sábado, 7 de janeiro de 2012

Acompanhando o passo

Praia Mansa, na Ilhabela (1994)- Chico está em primeiro plano, de camisa branca, olhando o final da acomodação dessa gigantesca canoa até o jundu. Se repararem, há uma "máquina" construída longe da água só para esta finalidade: puxar a canoa com um mínimo de esforço. Não encontrei aparelho igual em nenhum outro lugar.
Chico Lopes sempre foi acostumado com o mato e seus sons, mesmo na escuridão da noite. Caçador experiente, não se assustava com cobra ou outro bicho qualquer. Saía para caçar ao anoitecer e passava horas “espiando a ceva”, ou seja, vigiando o local onde era colocada comida como isca para os bichos, do alto de uma plataforma rústica construída numa árvore. Quando ouvia os conhecidos barulhos dos bichos, acendia a lanterna e atirava.
Certa noite, desistindo da vigília, pois já passava das dez horas, ia voltando para casa quando percebeu um barulho diferente. Não era nenhum bicho – com o que já era acostumado –, parecia ser passos. Parou, e o barulho parou também. Olhou em volta, não viu nada. Continuou a andar e no mesmo instante o barulho recomeçou. Se apressava o passo, aquele “acompanhante” fazia o mesmo. Quando chegou em terras de propriedade do Dito, seu cunhado, a cachorrada veio enfurecida, latindo sem parar, mas não era no Chico, com quem já eram familiarizados e sim em algo invisível, ao seu lado, justamente de onde vinha o som que o acompanhava. Assim continuaram até que o Chico, trêmulo, ultrapassou a porteira da propriedade e o tal som misterioso que o acompanhava cessou de uma vez.
Foi assim que o Chico, que nunca teve medo de cobra, onça ou escuridão, soube o que é ter medo de assombração.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Cantiga de Reis ou Reisado

Grupo da praia do Sapê, a nova geração do Reisado
                “Hoje é Dia de Santo Reis”. Alegremente anunciava o vovô Armiro assim que se levantava no dia seis de janeiro. Ninguém ia pescar; a roça descansava; o ritmo ficava lento: era feriado sagrado.
                Geralmente a "cantoria de reis" dura todo o mês de dezembro e vai até o sexto dia de janeiro. Excepcionalmente volta-se a cantar no dia dois de fevereiro, na comemoração de Nossa Senhora das Candeias, na Festa das Candeias.
                O grupo local (porque quase todas as localidades tinham o seu grupo!) muitas vezes cantava até o amanhecer, passando alegremente nas casas. Quase nunca ninguém sabia, mas, de certa forma, estavam esperando a visita, sabiam que em qualquer noite e a qualquer hora o grupo faria a sua visita. Por isso sempre tinha alguma coisa “de prontidão” para o “comes e bebes”.
                No dia próprio (seis de janeiro) a cantoria, ao anoitecer, sempre foi na capela da comunidade. Todos cantam, se despedem com emoção do presépio.  Só no próximo Advento ele será novamente montado. É uma devoção popular que por muitos motivos está se esvaindo.
                A letra da música que eu transcrevo a seguir foi a que recolhi do grupo da praia do Sapê, onde a voz da saudosa comadre Vitória se destacava. Há variações, mas o tema é o mesmo: os reis da banda do Oriente que buscam localizar o menino-Deus. Segue-se a antiga tradição.
                1- Ó de casa cavalheiro/ Diga se eu posso entrar/ Se houver  algum agravo/ Ai diga que eu quero voltar.
                2- Viemos cantar o rei/ Hoje mesmo que é devido/ Viemos trazer notícias/ Ai de Jesus  nascido.
                3- Os três reis encaminharam/ Pelas partes do Oriente/ Chegam na Corte de Herodes/  Ai perguntam de repente.
                4- Onde era nascido/ O verdadeiro Messias/  Rei Herodes respondeu/ Ai eu vou ver na  profecia.
                5- Lá na profecia reza/ Que era nascido em Belém/ Ides lá e voltais aqui/ Ai que eu  quero ir ver também.
                6- Herodes que nem malvado/ Que nem perverso, maligno/ Foi ensinar aos três reis/ Ai as avessas do caminho.
                7- Viagem que era de um ano/ Fizeram em quinze dias/ Porque foram bem guiados/ Ai pelo infante rei-Messias.
                8- Atrás daquela cabana/ Uma estrela aparecia/ Era neto de Sant’Ana/ Ai filho da Virgem Maria.
                9- São José quando se viu/ Entre nobres companhias/ De prazer e de alegria/ Ai não sabia o que fazia.
                10- Vinte e cinco de dezembro/ De meia-noite pro dia/ Nasceu o menino-Deus/ Ai filho da Virgem Maria.
                11- Eu não vos peço ofertas/ Que são coisas de valia/ luz acesa e porta aberta/ Ai e  afeição de alegria.
                12- Ó senhor que estais dormindo/ Nesse seu colchão dourado/ Vinde nos abrir a  porta/ Ai que aqui estão vossos criados.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Os caiçaras do Saco do Sombrio

                Se muitos dos meus irmãos não conhecem sequer as praias de Ubatuba, imagine um lugar distante como o Saco do Sombrio, na Ilhabela. Para chegar lá é preciso enfrentar o mar; fica bem depois da praia dos Castelhanos.
                Eu conheci os caiçaras do Sombrio há quase vinte anos, quando a amiga Regina, por dois anos, foi professora na escola isolada local. Dessa época vem a minha amizade com Vera e Pedro, outrora professores da ilha dos Búzios, parte  do mesmo arquipélago (da ilha de São Sebastião). A fotografia mostra um embarque (bastante complicado por não ter praia). Assim é o Sombrio,  Búzios e Vitória, também uma ilha, onde temos parentes.
                Naquele tempo, as roças dos moradores chegavam até na costeira, ou seja, o morro próximo era bem cultivado. Informo que nenhuma área era plana. Foi o primeiro lugar que não encontrei ninguém mais rechonchudo, aparentando ter algum peso a mais. Justificativa: a alimentação era constituída pelo nosso básico (peixe, farinha, feijão, arroz...) e  todos  eram obrigados a um exercício contínuo. Era subir ou descer morro sempre; não tinha como escapar! Desde as criancinhas até os idosos: todo mundo driblava as pedras, as partes escorregadias; escolhia os melhores lugares para galgar os caminhos que se teciam na encosta, entre as dez casas que ali existiam. Eles corriam tanto no dia como na noite. Enxergavam que era uma beleza!
                Os caiçaras do Sombrio, simpáticos e acolhedores, viviam numa humildade impressionante, tal como quase todos os ubatubanos há cinquenta anos. Tinham suas roças de mandioca, feijão, milho e cana. Cultivavam bananeiras, extraiam palmitos e cocos. Faziam canoas.
                Não tem como se esquecer da gostosa farinha de mandioca do seo Pedro e do Alessandro. E o melaço apurado pelo Élcio? Que delícia! Foi lá que eu aprendi a fazer uma espécie de caipirinha, mas com folhas de limoeiro. Também foi onde vi o uso de uma pasta de óleo e farinha para curar ferida “arruinada”.
                Para aumentar a diversão, cortaram um pedaço do morro e fizeram um campinho onde jogavam futebol. Era um chão cascalhento, num espaço reduzido, com uma pedra no meio. Canelas se encontrando, “soltando faísca”, era coisa comum. Ruim era correr morro abaixo atrás da bola. Para quem não estava acostumado, era um sofrimento tal diversão. Outra atividade muito aguardada era o baile na casa da dona Vinina, que ficava logo acima da costeira de embarque  e desembarque. Não sei de onde aparecia uma vitrola alimentada por pilhas e vários discos de forró. Todos se produziam como se fosse uma noite de gala. Tinha gente comedida, mas as assanhadas também eram evidentes. Não existia salão para competir com aquele espaço embarreado de 4 X 4. O suor descia em bicas. Era um mundo que não se afastava muito da faina do mar, das necessidades do eito e dos prazeres da carne.
                A escola era um lugar especial. Ainda hoje, quando vejo o álbum da Regina, através dos desenhos e textos da caiçaradinha, viajo no tempo e nos sonhos. Terrível é o modelo econômico que matou e continua matando essas expressões de vivências tão simples, essas particularidades culturais tão específicas. E assim o mundo vai ficando mais sombrio.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A cultura tem cores, sabores, rítmos... e boas amizades!

                Hoje o dia foi corrido devido a um trabalhinho que estou fazendo em casa, aproveitando as férias escolares. Porém, atendi alguns telefonemas de pessoas queridas e recebi uma jaca maravilhosa.
                O mano Domingos foi um dos que telefonaram para se informar sobre atividades previstas para o Dia dos Santos Reis. Mostrou-se preocupado com o enfraquecimento das tradições caiçaras. Há alguns dias, eu e o Júlio também conversamos sobre isso durante um café com banana cera (ou figo). 
                O amigo Jorge Ivam parece que adivinhou o meu desejo de janeiro: comer jaca. Eu até estava pensando na Mary Igawa, nas jaqueiras do seu quintal que a cada ano me proporciona uma lambeção de beiços. Só o grande amigo baiano para trazer uma madura! Veio diretamente do Ubatumirim, do Sertão do Pasto Grande. Comemos a metade na mesma hora. Que Delícia!
                Contei ao Jorge sobre uma espécie de jaca que há muito não saboreio, nem vejo. Trata-se de uma jaca redonda como uma bola de futebol; é sempre verde, mesmo quando amadurece. Muito gostosa! Dessa jaca eu só encontrei em três lugares: na beira da casa de farinha do nhonhô Armiro (praia da Fortaleza), no quintal do Ditinho Mineiro (Estufa II) e na prainha do Sul, na Ilha Anchieta. Será que alguém pode me informar a respeito de uma outra árvore dessa tão especial escondida por aí? Ou já está em extinção,  como o pepino do mato, os maracujás roxo ou o amarelo miúdo?
                Agora estou quase vencido pelo cansaço, mas prometo depois contar sobre o Dário Barreto e a jaca da prainha do Tio Rita.
                Ah! Agradeço ao Pedro Paulo pelo presente maravilhoso: o cd Lira Padre Anchieta. Valeu mesmo!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

“As palavras têm vida própria”

                Bem mais tarde eu devo ter lido isso em algum lugar, mas quem disse primeiro, num início de uma contação de história foi a tia Martinha, da praia da Fortaleza. Isso em 1969, quando a novidade era a ida do homem à Lua.
                O local era a calçada alta que existia em volta da escola do morro, perto da Grota da Cotia, de onde avistava ainda a lua cheia empurrada pelo luminoso sol de primavera. O cheiro da florada do tarumã, conhecido na Ihabela como taquiuva, estava por todo lado. Junto da tia Martinha estava a tia Luíza a fazer balaio de taquara trazida do Saco do Zacarias, depois da Ponta de Fora. As duas eram irmãs.
                Tia Martinha começou a prosa de forma simples, tal como a flor da "abobreira". Disse que era preciso tomar cuidado com o que falamos, pois “as palavras têm vida própria, vão muito longe e duram muito mais do que a nossa vida”. Depois que alguém perguntou “como assim?”, a titia exemplificou:
                Nós estamos aqui, bem longe dos estrangeiros, mas o rádio disse que eles foram na Lua, aquela que brilha lá longe. Uns acreditam; outros não...mas todos continuam dizendo isso e aquilo e aquela outra coisa. Eu creio que Deus não deixaria ninguém chegar perto dos segredos divinos. Desse modo, uma palavra vinda de tão longe, dizendo um fato difícil de provar, está no meio de nós. E podem ter certeza que ela vai continuar se alastrando, deixando muita gente em dúvidas. Nós morremos... ela continua!”. Depois dessa fala, acrescentou a tia Luíza:
                A Martinha tá certa! Vejam só o causo do Morro do tio Zezinho: é assombrado porque a sua gente era gananciosa, fazia tudo por dinheiro. Agora ninguém fica lá porque a assombração não deixa. Não se sabe se é verdade, mas continua se dizendo que aquilo é por causa da defunta Lindorfa que vendeu a alma ao coisa ruim por amor à riqueza. Eu - credo em cruz! - digo que é maledicência das pessoas que a invejavam pela sua beleza e por nunca querer se casar. Afinal, todo mundo que é mais velho sabe: ela foi muito corajosa em não aceitar um casamento arranjado com um velho fazendeiro cheio de dinheiro e bens. Preferiu a morte, onde hoje é o lugar chamado de Penhasco da Bela. É isto: atitudes desesperadas produzem atos de coragem também desesperados! Agora, quem vai desdizer uma coisa que se espalha ainda hoje?”.
                Ah! Que sabedoria das duas! Como era bom escutá-las sempre! Aprender das razões dos nomes dos lugares e das crenças do imaginário caiçara!
                Depois de tanto tempo, eu aqui retransmitindo a prosa de um dia distante, de um lugar que poucos conhecem e de pessoas que sequer sabemos onde foram enterradas! É; as palavras têm vida própria!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O espaço da praia na cultura caiçara

Eis o que restou da praia do Saco da Ribeira, que testemunhou tantos momentos da cultura caiçara!
                A praia, assim como o morro, a costeira, a badeja, a vargem, a queimada, a gamboa e a restinga, sempre foi essencial ao caiçara. Dela saem:  peixe,  molusco e crustáceo. Nela se encontram as pessoas para conversas e divertimentos, tais como jogos e disputas (combinação, pasquim, regata, malha,natação, peteca, rodas etc.).
                Uma  das imagens mais marcantes da minha infância é a puxada de rede na praia. Tudo era previamente combinado, ou melhor, os moradores de determinado local já sabiam, desde tempo mais antigo, que em tal dia da semana ocorria pesca comunitária. Bastava comparecer para ajudar nos remos (ou fazendo força nos cabos, ou ajudando a fechar a tralha em sincronia, ou aparando por fora, ou simplesmente participando da escolha, na separação das taras etc.). No final da atividade... todos tinham o seu quinhão!
                Na travessa de jacatirão da sala do vovô Armiro ficava um búzio feito de chifre de boi. Era ele que, na madrugada, conduzindo esse instrumento até o rancho das canoas, tocava-o. Portanto, “tocá o buzo” é uma expressão que significa convocação para uma atividade comunitária, para uma urgência.
                Hoje, sinto tristeza quando um espaço público por excelência vai sendo tomado por interesses elitistas. Ou seja, vai colocando os menos privilegiados em espaços reduzidos, degradantes ou “não interessantes por enquanto”. Deste modo, resta a marginalização (ficar à margem, em espaços inadequados, de risco etc.). Enfim, é muita miséria humana não perceber ou não querer enxergar que tais afrontas, além de poluição sob todos os aspectos, é redução da possibilidade de paz e harmonia. Quando “bamo tocá o buzo”?

domingo, 1 de janeiro de 2012

Uma lição de passarinho

                  A imagem deste sabiá galinha (ou laranjeira) foi a escolhida para começar o ano. Afinal, ele canta para nós desde agosto, quando resolveu fazer seu ninho na caramboleira. não tem como não percebê-lo. A ninhada já se foi, mas ele continua ciscando e nos encantando. Acho que o mesmo pode dizer a vizinhança. Afinal, mesmo sem árvores em seus quintais, eles "curtem" o som.
                  Por que será que o passarinho parece se preocupar com uma fidelidade ao quintal? Desconfio que é por causa da tranquillidade, das árvores e das minhocas que abundam na compostagem. Até o nosso vira-lata parece não se importar com ele. Será que também se acostumou com o canto maravilhoso?
                  Uma lição que extraio deste passarinho: busquemos os espaços que contribuam para a nossa harmonia.
                  Neste início de um novo ano, desejo que todos exercitem mais a cidadania. Um desafio que começamos em "nosso quintal": não deixar que a nossa moradia seja ultrajada, deixe de ser um local onde reine a paz e a tranquilidade.