quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Entrevista no Camburi (V)

O que seria dos caiçaras se não fosse a mandioca?



         "Quando veio a primeira família desses casamentos, desse encontro desses homens com a minha família, então veio um moreno mais escuro que puxou pelas mães; veio outro mais branco que puxou pelos pais. Bom: esses meninos, essas meninas no Camburi. Quando veio a segunda família, algumas casaram até com moço de fora também; outros casaram aqui no lugar. Aí já vieram os brancos, já vieram os cabelos amarelos, os olhos azuis, os olhos castanhos. E agora continua a minha família e cada vez mais com a descendência das pessoas brancas, pessoas claras, pessoas brancas... E aí o senhor saiba que misturou tudo. Então hoje eu tenho na minha família descendência de escravos, descendência de índios, de guarani... Tudo junto na minha família. E acabando que essas famílias virou tudo descendência de escravos. É como eu digo pra minha sobrinhada aqui: amanhã ou depois, ou quando vier um repórter saber de vocês... Não é? Eu fecho os olhos; não vou ficar para semente mesmo. Você vai dizer: ‘Eu não descendente de escravos. Eu não sou’. Você até pode dizer: ‘Eu sou descendência de italiano, de francês...’ Não é bem isso não. Vocês têm que contar a verdade, que é: os avós de vocês; os avós de vocês eram tudo nego. Era nego mesmo! Nego fechado mesmo!"
J.R.: Esses negros tinham vindo de onde?
Genésio: "Da África. Agora eu digo para o senhor, como eu tenho falado aqui, agora falei na Assembleia Legislativa, perante o advogado: Eu sou negro, eu quero dizer para os senhores aqui, na mesa, que eu sou negro conforme os senhores estão vendo. Agora, eu tenho fome e sede da minha bandeira brasileira. Por que eu digo isso? Eu nasci aqui, no litoral de São Paulo; permaneço até hoje, com a idade que eu tenho, com oitenta anos, no Estado de São Paulo. Não vou, posso até dizer para os senhores, que eu não tenho sangue africano. Pode ter. Posso ter sangue de africano; de muitos anos até pode ter, mas eu tenho a dizer para os senhores: eu nasci no ponto final indo daqui de São Paulo para o norte, para mim é o ponto final, fazendo divisa com o Estado do Rio de Janeiro. Hoje estou com essa idade, lutando, não é? Mas eu nasci ali. Então, eu sou brasileiro. Não nasci na África; não nasci em país nenhum lá fora. Nasci aqui; na nação brasileira aqui, no litoral. Então a minha cidade é a comarca de Ubatuba. Então o senhor sabe que, hoje, conversando um dia com um japonês, ele falou assim para mim: ‘Seu Genésio, a descendência é um que puxa o último degrau’. Tá entendendo?  É buscar e vim assubindo para cima. Então, é como eu falei ainda agora, falei lá na roça para o Jairo, que o combate lá na Assembleia foi isso aí. Então, quando... quando... e agora esse encontro sobre o quilombo, aqui no Camburi, que hoje nós lutamos, levemos cinco anos na luta do quilombo, aqui, para que nós, quando o ‘Parque’ entrou, aqui, a Reserva [Parque Estadual da Serra do Mar] entrou aqui, nós ficamos aqui castigados, ficamos com algemas nos pés, com algemas nas mãos, que nem bandido. Eu falei assim na Assembleia, antes de ontem, como bandido, sem culpa nenhuma, né? Levando cabo de revólver na cabeça – da Polícia Florestal. Como eu disse lá, eu disse lá para os deputados: Nossos deputados, todos quanto estão nos ouvindo aqui nesta tarde, aqui na Assembleia, que é a casa das leis, escutem aqui, quero fazer uma pergunta para os senhores: Eu, ou os senhores que estão aqui, ocupam um lugar de ser um policial, um sargento, um tenente, um capitão, um major... um comando. E o senhor tem os seus empregados. Então: eles estão para fazer as leis ou desfazer das leis? Eu achava por bem que, eu ocupando um cinturão na minha cintura, o revólver na cinta, uma algema, eu vou trabalhar no clube da lei, no certo da lei; não desfazer da lei. Então foi o que aconteceu no Camburi sobre o Parque, sobre a Reserva. Eu quero falar para os senhores que a Reserva, um Parque, eu, no meu conhecimento, no meu tipo de viver, no meu conhecimento – nada eu sei – mas tem que ser uma reserva para os insetos, para os bichos; a conservação para os animais, de bichos, né? Não pode ter moradores nenhum, não pode ter moradores. Agora eu digo para os senhores: o Camburi tem habitação há mais de trezentos anos. Tenho certeza do que estou falando aqui na mesa: há mais de trezentos anos! Foi reconhecido já, há mais habitação que foi do tempo dos escravos ali no Camburi. Agora pergunto aos senhores: há mais de trezentos anos reconhecido. Agora, lá, o Parque lá, assubiu há quinhentos, trezentos anos? Não. Não".

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Entrevista no Camburi (IV)

Vale a pena conhecer os segredos das matas do Camburi!
            "Então, essa dona Josefa, ela convivia nas matas todo o tempo de vida. O que era ganha-pão dela? Como era a convivência dela, o viver lá? Então, ela cortava o terreno, o lombo do morro; fazia-se um chiqueiro com um alçapão. E depois daquela armadilha, de assubir e descer, ela fazia uns toques, fazia uns pregos de jiçara ou do pati bem devez, bem aguçado, bem feitinho. Chegava lá no centro da terra, nesse chiqueiro, enterrava, plantava; ali fazia ponta toda agulhada, toda pra cima. Quando esse animal pesado, como onça, como queixada, vinha, pisava naquela armadilha, descia por ali abaixo, batia lá  embaixo e ele mesmo se sangrava naqueles  picos, naqueles pregos de pati, da jiçara, do coco de brejaúva, da madeira do coco da brejaúva. Aquilo é muito forte! Se sangrava, né? Então, o que fazia ela? Então ela fazia dois, três, quatro... Ainda tem o cenário. O grupo que esteve agora lá falou pra mim que tem os sinais do corte, da terra, de tudo o que ela fazia. Então, ela pegava esse animal, alimpava lá nas mata. Alimpava e cortava todo e trazia aqui, pra povoação do Camburi na época, levava para a Trindade, levava na Vila da Picinguaba. Então o que fazia ela? Ela dava essas carnes do bicho do mato (do queixada, da onça) e aí, o que fazia ela? Ela pegava o arroz, o feijão. Naquele tempo era a banha, não era o óleo. Era a banha. Pegava a banha para tempero, farinha da mandioca... levava tudo para a toca. Então a convivência dela era isso assim. Só que ela não saía em cidades. Em cidade ela não saía. Ela não saía em cidade por causa dos jagunços, os malfeitores que estavam à caça, procurando. Eles procuravam, indagavam, perguntavam se não tinha fulano, sicrano. Então, nessa época, como aqui – Camburi – não tinha estrada de carro, nem animal de carga passava. Então eles ficram todos escondidos aqui... e o tempo foi passando, como a dona Cristina, o tempo foi passando, e aqui arrumaram família, como eu mesmo conheci e dou o nome delas. Aqui, filhas da dona Cristina: Francisca, Januária, Aintinha, Luiza, dona Virgília... Conheci cinco! Cinco filhas dela; todas casadas aqui no Camburi. Naquele tempo, o casamento, o senhor sabe, o casamento todo era no religioso – o casamento do padre. A não ser isso, era amasiado. Outros falavam amigado, amasiado, né? Então viviam cem anos, muitas vezes, né? Viviam aqueles amasiados, tinham os filhos, as filhas... Então, por muita vez, tinha muito que até nem era reconhecido no cartório. Depois, na vinda dos filhos, depois, é que era reconhecido para registrar o filho. Então era assim! Então o senhor vê que essa foi uma descendência aqui do Camburi, dessa época, que veio todos dos escravos. Agora, essa família hoje, é como o caso da minha família, né? Aí a família hoje virou uma 'salada de frutas'. Por que muitas vezes eu falo isso? Porque hoje, eu, dentro da minha família, eu tenho sobrinha primeira, sobrinha segunda, sobrinha terceira loira, de olhos verdes, assim como os senhores, né? Outros castanhos, outros azuis, né? Porque a minha família hoje virou uma 'salada de frutas'? Porque eu arrecebi aqui quatro moços de fora, quatro moços que não era do lugar, vieram de outro lugar, daqui do Estado de São Paulo. E aqui até vou citar os nomes deles; aqui, neste momento: Manoel Firmino Soares, Carmo Firmino Soares, Donato Firmino Soares, Antonio Firmino Soares. Quatro irmãos casaram com quatro prima-irmãs minha; tudo escuras. E eram brancos! Há muitos anos passados, há mais de setenta e poucos anos casaram. E aí o que acontece? "

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Entrevista no Camburi (III)

Uma visão da cachoeira da Escada, no Camburi

“O meu nome é Genésio dos Santos. Nascido e criado aqui no bairro do Camburi. Permaneço aqui. Agora, a data do nascimento... Eu hoje tô com oitenta anos [em 2007]; eu sou de vinte e cinco de março. Então, faz as contas pra ver se tá certo. Oitenta, né?"
J.R.: Vocês sempre moraram aqui mesmo (relativamente longe da praia, no morro) ou moravam mais para baixo?
Genésio: "Aqui, onde o senhor está hoje, não. Eu morava mais pra baixo, ali no Jambeiro, né? Na beirada do rio, no Jambeiro. Tá com poucos tempos aqui, né?"
J.R.: E sobre a história, contada na outra vez, de quem começou aqui foi uma escrava?
Genésio: "É; nós aqui; esta pessoa que está falando com o senhor, Genésio dos Santos, nascido e criado aqui no Camburi, a minha descendência é de Inácio Basílio dos Santos. Isso enquanto ele permaneceu aqui no Camburi, né? Ele veio fugido, né? Do tempo da escravatura que laçava pessoa, pegava pessoa de qualquer jeito, judiava. Principalmente a cor negra, a parte negra como eu sou, né? Então, esse povo, no passado, era muito judiado. Demais, né? Era muito maltratado. Eles contavam que eles faziam assubir nas árvores, né? Davam tiros para ver as pessoas caírem, né? Achavam que aquilo era bonito. Então, nessa época, esse Inácio Basílio dos Santos... eles vieram para cá. Agora permanece a descendência, o povo do Camburi, o caiçara daqui do Camburi, essas duas famílias. Disso eu tenho a certeza: da família Inácio Basílio dos Santos e dona Vera Cristina.  Então, toda a descendência hoje que mora aqui no Camburi é dessas duas descendência. Não é de mais ninguém! Vera Cristina e Inácio Basílio dos Santos, que é a minha descendência. Agora... essa dona Cristina... eu acompanhei o enterro dela. Eu era criança, moleque. Eu acompanhei o enterro dela pro Ubatumirim. Aqui não tinha cemitério ainda. Lá no Ubatumirim... cento e quinze anos. Cento e quinze anos: a idade em que foi sepultada. Agora, além dela também, aqui era o esconderijo da dona Josefa. Essa dona Josefa morava no coração do Camburi, no centro da mata da serra do Camburi. E essa toca da dona Josefa permanece até hoje. É lá em cima, no centro do Camburi. Dá cinco horas de viagem pro senhor ir lá em cima caminhando, na toca da dona Josefa, e voltar aqui na praia do Camburi. Fica bem no coração do Camburi, no centro da praia, mas só que é na serra. Então, essa dona Josefa, a convivência dela era nas matas. Todo o tempo da vida, enquanto ela viveu aqui, era nas matas. Essa dona Josefa saiu dessa toca... Essa toca hoje é bem zelada, é bem caprichada; o pessoal vai lá. Eu tenho recebido aqui, agora poucos dias, agora, tá fazendo um mês, um mês e pouco, teve aqui uns estudantes que foram na toca, conveniente ao pessoal do quilombo aqui. A Andréia, a professora Andréia, acompanhou. Até as minhas netas acompanhou pra ir na toca da Josefa. Então, essa toca é hoje bem zelada, bem caprichada. Dela enxerga parte do mar, do Camburi todo. Agora, parece que não enxerga a Ponta da Trindade por causa das árvores que encobriu. A Mata Atlântica encobriu".

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Entrevista no Camburi (II)

Seo Genésio voltando da roça, na época da entrevista



 Parte 2. “Ele, com a caneta na mão, no consultório dele, olhou bem para mim... “Repita  novamente”. Aí eu falei novamente: doutor, o que é que de manhã está de quatro; o meio-dia, representa, tá em dois, e, de tarde, na parte da tarde tá com três? Ele baixou a cabeça... teve, teve, teve. 'O senhor podia me esclarecer  que eu não divulgo, não dá para divulgar'. Não dá doutor? 'Não'. Aí eu esclareci para ele. Disse assim: doutor, na parte da manhã tá de quatro: é uma criança. Uma criança nasce do ventre da mãe, como o senhor nasceu, como também eu nasci. Tudo bem! Vai daqui, vai dali, mas... um dia a mais, um dia a menos... chega numa conta que ele começa a gatinhar com as duas mãozinhas no chão; roda pra um lado, roda pro outro, até que acha uma mesa, acha uma cadeira, levanta em pé... Até que ele começa a andar. Mas todo aquele tempo ele tá andando: tá com os dois pezinhos no chão, com as duas mãos. Tá gatinhando! Quer chamar vovô, vovó, papai, mamãe... Até numa coisa ele vai tomando conhecimento; até que começa a andar. Quando ele chega nos seus quinze, quatorze, dez anos para cima, ele tá formado. Quando chega com quatorze, quinze anos: ele tá forte. Dezoito, dezenove, vinte anos: ele tá forte. Tá lutando pra todo quanto é lado. E quando chega na parte da tarde, doutor, ele tá de três. Além dos dois pés, ele tá de cajado, tá de bengala. Então, ele tá de três porque tem que tá: são dois pés dele e a  bengala. Não tá se aguentado. Então, é a mocidade e a velhice. De manhã está de quatro, no meio-dia tá de dois e à tarde tá de três, que,  além dos dois pés, é a bengala. Ele achou interessante. Aí pegou a agenda dele  e aí pegou e marcou tudo. Aí que eu falei: pergunta pra outro depois".

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Entrevista no Camburi (I)

Pescadores no cerco

           Sobre a técnica de pesca conhecida como cerco eu já escrevi em outra ocasião. Citei desde o cerco do Camburi até o da praia Mansa (da Ponta Aguda), cujo mestre era o Acácio, que escolheu a caiçara Ortênsia como diva. Por ela sofreu e morreu ainda "moço". Em outra ocasião eu digo os detalhes, ou melhor, conto a história deles.
           Voltando ao Camburi, o primeiro morador desta praia do extremo norte do município eu conheci nas andanças pela praia Grande do Bonete, quase no outro extremo. Ele estava atrás de uma canoa para comprar porque o cerco estava precisando de uma. Foi longe, hein!?
           Hoje, iniciarei uma entrevista com o sr. Genésio, o querido seo Genésio do Camburi. Ainda está em processo de digitação, mas irei postando em partes. Boa leitura!



Entrevista com sr. Genésio dos Santos. Praia do Camburi, Ubatuba, em 01 de abril de 2007
Participantes: José Ronaldo e Jairo Felipe. Estevan José, o meu filho, nos acompanhou.
O método adotado foi de deixar o seo Genésio falar a vontade, passar por onde quisesse. De vez em quando havia alguma especulação sobre algum tema, mas sem constrangimento ao bondoso e aguerrido caiçara. A conversa se deu logo após uma reunião ocorrida na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde se discutiu mais uma vez a questão do Parque Estadual da Serra do Mar e as interferências na comunidade caiçara do Camburi. Tente ser fiel ao máximo às expressões, inclusive na característica do falar caiçara de reforçar o que acabou de falar.
Parte 1. “O meu pai dizia que eu não vi nada. Eu já vi algumas coisas, mas o meu pai falava que eu não vi nada. Que eu não vi nada. E é verdade! E vocês, que tão vivendo hoje, começam logo a ver e a turma dão risada. Eu digo assim: começa logo dentro da saúde. Dentro da saúde, hoje! Eu digo pra turma que hoje nasce bichado. Minha sobrinhada, hoje, que nasceu nasceu, mas nasceu bichado. Sabe por causa de quê, meu amigo? Por que, nas muitas vezes, tem a natureza dos pais e a natureza das mães. Então, o senhor vê: essa mocidade hoje que tão nesse vício da cocaína, do crack, da maconha... O senhor vê: quando vem a família... como é que vem isso aí? É muitas mulheres, muitas moças que também tão na droga, bebendo tudo... tudo... Vem a família e já vem contaminado. As vezes eu falo nisso e eles dão risada. Não; você pode escrever que é isso mesmo. É isso mesmo! É que nem esse médico, né? Eu achei interessante, muito brincalhão esse médico de São José [dos Campos] que eu estou tratando com ele. Muito brincalhão mesmo! Aí, conversa vai conversa vem..  agora, no dia vinte e quatro do mês de abril, eu tenho outro encontro com ele... então ele disse agora, passou o remédio e tudo e disse: 'Na volta, que  você vier aqui, Genésio, eu vou passar um remédio pro senhor que é pro senhor ficar purinho, hein!? Era pra ter passado esse remédio, mas o senhor pode arrumar outra mulher'. Eu disse assim: doutor vem cá, um carcará, um pinhé da minha marca, com essa minha idade, o senhor acha que eu ainda vou arrumar mulher? Eu já tenho uma em casa, vou arrumar outra mulher? 'Mas com o remédio que eu vou passar para o senhor, o senhor vai arrumar outra mulher. Eu não quero que o senhor  não arrume outra mulher'. Muito brincalhão! Aí, conversa vai conversa vem... eu contando alguma coisa, então... fiz uma pergunta para ele: doutor, eu não estou para fazer essa pergunta assim para o senhor. Eu digo assim: doutor, o que é que de manhã tá de quatro. De manhã tá de quatro. Meio-dia está de dois e à tarde tá de três?”


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Escuma dos dias

1993 - Estou conduzindo um grupo de alunos da Estufa para uma entrevista com o tio Genésio

                Sempre me pego pensando em momentos e pessoas de outros tempos. Às vezes porque foram situações engraçadas ou sérias demais ou mesmo sem foco nenhum, somente pela pessoa que me era agradável. Artelino Flor, de quem eu já contei algumas coisas, apesar de enigmático, se classifica nisto.
                Agora, por exemplo, penso num momento distante (no tempo e no espaço!), na prainha do Costa, por ocasião de uma puxada de rede. O tempo estava assim: sol forte, ardendo desde que clareou o dia. Depois que a rede foi lançada, iniciada a puxada, eu, tio João, Toninho (do Dário) e o Artelino, o "Fraco", éramos do cabo direito, no Canto da Paineira. No outro lado, rente à Pedra do Pindá, faziam força: vovô Armiro, Fernandinho, Ondino e tio Tião. Tio Genésio era o mestre da rede: circulava entre as duas pontas, empensava as partes dos cabos recolhidas do mar e ditava o ritmo dos puxadores. De vez em quando ralhava com a gente por causa das risadas: “Parem com isso! Desse jeito começam as cabeçadas no pano!”.
                Com o tempo de uma hora garantida na subida e descida do jundu, dava tempo de muita prosa, sempre com boas risadas. Afinal, sempre tinha uma bobajada espontânea. Pela minha lembrança, só o Artelino, do nosso lado, era sério. No outro era o vovô quem impunha respeito. Nisso foi que, reparando numa borra espumosa a se movimentar a cada avanço de onda, o "Fraco" fez o seguinte comentário:
                “É! Temos que aprender com tudo! Vejam o Genésio que enxerga marcas na água, sente o tanto de peixe ainda com a rede em meio largo, quando as cortiças ainda estão longe de aparecerem; distribui ou recolhe chumbeiros ainda no escuro, conforme o correr das águas, no tocar do búzio. De onde veio essa sabedoria? De olhar, de especular; pondo todos os sentidos em ação! Hoje mesmo, na minha chegada no rancho, ele comentou que a pescaria seria boa. Eu quis saber o porquê de tanta certeza. Eis o que me falou: ‘Bote reparo na escuma grossa do lagamar! É sinal de boto; de muito boto! Andaram surrando tainha ou carapau; enxotaram para a arrebentação. É se preparar para encher a rede!’. Pelo peso no cabo, eu acredito que ele tava certo”.
                Dito e feito! As três canoas voltaram rendidas para a Fortaleza, de quando em quando bebendo água pelas bordas. Foi fartura mesmo!
                Mais tarde foi a minha vez de especular o tio Genésio, de querer saber mais coisas da espuma dos botos. Então, sentados na canoa “Rosinha”, o amoroso tio, com os olhos lá longe, me ensinou um monte de coisas. Esta frase eu nunca mais esqueci:
                “As escumas estão por aí: no lagamar e na vida. Conforme botamos reparo, enxergamos nas escumas dos dias as coisas que queremos ou não queremos. Não é mais difícil e nem mais fácil do que ver nas escumas dos botos!”.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A CAÇADA DE “MILTON BACURAU”


Coisa boa era escutar as modas do Salvino, amigo do Bacurau, o caçador.
                 Hoje, é um prazer poder apresentar aos leitores um texto do Júlio Mendes, grande animador da cultura popular. Valeu, meu amigo!

                 Milton Bacurau era um nativo caiçara descendente da família de seo Altivo, da Praia do Prumirim. Ele veio para a cidade e construiu sua casa na rua Hans Staden, ao lado de uma antiga fábrica de beneficiamento de palmito que existia ali na esquina com a rua Liberdade. Casou-se e criou seus filhos com toda dignidade.
                Milton Bacurau era um dos melhores confeiteiros de Ubatuba, trabalhava na padaria Estrela, a famosa padaria do Zezinho. Era ele quem fazia as massas dos pães, forneava, e antes do sol raiar fazia a entrega domiciliar, transportando pães e leite em seu triciclo de bagageiro dianteiro. Lembro-me que quando acordávamos o pão já estava dependurado na escora do portão, numa sacolinha de pano, frente a nossa rua. Toda casa tinha o seu lugarzinho de espera do pão. Tempo bom aquele! O pão podia endurecer e o leite azedar ali que ninguém metia a mão. Existia um respeito entre os moradores da rua e entre o povo caiçara que era como se fosse uma religião, uma devoção à Deus; ninguém roubava nada de ninguém, ninguém desrespeitava o próximo, e o caiçara vivia numa tranquilidade que hoje só resta na saudade.
                Entre sete e oito horas da manhã, Milton Bacurau terminava seu trabalho e o dia estava livre para ele. Gostava de pescar, gostava de tirar mariscos e guaiás na costeira, ajudava na puxada do arrastão, fazia sua gaiolas de flechas de ubá, fazia rede de pesca,... mas o que ela mais gostava era de caçar. Caçava com cachorros. Lembro-me perfeitamente quando o Milton Bacurau passava com a espingarda nas costas, o borná à tira colo, a cartucheira na cintura, o bonezinho na cabeça e principalmente conduzindo sua matilha de cães, amarrados num feixe de correntes. Lembro-me do Caramelo, um cachorro americano que tinha um latido choroso; era um dos seus melhores cachorros. Quando ouvíamos os latidos da matilha sabíamos que era Milton Bacurau, tanto indo como vindo de sua caçada. Era na vinda que a criançada corria curioso para ver os bichos que ele tinha caçado, e era raro o dia em que ele vinha de mãos abanando; era só bicho de pêlo que ele caçava com seus cachorros, era cotia, quati, paca, tatu, porco do mato e até veado galheiro. A caçada dele era na várzea da Estufa, atravessando o rio Tavares, margeando e subindo o morro da Fazenda Velha.
                 Papai também tinha muita amizade com os Irmão Chiéus, proprietários da Fazenda Velha, e de vez em quando fazia a sua visita na fazenda para degustar a Ubatubana, pinga produzida pelos irmão Chiéus. Um dia estávamos na fazenda quando chegou o Milton Bacurau em seus trajes de caçador, chegou desesperado sem seus cachorros de caça.
              -Isaias, Nego, Beco! Vocês não viram meus cachorros passarem aqui?
              -Nem o latido ouvimos de seus cachorros! Respondemos.
              -Então me dá uma pinga aí.
              -Pega aí, a cuia está ai e o tonel está cheio. Falou Nego.
              Era uma pinga forte, mas que descia a goela na maior suavidade.
              Puto da vida com o desaparecimento de seus cachorros, Milton Bacurau, foi tomando a Ubatubana, bebendo e contando de suas caçadas. De repente avistamos lá na estrada a cachorrada do Milton atrás de uma cadela no cio. A cachorrada em vez de correrem atrás de uma paca ou de um tatu que fosse, estavam farejando bicho de pêlo melhor; seguiram a cadela no cio e tomaram o rumo do Monte Valério. Nisso Milton Bacurau, já mais prá lá do que prá cá, passou a mão na espingarda e saiu atrás da cachorrada dizendo que ia matar um por um. Ao atravessar a pinguela do riozinho da Caetana, empacotou com espingarda e tudo dentro do rio. Foi um Deus nos aguda! Foi um corre-corre desgraçado para salvar o caçador de dentro do rio. Chegamos lá o homem já tava com a barriga parecendo um guaru, de tanta água que tinha engolido. A sorte foi que a espingarda não disparou, podendo causar um sério acidente. A cachorrada, repleta de carrapatos, magros e fadigados, apareceram em sua casa só depois de uma semana.

       Essa é uma pequena história do nosso saudoso Milton Bacurau, em uma passagem pela também saudosa Fazenda Velha dos Irmãos Chiéus.