quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

“Não presta apontar estrela!”



                Quem não tem lembranças de céus estrelados e de luas brilhantes? Imagine, então, os tantos espetáculos que os caiçaras presenciaram ao longo dos séculos, seja na pesca, nas praias ou nos deslocamentos noturnos, quando era tempo das caçadas!

                Quantas vezes, olhando o céu estrelado, apontávamos a mais brilhante, as cadentes, as azuis, as amarelas, as avermelhadas etc.! Era em ocasiões assim que pessoas mais experientes ralhavam com a gente: “Não presta apontar estrela com o dedo! Nasce birruga!”.

                Não sei se era verdade, mas as imagens de pessoas verruguentas tinham um poder enorme. Medonho! No mesmo instante, segurávamos as mãos nas costas para conter-se no ato.

                Até hoje, ao olhar um belo céu estrelado, não deixo de lembrar a frase: “Não presta apontar estrela!”.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Aforismos do vovô

Uma visão a partir da trilha da praia das Sete Fontes



                É definido como aforismo : “proposição que exprime de maneira sucinta uma verdade, uma regra ou uma máxima concernente à vida prática”. Para vovô Armiro, conforme a minha classificação, era sabedoria de vida, recurso para tornar a vida mais feliz. Ou melhor, os aforismos eram máximas para vencer o dia a dia da realidade caiçara. Vez  por outra me pego pensando nelas.                Exemplos:

                1- “Quem há de resistir contra a comichão sentir?”;

                2- “A perna que tem coceira, a unha não tem descanso”;

                3- “Banana verde não se dá; põe no  ... pra madurar”;

                4- “Ninguém é de si mesmo”

                Por fim, não sei como o vovô conheceu Dante, o da Divina Comédia. Só sei que ele o citava regularmente em situações cabíveis: “É uma verdade oculta sob belas mentiras”. Difícil era desnudar as suas palavras para ter o real entendimento. Esse era o meu avô vindo de mouro-português e italiana.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Arquivo Maria Cruz - Porto da Cruz – Sapê /Maranduba

Lá longe está a ilha da Vitória.
                 Tenho o prazer de apresentar aos leitores o texto completo da Maria Cruz, de onde extraí uma parte para justificar o texto anterior (Contraponto). A autora, caiçara do Sapê, sempre foi muito engajada nas questões da cultura caiçara e nos problemas da região Sul do município de Ubatuba.
                "Aqui, na praia da Maranduba, Anchieta  também  escrevia  versos de seu famoso Poema á Virgem.  O local, de acordo com a tradição, ficava à direita da cruz, para quem olha para o mar em direção da ilha do Mar Virado. Estando molhada ou seca, é praia  de areia fácil de escrever. Por isso fica fácil crer na tradição.
              No mesmo lugar onde hoje há um cruzeiro como lembrança, centenário  a se perpetuar,   é o  marco da  passagem dele por aquele ponto. Era onde adentrava  no jundu  e tinha seu ponto de pousada por ali mesmo, na mesma direção do cruzeiro. Foi onde ele montou  seu pousio. No mesmo lugar rezava a missa cotidiana e obrigatória de sua fé.
                Na vivência e lembrança dos antigos caiçaras, o primeiro cruzeiro foi erguido pelo padre jesuíta que eles nem sabiam quem era.  Eis a informação que recebemos da tradição e mantemos até hoje:  “era um padre que escrevia  nas areias da praia”.
                Seguindo a fé e religião de seus antepassados, o  cruzeiro foi sempre preservado ou novamente reconstruído, continuando, ainda, como um marco do acontecido, de uma história já esmaecida no tempo.
               O repouso do padre, certamente uma palhoça de pau a pique, era ali. Portanto, também seu oratório, onde rezava sua missa cotidiana obrigatória naqueles tempos, sob aquele chão se assentava.
                Depois, uma capelinha foi erguida no lugar onde souberam existir as rezas do padre. Passou a ser o lugar sagrado, onde  aconteciam as rezas do povoado, as festas de seus santos, as ladainhas cantadas em latim pelos mais velhos.
                De onde viera aquele latim, evocado  na lembrança dos que vieram; depois passado a seus descendentes, principalmente aos Amorim que eram rezadores?
                Um desmatado terreiro ao redor da capelinha, dava espaço ao povo que vinha às rezas  daquela época.  Aquele mesmo espaço, livre de mato que circundava a capelinha, continua hoje  com o nome de Praça  Santa Cruz.  Em seu lugar está instalado o ponto de ônibus,  no centro comercial  do Sapé.
                Igualmente,  a capela atual , embora em outro local (explicaremos o porquê),  como a  primeira , continua com a denominação de Capela de Santa Cruz do Sapê. Os caiçaras centenários moravam  todos na planície.
                No Porto da Cruz, lado norte do cruzeiro fica o Sapê, moravam as famílias: Oliveira,  Amorim, Carlota e outras mais. Ao  sul, a alguns metros  além da cruz,  ia-se para a Barra. Era onde morava D. Judite, que ficou com o que era do finado Chico Amorim.
                Depois do rio Maranduba, ficavam outras famílias: dos Félix (Rosalina), Tabatinga , depois seu filho Alcides,  Apolinário, os Amorim (que era uma familia grande),  assim como os Oliveira, que tinham ramos por todo o espaço da Baía do Mar Virado e até além dela.
Limites de Sapé e Maranduba 
               A fazenda Brejain Mirinduba, que tinha sua sede, segundo  diziam os antigos,  aos pés do morro da Maranduba, se estendia por uma grande extensão de terras, tendo  como  divisa,  o terreno dos Oliveira, ao Norte, porque estes tinham título de sua propriedade.  Esta fazenda foi a leilão no Rio de Janeiro, onde alguns turcos a arremataram e, mais tarde,  implantaram  um loteamento, o Balneário Maranduba, passando então, todo este espaço que fazia divisa com os Oliveira, a ser chamado Maranduba, desaparecendo o termo Barra como denominação de lugar conhecido  antes do Rio Grande. Ainda hoje existe a casa grande do armazém da família Francisco Amorim, que era homem de muitas posses, pessoa importante naquela época,  que fazia parte da elite do município de Ubatuba, onde eram influentes na política local, tendo sido um deles, prefeito da cidade, segundo sua filha Estefania,  que morou seus últimos anos  de vida , há pouco tempo, na Maranduba.
                Antigamente e até  o meu tempo de criança,  quando alguém queria ia para o lado do sul, dizia “Vou à Barra”. E sabíamos que  ia para o lado do sul , ou,   além do Rio Grande,  na Maranduba. 
                O rio não era conhecido por Rio Maranduba  mas  sim,  Rio Grande, desde sua nascente no Sertão do Damião, hoje Sertão do Meio, cachoeira da Renata. Na época de Damião, conhecia -se o rio, além da casa do mesmo , como um lugar de “encante” que tinha ouro, nas redondezas do Poço Verde. Naquele tempo havia assombrações. O morro do Foge que praticamente separa o sertão da praia,era mal assombrado. Talvez por isto, na época da aparição da Santa, no Sertão da Quina, muitos sacis apareceram por aquelas bandas e acompanhavam a procissão pelo mato e deixando-se serem vistos, eram mortos pela população a pauladas. Agora as coisas mudaram.  Por causa do loteamento a Maranduba virou nome principal, engolindo a Barra e quase também o Sapê.
                As pessoas de um determinado tempo para cá, que  não conhecerem a história do lugar, mudaram até o nome do rio que hoje é conhecido por Rio Maranduba.
                Quando criança, íamos todas as tardes de verão, tomar banho no Rio Grande, aqui próximo, num lugar chamado passagem do Zacarias, mais ou menos próximo a bifurcação da rua que adentra ao loteamento Maranduba. Hoje este nome não existe mais, somente os mais antigos o sabem.

 Sobre a mudança da igreja
                Caiçaras antigos , tinham uma grande área de terra no Sapé, pertencente à família Oliveira, representado por Nestor Zózimo de Oliveira e seus outros parentes. Um deles, Jonas , seu  sobrinho, vendeu um pedaço desta terra para o Sr. João Pimenta, atrás do terreno onde ficava a igrejinha. Aquele tempo as divisas não eram muito respeitadas e acabou que,  João Pimenta, que era incrédulo, segundo os antigos, e não gostasse da capela que ficava à frente de seu comércio de secos e molhados que havia montado na frente de seu terreno, acabou  se apossando   da parte onde ficava a igrejinha e mandou demoli-la na época em que foram feitas os estudos para a implantação da rodovia que hoje aí está ligando Ubatuba a Caraguá.  Algumas pessoas antigas diziam que chegou a receber certo valor , pagos na época pelo DER, no que incrementou muito seu comércio.
                Sem a sua capelinha, os caiçaras não ficavam, e,a família Oliveira, como todos os outros de sua época, muitos católicos, novamente   cederam  outra parte de terreno, nas proximidades da antiga e outra capela novamente foi erguida, conservando o mesmo nome da padroeira do lugar,  Santa Cruz do Sapê. O nome foi mantido; permanece até hoje.
                Há pouco tempo, o pároco local desativou a capela, e, ficando o espaço ocioso, pensou em  vender o imóvel.  Remanescentes dos antigos caiçaras resistiram à ideia com a alegação de que ela representava a memória e a história viva do lugar. Juntos venceram a ideia do pároco: a pequena capela não foi vendida. Mais tarde,  já sob a responsabilidade de outro pároco que   entendeu os argumentos sensatos da comunidade, novamente a reabriu. Hoje, a velha capela, depois de uma pequena reforma, serve a esta comunidade (Sapê/Maranduba) e a todos que por aqui passam temporadas de verão. É muito concorrida, embora outra igreja tenha sido erguida, dentro do loteamento Maranduba que havia destinado uma área para esta finalidade".

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Um contraponto

    
                Devido a alguns artigos sobre o Cruzeiro de Anchieta, a minha amiga Maria Cruz pediu que eu fizesse um contraponto. Como? É fácil!
                A história que prevalece é aquela que é mais conveniente a um grupo ou ideologia dominante. Ou melhor, isso de revisar algumas “verdades históricas” é coisa recente, do século XX. Então, é “natural” que no nosso município as coisas corram mais ou menos assim. Nessa nova concepção, já se considera que o alemão Hans Staden passou por Yperoig, a nossa  Ubatuba, mas foi prisioneiro por vários meses em outra área, na aldeia de Ubatuba que ficava na região de Angra dos Reis. Porém, a versão de séculos se entranhou de tal forma que até o filme sobre o artilheiro alemão deu todo crédito ao nosso município.
               Hoje, recorrendo à tradição oral da comunidade do Sapê/Maranduba, registrada pela própria Maria, pretendo “jogar lenha na fogueira”. Afinal, lá também tem um grande rio com muitas ubás nas margens; dois antigos cemitérios com seus potes cerâmicos foram encontrados e é uma praia muito mais indicada para escrever poemas e declarações a qualquer virgem do que nas areias da praia do Cruzeiro, no centro. Eis o texto-dádiva da Maria Cruz:
                “No mesmo lugar onde hoje há um cruzeiro como lembrança, centenário  a se perpetuar, é o marco da passagem dele [padre Anchieta] por aquele ponto. Era onde adentrava  no jundu  e tinha seu ponto de pousada por ali mesmo, na mesma direção do cruzeiro. Foi onde ele montou seu pousio. No mesmo lugar rezava a missa cotidiana e obrigatória de sua fé.
              Na vivência e lembrança dos antigos caiçaras, o primeiro cruzeiro foi erguido pelo padre jesuíta que eles nem sabiam quem era.  Eis a informação que recebemos da tradição e mantemos até hoje:  ‘era um padre que escrevia  nas areias da praia’.
              Seguindo a fé e religião de seus antepassados, o  cruzeiro foi sempre preservado ou novamente reconstruído, continuando, ainda, como um marco do acontecido, de uma história já esmaecida no tempo.
              O repouso do padre, certamente uma palhoça de pau a pique, era ali. Portanto, também seu oratório, onde rezava sua missa cotidiana obrigatória naqueles tempos, sob aquele chão se assentava.
             Depois, uma capelinha foi erguida no lugar onde souberam existir as rezas do padre. Passou a ser o lugar sagrado, onde  aconteciam as rezas do povoado, as festas de seus santos, as ladainhas cantadas em latim pelos mais velhos.
               De onde viera aquele latim, evocado  na lembrança dos que vieram; depois passado a seus descendentes, principalmente aos Amorim que eram rezadores?
               Um desmatado terreiro ao redor da capelinha, dava espaço ao povo que vinha às rezas  daquela época.  Aquele mesmo espaço, livre de mato que circundava a capelinha, continua hoje  com o nome de Praça  Santa Cruz.  Em seu lugar está instalado o ponto de ônibus,  no centro comercial  do Sapê”.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Canoa caiçara


            Hoje, com a gentileza do caiçara Eduardo Souza e do Luiz Moura (O guaruçá), faço questão de apresentar este belo texto  sobre a canoa caiçara. Aos dois, os meus sinceros agradecimentos e um grande abraço. Em tempo: não consegui anexar a imagem do Ubatuba Víbora. Ainda bem que o Júlio Mendes tem muitas imagens de canoas (e todas são belas!).
         Talvez pela simplicidade, talvez por ser primitiva - neste mundo ansioso de novidades tecnológicas, confortáveis e fugazes -, a canoa é para mim algo belo, uma obra de arte. Fui levado a  refletir sobre o tema ao deitar os olhos na foto da canoa que encima as    páginas do Ubatuba   Víbora, do amigo Sidney Borges. A canoa   em terra, na areia da praia, solitária, à espera do dono e, diante de si, o mar... Belíssima foto!
         Tenho um depoimento do Baeco, fazedor de canoas. É um  artista. Eis trechos do que ele diz: “A construção de canoa começa pela    escolha da melhor madeira, mas a famosa mesmo é o Cedro. Depois vem a  Timbuíba, o Ingá, o Bracuí... o Loro, o Guapuruvu e o Angelim. O Angelim  tem três tipos: Angelim Amargoso, Angelim Gisara e o Angelim Pedra. Estas   três são boas pra canoa. Esta é a madeira que a gente garante.” (...)   ”Madeira a gente escolhe a lua, sim; agora, não precisa ser uma minguante  de inverno; qualquer minguante é boa.” (...) ”A gente sabe a árvore que  vai dar boa canoa no olho, primeiro o olho... Você bate o olho, vai, erra   centímetros, e o tamanho é a boca da canoa” (...) ”O comprimento a gente  se baseia na boca, na largura da boca, tá? Normalmente é sete vezes um,  sete por uma. Sete vezes a largura da boca é o comprimento da canoa.”   (...) ”Se ela, por exemplo, tem sessenta centímetros de boca, sete vezes  seis quarenta e dois, então a canoa normalmente vai ter quatro metros e  vinte centímetros.” (...) ”Pra medir no mato a gente tem uma mania: põe  uma vara em direção à árvore antes do corte e aí sai com exatidão. A gente  põe a vara lá na direção que vai ser o meio da canoa, e olha de longe e  calcula. Porque tem a posição da boca, porque olhando na árvore você vê o  lado melhor para a boca. Você olha tem um lado que é ‘selado’ e tem o  outro que é mais ‘jeitoso’ para fazer a boca da canoa. A gente mede  naquele lado. Com a vara faz uma cruz. Um olha de longe e vê o que está  sobrando. Você vê com exatidão, porque a madeira é roliça. O outro, de   longe, olha, aí você empurra pra lá, empurra pra cá, até saber o centro  direitinho. Aí tira a grossura da casca, tira um pinguinho menos, e você tira o tamanho certo; aí sai exato, centímetro certo...”
          O homem vê na árvore a canoa e, então, a transforma. O que  era uma árvore, um Angelim no meio da mata, transforma-se, vira utensílio,  instrumento, humaniza-se, torna-se mundo. A intimidade do homem com a canoa, que se torna extensão de seu corpo, de sua alma, que participa de  sua história. Quando na solidão do mar, em terra, a mulher, os filhos, os amigos esperam que ela não falhe em trazer de volta o pescador que a  navega, e a canoa, então, encarna a esperança. É ela que faz com que o mar, enquanto dificuldade, obstáculo, desafio, se torne possibilidade e  colabore também na formação do modo-de-ser caiçara desse homem.
           Na vida da maioria dos ubatubanos não há pelo menos uma  história em que não esteja presente uma canoa. Nos meus tempos de  infância, ela servia como veículo (além do uso na pesca) de transporte  corriqueiro para os caiçaras do norte e do sul do município. A canoa é também fazedora de reminiscência. Tenho na memória duas canoas: a Mirim  (acho que já escrevi sobre ela aqui no O Guaruçá), que  meu pai me deu de presente bem antes de eu aprender a andar. Uma pequena  canoa de guapuruvu. Arisca que só ela. Boa parte de minha infância e  adolescência foi a bordo dessa canoinha, subindo e descendo o rio Grande  da cidade. A outra, uma velha canoa, era a que meu pai, juntamente com  alguns amigos dele, nos finais de semana, me levava para pescar com rede de arrasto na baía da cidade, na Praia do Cruzeiro. Ia na proa, deitando a  rede ao mar aos poucos, sincronizado à velocidade da canoa. Meu velho, na  popa, remava. Lançada a rede, em semicírculo, retornávamos à praia onde já  nos esperavam para começar a puxada da rede com cordas feitas de imbé.   Quando terminava a pescaria, subíamos a canoa, rolando-a sobre tocos de madeira até o rancho onde ela permaneceria esperando o próximo final de  semana. Era pesca de lazer para meu pai e seus amigos. Para mim, sair de canoa com meu pai, momentos mágicos, inesquecíveis. Lembrar de uma canoa é também lembrar-me do meu velho, meu primeiro e maior amigo. Que Deus o tenha.

 Nota do   Editor: Eduardo Antonio de Souza Netto é caiçara, 60, prosador (nas horas vácuas) de Ubatuba, para Ubatuba       et orbi.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Entrevista no Camburi (XI)




                Justificativas necessárias
Hoje, conforme algumas reflexões partilhadas com os mais próximos, resolvi dar uma pausa na Entrevista no Camburi. Alguns detalhes e questões apresentadas a seguir podem esclarecer alguma coisa. Por fim, publico a parte XI

1º) Ser fiel à fala do entrevistado, sem alterá-la nem mesmo por exigências das normas cultas da nossa língua, é do agrado (e compreensível!) para quem lê?

2º) O entrevistado também expressa muito por gestos e olhares. Porém, tais particularidades, se detalhadas, estenderiam por muitas páginas o texto. Será que fiz bem em deixar de lado tais detalhes?

3º) Para quem não conhece o entrevistado:  o sr. Genésio é um líder comunitário muito respeitado. Afinal, foi graças à sua perseverança e ao empenho dos parentes e amigos que ocorreu a criação do Quilombo do Camburi. Questão: os leitores captam a importância dos descendentes diretos de escravos para a compreensão da cultura caiçara?

Parte XI

J.R.: O que no caminho?

Genésio: “Esse movimento que a gente vê, que desaparece. Me veio na lembrança; digo assim: ’Hoje é o dia dele; de a gente encontrar qualquer movimento aí no caminho. É de madrugada’. Aí, o senhor sabe: saí daqui quatro e meia. Quatro e meia da madrugada! Noite; muito bem estrelada a noite. Tocha de vagalume por todo lado. Aí fomos: eu com a lanterna na mão; e ela furou –aqui usa muito furar uma lata, dessa lata de leite, e botar uma vela dentro. Fazer um arcozinho assim e fazer um farolete, né? Para alumiar. E ela, a pé com a menina, uma vela botou numa lata e foi mais devagar. E eu fui na frente; uns cinquenta metros na frente, mais ou menos, quando vi, lá pra chegar perto da Cachoeira do Cedro, foi quando eu vi aquela luz que começou a adentrar, adentrar, adentrar...Eu parei lá em cima, antes de pegar a Cachoeira do Cedro. Aquela luz vem, vem, vem, correndo, correndo, correndo...Chegou perto de mim. Aí eu: ‘O que é isso?’. ‘Ah! Você não viu nada?’. E digo: ‘Eu não!’. A mulher tá aí; ela conta. ‘Você não viu nada? Olha, naquele lado assim, assim, assim...Naquela curva ali; tá um violão ali; tá um toque de violão ali que tá retinindo tudo. No caminho; assim, no caminho’. Disse: ‘Não!’. ‘Jura?’. ‘Eu não; eu não vi não!’. Eu digo assim: ‘Quando eu saí de casa, me veio na lembrança que aqui, hoje, a gente ia ver alguma coisa. Então...eu tô acostumado. Pelo caminho toca violão, faz isso, faz aquilo. Me acostumou; enjoei’. A mulher chegou lá botando a alma pela boca, de cansaço, no encontro comigo. Então...o senhor sabe que essas coisas aqui tem. A gente vê essas coisas; até se acostumou. Sobre luz, sobre movimento...Essas coisas, meu amigo, meu grande amigo, isso aparece!”.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Entrevista no Camburi (X)



Genésio: “Os três meninos saíram a milhão por aqui abaixo; foram para a igreja, né? E o Isaías assobiou. O Isaías disse assim: ‘Tio Genésio, olha, eu assubo aqui; desço qualquer hora da noite; assubo...Mas tem dia que forma-se uma conversa para baixo, nas minhas costas, para baixo de mim, por detrás de mim. Daqui a pouco tá na frente; tá na frente a conversa –duas pessoas conversando – e eu não vejo ninguém. Eu digo assim...Então, depois disso, o senhor sabe, esse Simão, esse Simão aí, já topou por umas duas vezes com um cidadão de branco à noite’. E a moça, hoje ela tá na Itália, que me conhece muito, conhece a turma aqui, ela tá na Itália, em São Paulo, duas colegas. E o cidadão...Ela desceu na frente; pegou duas sacolas e veio na frente. E na passagem do rio...E o rapaz do carro, que veio com elas às três horas da madrugada, ficou fechando o carro, ali na grama, né?  Aonde está o ponto de ônibus; fechando. E elas duas vieram na frente. Quando chegaram na subidazinha ali, que passou o rio, na subidazinha que vem pra cá, elas pararam no caminho, numa sombrazinha. Tinha uma lua. Três horas da madrugada tinha uma lua. Ficaram ali. Quando elas viram aparecer um senhor alto, todo de branco; inteiro. Terno de linho; branco inteiro. Disseram que eu perto dele não era nada – a massa daquele homem! Chegou com uma maleta aqui e outra aqui na mão; passou por elas assim, chegou na frente delas parou e arriou as duas maletas. E as moças disseram assim: ‘Ô chefe, ô chefe; o senhor quer uma ajuda? Quer uma ajuda?’.  Quando elas disseram assim, ele desapareceu. Ah! As duas meninas botou a chamar o ‘Bruxo’. O irmão dele acampou aí. ‘Ô bruxo! Ô bruxo! Depressa, depressa!’. Aí o rapaz chegou. Disseram assim: ‘Quem passou aí por você? Quem passou por aí agora? Não era um senhor  com duas maletas na mão, de branco inteiro?’. O ‘Bruxo’: ‘Eu não vi não; por mim não passou ninguém’. Ele pensou: desapareceu; alguém desapareceu aqui. Essas duas meninas contam isso. Elas sempre vêm aqui. Elas contam isso. Então, o senhor vê que sempre aparece  essas coisas. Então, essa pessoa que está conversando com o senhor, o inimigo não vai assustar. Eu tenho a certeza, em Deus em primeiro lugar, que as minhas unhas do pé ele não vai arrancar porque eu já me acostumei. Eu já me acostumei nisso daí. Viajo. O senhor sabe que eu chego meia-noite, uma hora da madrugada... Tô viajando e  aí me alembro. A mulher tá aí. Um dia saímos daqui, a mulher disse assim: ‘Genésio, amanhã você me acompanha cedo porque eu tenho uma consulta marcada lá, na parte da manhã, cedo. Cedinho; para sete horas. Sete horas eu tenho que tá em Ubatuba por causa da consulta da menina. É a que tá morando agora em Ubatuba. Hoje ela tá aqui! E acabando que...Sim, então vamos fazer uma horinha para pegar o ônibus das cinco e quarenta lá em cima, para chegar a tempo lá em Ubatuba, no horário das sete horas. Assim fomos. Ela fechou a casa, tudo. E aí saímos. Mas quando eu tava me arrumando para sair, me veio aquilo na lembrança: hoje é dia do condão no caminho, coisa sortida no caminho. Me veio aquilo na ideia”.