Farol Ubatuba - Arte da querida sobrinha Carla Soares
O dia amanhecera. A vermelhidão que ia amarelando tomava conta da linha do horizonte, onde o sol aparecia. Deixei sobre a mesa da sala a costumeira mensagem às queridas mulheres da casa: Gláucia e Maria. Era mais um dia da mulher. Só que não se tratava de mais um: era o Dia Internacional da Mulher!
Aprendi há muito tempo que se homenageava nesse dia as mulheres e suas lutas pelos direitos, pela dignidade e pela vida mais plena possível. A História tem muitos registros de mártires, de mulheres que perderam a vida por causas em favor da vida. Muito mais ficaram esquecidos ou foram apagados por conta do machismo, das nossas ignorâncias e/ou maldades que começam em vários lares, se estendem por algumas igrejas e chegam até ao extremo de um mandatário da nação ser misógino, contra os Direitos Humanos etc. (E o pior é ainda ter apoio de boa parcela das mulheres e das "boas famílias"!).
Infelizmente a condição da mulher, das mulheres desse meu dia, me desafiou assim que a vermelhidão do céu cedeu espaço ao azul prenunciando mais um dia de muito calor. Estando eu na parada de ônibus, a caminho do trabalho, avistei a menos de duzentos metros um casal de moradores de rua discutindo alto, se xingando. Quando estou embarcando na condução, escuto e vejo o homem estapear a companheira. Aquilo me acompanhou o dia todo, sobretudo nos momentos em que eu parabenizava colegas do entorno. Pensava: "Um Dia Internacional da Mulher começando com uma delas sendo espancada no meio da rua...Triste demais".
O dia correu; anoiteceu. Por volta das 22 horas, ao pegar a chave para abrir o portão de casa, escutei na vizinhança uma briga de marido e mulher. Logo ali um casal evangélico se desentendia. Ele a xingava; a criança deles chorava. Notei a esposa dizendo: "Não grita, senão os vizinhos escutam". E ele: "É para escutar mesmo". E tome mais xingamentos e mais choros.
"Que tristeza". Eu pensava isto debaixo do chuveiro querendo lavar meu corpo e meu espírito: "Neste dia, celebrando as conquistas femininas, quantas mulheres ainda estão longe de vislumbrar seus direitos e a dignidade de parceiras nesta jornada que é a vida?". Assim que pude, junto à mesa, comentei com a esposa, a filha e o filho: "O meu dia começou e acabou com mulheres sendo maltratadas". E lhes narrei tudo isto que agora você também sabe. Sabia que as primeiras divindades eram mulheres, femininas?
Me referindo à mulher que me carregou no ninho do útero e me educou na cultura caiçara, e, à companheira que compartilha diretamente da minha vida há mais de 25 anos, cultivo esta convicção-gratidão: suas presenças benevolentes estão por trás de cada um dos meus momentos. Enfim, sou o que sou porque continuo convivendo com mulheres questionadoras, que acreditam nos maiores sonhos e oferecem oportunidades para as melhores reflexões.
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Infelizmente, a violência contra a mulher ainda ocorre diariamente, e, como você lembrou, temos um presidente que contribui para ela.
ResponderExcluirTristeza mesmo. Revoltante. Só a educação pode mudar isso.
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