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| O genial Henfil - Arquivo Henfil |
Viva os 15 anos do blog!
O estimado Jorge, no presente texto, nos mostra um viés dos trabalhadores de outras regiões que têm São Paulo e o "sul maravilha", conforme denominação do Henfil, como lugar de ganhar dinheiro para curtir a vida. A conclusão, capaz de nos engajar na luta pelo fim da escala 6x1 na rotina da classe trabalhadora brasileira, faz me lembrar da historinha do caiçara de outro tempo olhando o mar, curtindo a vida na maior simplicidade. Nisso chega o turista e o questiona; "Por que você não vai pescar, vender o pescado, negociar terra, guardar dinheiro etc. para no final da vida poder curtir a vida numa boa?". Então o nativo questiona: "O que eu estou fazendo agora?".
Viver comendo água
Quando era criança, em dezembro, muitos jovens chegavam a Iaçu para passar o final do ano com os pais. Vestiam-se na moda daquela época: calça e jaqueta jeans, cinto com fivela grande, sapato plataforma, e acessórios como relógio, colar, anel. Alguns levavam vitrola e LPs ou rádio de pilha. Muitos eram trabalhadores da construção civil, que poupavam a maior parte do que ganhavam morando em alojamentos e se alimentando mal para regressar à terra natal dando a impressão de estar bem de vida. Durante sua estada, farreavam à beça. Dançavam quase todos os dias, porque cada recém-chegado promovia sua festa. Bebiam muito, namoravam várias garotas, engravidavam muitas delas.
Enfim, naqueles dias, com justiça, podia-se aplicar a eles o título de um filme de muito sucesso “Curtindo a vida adoidado”. Era o extravasamento de um ano ou mais de privação. Era uma vida de sonho, mas depois dela vinha o despertar. Quando se aproximava o dia da volta ao batente, a euforia dava lugar à tristeza não só porque iam deixar aquela eterna festa, mas também porque aqueles dias de prodigalidade tinham esvaziado os seus bolsos.
Eles, que, nos últimos dias, já vinham vendendo paulatinamente seus pertences, começando pelo rádio ou pela a vitrola e seus discos, continuando pelo relógio, pela corrente, pela jaqueta, por fim, na véspera do retorno, literalmente vendiam as calças para comprar as passagens. Voltavam cabisbaixos, já saudosos daquelas semanas no éden, fazendo planos para o próximo final de ano.
Cresci e como filho de Deus, ou melhor, como filho de Iaçu, estava destinado a vir para São Paulo. Vim com meus pais e, por isso, não tinha motivo para imitar os conterrâneos que mencionei acima. Fui ficando aqui e me adaptando ao jeito paulistano, muito preocupado com o futuro e pouco festeiro.
Decorre daí meu espanto com um diálogo que ouvi quando retornava numa Van de Itapecerica da Serra para São Paulo. Dois homens conversavam no banco da frente quando um apontou para uma escola que ficava numa colina e disse ao outro: “Rapaz, eu quase peguei aquela escola para pintar. Ia ganhar dez mil reais.” Era tanto assim?” “Era! Imagina eu com essa dinheirama todo no bolso. Ia passar seis meses em Pernambuco só comendo água.”
Na hora, eu pensei: “se tivesse bom-senso, esse pintor pegaria essa soma, aplicaria e continuaria trabalhando para conseguir sua independência financeira. Ele, no entanto, está pensando na diversão que a posse dessa quantia ia proporcionar-lhe.” Era o ridículo espírito capitalista me incutindo a ideia de que eu era melhor do que aquele jovem hedonista.
Recordei aquela cena, que eu tinha presenciado há muito tempo, hoje, quando estava assistindo ao belo documentário de Marcelo Gomes, “Estou me guardando para quando o carnaval chegar.” O filme mostra moradores de Toritama confeccionando jeans em condições bastante adversas, mas orgulhosos de serem empreendedores, de, ilusoriamente, ganharem o quanto quiserem, ao contrário de um assalariado, cujo ganho é estipulado previamente.
Estranhamente, esses indivíduos de ambos os sexos mostram-se felizes de trabalharem em excesso. Um entrevistado confessa que até já desmaiou em consequência disso. Paradoxalmente, na semana que antecede o Carnaval, esses trabalhadores autônomos, ou empreendedores como alguns preferem ser chamados, são contagiados por um desejo tão grande de se divertir nas praias durante o Carnaval que aqueles que não têm dinheiro para realizá-lo vendem o que possuem: a máquina de costura com que ganham seu sustento, a única geladeira da casa, o celular, enfim qualquer coisa vendável. A cidade fica deserta. A agitação feroz dá lugar à quietude.
A loucura do Carnaval chega chutando a ideologia do empreendedorismo e chamando os moradores de Toritama à razão, à era pré-capitalista.
Que meus conterrâneos, de Iaçu ou de Toritama, não percam, como perdi, esse desejo de “curtir a vida adoidado” ainda que seja só por alguns dias, mas tanto melhor que seja por seis meses ou mais.
Jorge Ivam Ferreira

Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirTá revisado, Jorge! Gratidão e abraços a vocês.
ResponderExcluirObrigado, meu amigo! Abraço a vocês também!
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