sábado, 15 de outubro de 2011

Vida de ensino

                A professora Geni veio de Pindamonhangaba, na década de 1960, para exercer o magistério na escola mista isolada do Saco das Bananas, que funcionava na sala da casa do Luís Januário, no alto da praia do Simão (ou Brava do Frade). Nesse mesmo espaço, de vez em quando, aparecia um padre para a celebração eucarística.
                “Era outra época!”. A professora era acolhida pela família da casa como se fizesse parte da mesma; os outros moradores a ajudavam de muitas maneiras. Asseguro que precisava ser alguém com muito idealismo para encarar tamanha tarefa. Algumas dessas pessoas se aculturaram ao ponto de até ficarem por aqui, constituindo família com caiçaras. Alguns exemplos: Marilda e Nelson, Marilena e Zezinho, Jaci e João, Vera e Silvio...
                Na “escola do morro” era ensinado de tudo para todo mundo (desde regras de higiene até bordados). Foi por intermédio dessas devotadíssimas pessoas que nós, isolados caiçaras praianos, conhecemos nossos primeiros livros e autores.
                Hoje, passando por aquelas paragens desoladas, ao ver cada cava de casa com suas árvores frutíferas que resistem ao tempo, recordo-me dos moradores de outrora, quando os morros eram cultivados, peixes enchiam varais para a secagem e todo mundo se conhecia. No lugar da casa do Luís Januário, entrando na capoeira, encontrei uma ferragem de carteira escolar daquele tempo. Na peça fundida, Brasil é Brazil.
                Foi-se aquele tempo e aquela escola!
                Foram-se os acolhedores caiçaras!
                Ficaram os professores com a mesma tarefa: educar para a evolução da cidadania!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O canto da caxaca

(Arquivo Cruvinel)
                Num texto anterior (Coitada da perereca!), citei a importância do canto da caxaca, na cultura caiçara, como sinal anunciador de gravidez. Porque algumas pessoas pediram esclarecimentos, explico agora “essa verdade que faz parte da nossa cultura desde os tempos mais antigos”, conforme dizia a vó Martinha, a parteira. É assim: quando a caxaca (martim pescador) passava emitindo o seu som característico sobre o telhado era sinal, hora de se preparar, porque um bebê estava à caminho naquele lar. E não falhava!
                A mulher, após esse aviso especial, começava a preparar o enxoval: fraldas, alfinetes, talco, cueiro, cobertor, gorro, meias, muitas roupinhas de flanela. Também iniciavam as rezas para que a criança nascesse com muita saúde, fosse protegido por Deus, seguisse a religião etc. Outra preocupação era com o serviço de parto, com os acertos (contatos) com a parteira.             
             Desse modo, a cada novo ser comendo da fartura do mar e dos frutos da roça, assimilando o viver da família e da comunidade, criando a partir das necessidades, a cultura se consolidou com a participação de todos os nascimentos e chegou até aqui.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Da zona de confronto para a outra zona

                O campo de futebol do Perequê-mirim, no local onde hoje está um grande supermercado, era, sobretudo na década de 1970, a atração principal do bairro a cada domingo. O gramado era impecável; as marcações com cal estavam sempre reforçadas. E a torcida vibrava a cada jogo! Muitos amarravam o seu porre ali mesmo. Nisto ficaram famosos: Bambá, Zé Barrigudo, Tadeu, Bimba, Dito Preto, Rosa Louca, Satanás, Sapato Branco, Nerso, Bicudo, Caninha, João Cabral, Carpinteiro, Agenor, Fialho e tantos outros.
                Com essa turma e mais alguns agregados, marcaram uma partida de futebol. Zé Barrigudo preparou a bola. Foi uma das poucas vezes que vi isto: pedaços de sebo bovino eram derretidos no fogo e esfregados no couro. Logo "a pelota estava rolando" num hilariante embate: a turma corria, andava, tropeçava nas próprias pernas. Alguns “correram” o tempo todo sem saber a qual time defender ou atacar. Nem sei se saiu algum gol. Só sei dizer que a risada era geral.
                A partida chegou ao final por falta de fôlego e por "saudade de mais uma bicadinha" na Barraca do Tião Caçuroba, que ficava ao lado do Muquifo do Miguel Cabral. De repente, mesmo chumbados, alguns casais se dirigiam aos quartinhos. Somente Tião Mortadela, o sóbrio, estava em condições de dizer: “É sempre assim, depois do jogo deixam a zona de confronto e vão para outra zona!”.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Coitada da perereca!

                Li um recorte de jornal recente abordando um método interessante, mas já desaparecido: o teste de gravidez Galli-Manini, realizado com auxílio de um sapo. A urina da mulher era injetado no animal: se o sapo produzisse espermatozoide, a gravidez estaria confirmada.
                Mas por que isso me chamou atenção?
                Porque, na minha infância, o meu tio mais liberal, que vivia desde a juventude em São Vicente e trabalhava na Cosipa, estava em férias e falava coisas inimagináveis no nosso recanto caiçara. Nós rimos muito naquela ocasião porque ele disse – e jurou ser verdade! – que existia “um exame para verificar se a mulher estava prenha ou não com a ajuda de sapo”. Imagine isso num tempo em que quem dominava nesse assunto era o canto da caxaca sobre o telhado!

sábado, 8 de outubro de 2011

Estourou, mas entrou na caçapa!

                Domingos, filho do Licínio Barreto, funcionário público do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), aos domingos era juiz (árbitro) de futebol. Até uniforme da “LUF” tinha (para ser respeitado dentro de um limite, de acordo com as torcida). Foi ele que contou o seguinte causo:
                “Isso aconteceu logo depois da conquista do tri pelo Brasil, num jogo no campo do Puruba, um paraíso de borrachudos na boca da barra. O time da casa fazia uma partida decisiva contra o Recurso  (do Saco da Ribeira) e perdia por 1 a 0. No último instante, marquei um pênalti que beneficiava o pessoal do Puruba.
                Depois da bola ajeitada na marca, o atacante Dico tomou distância de 15 metros e aguardou o apito. Esperei o silêncio. Assoprei a ordem para o caneludo caiçara sair disparado.
                Que beleza! Foi um estouro!
                A bola arrebentada seguiu firme na direção do goleiro Cardo. Em fração de segundos adentrou pelo arco o couro e o capotão (câmara). Foi duplo frango! Eu validei o gol, ou melhor, os dois. O resultado se inverteu, o tempo acabou. O Puruba ganhou a peleja por 2 a 1.
                Depois de muitos xingamentos, inclusive à mamãe, o Recurso, através do técnico Paulo Sabão, apelou para outro imparcial juiz presente – o Daniel Sabiá. Este decidiu tudo com esta frase:
                ‘Estourou, mas entrou na caçapa! O Puruba é campeão da Taça José Zabeu. Viva nós, viva tudo, viva o Chico Barrigudo!’
                Depois foi só alegria com muita bebida e comida! Até escaldado de ostra tinha!”.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O papagaio da dona Preciosa

                   Na minha adolescência convivi com a família Góis, que se deslocara da Enseada para o Perequê-mirim. A matriarca, dona Preciosa, companheira valorosa do seo Dito Góis, era como outra mãe para nós (eu, Fernando, Dominguinho, Dimas...). Ao lembrar-me dela, vem-me à memória o seu falante papagaio e o bravo cachorro chamado Radar.
         Todas as vezes que precisávamos passar pelo seu quintal, era necessário chamar a querida dona Preciosa para prender o cachorro. Um de nós gritava: “Dona Preciosa, o Radar tá preso?”.  Conforme a resposta dela vinha a ação da gente. Se fosse  “Tá. Podem passar!”, a gente prosseguia despreocupadamente. Mas de vez em quando precisávamos esperar. Em tais ocasiões ela dizia: “Esperem um pouco. Vou prender o Radar!”.
         Agora, a parte do papagaio: ele logo aprendeu a fala que era quase rotina; acontecia várias vezes de responder por sua dona. Era perfeita a sua imitação (“Tá. Podem passar!”). Acertava muitas vezes, mas também não foram poucas as ocasiões nas quais passamos apuros. Ou seja, a gente acreditava que era a fala da dona Preciosa dando garantias para a passagem, quando na verdade tratava-se de uma informação falsa do papagaio. E lá vinha o Radar desesperado em cima da criançada! Era um corre-corre danado!.

domingo, 2 de outubro de 2011

Pérolas de um recenseamento

                Em 1980, sob a orientação do senhor Alcir, eu fui um dos pesquisadores de censo demográfico (Censo 80). A área 13, compreendida desde o Itaguá até o farol da Ponta Grossa, ficou sob a minha responsabilidade.
                Foi fantástico esse trabalho! Descobri coisas, lugares e pessoas interessantes, dos mais distintos estilos (desde o Dito Correa Leite, mestre da dança da fita da comunidade, até a estrangeira Melica, uma sérvia que habitou essa terra). Fiz muitas amizades, dentre elas a do português Manuel, dono do Hotel Monteiro, próximo do campo de futebol. Escutei muitos causos do João de Souza, da dona Celeste Damásio... dessa caiçarada toda!
                Agora, a dona Melica:
                A sua simpática moradia de tijolos não pertencia ao meu setor; eu a encontrei por acaso, quando passava numa das ruas tranquilamente. Ela me chamou e perguntou se eu poderia trocar um botijão de gás que tinha esvaziado. Disse mais ou menos isso: “Sabe como é, né? O meu vizinho mais próximo é o Cristo da praça perdida no loteamento de mato!”. Naquela casa tinha muitos livros! Quando percebi que era estrangeira, quis saber mais. Veio da Bósnia, deixou sua cidade natal (Sarajevo) logo após a Primeira Guerra Mundial. Era uma criança quando chegou ao Brasil. Mais tarde, cruzando o caminho com um aventureiro ("um russo", de acordo com João de Souza) veio parar em Ubatuba, “um paraíso distante” no dizer dela.
                Apaixonada por plantas, seu quintal ostentava as mais diversas orquídeas da nossa mata. De acordo com a própria personagem, “uns meninos sempre trazem as espécies do caxetal ou da Jundiaquara; eu recompenso bem o esforço deles”. Para encurtar o causo, à minha demonstração de interesse pelos livros, ela contou: “Um dia, na minha terra de origem, o meu pai era professor universitário. Hoje vivo feliz aqui. A minha amiga de conversas e estudos é a Virgínia [Lefréve], essa mulher batalhadora, preocupada em valorizar o artesanato e as relações tão simples dos caiçaras”. (Naquele dia eu ainda não conhecia a dona Virgínia, mas não demorou muito para encontrá-la em sua acolhedora casa, no bucólico canto do Acarau, vizinha do velho Alexandrino).