sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Era Bernadino, do Pulso. Agora é memória.

Puxada de rede na praia do Pulso, em 1983. Bernadino levanta tabuleiro (laranja) com peixes.
            Depois de muito sofrimento, no último dia 9 nos deixou o pescador Bernadino, gente dos Prado, da praia do Pulso.
            Do Bernadino, na beira do seu rancho de canoa, escutei e aprendi muitas coisas. Ele, companheiro de infância do meu pai, nunca deixou aquele lugar maravilhoso porque sempre viveu da pesca. Junto com a Maria, sua companheira lutadora, e os filhos Vicentina e Mário, o humilde pescador era uma referência para as minhas prosas esporádicas na praia do Pulso.
            Certa vez, contando causos de outros tempos e de nossos antigos, o Bernadino se recordou de uma pescaria em tempo de caçoa. De acordo com ele, o Possidônio Barrasseca, na referida época, há mais de cinquenta anos, foi salvo por um boto. Percebendo o meu interesse, entrou nos detalhes: “No tempo antigo eram poucos os que sabiam nadar. Sabe o porquê? Porque os peixes bravos chegavam até na beira mar, desciam na arrebentação das ondas. Quase ninguém tinha coragem de se aventurar, ficar dando braçadas sossegadamente, querendo aprender a nadar. Por isso que, apesar de ótimos canoeiros, corriam um risco constante quando embarcados. Afinal, qualquer canoa poderia alagar, exigindo muito esforço e sorte de quem tivesse embarcado quando isso acontecesse. Isso aconteceu com o nosso parente Barrasseca, numa pesca de caçoa: a canoa alagou, depois de uma escapada de uma bitela, entre a Costeira do Tolino e a Ponta Lisa, onde era a casa do Caetano. Por perto não tinha ninguém que pudesse acudir. A embarcação mais próxima era a que estava o Horácio (do Herondino) e o Antonio do Prado. Assim que eles perceberam o desespero do amigo, levantaram a poita e começaram a remar desesperadamente. Porém, quando faltava mais de trinta metros para prestar ajuda, o inesperado aconteceu: um boto, surgido não sei de onde, serviu de apoio ao Possidônio, dando-lhe um empurrão por sobre a borda, tirando-o da água. Foi a sua salvação. Quando os dois chegaram, o homem ainda arfava. E o boto, depois de dar ainda algumas voltas em torno das duas canoas, desapareceu no rumo da Lage de Fora. Apesar de já conhecerem causos de amizade entre homens e botos, nunca nenhum deles tinha visto coisa assim”.
            E assim, recontando alguns causos do Bernadino, a gente mantém ele entre nós. Só desse jeito, preservando a memória, a imortalidade existe.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Jota Passos

Barcos no atracadouro do Saco da Ribeira, construído na direção da linha do jundu, em 1978, onde se localizava o Estaleiro Makyama (Foto de 2011)

                Um barco familiar está sendo reformado nas areias encharcadas do Acarau. Em cima, no convés, enxergo o Marquinhos e o Tico. Cumprimento-os com a saudade de alguns meses. Pergunto se aquela embarcação não é o Jota Passos. “É ele mesmo! Você conhece, Zé?”. Marquinhos ficou admirado. Afinal, da linha d’água para cima está totalmente novo, na madeira nova. Expliquei-lhe que o pequeno barco pesqueiro é inconfundível, principalmente porque, há aproximadamente quarenta anos, quando ele foi construído, eu frequentava o  Estaleiro Makyama, no Saco da Ribeira. Ele tem linhas inconfundíveis. Eu, como a maioria dos caiçarinhas, era apaixonado por barcos.
                Defronte aos Alexandrinos, de tradição naval reconhecida, é final da tarde. Pescadores chegam; a conversa se estica. Marquinhos insiste no assunto do Jota Passos. Informa que agora o pequeno pesqueiro ganhará um novo nome e terá por mestre um jovem ilhéu da Vitória. Pergunto-lhe porque está praticamente inteiro após tanto tempo. Imediatamente ele responde: “Isto é fácil de responder! É uma embarcação muito bem feita; por isso é que dura tanto tempo em atividade, sem praticamente nenhum reparo. O cavername está perfeito: só usaram ipê. No costado/calado a madeira é amendoim. É perfeita a embarcação porque os japoneses construíam na planta, atentos a todos os detalhes. Também, né!? Tinha uns jovens japoneses que eram feras na marcenaria! Agora, estão todos no Japão há muito tempo!”.
                Antes de escurecer ainda tivemos tempo para recordar outros bons marceneiros navais, cujas embarcações ainda estão rompendo os mares. Muito nos orgulham os trabalhos de Zezinho Alexandrino, do Jacob Meira, do Chicão, do Dito Félix... Todos muito bons! O Zezinho, por exemplo, devido ao seu talento, aos vinte e poucos anos já estava ensinando a arte naval na Escola Técnica de Santos. “Ele batia o olho; se tivesse uma linha fora, ordenava desmanchar imediatamente para refazer”. Depois desta frase, acrescentou o Marquinhos: “É por isso que as suas obras continuam até hoje, que vale a pena reformá-las!”

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

No Caminho do Cais (II)

                Depois de 1977, quando foi instalado pela SUDELPA (Superintendência para o desenvolvimento do litoral paulista) o atracadouro na praia do Saco da Ribeira, o fluxo dos barcos pesqueiros se transferiu para lá, deixando o cais novamente num marasmo, servindo apenas para a molecada mergulhar e para os pescadores amadores se divertirem com os “causos do Acari”. Depois passou a atrair também os turistas. Diante disso, o arquiteto Sidney Giraud, um caiçara da Enseada que tem parte com os imigrantes franceses de outrora, há pouco mais de dez anos, a pedido do prefeito Paulo Ramos, realizou um eficiente projeto de urbanização de toda a orla da Baía de Yperoig, inclusive a Estrada do Cais.
                A Estrada do Cais ganhou uma calçada pavimentada para os caminhantes e plataformas em diversos pontos da costeira servindo como mirante e para pesca. Hoje, dez anos depois, tudo se esvai, a ruína se estabelece por falta de cuidados e de manutenção, formando pontos que oferecem perigos aos visitantes. Isto é como se vivêssemos uma nova crise. Só que agora não tem nada a ver com revanche aos monarquistas. O mais correto é tratar como incompetência administrativa ou visão reduzida, própria de quem enxerga apenas os próprios pés.
                Faliu o empreendimento ferroviário; o barco é Amor Náufrago; a cidade está para ratos e mosquitos da dengue. Nada está concluído!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

No Caminho do Cais

                No final do século XIX, pouco antes de D. Pedro II perder o trono brasileiro, alguns homens de negócio se “interessaram” por Ubatuba, resolveram investir numa ferrovia, cujo traçado, depois de alcançar Taubaté, se estenderia até São Bento do Sapucaí.
                O projeto foi aprovado, o financiamento foi garantido, as obras tiveram início. A estrada que conduz ao cais, onde há uma base de pesquisa de pescados, conhecida pelos ubatubanos por Caminho do Cais é a marca mais evidente que restou dessa iniciativa. De acordo com o Sebastião de Souza: “Deu um trabalhão aquela pedraria. Foi toda cortada para receber os dormentes e os trilhos. Depois, passando a ponte sobre o Acarau, foi a vez do mato do jundu e do caxetal do Itaguá, indo em direção à cidade, ao centro. Era uma picada reta. Foi quando veio a crise e tudo passou”.
                A crise a que se refere o caiçara do morro do Tenório, é a Revolta da Armada, ocorrida nos primórdios republicanos. Tratou-se de um “fôlego monarquista garantido pela Marinha”; uma tentativa de retorno aos princípios monarquistas. Não vingou. Em Ubatuba, onde os monarquistas prevaleciam, houve o golpe: a cidade teve os benefícios (que garantiam a ferrovia ) cancelados.
                Os túneis e as estações começados foram abandonados, assim como trilhos, dormentes, parafusos e tantos outros apetrechos que sustentariam a obra “ficaram ao léu”. Bem mais tarde, no cais, onde seria o terminal ferroviário de carga, surgiu o Entreposto de Pesca. A área foi revitalizada. O desembarque dos barcos sardinheiros movimentaram, na década  de 1970, até quatro salgas. A plataforma tornou-se um ponto de pesca, sobretudo aos veranistas.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Cavalo Grande

                Para entender melhor o que eu vou escrever, você precisaria conhecer o Saco dos Morcegos, o local da fazenda de Sinfrônio Antunes de Sá, “a raiz dos Madalenas”. Na fotografia, eu faço questão de mostrar a pedra de moinho que resiste junto a algumas colunas. É do “Porto da Fazenda”, olhando para a costeira do lado esquerdo, que se enxerga uma pedra enorme, com uma declividade impressionante. Garanto aos puladores de pedra que, ao chegar nela, só existem duas alternativas: cair no mar e sair nadando ou subir a mata para caminhar aproximadamente os cinquenta metros daquela pedra. Esse lugar é conhecido como Costão do Cavalo Grande.
                Os antigos moradores daquele local (Dito Madalena, Neco, Constantina, Palmira, Gregório, Teólfilo, Dominguinhos...), ainda parentes meus, me explicaram a história do lugar, o porquê do nome do costão. Disseram que foi por causa de um acidente no início do século XX, quando um grande mestre de canoa de voga perdeu a vida no mar.
                José Vieira Serpa, navegante ubatubano de tradição, era considerado o melhor mestre nas viagens entre Santos, Ubatuba e Angra dos Reis. Além dos conhecimentos técnicos, também conhecia muito do tempo, das condições para a navegação. Além disso,  “pressentia coisas de longe”. Dele partia a comando sobre os oito tripulantes da grande Cavalo Grande, a canoa de voga que entrou para a história com uma tragédia.
                As canoas imensas eram importantíssimas num tempo onde o mar era a nossa principal via de acesso às cidades litorâneas vizinhas. É preciso lembrar que a rodovia existente entre Ubatuba e Caraguatatuba é de 1950?
                Existiam embarcações maiores, feitas em estaleiros, mas tinham pouca praticidade aos pequenos empreendedores porque seguiam um calendário determinado, paravam em vários portos, etc. A solução era canoa de voga, “feita de um pau só”. Dizia o vovô Armiro, remador admirável, que muitas dessas canoas eram conduzidas por oito tripulantes e um mestre, mas tinha aquelas de seis tripulantes, um pouco menores. Eram nos bancos que, completamente esticados, os homens descansavam enquanto tocavam os ventos favoráveis no traquete e na mesena. Imagine a largura dessas tais canoas! Até uma caixa de areia, onde era montado um fogão de tacuruba, fazia parte do lastro da embarcação. “Era para fazer um café, preparar uma comida rápida. Desse jeito ninguém desembarcava e a viagem rendia mais”.   
                Numa de suas viagens, o reconhecido mestre aportou na Ilhabela e mandou reforçar nas poitas porque tudo indicava uma tormenta forte se preparando para chegar. Ao saberem que teriam de pernoitar naquele local, distante de suas casas, correndo o risco de perder uma festança na cidade natal, os tripulantes começaram a atazanar o Zé Vieira. Foi tão grande a encheção de saco, que o homem perdeu a paciência, levantou as poitas e rumou ao destino. Os ilhéus contam que, ao embarcar contrariado, assim expressou o competente mestre canoeiro: “Eu morro, mas vocês também não ficam para contar história”. Depois disso, somente os destroços encontrados a partir do Saco dos Morcegos até Angra dos Reis tentaram revelar o ocorrido. Todos morreram.
                Então é isto: o costão tem esse nome porque por ali encalhou um pedaço da canoa de voga Cavalo Grande, que navegava sob as ordens de grande mestre José Vieira Serpa.

domingo, 15 de janeiro de 2012

“No princípio era um carreiro. Ele ficava na encosta”



               Ao ter conhecimento dos caminhos de servidão, o amigo Jorge, se reportando ao tempo que morava na capital paulista, citou as estradas de servidão ainda existentes e assim conhecidas pelos paulistanos. Depois disso eu fiquei refletindo que, talvez, estrada (de servidão) fosse uma denominação mais adequada para interligações mais distantes, tal como as intermunicipais na atualidade. Seguindo este raciocínio, as ligações do nosso município com as “localidades de Serra Acima” seriam estradas de servidão. Assim, teríamos as tais estradas desde a que ainda hoje é usada no Sertão da Quina (que dá acesso à Vargem Grande)  até a denominada Trilha do Corisco, que parte do Sertão da Fazenda da Caixa e termina em Paraty. Entre estas, teríamos a do Corcovado e a da Cachoeira dos Macacos, ambas, assim como a primeira citada, terminam na Vargem Grande. A outra bem desconhecida é a da Escorregosa (que faz a ligação com Cunha). A questão é: por que a convergência à Vargem Grande? A resposta é simples: era o ponto de chegada do Carreiro das Antas, um dos acessos dos índios (tupinambás) ao planalto. Foi sobre esse trajeto que os portugueses determinaram a primeira interligação de Ubatuba com a Serra Acima, conhecida hoje como a Trilha dos Macacos. De acordo com tradição oral reproduzida por Dito Chiéus, o ponto de chegada desse acesso era a fazenda, dentro da área da Estação Experimental do Horto Florestal. Só mais tarde, já no Segundo Império, o caminho sofreu novas mudanças que corresponde ao traçado aproximado da atual estrada (trecho de serra da rodovia Oswaldo Cruz). Vale apena conferir!
            Entre alguns cronistas há a suposição de que, por esse carreiro, uma porção dos índios confederados alcançou a Vila de Piratininga. A outra parte galgou a Serra do Mar a partir do caminho do rio Juqueriquerê, em Caraguatatuba. O estratagema seria: atacar os perós, depois fugir atraindo-os à desembocadura do Quiraré, onde o grosso da Confederação dos Tamoios aguardava. Deu certo. Basta recorrer às palavras de Anchieta acerca do combate, onde os portugueses e seus aliados “apanharam feio”:
            “A custo percebeu finalmente (Fernão de Sá) que os seus  desertaram, enquanto  ele   mergulhava na turba, inebriado de sangue, olhos na derradeira vitória.   Ao ver-se  abandonado, entre os inimigos, com poucos companheiros, entendendo ser inútil lutar contra tantos, retira-se dos arraiais e pouco a pouco recua na direção do rio, para    entrar com seus bravos nas barcas que aí estariam presas. Mas, aí, covardes,   menosprezaram as ordens e a vida do chefe e largaram para longe da margem a  armada, cedendo a um temor vergonhoso”.
            Na verdade, agora quem conclui é Aylton Quintiliano, na obra A guerra dos Tamoios:
            “Fernando de Sá, abandonado pelos seus, é liquidado com os que ainda ficaram ao seu lado, pagando com a vida tanto sangue tamoio derramado”.
            De tudo isso, podemos deduzir que é possível a mudança de nome de carreiro para estrada de servidão. E, os acessos curtos, no território da freguesia, tornaram-se caminhos de servidão.
            O que podemos fazer é sair em defesa dos caminhos e estradas de servidão. Afinal, são componentes do nosso patrimônio histórico e cultural.

sábado, 14 de janeiro de 2012

A viola de Dito Fernandes


                “Para o caiçara ubatubano, sertão sempre significou a região da mata cerrada que se interpõe entre a orla marítima e as encostas da Serra do Mar, e que constitui a parte da mata atlântica que a recobre [...].  Geralmente o mesmo nome dado a uma praia serve para denominar a área do sertão correspondente a esta. Assim, há a praia de Itamambuca e o sertão de Itamambuca; a praia do Puruba e o sertão do Puruba; a praia do Perequê-mirim e o sertão do Perequê-mirim”. Deste modo escreveu Kilza Setti, em seu livro Ubatuba nos cantos das praias,  para classificar e estudar os fenômenos de conservação e renovação no repertório musical dos caiçaras.
                Eu imagino o encantamento e o contentamento da pesquisadora, na década de 1970, ao caminhar pelos caminhos de servidão, entre as praias e sertões, escutando e recolhendo as cantorias profanas e sagradas do meu povo, comendo um peixinho ali, tomando um café acolá. Deve ser o mesmo sentimento e a mesma alegria que eu sinto em oportunidades semelhantes. Ontem, treze de janeiro, tivemos (eu, Júlio, Isaías e Jorge) este prazer: escutar o violeiro Dito Fernandes em sua casa no sertão do Puruba.
                Conheci o Dito Fernandes em 1981: estava em farinhada com a dona Mocinha e alguns filhos maiores. Ele já era mestre de congada. Todos os congadeiros eram dali mesmo; todos parentes! Dele eu aprendi que aquela Companhia de Congo teve influência direta de Cunha, o município limítrofe com as terras do sertão em questão. Convém notar que toda a porção Norte do município de Ubatuba viveu em isolamento até 1976, quando a BR 101 (a rodovia) fez, finalmente, a ligação com o centro urbano. Foram os trabalhadores cunhenses, utilizando o caminho de servidão, uma ligação antiga entre os dois municípios a partir da cachoeira da Escorregosa, no sertão do Cambucá, que, na primeira metade do século XX, ao virem trabalhar no corte da caxeta na vargem do Puruba, fizeram esse intercâmbio cultural. Foram eles que deixaram, com a animação do Ditinho Alves, a tradição da congada. Ele foi o primeiro mestre. Porém, destacou o Dito Fernandes naquela conversa: “O Arcidão tem um grupo no Taquaral e o Modesto tem outro na cidade”. Acrescentei que na Estufa estava ativo um grupo semelhante sob a batuta do Fortunato. De imediato ele falou empolgado: “Ele é o meu tio, marido da Benedita! É gente daqui que se mudou pra lá!”.
                Ontem, acolhidos na sala humilde, onde a Bandeira da Companhia repousava perto do São Gonçalo e de outras imagens populares, nós tomamos um vinho, escutamos o Dito Fernandes na sua empolgada cantoria, num repertório que passou pela Cana Verde, Congada, Chiba, Canoa... chegando até nas marchas carnavalescas de outros tempos. Encerramos a noitada com a estrofe da Congada que diz:
                Oi, dá licença, minha guia, dá licença;
                Dá licença pra enfeitar a Companhia.
                Apanha nove rosas, apanha nove cravos:
                É pra ficar bonito;          
                É pra enfeitar São Benedito.

                Valeu Dito Fernandes! Valeu dona Mocinha! Estamos agradecidos pela herança cultural que, juntamente com os seus filhos, parentes e amigos, nos engrandecem e nos alegram!