um território utilizado há várias gerações.
                Há duas maneiras possíveis de encarar a questão da população local em áreas de conservação. Uma maneira, a mais fácil, é pensar na população local como o principal inimigo da conservação e ter como projeto retirar essa população ou pensar em educá-la para obrigá-la a conservar. Uma outra maneira, com certeza a mais complexa, é pensar nessa população local e sua necessidade de sobrevivência dentro do mesmo processo histórico que trouxe a destruição ambiental sem precedentes encontrada hoje, e, encarar essa população como composta por sujeitos ativos, que podem participar, com seu conhecimento e territorialidade, num diálogo pela conservação desse espaço.

                É importante ressaltar que, no litoral norte de São Paulo,  neste século [XX], o grande impacto ambiental foi trazido pela chegada do equipamento turístico. Não há como questionar a necessidade de conservação, mas esta necessidade não surgiu porque os caiçaras ocupavam o território de maneira tradicional, e sim pela lógica da cultura urbana e a procura de espaços turísticos, que se transformaram em mercadorias de alta rentabilidade.