Hoje é mais um dia especial, principalmente ao Mané Hilário e seu pessoal. Afinal, não é tão comum completar 103 anos neste chão caiçara. O aniversariante me dá grande orgulho. Espero reproduzir muito das coisas que aprendi na pouca convivência com este legítimo praiano. Um abraço de toda a família caiçara.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
domingo, 27 de novembro de 2011
Taboal
| (Flor de caxeta flutuando num taboal do bairro Estufa) |
Não era possível, há coisa de quarenta anos, neste chão de Ubatuba, imaginar um considerável espaço sem nenhum taboal.
Taboa é uma planta do brejo, juntamente com o junco, caxetas e outras mais. É a matéria-prima para confecção de esteiras, tapetes e outros artefatos corriqueiros das famílias caiçaras.
Também era nos taboais que os caiçaras pescavam traíras, acarás, lambaris, cágados, enguias e outros seres da nossa culinária. E quem, naquele tempo, não caçava marrecos e patos selvagens entre juncos e taboas?
Ah! Também tinha sanguessuga!
E orquídeas nos pés de caxetas que abundavam as áreas alagadas!? Era demais!
Depois, sobretudo a partir de 1970, veio o turismo furioso e forçou os aterramentos dessas nobres áreas. Sobre esses antigos espaços hoje estão plantados prédios, ruas, praças etc. Só as lembranças continuam.
De vez em quando enxergo as “ilhas” que ainda não foram engolidas pelos loteamentos. São mostras de um espaço, de um ecossistema que parece estar com os dias contados.
Eu, moleque ainda, fui companheiro do vô Estevan no corte de taboa para fazer as esteiras que usávamos para acalento de nossos corpos. Dele aprendi um pouco da arte na palha. Da vó Martinha aprendi a apurar a vista em busca de lindas orquídeas. Tudo isso graças ao ambiente preservado que tínhamos recebido como herança. Agora, o que vamos deixando para as próximas gerações?
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Depois de Luiz Januário
Nesta terra, neste chão de Ubatuba, até 1980, eu pensava que já tinha visto quase tudo, mas nunca um nativo homossexual. O primeiro, naquele tempo, avistei no terreiro do Luiz Januário.
Cosme era um rapaz, mas não tão rapaz: tinha a voz fina e os trejeitos de uma dama, embora as mãos calosas provassem ser um roceiro muito esforçado.
Depois de uma boa acolhida por parte do Cosme e de seus familiares, das informações que precisávamos, eu e Cícero deixamos o lugar e o pessoal. Pelo caminho fomos conversando. Afinal, tínhamos um tema novíssimo para debater. Ele também estava admirado de, num lugar tão isolado e num viver tão duro, termos encontrado o afeminado. O rapaz era algo muito diferente do padrão caiçara. Daí veio a falácia:
Se Cosme é diferente de Cícero, e Cícero é homem, então Cosme é diferente de homem. Ou melhor: Cosme não é homem assim como Cícero é homem. Ficou a pergunta: Cosme é o que então? Disso rimos bastante, quase alcançando a casa do finado Aristeu. Depois disso nunca mais tocamos no assunto com ninguém. Creio que o Cosme, o caiçara homossexual, viveu e morreu feliz naquelas paragens.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Morro do foge
No Sertão da Quina, em Ubatuba, existe um morro chamado “Morro do Foge”. Os moradores passam pelo sopé do morro ao fazer a curva da estrada que acompanha o rio naquele trecho. Bem ali muita gente já viu e ouviu coisas estranhas.
Aconteceu com Leandro e Gilson de passarem caminhando por ali uma noite, voltando de uma festa. Leandro foi quem primeiro se calou ao ver, um pouco adiante, uma bola de luz branca e evanescente, que saiu do lado do rio, atravessar a estrada flutuando a cerca de um metro do chão e se perder no morro escuro. Assustado, mas sem deter o passo, ele tentou engolir o espanto pensando consigo: “devo estar bêbado...”. Depois de ter passado arrepiado pelo local da aparição, criou coragem de perguntar: “Gilson, você viu o que eu vi?”. Aí foi que Gilson teve consciência de que algo realmente tinha acontecido, não era imaginação: “Vi... mas era branco, deve ser do bem”.
A mesma tranquilidade não teve o Diego, que passava devagar por ali ao voltar da escola. Ao ouvir um assobio, ele se voltou para ver se alguém o chamava e não viu ninguém. Depois outro assobio soou mais forte, seguido de um barulho medonho de pedras grandes se chocando e caindo do alto do morro. Mas nenhuma pedra caiu. O assombro fez com que ele saísse pedalando numa fuga desabalada. Chegou em casa com o coração disparado, dizendo: “Mãe, me arruma dinheiro pro ônibus, que de bicicleta eu não vou mais pra escola”.
Ninguém sabe dizer quando e como surgiu o nome “Morro do Foge”, mas o certo é que muita gente já fugiu desesperada dali, ganhando casos misteriosos para contar.
domingo, 20 de novembro de 2011
Se não fosse o Totô!
| Guaiás capturados na maré baixa para sustento de caiçara- Júlio 2011 |
Já escrevi em outras ocasiões a respeito do João Pimenta, o incréu. Era da nossa vizinhança, na praia do Sapê, onde eu nasci. Deste pequeno comerciante, o que mais me marcou foram os “bate bocas” (debates) que estabelecia com o frei Pio e mais uns dois ou três moradores do lugar. Eram disputas teológicas, mas eu não sabia disso naquele tempo. Meu pai não participava ativamente de tais conversas, mas as escutava e depois comentava em casa vagamente do assunto. Dizia no final: “O João Pimenta não é má pessoa, mas é incréu!”.
Numa dessas arengas, me recordo bem, o tema era o poder do Papa, da tão distante Roma. Frei Pio dizia que “o homem” era o “representante de Deus na Terra, o prenitudo potestatis”. João retrucava que tudo era conversa para alguém lucrar com isso. Nié, o mecânico, se dizia “acreditar desacreditando”. Nisso, o bom Nestor, o nosso “Totô” deu um basta em tudo badalando o sino e gritando ao mesmo tempo em forma de bronca: “O pessoá tá se cansando de esperá o padre. Como é que é: tem missa ou não tem?”. Não restou outra alternativa: lá se foi o influído frei Pio no seu hábito marrom que há muito se revelava encardido. Só não descobri até hoje se era parte da liturgia um hábito do frei: entrar na capela dizendo a cada fiel “Eticumespiritutu”. “Será que ele quer comer tutu?”. Eu tentava adivinhar o significado, fazendo as aproximações possíveis. De vez em quando o vovô Estevan ralhava, mas quase sempre dava uma risadinha. Acho que ninguém seguia perfeitamente o latim do frei, mas repetiam os sons nos momentos adequados.
sábado, 19 de novembro de 2011
As posses
| (Grupo de congada do sertão do Puruba - Foto: Júlio 2010) |
Hoje, pensando na “minoria” negra que está celebrando a sua negritude, na importância dessa consciência para a nossa identidade de brasileiros, sinto a necessidade de lembrar que o brasileiro é um caldo cultural e deve muito disso também aos pobres negociados um dia na distante África, de onde veio a grande força de trabalho do ciclo canavieiro, do período aurífero etc. Foi elemento importante também na definição do ser caiçara, do morador quase primitivo deste chão por nome de Ubatuba. Infelizmente, muitos “desejam subir ou pensam que já escalaram um milímetro do solado”, se acham superior (no quê?) e negam as suas raízes. Eu posso afirmar que, no pouco que conheço dos meus ascendentes, por parte do João da Barra, um bisavô materno, nascido de escrava na praia do Lázaro, um dos meus pés se sustenta no “povo das senzalas”.
Nunca é demais lembrar: em todo o Brasil, a começar pelas terras da costa, os indígenas foram escravizados, perseguidos ou mortos, o território ficou disponível aos invasores europeus, mais especificamente aos lusitanos. Não se pode deixar de considerar um detalhe: foram os pobres, os banidos da sociedade portuguesa do século XV, XVI e seguintes, sobretudo degredados deixados à própria sorte na terra distante, mas posse lusitana do Além Mar, que garantiram as “posses de Portugal” e que hoje é o nosso país. Ou seja, dos conflitos e convivências com os primeiros donos e com os trazidos como cativos, nasceu o Brasil.
Resumindo: é sempre a mesma coisa, ou seja, uns poucos lucram sobre as costas dos muitos que depois são deixados “a roer os ossos”. Dessa vida atribulada, largados como se as vidas deles só valessem enquanto estivessem dando lucros a terceiros, os pobres tiveram de se agarrar aos saberes dos que aqui já moravam (índios), aproveitar as contribuições dos escravizados africanos e exercer ao extremo a criatividade. Assim nasceu a cultura caiçara.
Poderia se dizer que, os desafortunados dos meus ascendentes (indígenas, europeus pobres e africanos), ao se agarrarem nas chances para manterem a vida, fizeram a experiência não da perda de si, mas do reencontro da verdadeira identidade, encontrada principalmente nas condições mais exigentes, onde a necessidade é mãe da criatividade?
O que resultou disso está por aí: congadas, jongos, capoeira, dança de moçambique, rezas, pratos deliciosos...arte de todo quanto é tipo.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Lourenço da Ilha
| (Foto Julio Mendes- 2011) |
Atualmente, olhando alguns jovens caiçaras soberbos, cheios de frescuras e petulantes, fico pensando em detalhes passados desse meu povo. Desde o ano passado, por exemplo, classifiquei desse modo alguns descendentes do finado Lourenço da Ilha. Por coincidência alguns foram ou são meus alunos.
O caiçara Lourenço da Ilha era ilhéu do Mar Virado até o início do século XX. Porém, mudou-se com a família para a praia da Caçandoca devido as melhores condições de acesso e de produção. Também considerou a necessidade cultural. Afinal, na costa havia mais festas, mais rituais religiosos e mais gente, inclusive parentes. De lá, após a abertura da estrada para Caraguatatuba e o advento do turismo, os seus descendentes se deslocaram para o bairro da Estufa e outros lugares mais próximo do centro da cidade Ubatuba. E, lógico, continuaram a se reproduzir!
Hoje, olhando silenciosamente para esses jovens tão distantes, mas próximos do Lourenço da Ilha, penso: será que ao menos sabem que algumas de suas raízes estão no Lourenço da Ilha, um homem que foi capaz de criar para si uma segunda natureza: de viver fora da ilha?
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