quarta-feira, 30 de outubro de 2013

COISAS DE CAIÇARA

"Cedinho no lagamar" - 1/30 - (Arquivo JRS)

     Estou adorando o curso de xilogravura. São poucos os companheiros e companheiras. A professora "é gente nossa", simples e dedicada. E... as coisas... apesar de pouco tempo, fluem.

        Hoje apresento o primeiro trabalho mostrando coisas de caiçara. A tiragem é pouca, mas estou vendendo para ajudar nas despesas deste prazer chamado xilogravura.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

CANTORIA DO CHICO ALVES


Salvino, na pobre morada do Alfredinho, interpreta Chico Alves -1988 (Arquivo JRS)

Ontem, ao publicar a música do finado Francisco Alves da Silva, fiquei pensando se a maioria das pessoas entenderiam o sotaque tão caiçara na toada. Assim, resolvi transcrevê-la.

Eu fui aquele que andei (2x)
Sessenta léguas no dia (2x)
Para ver se breganhava (2x)
Tristeza por alegria (2x)

Refrão: Pela Barra de Ubatuba e de São Sebastião
             Vou comprar um pouco de barro pra fazer o meu boião.

Dai-me um beijo que eu dou dois  (2x)
Dai-me dois que eu dou duzentos (2x)
Me dai duzentos e dez (2x)
Que eu dou mil e quatrocentos (2x)

Refrão.......

Santo Antônio de Lisboa (2x)
Foi serrado com serrote (2x)
Mulher tem força na língua (2x)
Que nem boi tem no cangote (2x)

Refrão.........

A viola não diz nada (2x)
Pela bulha do pandeiro (2x)
O nosso padre-vigário (2x)
Não diz missa sem dinheiro (2x)

Refrão..........

Eu vou dar a despedida (2x)
Agora não canto mais (2x)
Vou fazer a minha casa (2x)
Entre suspiros e ais (2x)

Refrão.........

Em tempo: Apresentei a versão do tio Maneco Armiro, um antigo rabequista da Praia da Fortaleza. Foi quem me explicou: "Os antigos iam até São Sebastião para comprar panelas, potes de barro. Toda a louça do pobre era de barro. Vinha da Praia de São Francisco".  O amigo Peter, representante da Praia da Enseada, deu uma contribuição na parte do refrão:
"Trabalha do Ubatuba, de Santos, São Sebastião". É...também tá dentro do espírito da música! Valeu mesmo!

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

ANIVERSÁRIO DA “CIDA” E...



Hoje é data especial para os ubatubenses. Afinal, já se consolidou que o dia 28 de outubro de 1637  é a data de fundação da Vila Nova da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba, que hoje se resume a Ubatuba. 

A história oficial diz: a partir de um “pedaço de terra”, depois de passar por alguns nomes, foi cedido a Jordão Homem da Costa o mérito da fundação da vila. Porém, um livro do Tombo da Paróquia de Santo Antônio de Caraguatatuba, relata da seguinte maneira a criação do município:

“Em 1600 e tanto começava a crescer-se a primeira villa nesta Caraguatatuba. Nesse tempo mesmo, sobreveio uma epidemia que devorou parte do Povo, descorsoado o restante do povo dirigiu-se para Ubatuba onde levantarão ali uma nova Freguezia, levando estes emigrados o cartório deste para aquele; e que hoje gosa a Cathegoria de Cidade. Isto antes de ser inaugurada a Villa de São Sebastião (...)”.  

Portanto, há esta possibilidade: foi a vila fundada por um pessoal que fugia de epidemia no começo do século XVII.

Polêmicas à parte, quero agora homenagear a “Cida”, o mano Mingo e a Diana Narita, com uma gravação feita em 1974, com o finado músico Chico Alves, morador do Sertão do Puruba. É um serra baile (ou uma tontinha) que animava os bate-pés dos festeiros caiçaras de antigamente, quando não existia essa massificação cultural tão medonha.

sábado, 26 de outubro de 2013

UM PRESENTE PARA A DONA CIDA

           Conforme eu prometi no texto anterior (Aniversário da Cida), estou buscando presentear a aniversariante. Afinal, ela não tem culpa de ter alguns filhos ingratos, aproveitadores, desleixados etc. 

      Ainda bem que tem muita gente boa dando o melhor de si para que se multiplique melhores comportamentos, principalmente aqueles que irão colaborar na melhoria das condições de vida da "Dona Cida"! 

       Hoje, faço questão de apresentar o trabalho realizado por alguns dos nossos alunos surdos, sob a dedicação da professora Alexandra Suzano. Eles foram os vencedores da Mostra de Cinema Estudantil ocorrida no mês passado.  Valeu mesmo!




quinta-feira, 24 de outubro de 2013

ANIVERSÁRIO DA CIDA

Vem aí!!!  Tá chegando!!!   (Arquivo JRS)
            O ser caiçara também tem o seu jeito de "malhar o Judas".

        Tenho aqui em minhas mãos um jornal que parece ter sido feito às pressas. 
     Jornal é um meio de comunicação interessante. Tem de tudo, desde as notícias mais próximas até coisas de japonês, do outro lado do mundo. Tem, sobretudo, muitos devaneios, propagandas, vontade de aparecer e de “fazer a cabeça dos outros". Coisa de jornal, né? 
     Pelas propagandas é possível saber do aniversário da Cida. Será na próxima semana. Mas já?!? Como o ano está passando rápido!!! Diz o texto que ela está se cuidando, sendo bem tratada. Que bom saber que ainda tem gente “tão prestativa, que se doa gratuitamente, sem nenhum interesse mesquinho”! Por que eu também não sou assim? Resolvi! Ainda dá tempo de comprar um presente!
   Deve ter Cida e dona Cida por todo canto. É reflexo da religiosidade brasileira: Aparecida, a santa encontrada no rio...Cida...Dona Cida, a aniversariante! Vamos desafogá-la? Ou vamos deixar morrer? O meu amigo Júlio, se eu lhe falar disso, é bem capaz de propor uma redada imediatamente. “Aquele neto do Lindorfo é rapaz influído!". Remadores não faltarão, né Peter? 
(Arquivo JRS)

       Já me disseram que foi parente da dona Cida quem colocou uma placa na beira do rio, na Rua Frei Tarcísio, a esburacada,  no Bairro Jardim Ipiranga, em Ubatuba (que é a Capital do Surf, das Obras Irregulares, das Ruas Esburacadas, dos Impostos mais Caros, dos Ciclistas que ainda precisam de educação, etc...etc...). Qual dona Cida escapa dessa sina?!? 

      Outra parente dessa mesma dona, na semana passada, denunciou o abandono do Bairro da Figueira. “Uma ponte caiu na Rua Bem-te-vi”. (Só espero que tenham resolvido alguma coisa em vez de mandá-la para a ponte que caiu). A propósito, já tem gente revoltada querendo voltar a usar a Rua da Cascata, no Ipiranguinha, nos dois sentidos. Se isso acontecer, a  culpa será de quem? Em tempo: as crateras continuam dando prejuízos; danam os nossos veículos.

     Também é gente da dona Cida um admirador de guaruçá que sempre publica umas fotos que sujam a fama da aniversariante. Deve ser mentira tantas irregularidades! O meu vizinho, também Zé, afirma: “É o tal de fotoshop...montagem mesmo! Imagine se tem gente que ocupa os lugares públicos com cartazes!? Imagine se tem gente a dormir pelas ruas e fazendo suas necessidades nos passeios públicos!? Imagine se tem fiscais que não fiscalizam!? A dona Cida não permitiria isso!”. Mas eu garanto que  é verdade, que as praias e outros lugares estão tomados por ambulantes que não ambulam. Mas é verdade que a maioria das obras e puxadinhos não constam sequer de placa de engenheiro responsável. Mas é verdade que nossos rios se tornaram canais de esgotos. Mas é verdade...Mas é verdade...Mas é verdade...

     E por falar em dona Cida, por onde andará aquela senhora de mesmo nome, da Estufa, que deu exemplos de como fiscalizar os homens públicos (que renunciaram a vida privada para melhor servirem a coletividade, mas sem se despregarem da privada)? Isso vem de outros tempos!

     Por ocasião de mais um ano de vida, notando que a dona Cida vai sobrevivendo, posso fazer mais do que consolá-la dizendo que “os seres humanos são assim mesmo, procuram o bem individual e esquecem o bem coletivo, sendo o sentimento de prazer procurado apenas no que é imediato”. Posso - e devo! - valorizar os exemplos de parentes da mesma que não se conformam com as coisas erradas. São provas de que a amam. Afinal, a Cida...e as tantas irmãs delas por esse "mundo de meu Deus" precisam ter as suas necessidades satisfeitas.Agora, se me dão licença, preciso pensar no presente da amiga e mãe de tanta gente. 
        Parabéns, dona Cida!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

NA ROÇA DO CAETANO


Caetano na roça (Arquivo JRS)

 Alessandra Cerqueira: seja bem-vinda!

         Já vem de muitos anos a minha amizade pelo Caetano e seu filho (Zé Carlos). Desde aquele tempo (1982) sei que trabalham na terra, produzem um monte de coisas para o nosso consumo. Porém, foi a partir de um curso de apicultura que estreitamos mais os nossos laços. Por isso sinto a necessidade de, regularmente, me encontrar com esse pessoal para um bom papo, onde aprendo sempre alguma coisa da lida na roça e dou boas risadas com seus causos. Ah! Também vou sabendo da nossa história! Afinal, o Caetano é de Natividade da Serra, mas veio morar nesta cidade (Ubatuba) no início da década de 1950.

O pai do Caetano, assim com muita gente das “Terras de Serra Acima” daquele tempo, enxergou na cidade praiana, onde nascia a atividade turística, uma chance de recomeçar a vida, mas continuando com aquilo que fazia muito bem: cuidar de animais, plantar e negociar seus produtos. Assim foi criando os filhos. Um deles, graças à educação escolar e a disposição para o trabalho, deu no que deu: um produtor rural que muito nos orgulha. Que ele nos conte como foi.

“Meu pai era um bom comerciante. Tinha muita terra e produzia muita coisa na Vargem Grande. Só que um dia ele resolveu vir de vez para Ubatuba. Assim viemos para o bairro da Marafunda.
Ele nos criava do jeito dele, sem nem se perguntar se precisávamos estudar. Era o costume da roça...foi criado desse jeito... Só que um vizinho, o finado Carmo, um funcionário do Horto, me convidou para ir à escola (que era no mesmo lugar onde ele trabalhava). Eu fui e não me arrependo nunca disso! Era o ano de 1958.
Era difícil acordar cedo, ter de caminhar até a escola do Horto, enfrentar uma professora brava - a dona Zélia. Era esposa do André, o gerente da serraria da cidade, da “esquina da máquina”.            Depois do Exame de Admissão, fui estudar na cidade, na escola “Esteves da Silva”. Fiz até a sétima série. Um amigo - Teiji Matsuoka -  até quis que eu fosse com ele estudar em uma cidade de Minas Gerais, mas eu já estava muito apegado aos prazeres dessa vida para deixar Ubatuba. De lá pra cá só trabalhei na lavoura. Ah! Teve um tempo que eu tinha uns animais nas terras da Vargem Grande. Subia e descia a pé pelo Caminho da Cachoeira dos Macacos quase todo final de semana para cuidar deles. 
Eu devo muito à escola, aos estudos. Graças ao Carmo e a muita gente boa, meus professores, eu sei ler! Me viro bem porque tenho leitura para entender bem as coisas. O meu filho então nem se fala! Ele é que estudou mesmo! Sabe coisa do arco da velha!”.

Vale a pena conhecer a roça do Caetano, no início da Estrada do Monte Valério!
        Vale a pena adquirir os seus produtos cultivados de forma bem natural e saudável!
Vale a pena bater um bom papo com o sempre bem disposto Caetano! Ele me lembra muito do saudoso vô Estevan, um caiçara da Praia da Caçandoca.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

OS PERIGOS DAS TRILHAS DE UBATUBA


A caminhada ao Baguari de  Fora está se desdobrando. A introdução é da filha 

do saudoso Nequinho, da Praia da Enseada. Depois, do blog do amigo Peter 

(canoadepau.blogspot.com), as coisas vão mais a fundo. 

É mais uma bandeira de luta, onde se almeja o respeito do espaço caiçara, de um 

bem público preservado por tantas gerações de pescadores-roceiros.


CAIÇARA... SE DEPENDER DO MINISTÉRIO PUBLICO A CULTURA 

CAIÇARA FINDA!!! BONS TEMPOS SE VÃO SEU NEQUINHO DE 

SAMBURÁ EM PUNHO PRA PRO BOQUEIRÃO IA ATRÁS DA 

GAROUPA, VERMELHO E "SARGO"... E HOJE SE DEPENDER DO 

MISTÉRIO PÚBLICO VEJO ISSO APENAS EM FOTO...TRISTE FIM DA 

CULTURA DE UM POVO... VALOROSO!!!


Mais uma vez faço menção ao Blog Coisas de Caiçara do meu amigo Zé Ronaldo que muito bem descreveu a importância turístico-antropológica  das trilhas e caminhos de servidão que dão acesso às praias e costeiras de Ubatuba.
Em 2007 quando foi feita mais uma tentativa de atualizar a Lei de Uso e Ocupação do Solo de Ubatuba (a LUOS) através do Projeto de Lei - PL 106, nós do grupo de trabalho da região Centro-Sul atentos a esta importância das trilhas, inserimos na Seção II - Das vias existentes e projetadas, o Item IV - Trilhas e Acessos Tradicionais com o seguinte regramento: Art. 26, §3 - As trilhas e acessos tradicionais também serão mapeadas e classificadas como interesse turístico/social sendo impedidas de intervenções que as descaracterizem em tamanho e largura, sendo permitidas intervenções brandas somente nos casos em que a segurança de turistas e moradores locais estiver comprometida.
Além disso também inserimos os seguintes itens fundamentais que não existiam no PL 106:
XL.São sítios pesqueiros e Aquícolas são áreas onde são exercidas as atividade econômica da pesca  e da aquicultura  conhecidos, nomeados, defendidos, delimitados e manejados pelos pescadores e aquicultores  em sua faina pesqueira, territórios de uso das sociedades pesqueiras a partir do trabalho e do conhecimento dos processos naturais que atuam neles.
XLI. uso sustentável, exploração do ambiente de maneira a garantir a perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos ecológicos, mantendo a biodiversidade e os demais atributos ecológicos de forma socialmente justa e economicamente viável.
XLII. populações tradicionais ,São consideradas populações ou comunidades tradicionais os grupos humanos culturalmente diferenciados, fixados numa determinada região, historicamente reproduzindo seu modo de vida em estreita dependência do meio natural para sua subsistência, notadamente os Caiçaras, os Quilombolas e os Indígenas.
XLIII. trilhas, são os caminhos ou picadas que dão acesso à pontos turísticos tradicionais ou não, caracterizados por permitir apenas o trânsito de pedestres.
XLIV. acessos tradicionais, são os caminhos ou picadas utilizados por comunidades tradicionais.
XLV. comunidade local, população de um bairro representada por sociedade civil organizada e não organizada.
Na oportunidade fiz um giro pela trilha da Ponta do Espia até as Toninhas registrando tudo com algumas fotos.



Percebe-se pelas fotos que antes, onde era um Caminho de Servidão, foram construídas ruas com calçamento e é gritante a descaracterização da Trilha de acesso a Praia do Tapiá que nesta época ainda estava aberta ao livre trânsito de pedestres como assegura nossa Constituição Federal.
Hoje esse Caminho de Servidão encontra-se fechado com cercas de arame farpado à revelia de nossa Carta Magna.
Foto: Julio César Mendes
Pior ainda, o próprio condomínio considera a Praia do Tapiá como uma praia "particular" conforme uma matéria da Revista Veja de 2009:
"Com 137 lotes (dos quais cerca de dez estão à venda) e 55 casas, o Condomínio Ponta das Toninhas virou reduto de bacanas. Localizados no alto de um morro, muitos dos terrenos têm vista cinematográfica para o mar. As casas, todas com mais de 400 metros quadrados de área útil, são negociadas a partir de 1 milhão de reais. "Usamos uma prainha exclusiva, com acesso por uma trilha que começa no loteamento", diz Filippo Frenda, presidente do condomínio. "Isso valoriza os imóveis."
Aliás a reportagem mostra muito bem qual é a "política" que rege nosso patrimônio ambiental em Ubatuba.
Até quando tudo isso poderá ser feito sem qualquer tipo de fiscalização ou providência cabível?
Como bem denunciou o Julinho Mendes em 2011: "Que esse grito seja ouvido pelas associações caiçaras e outras de interesses ecológicos e turísticos e principalmente pela promotoria pública de nosso país".Em http://www.ubaweb.com/revista/g_mascara.php?grc=34976