segunda-feira, 14 de novembro de 2011

“Há de sobejá”

                         “Arreparei na cumeeira, junto da rija jiçara, onde de tudo tinha um cuí: desde a gamela de pexe saprêzo até pena de pato pra b'varrê parede de forno. O que eu procurava era o rodo, pois havia lasca de canevetêro, de imbaúba e de tinticuia junto com bagaço seco. Tava tudo estalando; um só brasêro desde a boca do forno.
                Enquanto isso, no cocho o tipiti cedia lugá pra uma massa quase seca despois de prensada no fuso. Inda tinha tempo pra um gorpe de pinga ou de café intirume. Só não se podia demorá porque tinha muito que fazê ante do finá da farinhada.
                Tava na metade da farinhada. Restava amorná, murchá  e torrá a massa. Despois, da goma da gamela, saía o bolo e o biju; por úrtimo ficava a quirera, que era a fiapada da mandioca torrada; ela servia de comida pra criação. Galinha e pato papava tudo isso e ainda queria mais!
                A casa de farinha era de pau-a-pique. O sapê da cobertura inda aturava deiz ano. No arredó tinha de tudo quanto era arve: laranja-da-china, mexerica, bordo, goiabêra e até um pé de araticum, d’onde vinha sempre um canto de sabiá cica.
                Tinha o terrêro; despois era só cisquêro, d’onde brotava inhame e taiaiaoba entre resto de saquaritá, preguaí e marisco. Também era espaço do jambo marelo todo enroscado de cará-moela, da jabuticaba, da pinha e da fartura de banana. A preferida sempre foi a san’tumé por causa do escardado de pexe
                Por’onde principei dizendo? Não era de querê essa lonjura! Só ia dizê um cuí do tempo d’ante, donde ninguém queria apossá de nada.  Chiba contecia de montão! Compensava o cansaço da roça e do mar. A felicidade estava no pixé, na banana assada, na bentrecha seca pra comê com café amargo. Ou pirão de garôpa, de jangolengo ou quarquer otro da pedra. Ou  o de comê vinha do mundéu, da arapuca, do cumbu e da esparrela. No carrêro do bicho se recolhia desde oriço até tatu. Tudo que dava pra mais de um dia ia pro jirau secá ou se saprezava na gamela. Quase ninguém carecia de nada. A certeza era só uma: há de sobejá”.

domingo, 13 de novembro de 2011

Vovó Eugênia, um espírito aberto

              
                Uma das pessoas mais atentas a nós, crianças na época, era a vó Eugênia. Era um verdadeiro “espírito aberto”: aceitava sugestões, conselhos e críticas de qualquer pessoa ou situação, sempre sem nenhum preconceito. Lembro-me bem dos momentos. Exemplos: se  estivesse escolhendo feijão para cozinhar, caso alguém chegasse e começasse um caso pertinente, logo ela parava de movimentar as pequenas mãos sobre a peneira e se voltava totalmente à pessoa.  Caso estivesse em pé, se chegasse uma criança para contar-lhe algo, a vovó tinha a sensibilidade e o respeito de se agachar a fim de ficar na mesma altura, demonstrando assim total atenção. Isto era um prazer, dava uma imensa satisfação a nós!
                Foi ela quem nos contou, numa manhã chuvosa, depois de ter adiantado o almoço, a respeito do Zé Teotônio, da praia Grande do Bonete. Foi assim:
                “O Zé Teotônio teve um machucado no pé que se enfezou, foi causando uma vermelhidão que não teve benzimento e remédio que resolvesse. Deu gangrena. O homem berrava dia e noite por céu e terra. Pra vocês terem uma ideia, do Canto do Joaquim, um lugar tão longe,  os outros diziam que se escutava o berreiro. Era uma dor medonha. Depois de uma semana berrando, ele se desesperou: foi no rachador de lenha, pegou o machado amolado e cortou a própria perna. Imaginem o sofrimento desse homem! Que dor tamanha fez com que ele escolhesse uma dor menor?”.
                Eu conheci o Zé Teotônio. Pelo jeito a “operação” foi um sucesso, pois morreu de velhice, com o seu toco de perna, bem feliz no seu paraíso praiano.
                Ah! Que falta faz pessoas e sociedades abertas, capazes de se corrigirem por vias pacíficas e por atitudes respeitosas!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sem medo de assombração

Contam na família de meu pai sobre meu tetravô, de sobrenome Lopes, que era homem de muita coragem.
Estava ele na praia grande do Bonete e resolveu passar a noite por lá mesmo. Entrou num rancho de canoas na beira da praia e se deitou dentro de uma canoa de voga, grande e pesada, dessas para oito remadores. Quando fora da água uma canoa de voga só é movimentada sobre rolos na areia, por meia dúzia de homens fortes. Pois o Lopes se acomodou e pegou no sono, tranquilo.
Quando chegou a madrugada, o Lopes foi acordado de forma brusca e se deu conta de que a canoa estava sendo sacudida. Olhou em torno e não viu ninguém, aquilo não podia mesmo ser gente. Uma força misteriosa levantava a canoa pela proa e largava violentamente sobre os rolos de madeira.
Ainda assim o Lopes não se deixou abater: se não tinha medo de gente ou de bicho, pra que ter medo de assombração? Se segurando como podia, começou a desdenhar: “Ê ê ê, bobagem! Quer quebrar, quebra. Ela não é minha mesmo.” Ainda foi chacoalhado algumas vezes junto com a canoa, depois tudo se aquietou e o velho Lopes voltou a dormiu sossegado ali mesmo. Naquela noite a assombração desperdiçou seu tempo.

sábado, 5 de novembro de 2011

Tio Clê, santista de coração


(Tartaruga encalhada na praia - Foto: Júlio Mendes-2010)
                Tio Clemente vivia sempre pensativo, apreciando momentos e detalhes. Somente quando o time do Santos jogava é que ele abria exceções ao seu jeito. Era santista de ter casco de tartaruga pintado na parede, flâmulas por todo lado, fotografia do time de Pelé etc. Era um bom homem. Talvez seja por isso que tenha morrido tão tranquilamente (dormiu e não acordou mais).
                Desse tio, nos muitos momentos de prosa em sua aconchegante cozinha, a gente escutava suas lições repletas de moral. Hoje digo que eram reflexões filosóficas. Veja isto: “ A vida da gente [homem] não tem mais significado do que a de outro animal; ela somente é mais difícil porque nós continuamos crescendo [evoluindo]”.  Ah! Que verdade!
                Não tem como não me lembrar do meu finado tio, descendente de mouros e africanos, sobretudo nos dias atuais quando é notório a humanidade se infernizando com cartões de crédito, telefone celular, transações bancárias, sede de lucros infinitos e tantas outras evoluções tecnológicas e científicas.
                Colocando o ter antes do ser, o homem deixa de investir em coisas essenciais para gastar com supérfluos. Talvez isso explique, em parte, porque o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) brasileiro esteja tão mal classificado (84ª posição). Meu colega Manolo, pior exemplo mais próximo, tem um aparelho de som potente, três carros, uma moto e mais alguns “bens importantes”, mas vive numa moradia que pode ser classificada como cortiço, nunca passeia com os filhos, “se alimenta roendo as unhas” etc. É logico que tal tipo de pessoa jamais vai se importar de viver num país que está entre as sete maiores economias do mundo, mas se ombreia no IDH com países paupérrimos. Desconfio que também o meu tio, se vivesse hoje, faria “vista grossa” pensando no Santos Futebol Clube e na disputa pelo título mundial.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cemitérios

(Mar invadindo a Barra Seca - Foto: Júlio Mendes/2010)
                Dia de finados, dia dos que se finaram. Dia dos que continuam na memória! Ao menos é assim que eu penso: a memória é o que mais importa de tudo isso que é chamado de existência humana.
                Para guardar os restos mortais nós temos e tivemos vários cemitérios. Eu nasci próximo do campo santo da Maranduba e lá estão os restos mortais dos meus parentes paternos. É de onde se tem uma vista panorâmica da referida praia até a Lagoinha. Ah! Vida boa de defunto!
                Também em outros lugares os ossos que já não se sustentam podem ser guardados: centro da cidade, Ipiranguinha, Ubatumirim e Camburi. De outrora, na minha memória estão  memórias dos contadores caiçaras: o falecido Daniel “Sabiá” contou que a capela do Horto Florestal foi construída em cima de um cemitério de escravos. Para tal fim ainda tinha o  do Morro do Formigueiro, na Lagoinha (esta informação veio do finado tio Ezídio), o da Floresta da Raposa, na praia do mesmo nome (conforme disse a defunta Maria Galdino) e da praia Vermelha do Bertolino (Praia Vermelha do Sul), que precisou ser desativado, de acordo com o vovô Armiro - que também está enterrado há anos! - porque “o mar avançou sobre o canto direito e começou a mostrar os ossos”. Os lugares onde os mortos indígenas eram guardados também estavam por perto: onde hoje é o Morro do Parque Vivamar foram encontradas a urnas funerárias (potes de barro) recentes. Próximo das ruínas do presídio da Ilha Anchieta há um cemitério. (Quem me falou disso a primeira vez já nos deixou há tempos: o bondoso Antonio Julião). Na Ilha do Mar Virado, onde os meus parentes maternos cultivaram intensamente mandioca, feijão e outros gêneros, havia um lugar cheio de ossos. O nosso ente querido tio Onofre dizia que era “lugar de assombração”.  Coisa semelhante dizia o saudoso Sebastião “Velho Rita” em referência ao areial do Tenório. E quem nunca ouviu falar das assombrações que desciam o Morro da Mococa?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Zombie walk

                Os pagãos, conforme classificaram os líderes cristãos dos primeiros séculos da Era Cristã, estão mais vivos do que se pensa. Explico melhor: na semana passada, no facebook e outras vias, corria um convite para o Zombie Walk. Não me perguntem a origem, nem a iniciativa, mas funcionou! Prova disso foi um considerável número de jovens que se encontraram e fizeram a caminhada na noite de sábado para domingo (29/30 de outubro). Por volta das 5:30 horas, no primeiro ônibus que segue para Caraguatatuba, testemunhei o embarque de uma dúzia deles bem caracterizados (corpos pintados e roupas esfarrapadas tingidas de vermelho). Voltavam para um merecido descanso em seus lares. Faço questão de sublinhar que tais jovens se comportaram muito bem, sem aquilo de querer “zoar no espaço”, de desrespeitar os demais passageiros.
                Zombie walk é uma atualização de uma festa primitiva: o Dia dos mortos. Podemos dizer que é uma versão alternativa ao Halloween. Enfim, isso é tão forte desde sempre que, para contrabalançar tal costume, a Igreja instituiu o Dia de todos os santos precededendo o Dia de finados. Ou seja, estratégia para atrair aqueles de hábitos e costumes primitivos para a religião católica. O mesmo que imposição cultural.
                Vamos comemorar! Dia do Saci, dia dos mortos, dia do folclore, dia dos reis etc...etc... Tudo isso é cultura!

sábado, 29 de outubro de 2011

Balthazar e Benedicta

                Ontem, no seu aniversário, Ubatuba ganhou um importante presente: o livro Balthazar e Benedicta, de Maria Helena T.C. de Barros.
                O livro aborda os donos do Sobradão do Porto, onde funciona uma parte da Fundart. A autora é descendente do comerciante português que, no começo do século XIX, em pleno ciclo cafeeiro, fez fortuna neste município. Quer prova maior do que o edifício na entrada do rio Grande (a Barra dos Pescadores)? Vale a pena conferir, sobretudo porque é uma tiragem pequena (300 exemplares).
                O desafio lançado pela autora: “Vocês precisam escrever mais sobre esta cidade. O que foi produzido até agora é muito pouco pelo muito que ela representou na história do Brasil. Tem muito ainda a ser feito; essas coisas não podem ficar escondidas ou desaparecerem de vez!”.
                Em tempo: o meu interesse era ouvir mais alguém falando da Benedicta, pois dela só tinha ouvido aquilo que o Mané Hilário contou e eu publiquei neste blog em 30 de abril deste ano.