sábado, 14 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (IV)

 

 

Jorge Ivam Ferreira - Arquivo Jorge

Viva os 15 anos do blog!

   Quem nos homenageia hoje, acerca do mundo do trabalho e suas repercussões na realidade da nossa cidade litorânea, é o meu irmão de coração que escolheu Ubatuba para viver e nos brindar com a sua querida família. Valeu, Jorge! (Sobretudo no fortalecimento da luta pelo fim da escala 6x1)


 Ser empregado não é inteligente


         Hoje eu estava no supermercado escolhendo laranja quando um homem falava ao celular. Era um empresário que tinha recebido uma proposta de compra do seu comércio. Confessou que estava tentado a vendê-lo. Sua justificativa era que nesta temporada está difícil arranjar empregado e acredita que na próxima será pior. Alegou que os jovens não querem trabalhar. Já escutei outras queixas semelhantes e me perguntava se era verdade ou era somente o ponto de vista de gerações mais velhas sobre as mais novas. Como algumas vezes tenho constatado que o jovem que está me atendendo não demonstra muito interesse em servir, tendo a concordar com a opinião de que rapazes e moças (com boas exceções, é claro!) não demonstram diligência no trabalho.

         Se essa mudança de comportamento é um fato, ela deve ter uma causa. Primeiramente, pensei que fosse preguiça, mas não parece que uma geração seja mais preguiçosa do que outra. Afinal trabalhar nunca foi uma atividade prazerosa, mas as gerações anteriores buscavam um emprego e se dedicava a ele. Havia uma formação discursiva que incentivava esse compromisso traduzido na expressão “vestir a camisa da empresa.”

         A Rede Globo divulgava o “Operário-padrão” do ano. Era um concurso que visava tornar o empregado dedicado e, sobretudo, dócil, conformado com a opressão que sofria. O Capitalismo sempre soube inculcar no oprimido a ideia de que “o trabalho edifica”, de que “o bom cabrito não berra.” Quando as fábricas precisavam de mão-de-obra, incentivou-se a mulher a tornar-se economicamente ativa empregando-se numa delas. Além disso, levou-se o agricultor a abandonar o campo e ingressar numa linha de montagem.

        Com o advento da robotização, a oferta de mão-de-obra começou a ficar maior do que a demanda por ela. O que resultou numa drástica redução dos salários uma vez que a ameaça de desemprego levava o assalariado, temendo o desemprego, aceitar a remuneração que lhe era oferecida.

       O avanço da tecnologia fez com que a oferta de emprego caísse vertiginosamente e o contingente de desempregados aumentasse de modo perigoso para o sistema. Prevendo uma derrocada, os teóricos do liberalismo passaram a pregar a ideia falaciosa de que a felicidade está no empreendedorismo. Ser empregado é ruim, o bom é ser empreendedor. Uma grande quantidade de jovens comprou essa tese, que é uma faca de dois gumes. Pois, se por um lado ela atinge o objetivo de diminuir a pressão por emprego, que a sociedade não tem para oferecer, por outro, os jovens que entram no mercado de trabalho acabam não tendo vontade de permanecer nele e, por isso, não veem motivos para se empenhar e se aperfeiçoar na atividade que está exercendo.

       Daí, o empreendedor, que precisa de empregados, ficar indignado com o comportamento descomprometido de seus “colaboradores”. Pois é. Uma das nuances do Capitalismo é “dourar a pílula”. A exploração do subalterno continua como antes, mas ele deve ser chamado de colaborador, pois imagina-se que, sendo tratado com esse eufemismo, ele se sentirá melhor. Tendo, pois, a concordar com aquele comerciante que vi no supermercado daqui de Ubatuba: provavelmente a próxima temporada vá ter mais falta de empregados e os que se empregarem estarão pouco empenhados em dar o seu melhor. Não por preguiça, mas porque lhe fizeram crer que ser empregado não é inteligente.

 

Jorge Ivam Ferreira

         

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (III)

 

 

 

Fandangando - Arquivo Rogério 


    Viva os 15 anos do blog!


     Neste dia quem nos homenageia é o estimado Rogério Estevenel, cuja raiz materna está na praia das Toninhas. Ele é professor, sua cabeça está na Geografia, mas seu coração é devoto das tradições caiçaras. Hoje o tema é fandango e seus desdobramentos, mas mais adiante ele nos brindará com o tema dos Santos Reis. Quem nunca apreciou este caiçara em seus bate-pés não sabe o que está perdendo!

 

     O fandango caiçara é mais do que dança e música: é expressão viva de um modo de ser coletivo, tecido no espírito do mutirão, da partilha e da convivência comunitária. Em cada batida do tamanco, em cada ponteio da rabeca e da viola, pulsa uma tradição construída no entrosamento, na amizade e no respeito às pluralidades que compõem o universo caiçara. O baile é encontro, é conversa sem palavras, é aprendizado entre gerações, onde todos têm lugar e voz.

     Seus instrumentos — rabeca, viola, adufo, pandeiro e tamancos — não são apenas ferramentas sonoras, mas extensões da memória e da fé de um povo que dança em comunhão. No salão simples, sob luzes modestas, constrói-se um ambiente de acolhimento, onde o coletivo se sobrepõe ao individual e a alegria se faz disciplina, ritmo e pertencimento. 

     Entre os muitos ritos do fandango, o baile do Enterra Toco ocupa lugar singular. Realizado na terça-feira de Carnaval, é o último baile antes da Quaresma, encerrando-se rigorosamente às 23 horas e 59 minutos. À meia-noite, com o início do período quaresmal, os fandangueiros guardam seus instrumentos de costas para a parede e os desafinam simbolicamente, colocando-os em guarda devocional. Esse gesto representa o recolhimento espiritual e a memória dos quarenta dias em que Jesus se retirou ao deserto para se preparar para o martírio que se aproximava. 

     Durante toda a Quaresma, o silêncio dos instrumentos é sinal de respeito e de fé. Apenas no Sábado de Aleluia, em festa pela Ressurreição de Jesus, a tradição é retomada, e o som do fandango volta a ecoar como anúncio de vida nova. Mas o Enterra Toco não é apenas rito religioso: é também rito de afetos. Em tempos antigos, quando os pais não permitiam que suas filhas mantivessem contato com rapazes antes do casamento, o baile de fandango tornava-se espaço discreto de enamoramento. A última moda dançada na terça-feira de Carnaval funcionava como um aviso silencioso entre os casais interessados. O verdadeiro compromisso, porém, só se confirmava na retomada do fandango no Sábado de Aleluia, quando se dançava a primeira moda com a mesma pessoa da última dança carnavalesca — sinal de um interesse que, muitas vezes, culminaria em futuros casórios. Hoje, essa prática permanece como memória afetiva de outros tempos. Ainda assim, em tempos escassos de bons pretendentes, o velho rito do Enterra Toco continua a soar, com certa ironia e esperança, como uma forma eficaz de garantir o seu “toco” — não apenas de madeira, mas de amor, tradição e continuidade cultural.

 

Rogério Estevenel


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (II)

 

Régis e Domingos - Arquivo JRS 

    Viva os 15 anos do blog!

     Seguindo as comemorações, hoje é dia do mano Mingo, o mais atrevido da turma porque já publicou alguns livros. Faz muito tempo que aquele menino quieto segue registrando seus sentimentos de mundo, transformando tudo em poemas. Não tem como não se emocionar ao se deparar com os seus escritos. A grande marca desse meu irmão é a solidariedade com os familiares e os demais de seu entorno.

 

     Quem quer conhecer um pouco do povo caiçara, ou conhecer um pouco das paisagens do Litoral Norte de São Paulo, ou viajar no tempo para Ubatuba de nossos avós, é só acompanhar o blog de José Ronaldo dos Santos.  Ele é caiçara nascido na Praia do Sapê, que foi operário em construção, que se formou em Filosofia, tornou-se professor polivalente da rede pública estadual e, também, escreve crônicas cheias de vida, questionamentos e até mesmo poesia.

          Os textos do blog têm tudo o que caracteriza as crônicas: São escritas de maneira direta e concisa; o cronista retira sua matéria-prima do dia a dia: uma conversa ouvida no ônibus, um incidente na fila do banco ou a observação de uma árvore na calçada; o tom é de uma conversa informal com o leitor (o "tom de conversa de pé de orelha"). É leve, fluida e acessível.

     Gosto de ler principalmente aquelas que resgatam personagens ou acontecimentos do universo litorâneo, como por exemplo, o perfil do Elias Barreto, exímio no cavaquinho; ou o cego Doquinha que fazia a gente pensar que o violão até tinha coração; ou o velho Montanaro que veio encalhar na nossa praia; ou sobre a passagem do pirata Stede Bonnet que deixou um certo Rosend exilado em nossas praias, mais precisamente na Praia do Bonete.

          Tem 15 anos disso tudo e muito mais nas crônicas do blog do Zé.

    


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (I)

 

    

Galo do mar - Arte do mano Jairo

      Viva os 15 anos do blog!

     O mano Jairo, em poucas palavras, expressa o seu reconhecimento pelos registros que fui deixando no decorrer dos quinze anos. A intenção primeira segue sendo dar a conhecer aspectos importantes da cultura caiçara, dessa humanidade que se desenvolveu entre  a Serra do Mar e o Oceano Atlântico, o nosso querido mar, sem se omitir das outras vertentes do nosso exercício da cidadania neste mundo. Gratidão, meu irmão!

  

    Nesta data (precisamente no dia 11 de fevereiro de 2011), dia em que este blog criado pelo meu irmão José Ronaldo faz 15 anos, eu não poderia deixar de escrever o quanto este site é importante para nós caiçaras, quando os depoimentos e histórias de nossos antepassados nos iluminam. Foram muitos os caminhos percorridos por homens e mulheres, gente forte e valente que sempre enfrentou os temperamentos das marés e os segredos das florestas, bem como os seus perigos escondidos.

    A página também é um instrumento de cidadania e questionamentos das maracutaias políticas que envergonham todos nós brasileiros!

   Mano Zé sabe muito bem traduzir para seus artigos uma visão clara e fiel de tudo o que é atual e que “assombra qualquer cristão”, conforme dizer  do povo. Busca expor suas opiniões de forma sucinta, bem como traduz o cotidiano da vida simples de nosso  povo caiçara.

    Coisas de Caiçara é história e tradição, sem perder de vista o agora!

 

Jairo Felipe Felix dos Santos

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

CANOA NA VIOLA

 

       

Artesanato local - Arquivo JRS 

 

     Viva os 15 anos do blog!


      Ainda em cima do trabalho do Olympio Mendonça, de meados da década de 1970, me comovi vendo os nomes de caiçaras que conheci bem: uns estão vivos, mas muitos já se foram. Hoje, o assunto é canoa. Quem nos transmite é o saudoso Mané Mancedo e o estimado Tié Barbosa que segue firme na musicalidade e nas danças da nossa tradição.


     Canoa é gênero de moda de viola, com cantiga e dança arrasta pé. A música é impressionante em seus volteios e melodia, desprendidos pelo rasqueado das violas. Ao lirismo plangente, sucede o vibrante dos desafios e repentes. Os bailarinos evolucionam-se nos sistemas das danças de roda, como a ciranda e a cana-verde, entretanto há bate-pés, violentamente ritmados pelos pandeiros ou tambor. Trata-se de forma de cantiga, letra e dança, mais apreciada na região. Todavia, a execução de suas posições na viola de arame exige muita perícia dos violeiros; daí a dificuldade dos moços tocarem essa modalidade, que necessita de afinação própria, bem diferente das modernas.


Viola, minha viola;

Viola, meu violão. 

(Bis) A viola me conhece no punho da minha mão.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Canoa, minha canoa;

Canoa não é assim.

(Bis) Canta a sereia no mar, o canário no jardim.

Morena da Ponte Nova, me leva.


No cabo dessa viola

Eu faço guerra civí.

(Bis) Em cima da carabina faço cama pra durmi.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Também não posso cantá,

Mas não sei porque eu já cantei

(Bis) Já bebi água de rosa, com as fadas já desmudei.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Bananeira chora

De tanto filho que tem.

(Bis) Morre o pai e morre a mãe, fica os filhos sem ninguém.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Aí bananeira do cacho,

Do cacho da bananeira.

(Bis) A ratoeira do rato, do rato da ratoeira.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Cheguei no seu jardim, ai,

Pra tirá nove rosas.

(Bis) Três brancas, três amarelas, três encarnadas cheirosas.

Morena da Ponte Nova, me leva.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

CAIÇARA

 

Arte em casa - Arquivo JRS 

   Viva os quinze anos do blog!


   Em meados da década de 1970, o pesquisador Olympio Mendonça escreveu acerca dos caiçaras da área do Ubatumirim, em Ubatuba:


   Caiçara é o habitante do litoral de São Paulo e, em especial, do litoral "norte". As pessoas naturais de Ubatuba e região têm consciência dessa denominação e dela se orgulham. Em Ubatumirim, todos os moradores denominam-se caiçaras para se distinguir dos estranhos. Desconhecem que o vocábulo nomeia também outros moradores do litoral de São Paulo. As conotações pejorativas do termo, "malandro", "vagabundo" não se aplicam a eles, sendo o caiçara um excepcional tipo humano, há mais de três séculos isolado entre a Serra do Mar e o oceano. Ainda não está contaminado pela necessidade do supérfluo e pela obsessão da poupança. Não trabalha regularmente; o mar e a terra lhes forneciam, até pouco tempo, uma alimentação farta, baseada no peixe e na farinha de mandioca. É, até certo ponto, arredio e desconfiado em relação aos forasteiros. Julga-se feliz em sua maneira de viver e não mostra interesse em vender seus terrenos e se afastar de sua terra secular, apesar de, com a chegada da Rio-Santos, estar sendo pressionado a fazê-lo.


     Pois é, a BR-101, trecho Rio-Santos, desde o final daquela década está aí. A especulação imobiliária dita as regras, promove um turismo desregulado e fragmenta a cultura local. Ainda não tivemos nenhuma gestão que despertasse para as consequências danosas desse modelo, desse "progresso" que aliena a família trabalhadora e destrói o nosso tesouro ambiental. Até o crime organizado disputa o território na atualidade! 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

APOITANDO

    

Mosaico - Arquivo JRS 

       No mês de comemoração dos 15 anos deste blog, vou recordando bons momentos das coisas dos caiçaras. 

      Chico Félix, meu tio nascido no sertão da Caçandoca, também entendia de fazer casa do jeito nosso, que veio dos antigos. Firmava pau a pique na soleira, depois envarava tudo com imbé. Jissara era a ripa preferida. No morro escolhia sapê, penteava com maior cuidado e logo estava pronta a cobertura. Dizia que sabia, mas se orgulhava de dizer que aprendeu mesmo com o João Firmino, seu caprichoso sogro. Porém, nunca quis viver nisso porque a grande paixão dele era a pescaria.


     "Tresantonte fui no currico, mas não deu nada. Vardí do Diocrécio topô de í comigo. Não é ruim quando tem mais um pra remá, né mesmo? Ele foi que falô da gente esticá até a Redonda, aquela lage no rumo do Mar Virado. Fomos, lá arriamo a poita e logo deu bicho grande na linha. Veio garopa, gudião, sargo... Só ser de respeito. 'Assim vale a pena', se alegrô o Vardí. Tive de concordá com o meu parcêro. Do nada, já tando quase saindo, com a poita embarcada, uma espada bitela pegô no meu anzó. Era criada a danada! Usei o bichêro, puxei pra dentro da canoa. Nessa hora me estrepei: ela meteu o dente no meu carcanhá, foi só sangue na água do fundo. Vardí tirô na cuia. A valênça é que sempre carrego uma garrafada no balaio. Arco e arcanfo é santo remédio, nem chega a inframá. Taís vendo aqui? Isto não é nada, tô quase curado. Logo logo a gente vai de novo naquele pesquêro apoitá. Sabeis com que isca? Sururu do rio, lá de casa. É só batê e puxá". 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

FILHO QUERIDO

 

Rótulo - Arte do Estevan




   Hoje, 4 de fevereiro, aniversário do nosso querido Estevan, declaro aberto o mês de  comemoração do décimo quinto anos deste blog.

           Coisasdecaicara.blogspot nasceu por estímulo da esposa, da minha Gal. Ela queria que, além de dar as contribuições a outros veículos, eu tivesse o meu próprio: "É uma forma de você escrever, organizar seus textos e publicá-los quando der na cabeça". Assim, por recomendação dela, alcançamos este tempo de 15 anos.

      15 anos no prazer de escrever, de registrar lembranças, causos caiçaras, histórias de pessoas estimadas etc. Foram 15 anos de apoio da família, vendo o crescimento das crianças. (Agora elas enfrentam suas batalhas na realidade que, predominante, pretende ser exploradora, desvirtuadora dos rumos e desnorteadora dos sonhos juvenis). Neste instante sei que nossos filhos já rumam para mais um dia de labuta, seguem pelos caminhos sob sol ou chuva em conduções improvisadas e rompendo muitas adversidades até seus postos de trabalho. Tenho plena ciência que muita gente vai ficando pelos trajetos desiludidos de tudo. Quem não enxerga jovens perambulando desnorteados, dormindo ao relento, sendo pisoteados como os animais covardemente abandonados? Também não se pode deixar de ver tantos idosos que até hoje não encontraram a merecida paz após uma longa vida sustentando a sociedade.

     15 anos é o tempo que passei registrando as minhas impressões, angústias e alegrias em 2.213 postagens até este momento. Em 15 anos conquistei 209 seguidores e computei 1.047 comentários.

      Vale muito tudo isso, meu povo! Abraços e beijos, minha gente! 

     Feliz aniversário, filho querido!

 

      

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

QUE É ISSO?

Uma aula de erros - Arquivo JRS 


"O direito à informação é um valor tão essencial quanto o direito à alimentação, à saúde e à educação"  (L. Nassif)


      Eu, por curiosidade, me deparei com uma aula ministrada por militares onde o a alfabetismo funcional ficou evidenciado. Me convenci de que há desinformação nesse projeto de escola. Das duas uma: ou os pais são ingênuos úteis ou quem defende tal modelo é pilantra consciente. 

     É um nível de analfabetismo funcional gritante, onde os erros ortográficos me fazem passar vergonha só em vê-los de tão longe de uma sala de aula neste momento. Gente assim nunca leu o que deveria ler, nunca entenderá que o mundo gira em torno dos interesses mesquinhos de uma minoria poderosa. Gente assim nunca perceberá que é uma engrenagem útil por enquanto, mas logo será descartada porque jamais fará parte da elite. Gente assim, desde agora, é contra os direitos trabalhistas que ainda amenizam bastante a rotina de quem labuta, de quem carrega este Brasil nos ombros. Gente assim segue alimentando o sumo da miséria cultural que apodrece o lagamar, corrói nossas embarcações e resulta em tantos naufrágios.

Em tempo: gente assim sabe que as filhas de militares falecidos ganham muitas vezes mais do que o seu soldo mensal?

     

sábado, 31 de janeiro de 2026

ONDE A ESSÊNCIA MANDA (II)

 

O genial Henfil - Arquivo Henfil

    Eu estava lendo um texto de Robert Wright quando achei esta importante contribuição aos significados das coisas, de suas essências, sobretudo em tempo de ameaças e ataques a muitos países por parte de um tirano que se acha dono do mundo. Me assusta mais saber, via pesquisa nacional, que só pouco mais da metade dos brasileiros católicos (a minha tradição caiçara) está do lado do estado democrático de direito. Ou seja: essa gente está cultivando a essência política reacionária com as piores tendências. Assim, aprovar a matança de pobres (votando em políticos inescrupulosos) em vez de promover a justiça social, vai se tornando "ideal" à essência da humanidade. Isto é péssimo para todos nós!



    "A guerra oferece um bom exemplo de como a essência pode passar de um nível a outro. Você começa com a ideia de que o líder de uma nação é uma pessoa essencialmente ruim. A partir daí, embarca na ideia de que um país inteiro é seu inimigo. Isso então se traduz na ideia de que todos os soldados daquele país  -  ou até mesmo todas as pessoas daquele país -  são essencialmente ruins. E se as pessoas são más, isso significa que você pode matá-las sem sentir qualquer dor na consciência. Os Estados Unidos jogaram bombas atômicas em duas cidades japonesas  -  cidades, não bases militares -  sem gerar praticamente nenhum protesto por parte dos americanos."

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

ONDE A ESSÊNCIA MANDA

 

Touca da Nini - Arquivo JRS 

       Janeiro chegando ao fim. Em fevereiro  aniversaria coisasdecaicara.blogspot.com  (estará completando quinze anos).

      Eu, aos quinze anos, depois de trabalhar mais de ano num bar sem nenhuma folga, recebi em dinheiro um mês de férias e passei a ter uma folga semanal a cada segunda-feira. Que venha a escala 5 por dois ou outra melhor.

      Logo completando quinze anos, o blog tem 2.210 postagens,  208 seguidores e 1.047 comentários. Preguiça de escrever eu não tenho. Ah! Também tem as contribuições de gente muito estimada! Que bom, né? Saiba quem me segue e lê as crônicas: tá tudo guardado  no coração!

      Por que guardo tantas coisas? Por causa de suas histórias! Quase sempre elas têm relações com momentos e/ou com pessoas que muito admiro. Exemplo: olho um passarinho esculpido num pequeno pedaço de madeira e nunca me esqueço que foi presente de casamento que o tio Antônio nos deu: "Este sabiá foi escavado pelos meninos lá de casa, pelos vossos primos. É um presente de coração".  Você notou que há uma história que me faz guardar com muita devoção essa obra e tantas outras? 

    Bilhetes, ferramentas, desenhos e muito mais coisas são carregados por mim porque estão repletos de significados invisíveis e intangíveis. Eu atribuo a essa enorme quantidade essências afetivas. Elas mandam! São ítens especiais que me provocam sentimentos especiais. É por isso que tenho o meu olhar nelas: a canoinha, presente do Pedro, veio da ilha dos Búzios, o remo, feito pelo finado Bito Estevão, é da Caçandoca, o nível de ferro era do senhor Honda, os serrotes que pertenceram ao meu saudoso pai, a touca feita pela Nini, a manta confeccionada com tanto esmero pela querida Gal, a boina presenteada pelo Bentão etc. Alguém escreveu que ter sentimentos em relação a um objeto equivale a fazer julgamentos sobre ele. Acho que é mesmo!

    Vou à praia da Barra Seca, em Ubatuba, avisto a canoa CERNE, sei que foi a última escavada por meu pai alguns anos antes de falecer. Sigo admirando. Concordo que a conotação afetiva nasceu de uma crença cultivada por mim na história do objeto, nas pessoas envolvidas nela. Meus afetos precisam disso, meu condicionamento emocional se sustenta nessas histórias e nessas essências.

     O meu desejo é que não me falte energia para manter esta paixão em deixar registrado tudo que segue brotando em meu ser.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

OVOS DE SERPENTES

      

     

Rosas e Flor - Arquivo JRS 

   Ovos de serpentes continuam sendo chocados. Alguém dúvida? Neste momento está amplamente divulgado o caso de alguns adolescentes ricos, em Florianópolis, que torturam uma cadela por nome de Orelha. A justiça irá alcançá-los? Também nesta semana soube que os cinco adolescentes de Brasília que, em 20 de abril de 1997, queimaram o indígena Galdino, da etnia Pataxó, que dormia num ponto de ônibus, se tornaram funcionário públicos bem remunerados.  A justiça não os alcançou. O que eles têm em comum ? São contra as políticas que visam diminuir as desigualdades sociais neste país. 


      No Instagram, Sabrina (psisabrinademarchi) postou este importante texto para a nossa reflexão em torno da violência masculina, do feminicídio.


      A violência masculina não é uma exceção à regra, ela é a regra, a norma, a estrutura dominante.

      A violência contra animais não é um acidente isolado, é um dos primeiros territórios onde a socialização masculina testa seus limites: quem aguenta ver sofrimento, quem consegue objetivar um corpo vivo, quem consegue silenciar qualquer culpa.

       Quando chamamos isso apenas de "psicopatia", fazemos três coisas perigosas ao mesmo tempo:

- Despolitizamos  a violência, como se ela não fosse ensinada, incentivada e normalizada culturalmente.

- Protegemos o sistema porque não precisamos questionar a masculinidade, educação emocional, pornografia, cultura do estupro ou a glorificação da agressividade masculina.

- Transferimos o problema para o indivíduo, como se bastasse isolar alguns "doentes" para que o mundo fosse seguro.

 E assim conclui a autora, nos alertando:

      Porque se continuarmos tratando violência masculina como exceção, nunca  vamos enfrentá-la como regra social.


     Gratidão, Sabrina!

domingo, 25 de janeiro de 2026

GASTANDO SALIVA

 

O genial Henfil - Arquivo Henfil

"Tudo é política, inclusive seu silêncio conivente e fantasiado de neutralidade" - A.Gramsci


     Gastão, homem negro de raíz caçandoqueira, diz que se orgulha de ser da cultura caiçara. Eu não duvido porque conheço seus parentes maternos, sei que são herdeiros da ruína que se abateu sobre Ubatuba e a Fazenda Caçandoca, no século XIX.

     Por herdeiros da ruína quero dizer todos os descendentes dos antigos negros trazidos para serem escravos ali, naquele pedaço de chão. Também incluo aí os não negros que foram se ajeitando nesse lugar, tal como as minhas raízes paternas. (Desse mesmo lugar eram vovô Estevan e vovó Martinha). Resumindo: os nossos mais antigos sobreviveram lá, na praia da Caçandoca e adjacências.

     Bem mais tarde, depois das agruras durante os governos militares (1964-1985), graças a uma modesta organização e ao surgimento de determinada lei humanitária (denominada por Gastão de esquerdista), o referido território foi decretado como área quilombola. O nosso personagem nunca morou lá, mas muitos dos seus familiares habitam aquele lugar, têm um chão garantido e seguem aumentando as alternativas para as melhorias em suas vidas.

     Tempos atrás, estando numa pizzaria, me encontrei com o Gastão. Do assunto inicial em torno de futebol, logo ele pulou para política: "Não sou de esquerda, nem de direita. Sou neutro". Disse outras besteiras, repetiu clichês fartamente divulgados em postagens conservadoras; queria que eu concordasse com tamanha incoerência.

       "Incoerência, Zé?". Sim, incoerência! Agora você vive às custas mais do trabalho dos outros do que do seu. Tem dois empregados que ralam por você, né?

       "Incoerência, Zé?". Sim! Não existe neutralidade política, meu amigo! Ainda mais quando se é negro e vendo que nossos parentes se sustentam numa lei decretada que garante o território. Você acha que essa conquista "esquerdista" não segue sendo combatida pela direita reacionária? Faz algum sentido você se dizer neutro, não tomar posição contra esse pessoal que está cavando a oportunidade, fazendo a sua cabeça e de mais gente, para dar um golpe fatal contra sua mãe e sua irmandade, contra os nossos parentes da Caçandoca?

sábado, 24 de janeiro de 2026

MARIQUITINHA DA PRAIA

 

Belezas nos caminhos - Arquivo JRS 


         Veio ao mundo, recebeu lindo nome, mas logo atendia somente por Mariquitinha na casa dos avós maternos, onde nasceu e morou nos primeiros anos. Era perto da praia, lugar ideal de diversão e existência da cultura  caiçara. Assim foi crescendo Mariquitinha, na praia.

      Mariquitinha deixava a adolescência quando os pais se separaram. O pai resolveu se engraçar por outra senhora. A inesperada situação soldou os laços entre mãe e filha. A vida seguiu com Mariquitinha e a cara genitora remando no vigor que as condições lhes permitiam. Eram e continuam sendo verdadeiras parceiras, "pau pra toda obra" como se costumava dizer na minha mocidade. As duas cresceram; ainda hoje não se cansaram de buscar as melhorias para suas vidas. Elas se completam nos afazeres, nas viagens, e, sobretudo, nos cuidados com as plantas e  animais adotados ao longo do tempo. A marca que se distingue em mãe e filha é a dedicação carinhosa a tudo que se propõem fazer. Agora, enamorada por alguém de muita dignidade, é que Mariquitinha se fortaleceu mesmo! Neste momento eu enxergo três baluartes na beira do mar.

       Quando me encontro pensando nos rumos, nos combates das duas estimadas mulheres, me recordo do berço que as geraram: uma humilde família que ainda resiste a pouca distância da beira do mar, vivendo num grande terreiro com os parentes, na orgulhosa família expandida que se une, forma uma micro comunidade e preserva tantos laços, tantos traços culturais. São estes valores que estão no alicerce das duas guerreiras desta história. Salve, Mariquitinha da Praia! Vivas ao seu parceiro! Longa e feliz vida para a sua mãe !

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

QUE PUTA AUTOESTIMA!

 

Autoestima elevada - Arquivo JRS 

"O pensamento sempre começa e termina nos sentimentos" (Akincano Marc Weber)


     Era dia quente, de lagarto sair passeando para se esquentar. Um grandão se tecia pela porta do casebre do Fábio "Baiano" onde havia um espaço com comida e água aos animais passantes (cachorro, gato, lagarto, pombo...). O bichão se alimentava sossegado porque ninguém circulava por perto no momento. Notando o meu interesse, o dono da casa fez a observação: "Ele é manso mesmo, todo dia vem me visitar e depois volta para o mato, sobe naquele morro ali".

      O "Baiano" veio há décadas da boa terra: "Vim quase adulto, em pau de arara. Passei a vida toda em obras, trabalhei em muitos prédios. Nunca me casei, faz tempo que moro aqui, a vizinhança toda me conhece, de vez em quando tenho ajuda dessa gente. Sei ler e escrever, passei um tempo na escola, consigo me virar na vida. Agora estou mais de boa, não preciso de tanta coisa para viver". Ao me ver buscando um ângulo para fotografar, imaginando que o meu interesse era no grande lagarto, ele interveio: "Pode chegar mais perto porque o bicho é manso mesmo, tá acostumado com gente".  Na verdade, eu queria apenas fazer uma imagem da fachada da moradia dele, cuja frase pintada demonstrava a autoestima elevada do "Baiano". E que puta autoestima!

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A RUÍNA SE ALASTRA

 

Henfil, o genial - Arquivo Henfil 

       Se há pobres, há ricos. Lógico, né? Triste quadro. Muitos são empobrecidos para formar a riqueza de poucos. De pouquíssimos! No entanto, esse mínimo de privilegiados são devotados, tidos como heróis para muita gente. "A maioria deles", dizem ao meu redor, "fizeram por merecer". Alguns  desses aproveitadores recebem títulos engrandecedores, ganham nomes de logradouros públicos e até mesmo estátuas. Por aqui topamos com rua rei beltrano, praça prefeito fulano, avenida general sicrano de tal etc. E isto se repete em Ubatuba e Brasil afora! 

      Triste situação! Deixamos de perceber o quanto de violência envolve isso tudo. Exemplo: devido a especulação/cobiça imobiliária, o povo caiçara foi forçado a  deixar a beirada do mar e se afundar no pé da serra, subir morros e ocupar áreas impróprias. Mas... mesmo distante, esses que vivem comendo hoje o que ganharam ontem, continuam sendo explorados. Faz tempo que a municipalidade investe pesado na tributação do imposto territorial (IPTU), não se importando se isto torna a vida do pobre ainda pior. Certamente que muitas mansões pagam o mínimo, que muitos ricaços nem pagam!

     Neste país, o trabalhador é o principal contribuinte, paga impostos que nem imagina porque está na base da pirâmide social. Aumentar o já abusivo IPTU é ato cruel porque empurra mais famílias morro acima, resultando em destruição de mata nativa, de fontes naturais e de contaminação no geral. Isso é criminoso. Será que quem está na gestão pública não consegue enxergar nessa direção? Não podemos aceitar tudo isso como violência necessária!

       Por fim, não posso me conformar com este "silêncio", nas palavras de Iza Souza ditas em contexto similar, "que se repete hoje quando o turismo vale mais do que a dignidade de quem mora aqui e quando o lucro fala mais alto que o direito à terra, ao trabalho justo, à moradia e à memória".

domingo, 18 de janeiro de 2026

CONSCIÊNCIA ESTÁVEL (II)

 

De boa - Arquivo JRS 

    Totonho do Rio Abaixo, o caipira que veio melhorar de vida em Ubatuba, depois de "pisar na bola" e prevendo bronca da esposa, elaborou uma "saída honrosa".  A solução foi escolher um bode expiatório: "Vou dizer que fiquei desnorteado porque alguém me deixou sem graça mediante uma expressão moderna". Moderna demais!  Tão moderna que meu avô sempre repetia quando algo não dava certo: "Ai, abençoado". Totonho seguiu o raciocínio: "Aí ela se põe no meu lugar, releva a minha culpa, me perdoa. Esquece tudo e amanhã volta tudo ao normal, sem cara feia". 

    Esquema simples, né? Mente ardilosa, incapaz de assumir suas falhas, consegue manipular sentimentos através de discursos arranjados de última hora. Consegui definir isto uma semana depois. Na primeira ocasião em que avistei o Totonho eu lhe disse: "Você foi incoerente, cara. É claro que você estava plenamente consciente do que se passou! Que feio modificar os fatos a fim de convencer os outros! Que desculpa foi aquela? Se há preconceitos, você precisa se libertar, se desapegar de péssimos princípios, tal como muita gente que depende dos programas sociais, mas quer se achar no lugar dos ricos, dos poderosos". Em seguida eu lhe disse de fulano que veio me sondar sobre o tema Venezuela e eu lhe expliquei que se trata de terrorismo dos Estados Unidos para roubar o petróleo daquele país. E concluí: "Quem aceita o discurso que está sobrando na mídia dominante me faz pensar em dois defeitos morais: ou é ingênuo útil, fácil de manipular ou é pilantra consciente que quer também se aproveitar dos outros. Você é o quê?". Eu acho que Totonho tem os dois defeitos porque vive dando calotes nas pessoas.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

ROSA, CARINHO E PÃO

 

Rosa criança - Arquivo JRS 

Pelas ruas corria minha criança;

Um asfalto começava.

Ruas e mais ruas;

Chico observava.


Me compadeci, 

Enxerguei determinação.

Criança honesta e verdadeira,

Gente grande no coração.


Seu olhar era de doer:

"Me puseram nesta real".

Abaixei os olhos,

Entrei na luta contra o mal.


Ó mundo de desafios;

Ó vida de sucessos e fracassos.

Ó vida minha que verte prantos;

Ó criança grande nos meus passos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

ESPECIALISTA EM JACA

Nova geração rente ao mar - Arquivo JRS 


Nas nossas matas - Arquivo JRS 


          Em preparação ao  aniversário de 15 anos do blog, o amigo Jorge nos brinda com esta crônica que me faz lembrar do tio Dário Barreto, da praia da Fortaleza. (https://coisasdecaicara.blogspot.com/2012/06/um-ser-ladino-bem-caicara.html


           Quando era criança, ainda não haviam chegado ao Brasil as sementes californianas vendidas em lata que acabaram por tornar todas as melancias redondas. Naquele tempo, havia melancias de variadas formas embora prevalecessem as compridas. O próprio agricultor selecionava as sementes que plantaria no ano seguinte.

         No momento de consumir uma melancia, tirava-se a casca das extremidades e fatiava-se a fruta ao comprido com o cuidado de não aprofundar a faca para que ficasse o miolo depois de se tirarem as talhadas superiores. Primeiro se comiam (ou se chupavam como se dizia) as talhadas para depois se atacar o miolo, que repousava sobre as duas últimas fatias e era cortado em rodelas. Como a primeira rodela do lado do talo era menos doce, os adultos diziam às crianças que quem ficasse com aquela parte cresceria mais bonito. Então elas disputavam o tal pedaço que dava beleza. Crer é uma dádiva, diz-se, mas para quem? Com certeza, para quem incute a crença.

        Naquele tempo, havia uma anedota em voga com a qual se pretendia ilustrar a suposta burrice dos portugueses. Contava-se que um português passeava na região com um grupo de brasileiros quando acharam uma melancia. Fatiada a fruta, os brasileiros lhe ofereçam uma talhada atrás da outra. Quando só havia o miolo sobre duas talhadas, os nativos começaram a comê-lo, e o português só conseguiu degustar um pedacinho porque já estava empanturrado. Quando ele percebeu aquela hospitalidade bem brasileira, jurou vingança. “Então é assim: o miolo das frutas é a parte mais saborosa.” Concluiu. Na parada seguinte, o grupo deparou com uma jaca. Assim que a fruta foi aberta, o português se atirou no “miolo” (a parte interna do talo) e, como um cão que pega um osso e foge da matilha, ele se afastou do grupo jurando que comeria aquela parte sozinho.

          Faz alguns dias, deparei com um canal do YouTube em que se ensinava descascar jaca facilmente. Nunca achei essa tarefa difícil, mas fiquei curioso. Apareceu na tela uma mulher com uma faca fazendo sulcos numa jaca. Depois levantou a ponta de uma tira, puxou-a e os bagos ficaram à mostra. Pensei: “Só dá para fazer isso se a fruta estiver muito madura. Grande novidade!” Estava já desistindo de assistir àquilo quando a mulher confessou: “Só não sei se se come isso.”

              Pois é! Ali estava uma especialista em jaca que, tal como o português da anedota, não sabia qual era parte comestível dessa fruta. O pior é que ali não era uma anedota. A influenciadora era apenas mais uma pessoa que se vale dessa rede social intentando conquistar prestígio e consequentemente dinheiro. A internet é uma fonte maravilhosa de aprendizado, de informação, de lazer etc. Infelizmente, por outro lado, é um paraíso para inescrupulosos de todas as áreas do conhecimento. Apresentar-se como especialista em jaca acaba sendo apenas risível, mas há milhares de influenciadores que deveriam ser processados e condenados à prisão perpétua devido ao mal que fazem à sociedade. Contando com a ingenuidade dos internautas, aqueles indivíduos prometem a quem estiver disposto a segui-los cura de doenças crônicas, rejuvenescimento, imortalidade, ganho de rios de dinheiros com facilidade. O descaramento é tão grande que há quem se proponha a ensinar a beber água, a sentar-se no vaso sanitário, a deitar na cama e a praticar muitas outras ações inatas, instintivas.

“Ai dos espertos se não fossem os tolos.” Dizia-se antigamente. O que prova que a credulidade não nasceu com a internet. Esta somente nos revela o quanto acreditamos em quem diz que sabe o que não sabemos. Como sugere o grande Lima Barreto, confiamos em quem diz que sabe javanês porque não falamos esse idioma. Se numa rede social aparecer algum desconhecido afirmando que deixou de ser calvo porque durante 30 dias fingia pentear-se de manhã, à tarde e à noite, haverá milhares de indivíduos que vão adotar essa receita e, passado esse período, alguns ainda vão ficar na dúvida se a seguiram corretamente porque continuam calvos como no início do “tratamento”. Na fase adulta, deixamos de acreditar que comer uma determinada parte da melancia nos tornará bonitos, mas não escapamos de outros logros simplórios forjados na internet, pois tendemos a crer na autoridade de quem se exibe nela como uma criança acredita nos seus pais.


Jorge Ivam Ferreira

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

COISA EM COMUM

 

Trancoso  de outros tempos - Foto: Iza Souza

  Eu estava lendo um texto no Instagram (manjar_ancestral, de Iza Souza) a respeito de Trancoso, no litoral baiano, e notei muitas coisas em comum com Ubatuba, pois padecemos de problemas semelhantes no litoral paulista. Após autorização da autora, apresento aqui, na íntegra, o maravilhoso roteiro para nossas reflexões visando intervenções cidadãs na nossa realidade próxima. O exercício da cidadania é essa coisa em comum que nos permite encontros e reencontros.


       Trancoso foi higienizado, branqueado e  arrancado de quem o fez existir. Quando cheguei ao distrito, há maís de vinte anos, o Quadrado histórico ainda era território vivo. As puxadas de mastros reuniam pescadores nativos e suas famílias. O sincretismo religioso não era espetáculo, era prática cotidiana. Tudo começava com reza e comida partilhada nas casas simples. A festa era da família, porque o Quadrado, que sempre foi um retângulo de convivência, era morada dos mais antigos: a rezadeira, a parteira, o pescador, o pequeno restaurante, as crianças que cresceram naquele chão e a comunidade hippie que também fazia parte do tecido social. Esse território tinha memória, cheiro de comida, som de tambor e riso de criança. Tinha conflito, improviso e pobreza, mas tinha pertencimento. E isso foi arrancado com pressa. O apagamento cultural e histórico aconteceu de forma brutal, disfarçado de progresso, valorização imobiliária e turismo qualificado. A mudança da configuração do lugar não foi natural, foi planejada. Higienizaram o espaço, retiraram os nativos e expulsaram o corpo popular da paisagem. Eu não sou contra a evolução dos lugares. O que preocupa é o apagamento sistemático da cultura. O que será entregue as próximas gerações? Onde havia vida, vizinhança e cotidiano comunitário, hoje há lojas e restaurantes de grife. O território virou vitrine, o afeto virou mercadoria e a memória passou a incomodar. A mesa do samba acabou. A baba de fim de tarde ainda resiste, mas já se anuncia a sua retirada. A igreja, antes espaço de encontro comunitário e espiritual, virou cenário para casamentos badalados. Houve ascensão financeira para quem vendeu suas casinhas, agora tratadas como ativos de alto valor. Mas dinheiro não compra memória, não preserva história e não devolve território. A história de Trancoso não está nos livros, está nas lembranças dos que ficaram e dos que foram empurrados para fora. Está na oralidade, nas ausências e nos silêncios. Existem pessoas resistindo, mas a especulação imobiliária é uma máquina pesada. O que se vê é um lugar bonito, caro e vazio de alma. Quando um território perde sua gente, ele deixa de ser comunidade e vira apenas cenário.

Gratidão, Iza! Saudações da beira do mar!


Nota: baba de fim de tarde é quando as pessoas voltam do trabalho na praia.

domingo, 11 de janeiro de 2026

CONSCIÊNCIA ESTÁVEL

 

Luminosidade - Arquivo JRS 

    Décadas atrás, na chegada da nossa cidade se via uma propaganda: Bem-vindo a Ubatuba. Você chegou ao paraíso. Que fim levou isto? Muita gente já diz que é o oposto. Será mesmo?

    Más gestões resultaram em descasos. O resultado é poluição visual e ambiental que nos desanimam. Até mesmo em praias de acesso dificultado se vê uma feiúra grassando, com lixos e esgotos à vontade em lugares inimagináveis. Acha pouco? Pois saiba o seguinte: o que está ruim pode piorar! E tudo dentro da lei! (O que é pior, né?).

   Depredar um bem público, atentar contra o estado democrático de direito além de ser motivo de descabido orgulho, pode receber anistia, passar impunemente. Altas patentes militares, financistas,  congressistas, gestores próximos e distantes seguem burlando, "mexendo os pauzinhos" para desfrutarem de altíssimas somas em seus rendimentos. Ousam, sem pejo algum, avanços famélicos sobre bens públicos. Criaram até uma lei que garante mamata secreta! Enquanto isso, um mísero aumento no salário mínimo é acusado como responsável pela suposta crise que ameaça o Brasil.

    A questão é: 

     Quando a consciência, mediante tantas tribulações, será libertada, se tornará estável, sem as agitações mortíferas que vai detonando o nosso paraíso, o distanciamento de um mundo melhor? (Com certeza não será cultuando ideias reacionária com endeusamento de pilantras e resguardo de princípios elitistas!)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

SEM ANISTIA!

 

Entardecer - Arquivo JRS 

    No dia 8 de janeiro de 2023, quem acredita na democracia ficou apavorado quando viu a horda patriotária invadir a capital do Brasil e ir depredando o que estava pela frente. Uma jornalista, tempo depois afirmou isto: "Aquela turma podia ser composta de bagrinhos, mas era violenta, queria a todos custo empossar o candidato democraticamente derrotado nas eleições. Até meus celulares foram tomados por essa gente fanática, dispostas aos piores crimes. Parecia que um apito de cachorro incentivava aquela multidão com ordem de atacar e destruir. Por isso não pode haver anistia". 

 É bem assim, conforme escreveu Platão há mais de 2.400 anos: " A impunidade deixa os maus ainda piores". 

  No entanto, quanta gente nossa continua atenta ao tal apito de cachorro, querendo o nazifascismo de volta? Tipos assim, até próximos de nós, que pediam a intervenção militar, saudosistas da ditadura que durou 21 anos, agora querem justificar a cobiça dos Estados Unidos da América sobre o petróleo venezuelano alegando que ali há uma ditadura. Ué, mas esses patriotários não eram favoráveis à ditadura, não queriam a volta dos militares? Não foi por isso que tentaram o golpe contra o estado democrático de direito?

      Não tenho como discordar do Paulo Andrade: "Quem defende o bolsonarismo se divide basicamente em dois grupos: os ignorantes úteis, sem qualquer senso crítico, facilmente manipuláveis, e, os canalhas conscientes, totalmente desprovidos de caráter, ética e escrúpulos, que vendem  qualquer valor por dinheiro e poder".

      Então... Sem anistia!


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

MALDITOS SEJAM!

 

Flor no mato - Arquivo JRS 

     Conta a História que, na Grécia Clássica, de onde tantas coisas se encaminharam às sociedades vindouras, o sábio Péricles foi substituído no governo de Atenas por políticos infinitamente inferiores, cheios de más intenções, mal preparados, desajeitados, pouco inteligentes, incapazes de defender a soberania, a democracia e a população da pólis. Eram "raposas no galinheiro", pessoas que não queriam o bem público, as melhorias para o conjunto dos moradores da cidade. Na verdade, ansiavam por uma rápida popularidade se valendo de mentiras, fazendo acordos com inimigos externos, manipulando o orçamento público e se apoderando das mentalidades mais ingênuas ou cobiçosas. Que situação horrível, né?

   "Desde que o mundo é mundo as coisas são assim" , gostava de repetir o companheiro Jorge Galdino. E completava: "São políticos egoístas, corruptos e quase sempre imbecis. É gente que não se importa minimamente com os resultados que a ambição pessoal possa ter sobre a população. Gente assim passa as 24 horas do dia em maquinação de como controlar o poder. O bem público que se dane! "

     Assim escreveu o velho Maquiavel
     "Malditos políticos que, quando tá tudo bem, enchem-se de honra e de proveitos particulares, mas à chegada do mal, o dano e a perda ficam para a cidade". Concordo:  malditos sejam!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

MUNDO NOVO

 

Gafanhoto - Arquivo JRS 

"Dado que o mundo ainda está carregado de armas nucleares e que a biotecnologia está abrindo uma caixa de Pandora de novos armamentos, é possível imaginar que os impulsos tribais nos conduzam a uma era realmente sombria" - R. Wright


    Ano novo, vida que segue com péssimos hábitos. Digo isto depois de ver a quantidade de lixo deixado nas praias após os festejos. Isto me assusta demais! O pior é que o quadro se repete nas ruas dos nossos bairros, nas beiradas das estradas e em margens de rios. Agora já estou revendo o meu medo apocalíptico. Será que as luzes se apagarão antes do combinado pelas bombas atômicas ou a nossa aventura na Terra já está sendo apressada por outros atalhos?

Ano novo:

       Que cada um de nós medite mais para enfrentar com firmeza os inimigos reais e imaginários.

       Que cada um de nós observe bem, desenvolva o senso crítico perante a onda sofisticada de mentiras e de verdades.

       Que cada um de nós escreva seus pensamentos e que cada espaço da nossa terra querida possa servir de inspiração.

       Que o nosso sucesso não seja em cima do fracasso do outro.

        Assim o ano será novo!