sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Um caminho de servidão

Praia da Enseada em dia de regata - Foto Júlio- 2010
             Caminho de servidão é o que se chama hoje de trilha. Portanto, todas as ligações entre as praias e os sertões, passando pelas costeiras, vargens, grimpas e badejas, são chamadas pelos mais antigos do lugar de caminhos de servidão. Dizem até que a Lei Orgânica do município garante-os (mesmo em tempo de alta especulação imobiliária); o que significa dizer: eles são soberanos mesmo que os ricaços agora estejam com as posses. Confesso que nunca li tal adendo na lei. O que fazer se ela não contiver tal "detalhe"?
             Escolhi a imagem captada pelo Júlio para escrever sobre o caminho de servidão que parte do canto esquerdo da praia da Enseada - o grande morro da fotografia - e vai até a Toninhas. É o espigão da Serra do Mar que mais perto chega da Ilha Anchieta, que foi, depois da expulsão de muitos caiçaras há mais de cem anos, um presídio. Hoje é uma reserva ambiental. Nesse caminho, hoje conhecido como Trilha da praia de Fora, estão pequenas praias: já no começo, na área onde mora o pessoal do Paru, está a prainha do Canto do Góis; depois, passando por ingazeiros, jaqueiras, bacuparizeiros, cambucazeiros e outras espécies nativas, chega-se à praia do Tapiá. É a mais extrema, quase na ponta, mas muitos não a conhecem porque o acesso está quase escondido. Por isso muitos sabem da sua existência somente percorrendo a costeira da praia seguinte conhecida por nós como Pixirica, denominada mais recentemente por praia de Fora. Continuando a caminhada, sempre tendo o mar como visão, estão duas prainhas em sequência: Xandra e Maria Godói.
             De acordo com o Júlio, que passou por lá no ano passado, há uma cerca no trecho seguinte que impede a conclusão da caminhada. Ou seja, um caminho de servidão está barrado. Portanto, paro por aqui a minha narrativa.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Praia da Enseada, 1978.

Foto postal -1978
                A imagem mostra uma praia vazia porque é um dia comum, mas... a imagem seria outra em época de férias. Afinal, a Enseada, juntamente com as praias do Lázaro, Itaguá e Perequê-açu, era a praia mais  frequentada nesse tempo. Os motivos eram a limpidez da água, a extensão da praia, a tranquilidade das correntes marítimas e os agradáveis pontos comerciais (restaurante da Zenaide, rancho do Araca, bar do Luís Silvino e outros estabelecidos no jundu quase totalmente conservado).
                A Enseada também era muito piscosa, com pescadores ousados, acolhedores e sempre sorridentes. Exemplos: Tião Giró,Maneco  Antunes, Fabiano, Dito Henrique, Bráulio Rocha, Dito Funhanhado, Elídio, Alcides Lopes, Almeidinha e tantos outros. Ainda: é dessa época o tino comercial do Eduardinho Graça como empresário caiçara da pesca. Outro produto abundante nesta praia era o sapinhaoá, um valioso componente da cozinha caiçara. Por isso era comum encontrar até famílias inteiras a mariscar por ocasião de marés baixas.
                Um detalhe mais ao longe da imagem é a alteração no morro da Santa Rita, quando está começando o loteamento, as construções de mansões por todo o local. Hoje, é impossível reconhecer a simpática prainha que outrora abrigou a concorrida capela de Santa Rita até a década de 1950, quando foi deslocada para o canto esquerdo da Enseada. Alguns caiçaras diziam que foi uma artimanha do cobiçoso comerciante Maciel e de Bráulio Santos para se apoderarem das posses caiçaras. Portanto, ao visitar a referida capela, reflita sobre a história que a envolve. Afinal, a remoção do "espaço sagrado abriu espaço para a especulação imobiliária naquele pedaço de paraíso”.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Tio Maneco, o rabequista

1978- Eis o tio Maneco com a sua rabeca! (Arquivo Kilza Setti)
                No começo do século passado, na praia da Fortaleza, nasceu Manoel Armiro, o tio Maneco, cujos irmão, nhonhô Armiro, assim que o pai faleceu, foi trabalhar por um período em Santos para ajudar a mãe na tarefa de criar os  irmãos mais novos. O irmão do meio era Cláudio, depois casado com a tia Martinha.   Eles nunca deixaram a praia natal, exceto em breves passagens como mão de obra temporária nos bananais da Baixada Santista. Portanto, todo esse pessoal sempre viveu da roça e da pesca.
                De acordo com a vovó Eugênia, o tio Maneco "desde criança era atraído para a música". Essa paixão motivou a criar, a partir de uma lata trazida pelo mar, uma “viola” como primeiro instrumento. Ao perceberem que o menino tinha talento, tirava acordes agradáveis daquele rudimentar instrumento musical, deram-lhe uma viola de verdade. Mais tarde, já tocando regularmente em festinhas, em bate-pés, se interessou pela Folia do Divino. Comprou a sua primeira rabeca.
                A devoção, somada ao exibicionismo do talento e à graça de namorador, fez com que o jovem Maneco Armiro, agora munido de uma rabeca construída pelo Vitor, um caiçara da praia da Barra Seca, saísse nas andanças como folião do Divino Espírito Santo. Isso durava meses a cada ano. Era preciso uma mulher muito especial para aceitá-lo como marido. Quem cumpriu este papel com muito êxito foi a tia Aninha. Após o casamento,eles assumiram o comando da capela de São João Batista, no jundu da praia da Fortaleza. Nessa função se devotaram até o final de suas vidas. Ambos viveram noventa e cinco anos. Morreram quase ao mesmo tempo que o século XX.
                Como exímio rabequista, tio Maneco sempre foi muito requisitado. Nunca deixou de "correr folia". Adorava festas e estava sempre fazendo galanteios às mulheres bonitas. Dele temos boas lembranças, principalmente pelo seu estado constante de correria (“homem ativo”) e de seu olhar brilhante, sempre interessado em tudo à sua volta.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Elogio à mulher


Otávio na viola- Arquivo Kilza Setti
                Num dia distante do ano de 1982, trabalhando na praia da Ponta Aguda, onde a ASEL tinha um de seus “postos avançados”, eu tive uma surpresa: das bandas da Tabatinga vinha a Folia do Divino. Isso quer dizer que aquele pessoal já não tão jovem, portanto a Bandeira do Divino Espírito Santo e seus instrumentos em sacos plásticos devido a chuva que caía, tinha andado uns cinco quilômetros “amassando barro” só para cumprir a devoção de “correr a bandeira de Norte a Sul, desde as Galhetas até o Camburi”; se preparando para a grande festa do mês de julho, na Igreja Matriz da Exaltação da Santa Cruz, no centro da cidade.
                Perguntei ao Aristeu Quintino sobre o fato. Ele explicou: “Esse pessoal não falha! Todo ano, nesta época, eles vêm até aqui cantar. Antigamente eles vinham pelo Saco das Bananas, Simão e Lagoa. Nesses lugares morava muita gente! Hoje, como não tem mais ninguém, eles voltam do Saco das Bananas, depois de cantar na casa do Teófilo, do Gregório e de mais alguns dos ‘Madalenas’, dão a volta, cantam pelo Rio da Prata, Tabatinga e Galhetas e passam por aqui, pela minha casa. Eu e a minha família gostamos muito por esse apreço, pela consideração que eles têm por nós. Os outros do lugar - o  Ambrósio e seus familiares, o João Quintino, a Paulina e o Zeca - não ligam ou são ‘crentes’.  Acho que o Divino Espírito Santo merece esse sacrifício”.
                O grupo era formado por seis caiçaras, sendo uma mulher: a dona Sebastiana, companheira do Otávio “Paratiano”, o versista na ocasião. Foram acolhidos, contaram das condições da estrada, se admiraram das galinhas da Odócia e dos filhos “fortinhos e corados” do casal. Depois, no espaço que servia de enfermaria, eles fizeram a cantoria completa, deixando a despedida para ser feita na cozinha. Dona Sebastiana, fazia o tipe, aquela voz finíssima que prolongava cada estrofe da música, que sustentava o som até a intervenção do tambor. Por isso, durante o café oferecido, o dono da casa a elogiou, dizendo que tinha se saído muito bem na sua função, com um tempo perfeito etc. Ao escutar o elogio à companheira, atalhou o Otávio segurando a mão da dona Sebastiana: “Esta mulher é boa mesmo! Iguá a ela só ela! No trepe não tem iguá!”. Rimos muito depois que o grupo retornou para onde veio, ao lugar do pouso daquela noite.
                Resolvi contar isso depois de muito tempo, ao ler em Ubatuba nos cantos das praias, de Kilza Setti, onde “tem-se notícia de que nos tempos mais antigos das andanças da romaria do Divino era comum a participação das mulheres como companheiras de peregrinação, fosse para carregarem a bandeira, fosse para atuarem como tipe”.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

João Miguel: outro parceiro do Glorioso

Assim era Saco da Ribeira, na década de 1970
                A imagem acima mostra um canto deixado (por enquanto?) aos caiçaras da praia do Saco da Ribeira.
                No inverno de 1975, no jundu deste lugar, eu, num ponto que não existe mais a praia porque as "náuticas" foram construídas, juntamente com Cláudio “da Nádia”, Joãozinho “Barbudo” e mais alguns que por ali “faziam hora para jogar uma bolinha” no lagamar, escutávamos o velho João Miguel. É lógico que o assunto principal era em torno de pescaria, sobretudo de tainhas nos meses de maio e junho, quando abundavam cardumes que tinham vindo do Sul à procura de águas mais quentes para a desova. Era quando os donos das grandes redes  “faziam a mala”, lucravam de verdade. Ouçamos o pescador da praia do Saco da Ribeira:
                “Este mar sempre foi bom pra pesca. Ainda mais pra cercar tainha! Olhem só: estão vendo ali a Ponta da Lage Grande, pra fora da Santa Rita? Desde lá, até a Ponta do Flamenguinho, a água coalhava em muita ocasião. Era só chegar o mês de abril em diante, que os homens se desesperavam. Ninguém queria pensar em outra coisa que não fosse estar com redes e canoas preparadas para a temporada das tainhas.
                Daqui quem tinha as maiores e melhores redes era o João Glorioso. Na praia do Lázaro era o Antonio Peres quem comandava. Ele também tinha e ainda tem as melhores canoas! Passando a praia Brava, se alcança o Perequê-mirim, onde é o Pedro Cabral  que possui mais posses, tem as melhores redes e é muito trabalhador. Aquele pessoal também tem muita garra pra pescaria! Logo depois, na Enseada, uma praia muito boa para puxada de rede, sempre teve ‘gente influída, que gosta de se bater no mar’. Agora, quem tem mais recurso lá é o Altino Maciel, que tinha uma venda grande e sortida logo no pé do morro, depois do Giró. Hoje é dono de mercearia e padaria no coração da cidade. Quem ficou no seu lugar na Enseada foi o Eduardinho Graça. Este tá ganhando dinheiro!
                Não chegava a três meses de pesca de tainha, mas era uma fartura que deixava todo mundo contente. Os balaios e gamelas ficavam cheios; os comerciantes ganhavam dinheiro mandando peixe seco pra Santos. Era um tece-tece na serra sem parar, pois os caipiras traziam os seus produtos e voltaram com os animais carregados de tainha seca. Coitados dos burros!
                Quando o cardume não encostava, só ficava no largo, o jeito era troiar: cercar com rede lá mesmo em muitas canoas para bater na água e fazer o peixe se malhar. É um espetáculo difícil de se dizer. Muitas delas voam! Por isso que tem os aparadores rente ao cabo: esperam catar todas que escapolem. Mas quem disse que conseguem!?”
                Na verdade a gente escutava uma história que já tinha escutado outras vezes, contado por outros caiçaras. Só que ninguém se cansava de ouvi-las, pois sempre tinha um detalhe a mais. Afinal, as percepções, os sentimentos e as experiências de cada contador davam um toque especial. João Miguel era espia: quem dava o sinal e o tamanho do cardume; fornecia o principal para ver se compensava largar a rede logo ou esperar mais um pouco. Imagine o olhar desse homem! Que parceiro valoroso para o João Glorioso!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Mais coisa do Morro do Foge

Muitos casos estranhos são contados sobre o Morro do Foge. Aparições, luzes, assobios e outros barulhos sem explicação foram vistos e/ou ouvidos por várias pessoas, sempre à noite.
Leovigildo Félix conta que antigamente, muitos moradores do Sertão da Quina não ousavam passar pela estrada para o sertão junto ao Morro do Foge tarde da noite, pois ali aparecia uma porca muito grande com seus leitões, que se postavam bem no meio do caminho, impedindo a passagem. Naquele lugar não havia nenhuma criação de porcos, ninguém sabia explicar de onde eles saíam. Muitos afirmam ter visto e se arrepiado diante da aparição.
Dizem que o arrepio é um sinal de que se está diante de coisas “de outro mundo”. Assim contava Antônio Félix, que numa noite em que passava por aquele lugar, apareceu um homem sem fazer qualquer barulho e passou a segui-lo silenciosamente. No mesmo instante ele sentiu o corpo todo se arrepiar, mas não correu, continuou andando no mesmo passo, sempre sentindo aquela presença logo atrás de si, e quando chegou em casa aquele que o seguia desapareceu.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Acompanhando o passo

Praia Mansa, na Ilhabela (1994)- Chico está em primeiro plano, de camisa branca, olhando o final da acomodação dessa gigantesca canoa até o jundu. Se repararem, há uma "máquina" construída longe da água só para esta finalidade: puxar a canoa com um mínimo de esforço. Não encontrei aparelho igual em nenhum outro lugar.
Chico Lopes sempre foi acostumado com o mato e seus sons, mesmo na escuridão da noite. Caçador experiente, não se assustava com cobra ou outro bicho qualquer. Saía para caçar ao anoitecer e passava horas “espiando a ceva”, ou seja, vigiando o local onde era colocada comida como isca para os bichos, do alto de uma plataforma rústica construída numa árvore. Quando ouvia os conhecidos barulhos dos bichos, acendia a lanterna e atirava.
Certa noite, desistindo da vigília, pois já passava das dez horas, ia voltando para casa quando percebeu um barulho diferente. Não era nenhum bicho – com o que já era acostumado –, parecia ser passos. Parou, e o barulho parou também. Olhou em volta, não viu nada. Continuou a andar e no mesmo instante o barulho recomeçou. Se apressava o passo, aquele “acompanhante” fazia o mesmo. Quando chegou em terras de propriedade do Dito, seu cunhado, a cachorrada veio enfurecida, latindo sem parar, mas não era no Chico, com quem já eram familiarizados e sim em algo invisível, ao seu lado, justamente de onde vinha o som que o acompanhava. Assim continuaram até que o Chico, trêmulo, ultrapassou a porteira da propriedade e o tal som misterioso que o acompanhava cessou de uma vez.
Foi assim que o Chico, que nunca teve medo de cobra, onça ou escuridão, soube o que é ter medo de assombração.