domingo, 25 de dezembro de 2011

Pesca no perau

Meus artesanatos/ reciclagem de materiais
                Na praia do Sapê, desde o porto do Eixo até chegar no Pontal, sempre predominou a formação de peraus.  Nem sei se é assim que se escreve.
                Perau é a denominação dos antigos para aqueles “buracos” formados junto ao lagamar em praias de tombo. É uma combinação das forças das ondas com correntezas, constituindo um corredor natural para os peixes. São ótimos pesqueiros, onde predomina pampo, cação, embetara etc.
                Papai, vovô Estevan, tio Chico e muitos outros sempre pescavam no perau. Bastava levar a linhada preparada; a isca estava na areia grossa: era pregoava.
]              Pregoava é um molusco que vive na divisa da água com a areia, ou melhor, mais para o seco do que para o molhado. Para pegá-lo basta ir afastando a areia com os pés e ir recolhendo as brilhantes conchas. Depois, quebra-se a concha e enfia a carne no anzol. Em seguida, “é só pinchar na água e prestar atenção na fisgada”. Que briga boa faz um peixe na arrebentação! Mais bonito mesmo é ver os pescadores com suas fianduras de peixes rompendo o jundu; levando o “de comê” tão apreciado por todos! Indo pelos caminhos era comum escutar: “Pesca boa. Agora só falta a banana verde!"
                Ah! Ia me esquecendo de dizer que pregoava, tal como preguaí, sapinhaoá, saquaritá e outros tantos, também faz parte da alimentação caiçara. Que gostoso!

sábado, 24 de dezembro de 2011

Um Natal de outros tempos

                Hoje todo mundo aguarda o Natal esperando presentes. É bem diferente de outros tempos, quando ninguém sonhava com Papai Noel e lojas de tudo quanto é novidade. Prazer dessa época era o Reisado que surpreendia sempre.
                No Sapê, a praia onde nasci, sabíamos que o  Natal não estava muito longe porque ajudávamos a vovó Martinha e a Maria Balio a  montar o presépio na capela. As imagens (bois, carneiros, reis magos, pastores, Jesus Cristinho e seus pais) eram guardadas no armário da sacristia, junto com os outros objetos sagrados. Restava pouca coisa para nós crianças fazermos, além de juntarmos conchinhas no lagamar.
                Depois que um canto do templo era demarcado, alguém muito prestimoso fazia um ranchinho coberto de palhas, colocava areia da praia e algumas pedras. Em seguida, a nossa tarefa era acompanhar a vovó na queimada, uma vasta área de vegetação na areia quente que se estendia do Porto do Eixo ao Pontal, onde apanhávamos musgos, liquens, pequenas plantinhas e muitas cascas de cigarras para o toque final junto com a estrela feita de alumínio de lata de leite.
                Feito o presépio, sabíamos que já era um tempo litúrgico chamado de Advento, quando tinha reza todas as noites até a famosa Missa do Galo chegar. Pronto! Era Natal! Uma festa acontecia: tinha doce de mamão e puxa-puxa para todos. Os adultos, ou melhor, os homens bebiam vinho que não sei de onde vinha. Mas era vinho! A consertada era para todos igualmente. A mamãe adorava. Depois se abraçavam e iam para casa quando os galos desandavam na cantoria. Afinal, só numa data tão excepcional ficávamos acordados até a virada do dia. Muitos diziam: “Agora já é amanhã!”. Só mesmo o nascimento do menino-Deus para me fazer cuspir nas mãos, molhar os olhos e não dormir como muitos outros pelos bancos. De vez em quando, no dia 25, logo depois do almoço, alguém aparecia com uma bola colorida, carrinho de plástico e boneca. Ai que alegria!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Colhendo na praia

Praia da Justa- 1993

                Muitos aspectos da cultura caiçara merecem ser relembrados, mesmo que seja quase inimaginável de se repetirem. Um exemplo que agora me vem à lembrança é o “ritual” do sapinhaoá, um  molusco outrora largamente utilizado na culinária. Hoje, com nossas praias e águas sujas, quem tem coragem de coletar sapinhaoá para comer?
                A cada lua cheia ou lua nova, quando a maré seca mesmo, nas praias mais planas (Maranduba, Itaguá, Perequê-açu, Justa etc.) as pessoas acorriam logo cedo para o lagamar. Iam enchendo balaios de sapinhaoá. A prática era impressionante! Alguns se abaixavam, e, com o indicador, arrancavam rapidamente o molusco; outros, de pé mesmo, escavavam os poucos centímetros da areia molhada que recobria o ser em questão. Logo enchiam as vasilhas e retornavam para seus lares.
                Para reconhecer onde está o sapinhaoá: na maré completamente baixa olhe atentamente na areia molhada e busque reparar as mínimas saliências (montículos). Sob eles estão os frutos do mar que tem esse nome. São muito cobiçados para caldeiradas ou simples petiscos acebolados. Nota: os caiçaras não usavam pimenta nos frutos do mar porque tinham a crença que isso resultava na diminuição da oferta.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Tecendo tucum


                Eu não vivi  isso, mas teve um tempo em que a linha de pesca de todos os caiçaras era feita de tucum, ou melhor, das fibras entrelaçadas das folhas de tucum.
                Tucum é uma palmeira pequena (ou mediana?) comum nas áreas encharcadas e nas depressões do nosso relevo, onde ajunta água regularmente. Por isso é raro encontrá-la em morros. O seu fruto, abundante em cachos, é um coco do tamanho de uma bola de gude; azedíssima na casca quando verde. Depois de devezado, a casca fica roxa como a jiçara ou o açaí. A carne fica duríssima. Nessa fase é preciso cozinhá-lo. Em seguida, após a quebra, transforma-os em paçoca no pilão. A farinha final, acrescentada à farinha de mandioca, torna-se uma iguaria apropriada para ser degustada com café. É dessa maneira que também outros cocos (pindoba, indaiá, jarobá...) viram paçoca.
                Voltando ao início da prosa, das folhas do tucunzeiro eram retiradas as fibras, torcidas com esmero até se tornarem uma linha única e resistente. Era algo trabalhoso, mas valia a pena! Era necessária à pesca! Hoje não precisa mais desse trabalhão porque a indústria está avançada. Basta ter dinheiro! Porém, não nos esqueçamos do valor cultural dessas pequenas coisas.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Arcidão, o pinguim

                Há coisa de quarenta anos era comum, no cotidiano caiçara, aproveitar ao máximo a natureza que nos rodeava e a convivência com as pessoas. Todos se conheciam, queriam ficar  juntos sempre. Nos finais das tardes, já nos serões, nas praias, os jovens jogavam futebol ou peteca. Aproveitavam a calmaria, paqueravam, partilhavam histórias. Os mais velhos, na linha do jundu, pelos ranchos de canoas, proseavam sobre o cotidiano antes de se dirigirem para o jantar. Outros chegavam de armar tresmalhos e puxavam as embarcações às áreas protegidas. Poucos passeavam na linha do lagamar: se molhavam até as canelas, um relaxamento ainda seguido à risca por alguns caiçaras e que vem de outros tempos.
                A minha prima Neide era uma dessas pessoas que praticava esse relaxamento. Nunca a vi falhar um serão, mesmo que chovesse. Andava olhando perto e longe; enxergava a linha do horizonte, todas as cores, mas também via cada concha, os buracos dos bichos da praia e os seres que eram novidades. Até um pinguim adotou.
                A simpática ave, trazida por alguma corrente do sul, recebeu o nome de “Arcidão”. Foi uma homenagem ao soldado do mesmo nome que, por alguns anos, sentou praça em Ubatuba . Muitos anos mais tarde, por intermédio do saudoso Ney Martins, eu soube que esse valoroso homem, após a aposentadoria, tornara-se mestre de congada em Jacarei, a sua terra natal. Já a ave se apegou tanto à Neide que, até o quarto era compartilhado: dormia num aconchegante tapete embaixo da cama. Durante o dia, aonde ia a moça, pra lá se dirigia andando de forma muito engraçada o “Arcidão”. Nunca se separavam, exceto quando a Neide precisou ficar fora um mês por conta do curso de enfermagem. A ave entrou em tristeza profunda, não se alimentava mais. A solução foi embarcar numa canoa e soltá-lo bem longe, pois ninguém aguentava vê-lo sofrer. Eu nunca tinha visto sentimento tão forte entre um animal e a comunidade da praia da Fortaleza. Duro foi sofrer depois com o sofrimento da Neide.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Estranhas coisas no céu

(Painel produzido por alunos da escola "Sueli"- Estufa-2011)
                No ano de 1963, mais detalhadamente falando, no final de outubro daquele ano, alguns caiçaras morreram no mar devido a um forte vento. Vários deles eram da praia Grande do Bonete, inclusive o finado Ismael (que era marido da dona Isabel, "gente dos Rozeno"). Lembrei-me disso e o que aconteceu naquele tempo após um sonho onde redes, parentes, chuva torrencial e desespero se misturavam. Foi o que me fez recordar de uma conversa entre a vovó Eugênia e a estimada dona Isabel, em 1969, por ocasião da festa de São Sebastião, festejado pela comunidade daquela praia em janeiro. Assim é cabeça de criança: parece não estar nem aí, mas está sempre captando tudo, registrando em sua fresquíssima memória.
                As duas amigas conversavam olhando para a carranca que se armava no céu. Parecia que ia estragar o bate pé tão aguardado para depois da novena. Para esse fim estava preparada a grande sala assoalhada do João da Vargem. De repente a dona Isabel começou a chorar e a contar de um fato triste ocorrido há mais de seis anos: a tormenta que matou o seu amado e tantos outros pescadores. Entrou  em detalhes do forte vento, quando nenhuma bananeira ficou em pé; mostrou com as mãos as grandes ondas que varreram os ranchos de canoas do jundu. Disse que tudo lembrava o fim do mundo, quando, de acordo com os mais antigos, deveria acontecer um segundo dilúvio. Assustador, capaz de traumatizar facilmente qualquer um, principalmente crianças. Imagine eu!
                Porém, me recordei hoje de um detalhe daquele dia distante: a dona Isabel disse que em meio à situação terrível, coisas estranhas passavam pelo céu. Eram luzes redondas que iluminavam como se procurassem alguma coisa na terra. “Fachearam tudo desde o morro até a praia. Pelo menos duas delas chegaram bem perto de nós, neste nosso lugar. Deu para ver que eram máquinas tão brilhantes como peixe espada. Temi pela nossa gente que atravessava a inundação e buscava segurança nos morros. Rezei para que não me enxergassem na minha casa, bem aqui debaixo deste cambucazeiro. Até hoje me arrepio quando tenho recordação daquela noite. Depois sumiram no céu. De onde vieram voltaram!”.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Antigamente

(Flor da ressurreição embaixo da jabuticabeira, ´conhecida pelos caiçaras antigos como flor do Japão)
          Encontrei uma poesia do mano Domingos para sustentar, sobretudo aos que seguem o blog,   o meu desejo de Boas Festas e de um Feliz 2012.

Eram os Reis Magos
que nos traziam presentes:
boneco desengoçado,
corda de pular,
pião carrapeta,
balanço na goiabeira,
canoa de caixeta,
carrinho de madeira.
Mas chegou o Papai Noel
que expulsou os Reis Magos
e acabou a brincadeira.