quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

GRAÇAS À VIDA!

 

A pequena Gláucia (Arquivo Gal)


                    Feliz aniversário! 


           Dia festivo em casa. Hoje estamos celebrando o aniversário da Gláucia.


               Querida Gal:

                É muito bom poder celebrar o seu viver individual e o caminho que estamos fazendo juntos! São vinte e cinco anos de convivência e de construção do nosso lar. Melhor ainda é ter a nossa Maria Eugênia e o nosso Estevan, partes principais de nossas vidas!

                Dito do Prado, um primo do meu pai, dizia que ele comemorava o aniversário duas vezes: quando nasceu e nove meses antes, quando foi concebido. Creio que cada mãe, ao pressentir um novo  ser no ventre, já lhe deseja uma vida longa, feliz etc. Já se alegra no acolhimento de um papel que nunca mais lhe será tirado. Sem dúvida que a minha sogra sentiu isso. Também tenho certeza que, após o parto, ao lhe ver, seu pai se sentiu mais responsável ainda por você. Foram os cuidados deles que encaminharam seus primeiros passos. Depois você foi fazendo suas escolhas, resultando na família que somos hoje. Cada dia é mais uma oportunidade que abraçamos a renovação das nossas escolhas!

                Quem diria que aquela menina, nascida numa maternidade em Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, um dia viesse ao litoral norte e imprimisse outro rumo em sua vida, na minha vida e em tantas outras vidas? Assim a gente se encontrou, se casou, vieram as crianças... O nosso namoro continuará até onde nossas vidas nos conduzir. Hoje é mais um dia, mais um ano para agradecer pela sua existência e pela oportunidade que tivemos de estar com você.

         Novo dia. Passarinhos festejam. Um sol radiante se faz presente para festejar conosco. Os parabéns abrem, com a força da luz, os portões de um dia de celebração pela sua vida em nossas vidas. Eu, Maria, Estevan, Olga, Anna, Berê, Jôse e outras pessoas marcam presenças em mais este ano que você contribui com as suas características na VIDA. 

              Parabéns mesmo! 

              Graças à vida!


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

EUGÊNIA I

Vovó reinava (Arquivo Conchita)

          Vovó Eugênia, já contei muitas vezes, foi um exemplo para nós. Na poesia do Mano Mingo, ela reina.


NO REINO DE DONA EUGÊNIA I


Meus avós pescaram muito

e também cultivaram bananas,

filhos e netos em pencas

e a terra ficou pequena

para tamanha produção.

Teve quem foi para cidade grande,

quem permaneceu no lugar,

quem nem ligou,

quem continuou a pescar,

quem estudou

e quem sentiu o tempo passar.

Teve toda uma geração  que saiu

em busca da terra prometida

com casa, pomar e criação no terreiro,

aí, Dona Eugênia I, vovó e rainha,

exatamente o que a gente já tinha.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

PRECONCEITO

 

Galo de Jambeiro (Arquivo JRS)

    Seo Antônio foi o primeiro coveiro que eu conheci.  Era um negro bem magro, muito acolhedor e pronto para uma boa prosa a qualquer momento. Sempre de chapéu na cabeça, trabalhava no cemitério do centro da cidade, mas era da divisa de Paraty, primo do saudoso seo Genésio, uma liderança importante no quilombo do Camburi. Ali, no Jambeiro, era o lugar da casa deles. Assim me explicou um dia: "Defunto rico fede mais que defunto pobre. Eu, nesses anos todos trabalhando aqui, posso testemunhar isso. Um mendigo não solta nenhum cheiro; um rico, passando uma hora no velório, já fica difícil de aguentar se não houver umas pedras de naftalina dentro do caixão".

     Triste país onde a maioria de seus habitantes é  constituída por afrodescendentes, mas ainda se cultiva preconceito por causa da cor da pele e se pratica todo tipo de violência pelo mesmo motivo. Ao me encontrar regularmente com o Raimundo, me recordo de quando ele nos contou a seguinte situação:

    Eu era jovem, tinha trinta anos, não gostava de praia. Só ia na praia para tomar cerveja e ler jornal, mesmo assim, debaixo de sombra.

     Um dia, ao chegar na praia sentei à mesa de um quiosque e pedi uma cerveja. Coloquei no copo e pedi uma coca. Tomei a metade da coca e deixei um pouco no copo. Perto da minha mesa tinha uma senhora aparentando cinquenta anos. Era uma senhora bastante nervosa. Com ela estava sua neta, com muita fome. A menina tomou o resto da coca que eu deixei no copo. A senhora viu e chamou sua neta. Falou para ela não tomar nada de mão de mendigo, principalmente pessoa negra porque todos os negros não prestavam e tinham muita doença. A sua neta ficou assustada, me olhando muito. Nessa hora chegou minha filha chupando um sorvete e me ofereceu. Depois chupou o resto do sorvete. A netinha da senhora viu e falou para a avó: "olha lá a menina vai pegar doença do mendigo negro...". A senhora chamou minha filha e perguntou se ela me conhecia. Minha filha falou que eu era o pai dela com muito orgulho e perguntou se ela tinha alguma coisa contra.

    A senhora ficou muito chateada e veio me pedir desculpas. Como eu já estava acostumado com essas coisas, não me importei com a situação.

    Passaram-se duas semanas e a senhora morreu de infarto. Quem fez seu velório foi um negro. Coitada dela.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A RIQUEZA DA VARGEM

Coco azedo (Arquivo JRS)

          Hoje falarei de várzea, das nossas vargens em Ubatuba.

          As vargens são espaços que passam boa parte do ano alagadas, tendo suas lagoas que nunca desaparecem, sendo ocupada por animais e plantas bem específicas. Hoje, não é fácil divisar uma vargem no nosso nosso litoral. Foram ou serão aterradas para empreendimentos imobiliárias. Cágados, saracuras, mão pelada (guaxinim) e tantos outros seres nem se veem mais na quantidade de antes. Ou deixaram de existir! Caxetas, orquídeas, tucum era demais nesses espaços. Na verdade, a maioria da geração atual, essa moçada sadia, talvez tenha conhecimento de um monte de coisas apenas na telinha de algum aparelho eletrônico (televisão, computador, celular).  Que pena! Comentarei agora a respeito do tucum, uma espécie de palmeira baixa que nos alimentava com seus cocos azedos num período do ano. Era abundante nas áreas encharcadas, mas também pontuavam em touceiras pelos morros, junto com coco-baga, outra raridade.

        A casca dos frutos do tucunzeiro são azedos mesmo, do tipo de deixar dentes amortecidos! Depois de maduros, eles ficam doces e assumem um tom roxo, próximo do das jabuticabas. Lindos! Só que se tornam duríssimos. É preciso dar uma cozinhada para poder quebrar a castanha e se aproveitar do miolo. Assim se procedia para poder comer o coco nessa etapa: depois de separado das castanhas, as amêndoas  seguiam para o pilão onde eram socadas e misturadas com farinha de mandioca. Pronto! Estava preparada a farofa de coco para tomar com café. O mesmo processo tinha de acontecer com outros cocos (indaiá, pindoba, brejaúba que passou do ponto...).

        Na minha infância, a gente coletava coco azedo uma vez por ano. Era fartura; hoje falta. Um tempo desse encontrei um tucunzeiro carregado. Tirei um cacho para levar e apresentar à minha filha e ao meu filho. "Experimentem. Sintam o azedo da casca. Se sentirem que está duro, deixa que eu quebro com o martelo. Fazia parte da nossa dieta caiçara numa época do ano. Agora, pouca gente conhece, quase não se vê mais. Quando o avô de vocês era criança, das folhas de tucum eram retiradas uma fibras que, depois de torcidas, viravam linha de pesca. Um dia trarei umas folhas para lhes mostrar como se  fazia. Comer coco de tucum, fazer linha, se alimentar de bichos que abundavam nas vargens etc., são nossas raízes tupinambás, crianças. Vovó Martinha, quando sabia de alguém com pneumonia, receitava comer apenas carne de cágado. Dizia que era bom porque eles comiam muito coco azedo. Era remédio-alimento que só tinha em vargem. Zé Biaco, meu primo, exímio pescador de cágado, era quem atendia aos pedidos da vovó. Eu apenas o seguia como acompanhante, afundando as pequenas pernas na lama preta nos caminhos da vargem. Sabem qual era a isca? Um peixe, geralmente lambari, no anzol, era o que bastava para atrair aquela espécie de tartaruga de pescoço torto".

 

domingo, 6 de dezembro de 2020

SER SILVESTRE


     

Pé de imbaúba e Pico do Corcovado (Arquivo JRS)

        Parece que foi ontem que Priscila Siqueira, frei Valdir, Arly Lacerda, Otília, Rubão, Zé Gil e outros encabeçaram, em Ubatuba, uma mobilização contra as investidas dos especuladores e exploradores que queriam desalojar os caiçaras de suas terras. Me lembro bem que, na Casa de Emaús, no Sertão da Quina, o movimento ecológico Pela Vida, Pela Paz em Defesa de Ubatuba, a Associação dos Produtores Rurais de Ubatuba, as pastorais da Igreja Católica e outras entidades de apoio nos inteiravam dos acontecimentos e encaminhavam atos concretos que pudessem barrar as injustiças no território caiçara. Além da questão da Dona Luzia Borges, no Rio Escuro, também nos angustiávamos pelos trindadeiros. Era o ano de 1980. Os relatos nos comoviam. Tudo aquilo valeu muito! Era o espaço caiçara que sofria ataques! Depois veio Porto Flamengo, a Avibrás e outras questões. Um grupo amigo e aguerrido acompanhava tudo de perto. Colhíamos assinaturas para muitas etapas dessas lutas.

          Comecei o dia me lembrando de uma mulher caiçara muito lutadora: dona Luzia Borges, da resistência no Rio Escuro. Recentemente faleceu ela e João, seu companheiro de tantas andanças por justiça. Quantos encontros e reuniões vivemos juntos!? Tudo o que fizemos ainda foi pouco para tentar barrar a degradação da nossa terra e do nosso povo. 

        Em memória de Luzia e João, escolhi um poema do nosso estimado Jorge Ivam. Faz parte do seu livro Ser Silvestre, recém –lançado. Sucesso ao Jorge, Joana e filhos tão estimados por nós. 


Reação


Acusam-me de instabilidade,

De ter reações imprevisíveis,

De, sem causa aparente, rir

Ou mesmo de me fechar.

 

Se, até um jequitibá

Transuda fragilidade

Quando muito fustigado

Pelas grandes tempestades,

Por que eu, um mero arbusto,

Frente às adversidades,

Não deveria demonstrar

Desconforto, medo ou susto?

 

Se até uma árvore de grande porte

Verga, não tem cabimento

Exigir de mim  - que nem sou forte –

Rigidez de comportamento.

 

Se eu fosse um penedo,

Corresponderia às expectativas

De quem me quer imutável,

Mas, como tenho um coração,

Sou suscetível a olhares,

Palavras e aperto de mão.

sábado, 5 de dezembro de 2020

O MENINO DO RANCHO

"Flor de treporeba, meu filho!" (Arquivo JRS)

      Estou lendo Cadernos de  Águas ou As marés de histórias, do talentoso Santiago Bernardes. Me parece que é adequado, nas imposições da vida que assumimos, enxergar como esse menino que viu o mundo pela primeira vez do rancho do jundu. Até imagino aquela visão da Barra Seca, olhando agora de minha janela, o tempo garoento.

      Logo no começo da obra, o Santiago me rememorou de coisas ruins acontecidas ao nosso povo caiçara. Seo Genésio me contou um dia da enxurrada de barro descida da abertura da estrada (BR 101) que acabou com as ostras do rio do Camburi. Priscila registrou todas as crueldades em seu Genocídio caiçara. Vanda Maldonado, Antônio de Jesus e tantas outras pessoas resistiram em Trindade contra os arautos da especulação imobiliária que ainda segue destruindo a terra, o mar e nós. 

    Santiago é como João, o canoeiro de almas que sabia histórias porque tinha visto. "Tantas quanto as ilhas. Histórias que iam e vinham nas ondas". Ele nos oferta com muita vida tudo o que aparece em suas páginas. Ele enxerga as histórias e aprende muito com elas. "De vez em quando alguém as recolhia nas malhas da rede do acaso. Ou da sabedoria". Santiago Bernardes é um desses alguém! Tenhamos todos a atenção nas falas que nos rodeiam e sigamos em nossas marés de histórias. Agora, acompanhado de um canto de sabiá-galinha no pé de carambola, transcrevo uma parte do Caderno de Águas:

    

     Foi um tempo de aflição, os trovões explodindo entradas nas rochas, os longos roncos dos estômagos  dos tratores comendo pedras, árvores, rios, mata adentro noite afora. As águas das nascentes das serras correndo par o mar sangradas de barro, sem poder beber. Crianças correram esconder-se do fim do mundo embaixo das camas de pau com esteiras de taboas, velhos oraram desolados juntando as mãos em frente a uma vela oscilante na madrugada, telhados de sapé e plantações queimaram. Soltaram bois nos roçados. E documentos nos cartórios. Com palavras dissimuladas. Os bois comeram as roças. Os documentos comeram as posses. Foi o tempo da perdição do mundo! Depois veio o tempo da migração! Do vagar sem rumo, do trocar-se por um canto qualquer de sono, por um trato de jardim murado. Tempo de desordenação das coisas e dos pensamentos.


    Neste tempo de Advento celebrado, sobretudo na religiosidade popular, tendo Jesus como uma das muitas pessoas que buscaram a utopia de fazer um mundo melhor, nos voltemos ao menino do abrigo das canoas, no jundu. Espero que mais gente aprecie as obras de Santiago Bernardes, atue nas melhores lutas do nosso povo e  não deixe de se importar com aqueles que "nem viram uma estrela que se inclinava de passagem sobre o horizonte e as ilhas, parecendo tocar a ponta do telhado do rancho nesse momento, tão breve quanto o existir dos seres". Sucesso, irmão, é o que lhe desejo.   

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

UM DIA DA SOCIEDADE UBATUBENSE

 

Imagens de meados do século XX (Arquivo Ubatuba Antiga)


                No final do século XIX, Ubatuba, no Litoral Norte, estava começando a sua linha ferroviária que ligaria a Taubaté, no Vale do Paraíba. Uma comitiva, de aproximadamente cinquenta pessoas ilustres, veio da capital do país (Rio de Janeiro) especialmente para o batimento da estaca, no local denominada Indaiá, onde seria a estação da cidade (é atualmente o cruzamento das ruas Cunhambebe e D. João III) que marcaria o início dos trabalhos, com ampla cobertura jornalística. Assim sabemos mais da sociedade ubatubense naquele tempo.

                Correio do Povo de 1 de outubro de 1890:

                Ao chegar à praça Quinze de Novembro, fomos recebidos entre alas e debaixo de uma chuva de flores por moças das principaes famílias da cidade. Dahi nos dirigimos para a casa do sr. Coronel Gonçalves Pereira, presidente da Intendência, onde nos hospedámos e onde recebemos desse cavalheiro e de toda a sua família o melhor, o mais delicado e o mais generoso acolhimento possível.

                (...) Depois de almoçar, sahimos a percorrer a cidade e visitamos a matriz, a casa da Intendência, o Atheneu Ubatubense e a estação do telegrapho. O Atheneu, onde á noite se realizou uma agradável sessão litteraria, é presidida pelo coronel Gonçalves Pereira e tem como seu diretor de aulas o sr. Dr. Esteves da Silva, que já o presidiu durante cerca de dez anos.

                É uma associação modelo, o Atheneu Ubatubense. Mantem uma escola nocturna para ambos os sexos, tem uma biblioteca de, aproximadamente, seis mil volumes, e possui um pequeno museu de produtos nacionais. O professorado é gratuito. A escola não recebe nenhum auxilio do governo e é mantida por donativos para esse fim especialmente recebidos. O Atheneu foi fundado em 1875, e funciona em casa de sua propriedade.

                A matriz, de construção muito antiga, é espaçosa e de agradável aspecto.

                A intendência dispõe de magnifico prédio. Na repartição do telegrapho, onde nos demoramos, fomos recebidos pelo telegrafista, sr. Adelino Soares Pinto, que merece elogios pela maneira por que é feito o serviço a seu cargo.

                Depois de sahir, fomos fotografados em grupo pelo distincto amador sr. Keay.

                De volta a casa do coronel Gonçalves Pereira, houve quem se lembrasse de organizar uma pequena matinée dançante. E dançou-se por algum tempo.

                A’s 4 horas da tarde, seguimos, precedidos da banda de musica e acompanhados das autoridades e de quase todo povo de Ubatuba, para o ponto em que se ia bater a primeira estaca da estrada de ferro do Norte de S. Paulo.


Nota: a estrada de ferro teve início, mas parou logo no começo, pois o governo federal de Floriano Peixoto suspendera a garantia de juros sobre o valor do material importado, veio a falência do Banco de Taubaté e da companhia construtora. Segundo o seo Filhinho, "ao longo de trechos já construídos, no meio da mata, no sopé da serra, nos grotões, por toda parte, encontravam-se montões de trilhos que por lá ficaram abandonados, a mercê de quem se dispusesse enfrentar as dificuldades do transporte e lá fosse buscar um, dois, ou quantos precisasse para uma obra ou uma aplicação qualquer".