domingo, 29 de dezembro de 2024

LUZES ESTRANHAS

 

Céu turvado - Arquivo JRS 

    É lógico que eu acredito na existência de vidas fora da Terra! Considerando os milhares, bilhares ou mais de planetas no Universo, as condições para o surgimento de vidas não podem ter ficado restritas a um só, né?

     Em Ubatuba, mesmo antes de eu ser nascido, já houve casos demasiadamente estranhos envolvendo luzes e outras aparições no céu da nossa terra. Muita gente talvez nem tenha ouvido falar da misteriosa explosão ocorrida nas proximidades da praia das Toninhas em meados do século passado. Zé Paulo, construtor naquele rico condomínio que mais tarde fechou o caminho da servidão que acessava as prainhas da Ponta do Boqueirão (Maria Godói, Xandra, Pixirica, Tapiá), certa vez se referiu a uma espécie de caco de metal muito diferente que foi encontrado numa fundação de alicerce décadas depois do ocorrido. Eu deduzi que era um fragmento não recolhido pelas autoridades da época, por ocasião  da misteriosa explosão. Quando eu era criança, na praia da Fortaleza, ocorria o fenômeno denominado a Luz do Oliveira, pois apenas a esse caiçara e familiares se manifestava (vinha pela costeira e o amedrontava no jundu, na sua casa). A filha do Florindo, no começo da década de 1970, na mesma época em que vimos aquele disco alaranjado pairando sobre o Perequê-mirim e baía do Lázaro, passou um apuro com uma luz na praia do Itaguá. Ah, tem muitos outros casos! Mas agora vou contar um mais recente, contado pela tia Aninha, da praia da Fortaleza:

    "Eu e  mais gente tava olhando o céu estrelado. Era cedo ainda. A gente tava no terreiro, conversando depois da reza, sentada num banco de madeira. Era tempo da novena de São José. De repente, lá da direção do morro do Lázaro, uma linha de luzes apareceu, como uma fila de carros com faróis acessos. Veio vendo, veio vindo, veio vindo... Teve gente que correu, mas eu fiquei. Só fechei os olhos quando tavam bem perto, quase sobre nós. De repente eu vi ou imaginei que aquelas luzes estavam curando as pessoas. Eu senti algo como um vento puxando um ponto nas minhas costas, na altura dos rins. Quando abri os olhos, aquelas luzes estavam voltando pelo mesmo caminho no céu, sumiram de uma vez entre as estrelas. Desde aquele dia, aquela dor que eu tinha há muito tempo nos quartos, aqui na cintura, nunca mais apareceu. O Maneco nunca mais teve os seus horríveis ataques de asma. Nós dois e mais gente foi curada por aquelas luzes. O que era eu não sei até hoje e nem nunca saberei”.

 

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

DESAFIOS ÀS COMUNIDADES

 

Paisagem - Arquivo Clóvis 

    O mar estava calmo, azul e clarinho em seus movimentos. Eu olhei para o morro que está perto. As carobinhas estavam floridas, arroxeando o verde em seus tons. Um barco pequeno pescava por ali. Eu acompanhava tudo, queria ver o trabalho deles. Duas canoas sobressalentes eram parceiras do barco. Todo o conjunto era pintado na cor lilás. Motores pequenos, mas possantes, garantiam o sucesso da pescaria onde todos se empenhavam, pareciam ter pressa.

     Findada a pescaria, nos dirigimos à ilha chamada por todos de "Aconchego do Japonês", que há décadas decidiu vir para o litoral. Ele fez um grande esforço para conseguir a permissão de uso, de se instalar ali. Sempre se relacionou muito bem com os pescadores nativos. Foi quem ensinou a pesca do cerco e a criação de mariscos, de mexilhões, em boias.

     Já na ilha, subimos um morro para alcançar o agrupamento de casas.  Avistei uma árvore carregada de frutos pretos, tipo jabuticabas. Perto dela um altar, velas acesas e uma árvore em miniatura, da mesma, também repleta de frutos. Talvez fosse a ameixeira do mato, da mesma que eu tenho no terreiro, cuja procedência era a Mata do Zarur, no Ipiranguinha. Quis pegar uma fruta, mas fui alertado que não devia porque era parte de um ritual em agradecimento pela cura de uma mulher dali da comunidade. O anfitrião me explicou: “Ela estava toda arranhada, teve uma crise nervosa”. Imaginei o sofrimento dela e da comunidade. O altar e a devoção de toda gente pelo infortúnio me revelaram isso. Depois de muitas prosas e bons momentos, me despedi.  


   Este relato é apenas para dizer que a comunidade nos sustém em todos os momentos, mas sobretudo quando mais precisamos. Acordo sobressaltado porque, nesses lugares que há séculos é garantido o viver caiçara, as comunidades de roceiros-pescadores, agora há um crescente interesse imobiliário, querem privatizar as chamadas Áreas da Marinha. Parlamentares reacionários em todas as instâncias, eleitas pelos votos dos pobres,  recebem propinas para aprovarem esta e outras maldades contra esse meu povo. Como proporcionar reflexões importantes a  essa massa, a esse povo trabalhador que faz o Brasil ser o que é? O que resultará dessas medidas bancadas às custas dos contribuintes? Quem lucrará com isso?

domingo, 22 de dezembro de 2024

ANDANTE

 

Parede antiga - Arquivo JRS 

    Muita gente tá perambulando pelo mundo! Em tempos de festas, quando um mar de felicidade aparece estampada em propagandas, me recordo que, desde criança, eu me detenho ao avistar andantes, andarilhos que percorrem as estradas e pedem água e comida para seguirem suas jornadas, Sempre imaginei seus dilemas pessoais e suas decisões de saírem mundo afora para superarem suas desilusões, suas angústias, seus medos etc. Que desafio! Um desses andantes a cada ano passava pela nossa praia. Não era de falar quase nada. Seu cumprimento era apenas uma reverência de cabeça como fazem alguns povos orientais. Até hoje me pergunto acerca do tanto de informações, de experiências (boas e ruins) que tais pessoas carregam.

 

Barbudo, com saco às costas,

Vencia distâncias mundo afora.

Eu o via anualmente,

Tinha uma sina,

Vagava pelas ondas das rotas.

Um dia me surpreendeu:

Traduziu as falas de um casal turista,

De um inglês que eu nada entendia.

Pediu um copo d’água;

Caprichei num sanduiche.

Dali se foi pela estrada.

Nunca mais avistei

O barbudo, com saco às costas.

 

sábado, 21 de dezembro de 2024

A PRAIA

 

Praia da Santa Rita - Arquivo Clóvis 

Palma de Santa Rita- Arquivo JRS 

   Santa Rita foi a praia de grande parte da minha infância. Nela nadei, mergulhei, pesquei, andei, corri... Dela escutei tantas histórias... Algumas pessoas, caiçaras que nela viveram, tive o prazer de conhecer. Nesta semana, olhando as palmas de Santa Rita exuberantes no nosso terreiro, resolvi escrever dessa praia, umas das mais bonitas de Ubatuba.

    Outrora ali, olhando para o mar, entre as humildes moradias no meu povo caiçara, ficava a capela de Santa Rita. De acordo com a dona Chica, nascida ali, esposa do Argemiro, o simples lugar de reza era circundado dessa palma e outras flores. Ou seja, o jundu arenoso era bonito demais. “Nossa capela era pequena, tinha uma imagem da Santa Rita. O tempo todo tinha alguém indo lá para rezar. De todo lugar vinha gente a pé ou de canoa. No dia da festa, 24 de maio, a nossa praia ficava tomada de canto a canto pelas canoas de outros lugares. Era uma beleza, o padre dizia a missa e depois era só festança. Era uma semana toda. Até bate-pé a mãe do Gusto promovia em sua casa, na sala assoalhada. Ainda hoje não consigo entender como cabia tanta gente. Foi numa dessas festas que o Argemiro falou com o papai para namorar comigo. Assim estamos casados até hoje”. Este depoimento é do ano de 1977, colhido no Perequê-mirim. Do irmão da dona Chica, o Seo Antônio Julião, escutei a justificativa de terem se mudado, juntamente com outras famílias, da tão querida praia: “Tivemos de sair porque o Bráulio Santos, o Maciel e o padre da época entraram num acordo para vender a nossa praia para um tal de Pirani, um milionário de São Paulo. A nossa santa tão querida foi levada para a Enseada, lá fizeram outra capela, perto do armazém do Maciel, mais tarde mudaram mais para cima, tiraram ela do jundu, construíram outra perto das casas do Emboaba e do Giró. Todo mundo ficou triste, mas fazer o quê?”. Do Gusto, que findou o seu tempo de vida como pedinte, pude escutar: “A mamãe não teve nenhuma escolha: eles fizeram uma casinha perto do tio João Graça e nos trouxeram para cá. É onde vivo até hoje com a Antônia, minha esposa que nasceu em Minas Gerais e foi trazida para trabalhar aqui”

   Ah, Santa Rita! Agora tudo ali é condomínio vigiado dia e noite, ocupado por quem tem muito dinheiro e nunca vai imaginar a vida humilde de caiçaras que viveram ali até meados do século XX. É gente que nunca precisará ter devoção à Santa Rita e jamais cuidarão de lindas palmas num jundu que nem existe mais. Certamente que nem muitos caiçaras, descendentes dos antigos habitantes dali, saberão que ali, na costeira da Pedra do Sino, Zé Bráz pregou a peça do fim do mundo em muitos crentes do nosso lugar. Ficou para a história esse traço arteiro dos caiçaras. Ah, Santa Rita de outros ares desse chão tão especial!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

UM PASSINHO NA PRAÇA

Ponto de ônibus em Taubaté- Arquivo JRS 


    Há poucos dias, no centro da cidade que já se enfeitava para o Natal, eu pedalava de um ponto a outro resolvendo umas papeladas para a aposentadoria, depois de mais de quarenta anos contribuindo, sendo descontado no meu salário. (No final, muita gente já sentiu na própria carne, pois as coisas emperram sempre contra o trabalhador). Notei que várias ruas estavam em reforma, recebendo melhorias na pavimentação. Atravessei a praça bem arborizada e procurei um banco para descansar um pouco. Parece que quem administra a cidade não quer cumprir o principal de uma praça: ter bancos para os transeuntes. Enfim, me acomodei ao lado de um andarilho. Foi dele que escutei esta história:

    “Sabe, senhor, eu nasci aqui mesmo, numa rua ali de cima, quase na beira do rio, mas andei muito mundo afora, vivendo do meu artesanato ou fazendo uns bicos. Um pouco de tudo sei fazer, mas nunca roubei. Em muitos momentos foi a caridade das pessoas que me acudiram”. Eu me esqueci de tudo que ainda tinha pensado em fazer, inclusive tomar um café com a mana Ana Maria, para me inteirar mais na prosa daquele homem que deveria ter uns vinte anos a menos do que eu. “Anderson é o meu nome, devo continuar perambulando pelo mundo depois da temporada. Eu estava oferecendo meus produtos na avenida, mas a polícia me enxotou de lá, até uns tabefes me deram”. Fique triste, revoltado com tamanha covardia e maldade contra pobres. Com ricos essa gente não age assim. "Bem aventurados os pobres" já disse alguém, né?

   Muito marcante foi quando Anderson, viajante de tantos lugares, entrou num detalhe marcante da vida dele: “A minha família era muito religiosa, católica. Na adolescência, ali naquela esquina, numa procissão da semana santa, numa espécie de altar que mamãe chamava de ‘passinho’, uma senhora negra, cujo nome era Lígia, usando um véu escuro, representava o papel de Verônica, a devota que enxugou o rosto ensanguentado e suado de Jesus. Ela cantava em latim, eu acho, depois beijava o Nosso Senhor. Acho que era a procissão do enterro, os passos da vida de Cristo que seguia depois até a igreja matriz, na outra praça logo ali. Todo mundo levava velas acesas; íamos em duas filas pelas ruas”. Agora vem o melhor da nossa prosa:

    "O senhor sabe quem me ofereceu uma marmita ontem? Só a reconheci porque quem a acompanhava disse o seu nome: ‘Não vamos demorar, Lígia. Ainda tem mais gente nos esperando’. “Que emocionante foi rever a dona Lígia, receber pelas suas mãos aquele alimento! Pessoas assim não são gente, são anjos!”.

   Confesso que fiquei emocionado. Pensei na Lígia, no padre Júlio Lancellotti e em tantas outras pessoas que continuam enxugando rostos suados e ensanguentados pelo sistema individualista/egoísta que embala a sociedade. Já era serão quando me despedi: “Tenha um bom Natal, Anderson. Estou muito agradecido pela prosa desta tarde. A gente se vê de novo, logo logo”.

 

 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

CAPIM SANTA LUZIA

 

Capim milagroso - Arquivo JRS 

   Santa Luzia, na religiosidade católica, é a protetora da visão, dos olhos. Ela era italiana, de Siracusa. Viveu no século IV e foi martirizada no começo do século seguinte, em 404. Minha vó Martinha contava que ela distribuiu sua herança com os pobres e se recusou a casar porque preferiu se consagrar a Deus. Naquele tempo de tantas barbáries era comum a perseguição aos cristãos. “Na frente do homem que estava maltrando, forçando para que aceitasse outros deuses, ela preferiu arrancar os olhos. Por isso é que rezamos a ela para proteger os nossos olhos, a nossa vista. Dia 13 de dezembro é a festa dela. Quando eu era criança, na praia do Pulso, a festa de Santa Luzia era na casa do tio Cesário”. Eu achava uma história triste, de terror. Com o passar do tempo é que fui entendendo mais coisas nesse assunto. 

    Vovó, caiçara de Ubatuba, mostra bem clara da linda miscigenação do povo brasileiro, entendia de plantas, sabia dos poderes das ervas. Numa ocasião, quando o mano Jairo estava com alguma doença atrapalhando a visão, vovó foi quem o socorreu recorrendo ao capim Santa Luzia. É fácil usar essa gramínea que é farta não só nas terras arenosas do litoral. Basta retirar a sua fina haste e ir espremendo até aparecer uma gota líquida transparente na ponta. No fim, pinga essa gota nos olhos, tal como o colírio que se compra nas farmácias. É tiro e queda; tá aí o meu irmão para testemunhar o milagre de Santa Luzia!

      Dias desses, ao visitar o meu irmão e familiares, ganhei uma muda de goiabeira. Junto veio um capim Santa Luzia. Com certeza será bem cuidado para se alastrar em outras terras. 

  Viva a sabedoria popular!        Viva a religiosidade do nosso povo!

Um detalhe: enquanto ia vasculhando os espaços em busca do tal capim, vovó seguia repetindo este refrão:  “Santa Luzia passou por aqui com seu cavalinho comendo capim”. 

Vô Estevan e vó Martinha - Arquivo JRS 

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

DIA DE ALEGRIA

Rosa da Maria - Arquivo JRS



Gal e as cachorras - JRS


Menina na roça;

Moça estudante;

Mulher professora;

Companheira lutadora.

Eis a minha Gláucia 

Que hoje aniversaria

E bravamente segue cada dia.


A parceira agora repousa,

Repõem as forças

Para um novo amanhecer.

Nossa Maria e nosso Estevan

Seguem em suas lidas,

Reconhecem a mãe-guia.

Hoje a nossa Gal aniversaria. 


Viva a nossa alegria!

Viva a nossa família!

Viva este grande dia!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

COINCIDÊNCIAS

 

Eu e Celina - Imagem Maria Eugênia 

Camiseta - Arquivo JRS 


     Alguns dias depois de eu ter escrito sobre a filha corada do Curruíra Velho, me deparei com uma mulher que me reconheceu de outros tempos. Na verdade, ela conheceu bem o meu pai. Então...me achou muito parecido com ele. “Você é filho do Gildo Carpinteiro?”. Em seguida se apresentou, me refrescou a  memória: “Eu sou a Carla, filha caçula do Mauro Simões, do Perequê-mirim. Ele já é falecido. Minha mãe é Francisca, filha do Chiquinho Curruíra, da praia da Enseada. Eu sou neta dele. Há quinze anos me mudei para a cidade de Cruzeiro, no Vale do Paraíba. Minha  mãe mora comigo”. Depois disso a prosa correu solta. Eu me recordei dela: era uma criança linda, morena, de cabelos louros e cacheados. Tinha outras duas irmãs e um irmão. “Vou ficar em Ubatuba apenas alguns dias, vim visitar uma comadre que mora na Cachoeira dos Macacos. Já não sinto alegria nesta cidade porque tá tudo muito diferente, as praias e rios estão sujos, as pessoas são estranhas, quase não encontro gente conhecida, os prédios estão tomando os espaços...”.

    Depois desse reencontro, passando de carro pela serra de Ubatuba, vindo de Taubaté, me recordei de um acontecimento triste ocorrido na minha adolescência: o pai da minha amiga Celina Okase foi assassinado quase na divisa do município. O Seo Keite Okase era taxista. Provavelmente o contrataram para uma “corrida” e o mataram na beira da estrada, em plena Mata Atlântica.   Era meados da década de 1970, estudávamos na 6ª série, no Ginásio Capitão Deolindo. Triste, né? Então...estando dias desses olhando o mar com a minha filha, bem ali na praia do Cruzeiro, quem apareceu? A Celina! A estimada Celina Okase!

   Há anos a Celina se encantou com o primo Tiãozinho Mesquita. Agora são comerciantes no Perequê-açu. Foi ótimo reencontrar a Celina, saber notícias de pessoas queridas, ter uma boa prosa  e poder apresentá-la à Maria Eugênia. É isto: boas coincidências renovam nossas energias!