terça-feira, 22 de novembro de 2011

Morro do foge




No Sertão da Quina, em Ubatuba, existe um morro chamado “Morro do Foge”. Os moradores passam pelo sopé do morro ao fazer a curva da estrada que acompanha o rio naquele trecho. Bem ali muita gente já viu e ouviu coisas estranhas.
Aconteceu com Leandro e Gilson de passarem caminhando por ali uma noite, voltando de uma festa. Leandro foi quem primeiro se calou ao ver, um pouco adiante, uma bola de luz branca e evanescente, que saiu do lado do rio, atravessar a estrada flutuando a cerca de um metro do chão e se perder no morro escuro. Assustado, mas sem deter o passo, ele tentou engolir o espanto pensando consigo: “devo estar bêbado...”. Depois de ter passado arrepiado pelo local da aparição, criou coragem de perguntar: “Gilson, você viu o que eu vi?”. Aí foi que Gilson teve consciência de que algo realmente tinha acontecido, não era imaginação: “Vi... mas era branco, deve ser do bem”.
A mesma tranquilidade não teve o Diego, que passava devagar por ali ao voltar da escola. Ao ouvir um assobio, ele se voltou para ver se alguém o chamava e não viu ninguém. Depois outro assobio soou mais forte, seguido de um barulho medonho de pedras grandes se chocando e caindo do alto do morro. Mas nenhuma pedra caiu. O assombro fez com que ele saísse pedalando numa fuga desabalada. Chegou em casa com o coração disparado, dizendo: “Mãe, me arruma dinheiro pro ônibus, que de bicicleta eu não vou mais pra escola”.
Ninguém sabe dizer quando e como surgiu o nome “Morro do Foge”, mas o certo é que muita gente já fugiu desesperada dali, ganhando casos misteriosos para contar.

domingo, 20 de novembro de 2011

Se não fosse o Totô!


Guaiás capturados na maré baixa para sustento de caiçara- Júlio 2011

                Já escrevi em outras ocasiões a respeito do João Pimenta, o incréu. Era da nossa vizinhança, na praia do Sapê, onde eu nasci.      Deste pequeno comerciante, o que mais me marcou foram os “bate bocas” (debates) que estabelecia com o frei Pio e mais uns dois ou três moradores do lugar. Eram disputas teológicas, mas eu não sabia disso naquele tempo. Meu pai não participava ativamente de tais conversas, mas as escutava e depois comentava em casa vagamente do assunto. Dizia no final: “O João Pimenta não é má pessoa, mas é incréu!”.
                 Numa dessas arengas, me recordo bem, o tema era o poder do Papa, da tão distante Roma. Frei Pio dizia que “o homem” era o “representante de Deus na Terra, o prenitudo potestatis”. João retrucava que tudo era conversa para alguém lucrar com isso. Nié, o mecânico, se dizia “acreditar desacreditando”. Nisso, o bom Nestor, o nosso “Totô” deu um basta em tudo badalando o sino e gritando ao mesmo tempo em forma de bronca: “O pessoá tá se cansando de esperá o padre. Como é que é: tem missa ou não tem?”. Não restou outra alternativa: lá se foi o influído frei Pio no seu hábito marrom que há muito se revelava encardido. Só não descobri até hoje se era parte da liturgia um hábito do frei: entrar na capela dizendo a cada fiel “Eticumespiritutu”. “Será que ele quer comer tutu?”. Eu tentava adivinhar o significado, fazendo as aproximações possíveis. De vez em quando o vovô Estevan ralhava, mas quase sempre dava uma risadinha. Acho que ninguém seguia perfeitamente o latim do frei, mas repetiam os sons nos momentos adequados.

sábado, 19 de novembro de 2011

As posses

(Grupo de congada do sertão do Puruba - Foto: Júlio 2010)
                Hoje, pensando na “minoria” negra que está celebrando a sua negritude, na importância dessa consciência para a nossa identidade de brasileiros, sinto a necessidade de lembrar que o brasileiro é um caldo cultural e deve muito disso também aos pobres negociados um dia na distante África, de onde veio a grande força de trabalho do ciclo canavieiro, do período aurífero etc. Foi elemento importante também na definição do ser caiçara, do morador quase primitivo deste chão por nome de Ubatuba. Infelizmente, muitos “desejam subir ou pensam que já escalaram um milímetro do solado”, se acham superior (no quê?) e negam as suas raízes. Eu posso afirmar que, no pouco que conheço dos meus ascendentes, por parte do João da Barra, um bisavô materno, nascido de escrava na praia do Lázaro, um dos meus pés se sustenta no “povo das senzalas”.
                Nunca é demais lembrar: em todo o Brasil, a começar pelas terras da costa, os indígenas foram escravizados, perseguidos ou mortos, o território ficou disponível aos invasores europeus, mais especificamente aos lusitanos. Não se pode deixar de considerar um detalhe: foram os pobres, os banidos da sociedade portuguesa do século XV, XVI e seguintes, sobretudo degredados deixados à própria sorte na terra distante, mas posse lusitana do Além Mar, que garantiram as “posses de  Portugal”  e que hoje é o nosso país. Ou seja, dos conflitos e convivências com os primeiros donos e com os trazidos como cativos, nasceu o Brasil.
                Resumindo: é sempre a mesma coisa, ou seja, uns poucos lucram sobre as costas dos muitos que depois são deixados “a roer os ossos”. Dessa vida atribulada, largados como se as vidas deles só valessem enquanto estivessem dando lucros a terceiros, os pobres tiveram de se agarrar aos saberes dos que aqui já moravam (índios), aproveitar as contribuições dos escravizados africanos e exercer ao extremo a criatividade. Assim nasceu a cultura caiçara.
                Poderia se dizer que, os desafortunados dos meus ascendentes (indígenas, europeus pobres e africanos), ao se agarrarem nas chances para manterem a vida,  fizeram a experiência não da perda de si, mas do reencontro da verdadeira identidade, encontrada principalmente nas condições mais exigentes, onde a necessidade é mãe da criatividade?
                 O que resultou disso está por aí: congadas, jongos, capoeira, dança de moçambique, rezas, pratos deliciosos...arte de todo quanto é tipo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Lourenço da Ilha

(Foto Julio Mendes- 2011)
                Atualmente, olhando alguns jovens caiçaras soberbos, cheios de frescuras e petulantes, fico pensando em detalhes passados desse meu povo. Desde o ano passado, por exemplo, classifiquei desse modo alguns descendentes do finado Lourenço da Ilha. Por coincidência alguns foram ou são meus alunos.
                O caiçara Lourenço da Ilha era ilhéu do Mar Virado até o início do século XX. Porém, mudou-se com a família para a praia da Caçandoca devido as melhores condições de acesso e de produção. Também considerou a necessidade cultural. Afinal, na costa havia mais festas, mais rituais religiosos e mais gente, inclusive parentes. De lá, após a abertura da estrada para Caraguatatuba e o advento do turismo, os seus descendentes se deslocaram para o bairro da Estufa e outros lugares mais próximo do centro da cidade Ubatuba. E, lógico, continuaram a se reproduzir!
                Hoje, olhando silenciosamente para esses jovens tão distantes, mas próximos do Lourenço da Ilha, penso: será que ao menos sabem que algumas de suas raízes estão no Lourenço da Ilha, um homem que foi capaz de criar para si uma segunda natureza: de viver fora da ilha?

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

“Há de sobejá”

                         “Arreparei na cumeeira, junto da rija jiçara, onde de tudo tinha um cuí: desde a gamela de pexe saprêzo até pena de pato pra b'varrê parede de forno. O que eu procurava era o rodo, pois havia lasca de canevetêro, de imbaúba e de tinticuia junto com bagaço seco. Tava tudo estalando; um só brasêro desde a boca do forno.
                Enquanto isso, no cocho o tipiti cedia lugá pra uma massa quase seca despois de prensada no fuso. Inda tinha tempo pra um gorpe de pinga ou de café intirume. Só não se podia demorá porque tinha muito que fazê ante do finá da farinhada.
                Tava na metade da farinhada. Restava amorná, murchá  e torrá a massa. Despois, da goma da gamela, saía o bolo e o biju; por úrtimo ficava a quirera, que era a fiapada da mandioca torrada; ela servia de comida pra criação. Galinha e pato papava tudo isso e ainda queria mais!
                A casa de farinha era de pau-a-pique. O sapê da cobertura inda aturava deiz ano. No arredó tinha de tudo quanto era arve: laranja-da-china, mexerica, bordo, goiabêra e até um pé de araticum, d’onde vinha sempre um canto de sabiá cica.
                Tinha o terrêro; despois era só cisquêro, d’onde brotava inhame e taiaiaoba entre resto de saquaritá, preguaí e marisco. Também era espaço do jambo marelo todo enroscado de cará-moela, da jabuticaba, da pinha e da fartura de banana. A preferida sempre foi a san’tumé por causa do escardado de pexe
                Por’onde principei dizendo? Não era de querê essa lonjura! Só ia dizê um cuí do tempo d’ante, donde ninguém queria apossá de nada.  Chiba contecia de montão! Compensava o cansaço da roça e do mar. A felicidade estava no pixé, na banana assada, na bentrecha seca pra comê com café amargo. Ou pirão de garôpa, de jangolengo ou quarquer otro da pedra. Ou  o de comê vinha do mundéu, da arapuca, do cumbu e da esparrela. No carrêro do bicho se recolhia desde oriço até tatu. Tudo que dava pra mais de um dia ia pro jirau secá ou se saprezava na gamela. Quase ninguém carecia de nada. A certeza era só uma: há de sobejá”.

domingo, 13 de novembro de 2011

Vovó Eugênia, um espírito aberto

              
                Uma das pessoas mais atentas a nós, crianças na época, era a vó Eugênia. Era um verdadeiro “espírito aberto”: aceitava sugestões, conselhos e críticas de qualquer pessoa ou situação, sempre sem nenhum preconceito. Lembro-me bem dos momentos. Exemplos: se  estivesse escolhendo feijão para cozinhar, caso alguém chegasse e começasse um caso pertinente, logo ela parava de movimentar as pequenas mãos sobre a peneira e se voltava totalmente à pessoa.  Caso estivesse em pé, se chegasse uma criança para contar-lhe algo, a vovó tinha a sensibilidade e o respeito de se agachar a fim de ficar na mesma altura, demonstrando assim total atenção. Isto era um prazer, dava uma imensa satisfação a nós!
                Foi ela quem nos contou, numa manhã chuvosa, depois de ter adiantado o almoço, a respeito do Zé Teotônio, da praia Grande do Bonete. Foi assim:
                “O Zé Teotônio teve um machucado no pé que se enfezou, foi causando uma vermelhidão que não teve benzimento e remédio que resolvesse. Deu gangrena. O homem berrava dia e noite por céu e terra. Pra vocês terem uma ideia, do Canto do Joaquim, um lugar tão longe,  os outros diziam que se escutava o berreiro. Era uma dor medonha. Depois de uma semana berrando, ele se desesperou: foi no rachador de lenha, pegou o machado amolado e cortou a própria perna. Imaginem o sofrimento desse homem! Que dor tamanha fez com que ele escolhesse uma dor menor?”.
                Eu conheci o Zé Teotônio. Pelo jeito a “operação” foi um sucesso, pois morreu de velhice, com o seu toco de perna, bem feliz no seu paraíso praiano.
                Ah! Que falta faz pessoas e sociedades abertas, capazes de se corrigirem por vias pacíficas e por atitudes respeitosas!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sem medo de assombração

Contam na família de meu pai sobre meu tetravô, de sobrenome Lopes, que era homem de muita coragem.
Estava ele na praia grande do Bonete e resolveu passar a noite por lá mesmo. Entrou num rancho de canoas na beira da praia e se deitou dentro de uma canoa de voga, grande e pesada, dessas para oito remadores. Quando fora da água uma canoa de voga só é movimentada sobre rolos na areia, por meia dúzia de homens fortes. Pois o Lopes se acomodou e pegou no sono, tranquilo.
Quando chegou a madrugada, o Lopes foi acordado de forma brusca e se deu conta de que a canoa estava sendo sacudida. Olhou em torno e não viu ninguém, aquilo não podia mesmo ser gente. Uma força misteriosa levantava a canoa pela proa e largava violentamente sobre os rolos de madeira.
Ainda assim o Lopes não se deixou abater: se não tinha medo de gente ou de bicho, pra que ter medo de assombração? Se segurando como podia, começou a desdenhar: “Ê ê ê, bobagem! Quer quebrar, quebra. Ela não é minha mesmo.” Ainda foi chacoalhado algumas vezes junto com a canoa, depois tudo se aquietou e o velho Lopes voltou a dormiu sossegado ali mesmo. Naquela noite a assombração desperdiçou seu tempo.